When two are actually one
1 Delight
Notas iniciais
O vento batia de leve contra a janela, o suficiente para que um barulho persistente ressoasse em meus ouvidos. As cores claras que coloriam o céu prometiam um dia ensolarado. Olhando brevemente para o relógio, confirmei que logo acabaria mais um dos breves e insuficientes intervalos que tínhamos durante o dia.
— Mikoshiba. – A voz era familiar, mas eu tinha minha atenção focada em outro lugar no momento.
Meus dedos se ocupavam com o teclado digital de meu celular, os olhos fixos na mensagem que tinha sido a primeira daquela manhã.
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[Mayumayu] Dia.
[Mamiko ♡] Bom dia! Perdeu a hora?
[Mayumayu] S.
[Mamiko ♡] Isso tem acontecido bastante hum... Culpa minha por ficar te segurando à noite. (;*△*;)
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Uma resposta não veio de imediato, então, aproveitei para focar-me na outra pessoa que solicitava minha atenção, e que agora me puxava o braço de maneira impaciente. A garota que me chamava possuía cabelos escuros e curtos. Ela tinha a cabeça deitada na mesa, e no seu olhar havia nada além de tédio.
— Sim?
Ela abria os lábios para dizer seja lá o que fosse que estava em sua mente quando o professor entrou na sala.
Sem dizer mais sequer uma palavra, virei-me para frente, tendo agora a lousa como meu foco de atenção. Pouco demoraria até que a aula começasse. Ainda assim, eu podia ouvir claramente Kashima suspirando atrás de mim. Eu havia acabado de pousar o caderno e o estojo em minha mesa quando senti meu celular tremer em meu bolso. Sem perder nenhum segundo, apanhei-o e olhei a mensagem que eu havia recebido, sorrindo um pouco inconscientemente.
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[Mayumayu] N, eu gosto das nossas conversas.
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Corri meus dedos pelo teclado, meu sorriso alargando-se mais e mais.
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[Mamiko ♡] Se você diz~ Mas não me culpe depois! (★^O^★)
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Apertei “enviar” e coloquei o aparelho no seu devido lugar: na minha mesa, escondido embaixo do estojo.
As palavras que o professor dizia e repetia entravam-me por um ouvido e saiam pelo outro. Tudo em que eu conseguia pensar era na possibilidade da luz piscar a qualquer momento, avisando da chegada de uma nova mensagem. A ansiedade me matava. Meu coração batia mais acelerado do que eu gostaria. Atrás de mim, de tempos em tempos, eu ouvia um suspiro cheio de reprovação.
Quando a aula acabou, encerrando aquele dia, pus-me a guardar meus materiais. Não houveram mais mensagens de Mayumayu, por mais que eu esperasse; devia estar ocupada, convenci-me. Eu fechava o zíper de minha mochila quando Kashima parou ao meu lado e me olhou de cima.
— Você ficou a aula toda no celular.
Pisquei algumas vezes, não sabendo exatamente o que fazer com aquela afirmação. Ela queria uma resposta?
— Na verdade não.
— Não parava! Acha que não vi?
Eu não sabia exatamente o que ela queria que eu dissesse, sinceramente.
— E nem me deu atenção!
Ah. Então era isso.
— Desculpe?
— Sem desculpas! Você está me ignorando desde manhã! Na verdade, faz um tempo desde que tivemos uma conversa decente!
— Está dizendo que isso é culpa do celular?
— É culpa do celular! Não sou apenas eu que acho que você anda exagerando!
— Acho que você está pensando demais.
E dito isso me retirei, jogando a mochila sobre meus ombros e deixando minha amiga para trás, indignada. De certa forma, eu também estava indignado; indignado com a ideia de que ela realmente estava incomodada com as mensagens.
Qual era o problema? Eu tinha outros amigos, e nem todos eram da mesma escola. Como esperavam que eu mantivesse contato? Telepatia?
E Mayumayu, bem...
Apoiei uma de minhas mãos na parede do corredor, usando a outra para esconder meu rosto corado. Recentemente, isso vinha acontecendo com cada vez mais frequência: só de pensar nela eu sentia meu coração acelerar subitamente. Um calor me tomava o corpo e eu tinha que esperar alguns instantes até conseguir controlar as emoções que deveriam ser minhas.
Mas eu sequer a conheço...
Suspirei fundo, sentindo o embaraço deixar lentamente meu corpo. Foi junto neste momento que mais uma voz conhecida ecoou no corredor.
— Mikorin!
Virei em direção à garota que vinha em minha direção com um sorriso no rosto, duas grandes fitas decorando os fios ruivos de seu cabelo.
— Está indo pra casa do Nozaki?
Andamos lado a lado, nos direcionando à saída do prédio. Era tão bom ser finalmente livre.
— Hoje não. Ele disse que eu não precisava ir. Acho que vão ser só vocês dois hoje.
A ruiva enrubeceu, mas não escondeu o rosto. Às vezes eu me perguntava se ela sabia o quão vermelho o rosto dela ficava. Porém, não seria eu que falaria qualquer coisa. Até porque não havia alma naquela escola que não soubesse dos sentimentos dela, exceto o próprio Nozaki. E, sinceramente, já estava mais do que na hora dele se dar conta. Gostasse dela ou não, ele a devia uma resposta.
— Ah, mas... Eu acho que o Wakamatsu ia hoje. Então...
— Oh! Bem, boa sorte para vocês.
— Obrigada. – Ela sorriu, educadamente.
Paramos junto ao portão e, com um aceno, despedi-me da ruiva que seguiu no sentido contrário, correndo atrás de Nozaki, que ia um pouco adiante. Segui meu caminho, esquecendo dos colegas que até então me faziam companhia. O céu continuava firme, o que indicava que o tempo seria bom – bom para passar o dia todo jogando videogame. Eu já chegava no fim do quarteirão quando percebi que uma figura conhecida vinha em minha direção.
— Mayu! – Acenei, só assim recebendo a atenção do garoto que vinha distraído.
— Mikoto-san.
Ele olhou de mim para o portão da escola, e então de volta para mim. Pisquei algumas vezes, não entendendo de imediato o que ele queria dizer. Apesar de já o conhecer há quase seis meses, e de nos vermos com certa frequência, continuava difícil saber o que ele queria dizer ás vezes.
— O Nozaki já foi para casa. Se é isso que quer saber.
Ele olhou para o chão, confirmando minhas suspeitas.
— Está chegando o dia de entregar o manuscrito. As coisas andam meio corridas. Vai estar um campo de guerra lá, hoje. – Complemetei.
Ele acenou com a cabeça, positivamente, dizendo que havia compreendido o recado.
— Eu estou meio à toa... Não quer ir lá em casa? Nós podemos dar um pulo na casa do Nozaki mais tarde. Talvez levar algo para eles comerem, não sei.
— Obrigado.
Um arrepio correu por meu corpo, como uma corrente elétrica. A voz de Mayu estava mais grave do que eu me lembrava. Era estranho ter reações como essa. Muito estranho. Um tanto embaraçoso, também. Ele estava crescendo, e rápido. Muito, muito rápido. E não é como se já não fosse alto o suficiente. Não é como se já não tivesse um físico de dar inveja... Quero dizer, não que eu tivesse inveja. Porque não tenho, sério. Não tenho mesmo.
Mas uma coisa era indiscutível: ele estava se tornando um perfeito protagonista de mangá shoujo. Bem, exceto pela sua porção preguiçosa. Ele levava o lema "uma vida sem esforços" ao total extremo. Ainda assim, eu não duvidava que Nozaki o usasse de inspiração para algum personagem; o que eu esperava nunca ser o caso, pois eu não desejava aos outros o que não desejava para mim. Seria totalmente embaraçoso, afinal de contas.
— Então, vamos? – Perguntei, por fim.
Mayu novamente respondeu com um aceno da cabeça, e seguiu atrás de mim. O caminho não era estranho e sequer era a primeira vez que fazíamos aquele trajeto juntos, mas algo parecia diferente. Eu não sabia se era por minha ou por sua causa, mas provavelmente era culpa das palavras de Kashima, que voltavam a ressoar em minha cabeça.
Apesar de ciente de não ser a melhor ideia, apanhei meu celular no meu bolso e olhei discretamente para a tela. Eu havia recebido uma nova mensagem de Mayumayu, há uns quinze minutos atrás. Finquei meus pés no chão, surpreendendo Mayu com minha parada brusca. Mas eu não gostava de deixá-la esperando, então...
— Ah, espera, Mayu. Deixa eu responder isto aqui.
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[Mayumayu] Só te culparia se parasse de falar cmg
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Sinto que, por alguns instantes, esqueci como se respirava. Meus olhos liam e reliam a única frase disposta na mensagem, de novo e de novo, inúmeras vezes. Apesar de saber que minha face estava provavelmente tão vermelha quanto os fios que me cobriam a cabeça, eu não tinha a disposição de escondê-la. Eu só conseguia me importar com uma coisa naquele momento, e isso era se meu coração aguentaria o tranco.
— Você está bem, Mikoto-san?
Cobri minha boca com uma de minhas mãos, mas isso não impediu que as palavras me fugissem pelos lábios entreabertos.
— Acho que estou apaixonado.
Mayu piscou algumas vezes, mas se manteve em silêncio. Talvez não soubesse o que dizer. Bem, eu pelo menos não sabia, ou mesmo o que fazer a seguir. O celular parecia dez vezes mais pesado nas minhas mãos, que o agarravam com mais força do que necessário.
Depois de algum tempo parados, num silêncio desconfortável, Mayu voltou a se pronunciar.
— Responda.
E eu vi que aquilo era realmente o melhor a se fazer. Por isso, livrei meu celular do forte aperto que sofria até então e encarei a tela iluminada por alguns segundos. Mayu tinha razão. Mesmo que eu goste dela, eu não podia deixar de respondê-la por medo do que se seguiria. Na verdade, essa era a pior coisa a se fazer.
Olhei uma última vez em direção a Mayu, mas ele nada mais tinha a dizer. Tornei a olhar para o celular, respirei fundo e comecei a digitar.
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[Mamiko ♡] Eu nunca deixaria de falar com você ♡♡♡
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Respirei fundo, apertando novamente meu celular entre meus dedos. Eu me sentia aliviado, de certa forma. Acho que a melhor parte era a certeza de que Mayu não me perguntaria nada, por ser “trabalho demais”, ou coisa do tipo.
Olhei em direção a Mayu, já mais calmo.
— Obrigado. – Um sorriso pairava em meus lábios. – Vamos?
Ele apenas anuiu a cabeça e seguimos nosso caminho. Acima de nossas cabeças, o Sol brilhava cada vez mais forte. As nuvens passeavam tranquilas. O dia estava perfeito.
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...
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Quando chegamos à minha casa já era pouco mais de uma hora da tarde. Deixei Mayu acomodado em meu quarto e me direcionei à cozinha. Como sempre, nenhum dos meus pais estavam em casa – eles só voltariam lá pela hora do jantar – e, assim, os únicos presentes naquele momento eram, além de mim, Mayu, Kaori e minha coleção de figures.
Quando voltei da cozinha, um prato de macarrão em cada mão, encontrei Kaori agarrado à blusa de Mayu, que não o dava a tão solicitada atenção, por estar ocupado demais no momento olhando atentamente uma de minhas figures.
— Kaori, deixe ele – agarrei o felino e o coloquei no chão.
Kaori pulou em minha cama e se ajeitou até sentir que meu travesseiro estava ao seu agrado. Observei a cena, sorrindo. Coloquei os pratos na mesa e Mayu se aproximou, deixando a figure de lado. Como sempre, eu me perguntava o motivo de toda essa atenção para com as minhas figures, pois eu sabia que ele não era como eu, ele não curtia essas coisas. Mas apesar de saber que eu ganharia uma resposta se perguntasse, eu me mantinha em silêncio, sabendo que às vezes era melhor nem saber; vai ver ele quer ser um mangaká como o irmão; e, se for esse o caso, eu realmente não vou querer me ver envolvido.
Foi quando ele já estava sentado à minha frente que ele apanhou o celular do bolso. Provavelmente ia avisar o irmão que estava comigo e que passaria lá mais tarde. Porém, ele apenas olhou para o celular, piscando algumas vezes antes de pousar seu olhar em mim.
— Carregador? – Perguntou.
— Ah, eu tenho um ali naquela gaveta – eu disse, apontando em direção à cômoda que ficava ao lado de minha cama.
Ele se levantou e abriu a primeira gaveta, apanhando de lá o carregador. Mayu conectou seu celular numa tomada, a tela brilhando imediatamente. Enquanto ele se ocupava com o aparelho, aproveitei para apanhar o meu próprio, em meu bolso. Entretanto, para minha decepção, ainda não havia qualquer resposta de Mayumayu.
Deve estar ocupada. Almoçando, talvez.
Tentei não pensar muito no assunto. Jogando meu celular na cama a fim de esquecê-lo, olhei em direção a Mayu, que, diferente de mim, aparentemente tinha algumas mensagens não lidas. Ele digitou um pouco e, por um momento, pensei ter visto um sorriso em seus lábios; inclusive, ele me parecia um tanto embaraçado. Talvez fosse uma garota, uma colega de classe. Se bem que se tratando de Mayu, poderia muito bem ser uma mulher mais velha, uma universitária, por exemplo.
Mas, apesar de toda a minha curiosidade, mantive minha boca fechada. O motivo? Eu sentia que teria que falar sobre Mayumayu e não sei se estava pronto.
Mayu largou seu celular junto do meu, parando por um momento como se pensasse em algo, e voltou a se sentar à mesa. Kaori se levantou e pulou para o chão, nos rondando até buscar conforto em meu colo. Acariciei o felino, que miou em aprovação.
— Kaori é um nome estranho para um gato – Mayu disse antes de levar uma garfada de macarrão à boca. – Macho, ainda.
Dei de ombros, sabendo que isso era de certa forma verdade. Mas eu fui uma criança teimosa. E se eu queria um gato chamado Kaori, assim seria.
Comemos em silêncio. Os sons dos talheres nossa única companhia.
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...
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— Deixa só eu me trocar e já vamos – falei para o moreno, que me aguardava ansioso na porta do quarto. Ele anuiu a cabeça e se retirou, me dando um pouco de privacidade. Kaori seguiu atrás dele, sua cauda levantada.
Vasculhei os armários em busca de uma muda de roupa. Vesti um jeans qualquer e coloquei uma camiseta branca simples; estava quente e eu não estava a fim de passar calor. Rodei os olhos pelo quarto, tentando ver se eu esquecia de algo e percebendo que sim, eu estava esquecendo de algo, de algo muito importante: os celulares. Seria um problema se Mayu esquecesse o dele em minha casa...
Caminhei até minha cama, sentindo meu coração saltar assim que viu uma luz piscando em meu celular. Uma nova mensagem. Engoli em cego, pegando meu celular, mas quase o deixando cair durante o processo por causa de minha mãos, que não paravam de tremer.
Calma você nem sabe se é ela...
Apertei alguns botões, um sorriso largo tomando-me os lábios.
É ela!
Era estranho estar tão feliz. Amar era estranho.
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[Mayumayu] Feliz de saber isso (^▽^)
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Ela mandou um emoticon! Ela nunca manda emoticons!
Eu tinha uma enorme vontade de gritar. De gritar e dizer que aquela era a melhor sensação do mundo. Queria dizer a ela como me sentia. Dizer que a amava e que queria estar junto dela sempre. Por outro lado, eu sabia que isso envolvia confessar que eu havia mentido esse tempo todo. Eu teria que dizer que não somente eu não me chamava Mamiko, mas que eu também sequer era uma garota. Havia inclusive o risco dela achar que a estive enganando justamente para se aproveitar de si, e esse era o meu maior medo.
O que faço agora?
Tinha medo de contar a verdade e ela se afastar. Mas se as coisas continuassem assim, a mentira iriai virar uma enorme bola de neve e iria ser ainda pior no futuro.
Eu já entrava em parafuso quando as palavras de Mayu me vieram à mente. Aquele desespero em nada ajudava. Primeiro, eu tinha que respondê-la. Depois, seria bom conversar com Sakura, pois talvez ela soubesse o que fazer; eu esperava que soubesse, pois eu não sabia, nem mesmo com toda a minha experiência. Nunca eu havia jogado uma rota como aquela, e eu não queria errar na minha primeira tentativa, pois sabia que talvez fosse minha única chance.
Suspirei fundo e comecei a digitar.
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[Mamiko ♡] Adoro as nossas conversas~ Espero que elas continuem pra sempre!ヽ(*≧ω≦)ノ
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Guardei o celular em meu bolso e direcionei-me à porta. Eu já saia do quarto quando parei bruscamente.
— O celular! – Rodei nos calcanhares, dando meia volta e indo em direção à cama. – Já deve ter carregado um pouco... – Pensei comigo mesmo, enquanto desconectava o aparelho de Mayu do carregador. – Ah, ele recebeu uma mensagem. Bem, melhor levar logo pra ele.
— Mikoto-san? – A voz grave do garoto ecoou pelas paredes da casa.
— Já estou indo! – Gritei, em resposta.
Apressei-me até à sala, onde ele me aguardava. Entreguei a ele o celular, que pareceu satisfeito em recuperar, e saímos. O céu continuava limpo.
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...
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Apertei a campainha e esperei. Mayu, ao meu lado, permanecia em silêncio. Ele mexia no celular, seu corpo encostado à parede. A porta se abriu, revelando uma Sakura bastante cansada. Sem dizer nenhuma palavra de boas vindas, ela nos deu as costas e voltou para a sala, onde trabalhavam. Mayu a seguiu de perto e eu os segui logo depois de trancar a porta.
Quando os alcancei, Sakura voltava a se sentar no seu lugar na mesa baixa onde Nozaki e Wakamatsu desenhavam. Mayu buscava algo num armário, provavelmente um carregador. Fiquei em silêncio, apenas os observando. O silêncio foi interrompido quando Nozaki se deu conta de minha presença.
— Ah, Mikoshiba.
Aproximei-me alguns passos.
— Precisam de alguma ajuda?
— Não tem muito ainda para você fazer, mas se quiser dar uma olhada... – Na sua voz facilmente se percebia o seu cansaço. Provavelmente não dormira muito nos últimos dias.
Sentei no lugar vago da pequena mesa, entre Sakura e Nozaki. Olhando em volta, dava para ver que as coisas não estavam indo muito bem. Pela quantidade de rascunhos amassados espalhados pelo chão, o problema era no próprio desenvolvimento da história.
— Problemas para continuar? – Perguntei, com um quê de preocupação.
Puxei algumas folhas que estavam dispersas pela mesa, olhando o conteúdo. Aparentemente Mamiko havia se perdido durante uma viagem que fizera com os amigos durante as férias. Nas últimas folhas, Suzuki a encontrava já com lágrimas nos olhos, sentada em um banco numa praça. "Eu vou te encontrar quantas vezes forem preciso", ele diz. E então, na última folha, eles se abraçam e ele a beija.
Pisquei algumas vezes, não vendo problema algum. Encarei Nozaki, que parecia estressado com alguma coisa. Ele rascunhava sem parar numa folha e as coisas não pareciam estar indo bem.
— Nozaki?
Ele subiu os olhos por um momento da folha onde rascunhava. Ele realmente estava bastante estressado.
— Qual o problema do manuscrito?
Ele piscou algumas vezes, como se não entendesse a pergunta.
— Nenhum – respondeu, por fim. – Viu algum erro?
— Ah, não. É que, quando cheguei, me pareceu que era esse o problema. – Gesticulei o quarto coberto por bolinhas de papel amassadas.
— Ah, não... É que Ken-san disse que eu deveria pensar em um capítulo extra e... – Ele faz uma breve pausa, franzindo as sobrancelhas. – Bem, ele disse que seria bom se fosse sobre aquele casal.
— Aquele? – Eu tinha uma das sobrancelhas erguidas.
— Sim, aquele... – O humor de Nozaki parecia só ter piorado.
— E qual o problema?
— Eles não deveriam ficar juntos! Nunca! Ela nunca deveria descobrir a verdade por trás do misterioso garoto do celular!
— Então... Hum... Você disse isso pro seu editor, pro Ken-san?
— Sim, – Nozaki anuiu a cabeça – mas ele disse que eles estavam fazendo bastante sucesso, mais do que Suzuki e Mamiko ultimamente, e que seria um erro não ouvir os fãs.
— Não sei porque tanta repulsa por eles. Eles ficam bem juntos. Gosto deles, também. – Falei com sinceridade. Nozaki olhou-me de um jeito que parecia que eu tinha cometido alguma grande heresia.
— Eles não se conhecem! Ele é só um cara num celular e eles querem que ela se apaixone por ele?! Não sei como poderia ser possível!
Aquelas palavras doeram mais do que deveriam. Mayu, que havia se acomodado no sofá, observava a cena com atenção. Wakamatsu e Sakura também haviam parado para ouvir as palavras do colega.
— Concordo com Nozaki. Me parece besteira. – Wakamatsu disse, em apoio a Nozaki, mas tudo que conseguiu foi um olhar de desprezo do mangaká em troca. Confuso e um tanto chateado, ele abaixou a cabeça e voltou a se focar na folha que tinha em sua frente.
— Eu já disse o que eu acho – Sakura disse, num tom impaciente, e voltou a trabalhar.
— E o que exatamente você acha? – Perguntei, sentindo-me de repente bastante nervoso.
Ela olhou em minha direção e a frieza nos seus olhos me causou um arrepio. Ela largou a caneta na mesa e cruzou os braços.
— Não vejo problema nela se apaixonar por ele, ou ele por ela. Eles são um casal que se aproximou muito rapidamente e que, de certa forma, possui um forte vínculo de confiança. E, se quer saber, eles são perfeitos um pro outro.
— Eles nunca dariam certo!
As palavras ríspidas de Nozaki apenas irritaram Sakura ainda mais. A ruiva bate a mão na mesa, surpreendendo Wakamatsu que àquela altura já havia deixado o mundo real num plano separado para se focar em seu trabalho.
— Eu vou comprar alguma coisa para a gente comer!
Ela se levantou e saiu da sala antes que eu pudesse entender exatamente o que acontecia. Nozaki não disse mais nada e apenas voltou a trabalhar. Olhei a minha volta, mas ninguém parecia saber o que fazer. Mayu, inclusive, parecia um tanto chocado com a briga dos dois. Bem, é verdade que ninguém esperava uma coisa daquelas.
Vendo que ninguém se mexeria, levantei e corri atrás de Sakura, mas ela já havia batido a porta antes que eu a alcançasse. Abri a porta e segui atrás dela, agarrando-a pelo pulso alguns metros distante da casa.
— Sakura! – Chamei-a, preocupado.
Quando ela se virou, tinha lágrimas nos olhos e uma expressão triste. Agora é que eu não sabia o que fazer. Mas ela não deu tempo para que eu entrasse em pânico.
— Nozaki-kun é um grande idiota! O maior dos idiotas! – Ela disse entre soluços, atirando-se no meu peito.
Surpreso, fiquei sem saber o que fazer. Não sabia se a abraçava, se dava tapas amigáveis em suas costas... O que diabos se faz numa situação dessas?!
Percebendo que estávamos chamando mais atenção do que eu gostaria, afastei-a de mim e a segurei pela mão, conduzindo-a para uma pequena e escondida praça que eu havia descoberto há algumas semanas. Era um bom lugar para conversarmos porque nunca havia ninguém lá.
Coloquei-a sentada em um dos bancos. Ela ainda estava bastante agitada e precisava se acalmar um pouco mais antes de em me envolver no assunto; eu tinha medo dela se sentir pressionada pelas minhas perguntas e isso acabar piorando ainda mais a situação.
— Acho que vou comprar algumas coisas para levarmos pra casa do Nozaki na volta, e uma garrafa d’água pra você. – Falei depois de um tempo, enquanto bagunçava os fios ruivos de minha cabeça. Olhei para ela, mas não diretamente. – Você vai ficar bem?
— Sim, pode ir. – Ela esfregou os olhos inchados.
— Tem certeza?
— Vai logo, Mikorin!
Tomando a sua explosão como um sinal de que ela própria apreciaria um tempo a sós, adiantei-me em direção à loja de conveniência localizada na rua paralela à que estávamos. Com os passos apressados, pouco demorou até que eu já tivesse as mercadorias em mãos, esperando minha vez na fila do caixa.
— Só isso – eu disse, assim que chegou minha vez. – Uma sacola, por favor.
Apressando o caixa mais do que eu sabia ser apropriado, peguei o dinheiro da carteira que eu carregava no bolso, junto do celular, e entreguei a ele. Foi eu receber o troco que disparei de volta à praça, encontrando Sakura exatamente onde eu a havia deixado. Ela parecia ter se acalmado um pouco, o que me tranquilizava.
— Desculpe. Demorei?
Ela balançou a cabeça negativamente. Sentei ao lado da ruiva que me parecia triste, o que não era do seu feitio. Ela era sempre tão alegre… Com certeza a briga era muito mais do que aparentava, pois eu sabia que Sakura não era do tipo de perder o controle e depois se sentir deprimida por bobagens, ainda mais quando a outra parte era seu amado Nozaki. Enquanto em pensava em como melhor abordar o assunto, ela própria o iniciou.
— Desculpe por aquilo – ela murmurou, a cabeça baixa. – Não foi uma cena muito bonita de se ver…
Balancei a cabeça, desejando assegurá-la de que estava tudo bem.
— Estou mais preocupado com você agora. Por que não me diz exatamente o que aconteceu? Tenho certeza que a briga é muito mais do que parece, até porque você nunca foi de se intrometer no trabalho do Nozaki.
Ela levantou o rosto e me encarou com um par de grandes olhos brilhantes; eram como dois cristais do mais vivo púrpura. Ela remexeu os lábios, talvez incerta sobre como exatamente responder á minha pergunta. Por fim, ela decidiu cuspir as palavras como estavam em sua cabeça, tudo de uma vez.
— É o Waka e a Yuzuki! – As palavras saíram num só fôlego. – Ele não apóia eles, mesmo sendo tão óbvio!
Pisquei algumas vezes, confuso. Eu ainda não via grandes motivos para tanta raiva.
— Como?
Ela pareceu perceber que eu não estava entendo onde ela queria chegar, por isso, continuou, suas palavras ainda saindo aos tropeços.
— Não é óbvio, Mikorin?! Ele não acha que a Yuzuki mereça o Wakamatsu! Ele está desmerecendo a minha melhor amiga!
Oh.
— Ah, bem... – Pego desprevenido, me vi sem reação além de coçar a nuca; um velho hábito meu de quando eu me sentia em uma situação complicada. – Tem razão. Isso não foi muito legal. Mas o Wakamatsu não pareceu se importar... Será que você não está lendo demais entre as linhas?
— Claro que não, Mikoshiba! – Ótimo, eu a irritei.— E a questão não é o Wakamatsu, mas a Yuzuki! Ela a odeia, detesta completamente! A pessoa que eu amo odeia a minha melhor amiga!
— Ah, vamos.. Também não é assim…
As expressões no rosto dela se tornaram mais rígidas. Seu rosto estava vermelho de raiva e algumas lágrimas se acumulavam nos cantos de seus olhos.
— É claro que você vai ficar do lado dele!
Ela já se levantava quando a puxei pela blusa, fazendo-a cair sentada no banco. Ela me olhou, ainda mais irritada do que antes.
— Ah, desculpe! – Levantei as mãos, largando-a imediatamente. Aproveitei de seu silêncio para me pronunciar. – Escuta, Sakura, eu estou do seu lado. Até porque eu acho totalmente válida a ideia de se apaixonar por alguém que você não conheça. Acho que Wakamatsu pode se apaixonar seriamente pela Seo quando descobrir que ela é a Lorelei.
Ela se manteve em silêncio. Tomei aquilo como eu sinal para que eu continuasse.
— Acho que devemos esperar e ver o que vai acontecer. Você tem razão, o Nozaki não foi justo, mas acho que também não adianta implicar por uma coisa dessas. No fim, tudo está exclusivamente nas mãos dos envolvidos, e de mais ninguém. E se o Waka gosta tanto da voz da Lorelei quanto acho, será só questão de tempo para ele se apaixonar pela dona da voz.
Sakura abriu um leve sorriso, que me contaminou. Era bom vê-la de volta ao normal.
— Obrigada, Mikorin. Tem razão. E quem diria que os seus jogos tinham realmente uma utilidade!
— Err, na verdade… – Virei o rosto, não acreditando que seria daquela forma que eu abordaria o assunto. – Eu meio que conheci alguém… E, bem…
As feições da garota se iluminaram. Ela parecia sinceramente alegre. Ela me agarrou as mãos, segurando-as firmemente entre as suas.
— Sério?! Que legal, Mikorin! Quem? Eu conheço?
Olhei para o lado, um tanto embaraçado, mas nem um pouco arrependido. Eu sabia que estava certo em minha escolha. Sakura era a melhor pessoa para eu discutir o assunto e pedir conselhos.
— Bem, o nome dela é Mayumayu. Ela é mais nova e de outra escola e…
— Pera!
Ela me interrompe, largando de minhas mãos e levantando uma das suas em um pedido de tempo. Ela parecia um tanto chocada.
— Você não a conhece?
— Bem, faz uns meses que trocamos mensagens… Conheci ela nesse site e…
— Mikorin, você nunca a viu pessoalmente? Nem uma vez? – Ela tinha o tom de voz sério, e isso estava começando a me intimidar. Ser interrompido tanta vezes tampouco estava ajudando.
— Bem, não. Mas…
— Desculpe, não posso te apoiar. Você com certeza está sendo enganado. Não tenho dúvidas.
Se eu não tivesse ouvido com meus próprios ouvidos, eu nunca teria acreditado que Sakura tinha realmente dito tudo aquilo.
— Mas Mayumayu…
— Mikoshiba, escuta. Você não pode dizer que está apaixonado quando nem a conhece pessoalmente.
— Por que não? Mesmo que eu nunca a tenha encontrado, estamos sempre conversando! Ela é quieta e adorável! Ela é tudo o que eu sempre quis! Uma garota com quem consigo falar sendo eu mesmo!
Meus dentes rangiam. Eu olhava para o chão, incapaz de encará-la nos olhos.
— E todo aquele papo de vínculo, de confiança, que você falou na casa do Nozaki? Foi da boca pra fora?
Levantei, meus movimentos bruscos. Era a minha vez de me estar irritado. Eu me sentia traído. E pela Sakura! E toda a confiança que depositei nela?
— Espera, Mikorin! – Sakura se levantou, agarrando a sacola de compras que eu havia deixado para trás, e disparou atrás de mim. – Mikorin!
Ignorando as palavras da garota, continuei a correr, parando apenas quando colidi contra um obstáculo. O chão era duro e desconfortável. Quando olhei para cima, o que encontrei foi um par de olhos negros me fitando atentamente. Respirei fundo, sentindo uma parte da minha ira de dissipar, apesar de eu não entender bem o porque. Uma mão se estendeu e, inconscientemente, a agarrei. Quando me vi em pé, vi que era a mão de Mayu que eu segurava firmemente.
— Ah, obrigada. E desculpe. E… Você ouviu alguma coisa?
Mayu não dizia nada e isso estava me deixando mais aflito a cada segundo. Sakura apenas observava a cena, um tanto distante. Eu implorava para que alguém falasse algo, ou para que caísse um meteoro em cima da minha cabeça naquele exato instante.
Vendo que eu ainda segurava a mão do garoto, tentei me livrar do contato, me sentindo um tanto embaraçado por só ter me dado conta desse pequeno detalhe agora. Foi então que percebi que não era eu que segurava a sua mão, mas o contrário. Os seus dedos apertaram mais a minha, em sinal de resistência.
— Err… Mayu…
Ele me puxou, com força. Inicialmente, pensando que eu ia cair novamente no chão duro, fechei os olhos antecipando a queda. Entretanto, o que encontrei foi o aconchego oferecido por dois braços abertos, que me envolveram cuidadosamente. Quando percebi o que acontecia, me vi sem palavras, meu rosto ardendo mais do que nunca. Mas por mais que eu quisesse protestar, o choque havia levado minhas força embora. Eu estava a mercê daqueles braços.
— Mikoto…
A sua voz contra o meu ouvido causou-me um arrepio.
— O… O que está fazendo? – Eu perguntei, por fim.
— Você está chorando.
Pisquei algumas vezes e limpei os olhos marejados. Dizer que eu chorava era um exagero. Eram só algumas poucas lágrimas. Meus olhos nem ardiam.
— Não é nada. Entrou algo no meu olho, só isso.
Ele não disse nada por algum tempo e o silêncio em nada colaborava para com o meu nervosismo. Com a cabeça grudada em seu peito, eu podia claramente ouvir seu coração bater, num ritmo lento e constante. Seria agradável, não fosse a situação, com a Sakura olhando e tudo. Não que estaria tudo bem se estivéssemos a sós. O que quero dizer que não seria ruim se fosse, sabe… Mayumayu. Meu Deus, por que estou pensando nela agora? Mas eu não tive tempo de me embaraçar ou devanear por muito mais tempo, pois Mayu logo me soltou. Sakura, que assistia a tudo sem se envolver, enfim tomou coragem para se aproximar.
— Mikorin, tudo bem com você? – Sua voz estava carregada de preocupação.
— Eu estou bem…
— Você realmente a ama?
Olhei para Mayu, a boca entreaberta. Sakura também parecia estar surpresa. Ele realmente sabia ser bem direto. Ambos nos limitávamos a encará-lo, sem saber exatamente como reagir. Eu, apesar de não saber ao certo o que fazer de início, logo percebi que eu só tinha um caminho a seguir, o da honestidade. Como eu poderia fazer os demais acreditarem naquele meu amor tão complicado se eu continuasse a contar mentiras?
— Sim. – Eu disse, por fim. Minhas palavras eram firmes, determinadas. – Eu amo a Mayumayu. Estou totalmente apaixonado por ela, e não importa o que digam. Eu posso sim amá-la seriamente mesmo sem a ter encontrado pessoalmente uma única vez. É essa a extensão dos meus sentimentos.
Mayu deu um sorriso discreto. Ele parecia satisfeito com minha resposta. Sakura apenas suspirou, vendo que nenhuma de suas palavras seriam capazes de me provar o contrário. Eu me sentia mais leve. Um peso enorme havia me sido tirado das costas e isso era revigorante.
— Enfim… – Sakura encerrou com o silêncio que já durava mais do que necessário. – O que está fazendo aqui, Mayu?
— Meu irmão.
— Acho que ele quis dizer que o Nozaki falou para ele vir nos procurar – expliquei, mas sem muita certeza. Olhei em direção ao moreno, que anuiu a cabeça num sinal de que era exatamente aquilo. Sorri, dando-me conta do que aquilo significava. – Acho que ele ficou preocupado com você, Sakura. Aposto que percebeu que havia exagerado.
As palavras que eu achei que iriam a animar e fazê-la abrir um sorriso de orelha a orelha, causaram o efeito contrário. Ela olhou para o lado, sem qualquer esperança.
— Provavelmente só sente falta da mão de obra…
E, naquele momento, me vi sem palavras de consolo. Não era fácil ser a Sakura. Ela tinha tanta sorte no amor quanto eu.
Quando começamos nosso caminho de volta à casa do artista, apressei-me em apanhar a sacola das mãos da garota, apenas para tê-la arrancada das minha próprias mãos. Olhei surpreso para Mayu, mas ele nada disse, apenas continuou andando. Era, como sempre, um mistério o que se passava em sua cabeça.
Caminhando pela rua, seguimos nosso caminho. Mayu ia na frente, seguido por mim e por Sakura. Ela se aproximou de mim, suas expressões um tanto tímidas.
— Espero que dê tudo certo entre vocês. Entre você e essa Mayumayu... – Suas palavras vieram de repente, sem aviso. Eu tinha meus ouvidos atentos à suas palavras, e surpresos com o que ouviam. – Eu não posso apoiá-lo, mas se quiser alguém pra desabafar, acho que posso te ouvir.
Um sorriso se abriu nos meus lábios.
— Obrigado. E, ahn, sobre o Mayu…
— Do que está falando? Não vi nada. – Ela desviou os olhos, expressões nada convincentes na face. – E mesmo se eu tivesse visto aquele abraço… Que não estou dizendo que vi... Quem entende o que o Mayu pensa? Talvez estivesse apenas se aproveitando de você. Te usando de apoio. – Ela balançou os ombros.
Parei de andar, vendo-me sem palavras. A garota acelerou e subiu os degraus, seguindo atrás de Mayu, que já se encontrava junto à porta. Pisquei algumas vezes, pensando nas palavras de Sakura e vendo que elas faziam mais sentido do que deveriam. Um tanto aliviado por ver que as ações de Mayu não significaram nada, juntei-me a eles. Sakura, a nossa frente, olhava entre mim e Mayu, inquieta. Mayu suspirou, provavelmente cansado de toda a demora, e fez menção de tocar a campainha. Porém, seus gesto foi interrompido pela própria porta, que se abriu rapidamente. Do outro lado, de saída, encontramos um Nozaki muito aflito.
— Sakura! – Ele exclamou, assim que pôs os olhos na ruiva.
— Ah, bem… Desculpa! – Pega de surpresa, Sakura não conseguiu fazer nada além de abaixar a cabeça e se desculpar, sem jeito. – Eu não devia ter largado o trabalho dessa maneira!
Ele a agarrou pelo pulso, surpreendendo-a. Nozaki a encarava com olhos muito sérios. Sakura parecia um tanto confusa com toda aquela situação.
— Quem se importa. – Ele faz uma breve pausa, mas sem quebrar por sequer um segundo o contato visual. – Eu não devia ter gritado com você. Perdão.
Sakura piscou algumas vezes e então sorriu, balançando a cabeça num sinal de que estava tudo bem. Mesmo eu não consegui conter um sorriso. Era bom ver as coisas de volta ao normal. Olhei em direção a Mayu, curioso sobre quais seriam suas expressões, mas o que meus olhos me mostraram foi bem diferente do que eu imaginava ver. Ele sorria, mas era em minha direção que seus olhos apontavam.
Virei o rosto imediatamente, sentindo minha face mais quente do que nunca. Escondi-me atrás de minha mão, percebendo que a vermelhidão não sumiria tão cedo.
O que foi aquilo?
.
...
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O intervalo tinha acabado de começar, o que nos dava um pouco mais de dez minutos. Eu me encontrava sentado em minha carteira, alheio ao resto da sala enquanto esperava uma resposta de Mayumayu para a mensagem que eu havia enviado há pouco. Kashima conversava com as demais garotas da sala, que gritavam e a puxavam de um lado para o outro. Eu realmente não sabia como ela podia gostar de tanta afobação. Olhando para meu celular, não pude conter o sorriso que brotou em meus lábios. Se ao menos todas as garotas fossem como Mayumayu, doces e adoráveis...
Olhei em direção a Kashima por um momento, desejando que ela percebesse que o celular não era o importante; importantes eram as minhas conversas com Mayumayu. De repente, ela me devolveu o olhar, mas ao ver o que acontecia tornou a virar o rosto. Suspirei, desejando mais que tudo ter minha melhor amiga de volta.
— Mikorin! – A ruiva entrou pela porta de minha sala, causando um grande estrondo.
Notando a sua aproximação, coloquei o celular na mesa, permitindo-o descansar.
— O que foi, Sakura? – Perguntei, assim que ela cruzou toda a extensão da sala e alcançou a minha mesa. – Aconteceu alguma coisa?
— Aah, err, bem... – Ela olhou para os lados e nesse momento sua face enrubesceu. Ela fechou os olhos e disse tudo o que tinha a dizer num sô fôlego. – Você acha que poderia me encontrar em algum lugar depois da aula?
— Ah, claro...
Agora a sala toda tinha os olhos virados para mim, inclusive Kashima. Aparentemente ela falara mais alto do que pretendia, pois também parecia um pouco embaraçada com todos aqueles olhares curiosos. Ela mexeu numa mecha de cabela e olhou para o lado.
— Enfim, – ela começou – eu te encontro no portão?
Balancei a cabeça, concordando. Ela sorriu uma última vez antes de dizer que voltaria para a sua própria sala, e eu acenei enquanto ela se retirava. A sala havia voltado ao seu estado barulhento e eu me via livre dos olhares curiosos de meus colegas de classe, exceto por uma par de orbes verdes.
Foi só depois de um bom tempo naquela desconfortável troca de olhares que ela virou o rosto e continuou a conversar com as garotas que a rodeavam. Quando o professor entrou em sala, todos voltaram para seus lugares e se silenciaram. Mesmo enquanto se sentava na carteira atrás de mim, Kashima não me direcionou sequer uma palavra.
Eu não conseguia não me sentir péssimo.
A luz piscou e apertei as teclas do celular que descansava sobre a mesa, o mais discretamente que me foi possível.
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[Mayumayu] A aula tá um saco. Queria ir pra casa.
[Mamiko ♡] Força! Daqui a pouco acabam! A minha aula está para começar. Depois a gente se fala! ヾ(^∇^)
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Guardei o celular no estojo e suspirei. Eu queria tanto que o tempo voasse nos próximos noventa minutos...
Sobre o que será que Sakura queria conversar?... E, assim, vi-me pensar em todas as coisas que haviam acontecido no dia anterior: os meus sentimentos reais pela Mayumayu, a briga entre Sakura e Nozaki, os braços fortes de Mayu me envolvendo cuidadosamente... Meu rosto esquentou. Eu podia sentir meu coração bater contra meu peito em alta velocidade. Fechei os olhos por um momento e respirei fundo, desejando ter os pensamentos extinguidos. Por que aquele pensamento não me abandonava?! Os seus gestos não foram nada demais!
A aula, novamente, não rendeu.
Quando o professor nos liberou, juntei meus materias e me apressei porta afora. Eu caminhava distraído, a cabeça ainda não totalmente em ordem, e eu me via sem saída além de fazer todo o possível para lidar com aqueles pensamentos complicados que me perturbavam. Eu não podia deixar Sakura esperando, afinal.
Percorri os corredores que se enxiam mais e mais de alunos ansiosos pelo conforto de suas casas. Continuei andando até me ver fora do prédio. Não demorou até que eu encontrasse a ruiva entre todas aquelas pessoas; as duas grandes fitas que enfeitavam seus cabelos eram bem distintivos.
— Sakura!
— Ah, Mikorin! Vamos?
Fiz sinal para que ela nos guiasse. Seguimos pela calçada, procurando refúgio da luz escaldante do Sol nas sombras que encontrávamos pelo caminho.
— Aonde vamos? – Perguntei, por fim.
— Que tal o shopping?
— Pode ser. Tem uma sorveteria nova, que abriu no outro dia.
— Ah, sim! A Yuzuki me disse que foi lá outro dia com o Wakamatsu e que era muito bom!
— Eles são realmente bem próximos, né...
— Sim – a ruiva falou, com um sorriso.
Durante o resto do trajeto, permanecemos em silêncio. Quando vi que nos aproximávamos do nosso destino, comecei a me perguntar o motivo de tudo aquilo. Ela queria conversar sobre algo, provavelmente Nozaki, quase certamente Nozaki, mas sobre o que exatamente eu não tinha ideia.
Quando entramos no enorme empreendimento comercial, o ar condicionado foi o primeiro a nos dar boas vindas. As lojas e os corredores não se encontravam muito cheios, por conta do horário e por ser dia de semana, o que não tornava o ambiente abafado. Estava agradável.
Quando avistamos a fachada lilás da sorveteria, os nossos passos apenas se apressaram. Havia uma pequena fila, praticamente toda composta por estudantes, mas mesmo assim não demorou mais do que dez minutos até que nos víssemos sentados nas mesas brancas e redondas do pequeno estabelecimento. Depois de alguns minutos analisando o cardápio, uma moça jovem se aproximou para pegar o nosso pedido.
— Eu vou querer um milkshake de menta com chocolate. Sakura?
— Um sundae de morango, por favor.
A atendente se afastou assim que tinha anotado tudo numa caderneta. Sem perder mais tempo, perguntei a Sakura o que estava acontecendo, não mais aguentando a ansiedade que crescia em mim. Ela corou um pouco.
— Ah, então... É sobre o Nozaki... – Ela mexia nos fios ruivos de seu cabelo, claramente embaraçada. – Eu estava pensando em me confessar mais uma vez.
— Eu acho que é uma boa ideia – foi minha réplica imediata.
— Jura? – O sorriso que ela abriu era tão grande quanto os sentimentos dela por Nozaki. Ela própria pareceu se constranger pela sua própria alegria, naquele momento, pois virou o rosto, suas mãos inquietas. – Quero dizer... Tem certeza?
Tive que conter o riso. Sakura podia ser bem adorável, às vezes. Bem, é verdade que dizem que pessoas apaixonadas são dez vezes mais bonitas e centenas de vezes mais felizes.
— Eu tenho certeza. Principalmente depois de ontem.
Ela abriu um sorriso tímido e desviou o olhar. Suas mãos se mostravam ainda mais inquietas.
— É verdade que ele parecia um tanto preocupado... Para dizer a verdade, eu pensei que meu coração ia parar quando ele me agarrou pela mão.
Deixei que a garota ficasse a sós com seus pensamentos por alguns instantes. Seu rosto se encontrava corado e seus olhos ainda não haviam tornado a se encontrar com os meus. Com a chegada dos nossos pedidos, ela acabou ganhando mais algum tempo para si. Enquanto eu bebia meu milkshake, meus olhos a observavam atentamente, atentos à qualquer mínima mudança em seu comportamento; como seus olhos, que de repente pareciam brilhar muito mais. Todo o seu nervosismo inicial foi se dissipando e sendo substituído por uma forte determinação. Eu achava aquilo incrível.
Será que um dia serei eu na sua posição? Eu me perguntava, o rosto agora um tanto virado a fim de esconder a vermelhidão que me tomou o rosto.
— Mudando um pouco o assunto, – ela pousou a colher no sundae, que já estava pela metade – como vão as coisas com a Mayumayu?
— Ah? As coisas? – Minha face se esquentou imediatamente. Eu não esperava que ela começasse o assunto assim, do nada, ainda mais depois do que havia me dito ontem. – Excelente! Perfeito! – Uma risada tingida do meu nervosismo foi o que saiu dos meus lábios. Eu abanava uma das minhas mãos diante do rosto, um ato fútil, mas que eu não conseguia evitar.
Sakura me encarava em silêncio. Ela esperou que eu terminasse de surtar para fazer sua próxima pergunta:
— Você não progrediu nada, né?
O sorriso torto que eu tinha nos lábios despencou. De repente, eu não conseguia olhar em seus olhos.
— Bem...
— Há quanto tempo vocês se falam? – Ela perguntou, enquanto levava mais uma colherada do sorvete à boca.
Pisquei algumas vezes, não entendendo o seu súbito interesse. Ela pareceu ler meus pensamentos, pois resmungou logo a seguir:
— Vamos, Mikorin! Estou dando uma chance a ela! – Ela se encontrava impaciente. – Quanto tempo?
— Uns cinco meses... É, algo em torno disso.
— Como ela é?
— Amável. Um tanto preguiçosa. Ela me disse uma vez que o seu passatempo preferido era tirar sonecas – fui incapaz de conter um sorriso.
Sakura se limitou a me encarar por alguns instantes. Seu silêncio era atordoante. Ele me deixava ansioso, pois eu não sabia o que esperar. A ruiva estava cheia de surpresas, hoje.
— Okay, ela passou no teste. – Ela disse, por fim, tomando mais um pouco do sorvete. Enquanto isso, eu liquidava com o resto de meu milkshake. – Por enquanto – completou, depois de um tempo.
O que senti então foi alivio. Era bom saber que eu tinha o apoio de Sakura. Era bom saber que eu não teria que enfrentar aquela rota tão complicada sem alguém para me impedir de fazer as escolhas obviamente incorretas.
— O quê? Sério?!
— Sim – respondeu, simplesmente. – Se ela consegue te fazer sorrir desse jeito então acho que vale a pena uma tentativa.
Corei um pouco. Eu queria me esconder, mas sabia que aquela não era hora para isso.
— Obrigado, Sakura…
— De nada, Mikorin. – Ela sorriu e inclinou um pouco a cabeça. – Hey, eu estava pensando… Posso ver? – Ela perguntou, de repente.
Curiosidade emanava de cada um de seus poros, seus olhos brilhantes pediam desesperadamente por uma resposta positiva. Enquanto isso, eu me via confuso com o significado de seu pedido.
— Ver o quê?
— As mensagens!
— Eh? Você quer lê-las?!
— Se não for problema…
— Ah, bem…
Por um momento, permaneci em silêncio pensando nos prós e contras. Por fim, vi que se eu queria o ser total apoio, eu teria que fazer sacrifícios.
— Tudo bem. – Ela ficou claramente satisfeita com minha resposta.
Levando minha mão ao bolso da calça, busquei pelo celular, entrando em desespero ao notar a sua falta. Levantei em um pulo, causando um alto estrondo. Todos me encararam com olhos curiosos. Sakura parecia confusa, mas não disse nada por longos segundos. Enquanto isso, eu continuava a vasculhar meus bolsos.
— Mikorin? – Ela enfim questionou, preocupada.
— Não está aqui! Meu celular não está aqui! – Exclamei, entrando em pânico.
Respirei fundo, tentando me acalmar. Eu tinha que me acalmar e pensar direito. Onde eu podia ter posto? Imediatamente, puxei minha mala, que até então permanecia junto aos pés da mesa, e abri o bolso exterior; lá estavam minhas chaves e meus fones de ouvido, e somente isso. Abri os outros bolsos, verificando se não estava jogado dentro da mala. Sakura, que até então se mantinha quieta, apenas observando, perguntou.
— Mikorin? O que foi? Ainda não achou?
— Não! Eu não achei! – Gritei, mas logo vi que gritar não resolveria. Não era sua culpa. Por que eu estava gritando com ela? – Desculpa. É só que… Meu celular, Sakura… Não posso perdê-lo.
Sem dizer mais nada, ela se levantou e se aproximou, posicionando-se ao meu lado e enfiando também as suas mãos dentro da mochila. Encarei-a, surpreso que apesar de minha atitude consigo ela ainda estivesse disposta a me ajudar.
— Mexa as mãos, Mikoshiba! Nós vamos achar o seu celular, então limpe essas lágrimas!
Imediatamente, levei as costas das minhas mãos aos olhos e os esfreguei com força. Eu sequer havia percebido que chorava… Eu me sentia revoltado comigo mesmo, mas eu não tinha tempo para isso, não agora, por isso, voltei a mexer dentro da mala. Tiramos os materiais, espalhando-os na mesa da sorveteria. Todos ainda nos assistiam, mais curiosos do que nunca com o que estava acontecendo.
Sakura pegou meu estojo e, estranhando o peso, abriu-o.
— Achei! Mikorin, eu achei!
Por um momento, eu não sabia se abraçava Sakura ou se pegava o celular das suas mãos. Mas eu só precisei ver a luz piscando para ter minhas prioridades em ordem. Apanhando o celular nas mãos, sorri enquanto abria minha caixa de mensagem e lia a mensagem que havia chegado há mais ou menos meia hora. Sakura não parecia irritada com meu comportamento, tampouco surpresa.
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[Mayumayu] Eu queria tanto não fazer nada hj
[Mamiko ♡] Desculpe a demora. Aconteceram algumas coisas! (T▽T) Mas enfim, saiu com os amigos? Onde foi? (^▽^)
[Mayumayu] Sorveteria
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Pisquei algumas vezes, relendo mais uma vez a única palavra que formava a mensagem que eu havia acabado de receber. Meu coração acelerou um pouco. Se eu me lembrava bem, Mayumayu havia dito algo sobre morar um pouco longe, mas nem tanto. Ela disse que já veio até o meu bairro diversas vezes. Qual era a chance?
A porta do estabelecimento se abriu e minha cabeça virou imediatamente, procurando uma garota que pudesse ser Mayumayu. Porém, os recém-chegados eram todos garotos. Não somente isso, seus uniformes me eram de certa forma familiares.
— Ah! Mayu! – Sakura exclamou, do meu lado.
Os olhos de Mayu seguiram até a origem da voz, mas pousaram nos meus olhos e não nos da ruiva. Ele me encarou, seus olhos cansados e entendiados, como de costume. Ele disse algo para o garoto que estava ao seu lado e se aproximou, parando na nossa frente. Durante todo o trajeto, ele não desgrudou os olhos sequer um momento dos meus, o que me deixava nervoso. Não mais aguentando toda aquele contato não-físico, olhei para o lado, mas logo tive minha cabeça virada novamente para frente, por um par de mãos que me virou a cabeça. Mayu me olhava nos olhos, segurando-me a fim de evitar que eu tornasse a evitá-lo. Sakura parecia surpresa com o gesto do mais novo tanto quanto eu.
— Mayu? – Ela estendeu uma mão, tocando-o no ombro, tentando chamar a sua atenção para si. Todavia, isso não foi nem um pouco efetivo. Seus olhos negros continuavam pregados nos meus avermelhados.
— Mikoto-san...
Ele passou os dedos por debaixo dos meus olhos, surpreendendo-me. Eu tentava recuar, mas ele me tinha em suas mão – literalmente – o que não facilitava as coisas. Meu rosto ardia e tudo o que eu não queria lembrar naquele momento era justamente as únicas coisas que me vinham à mente: o calor do seu corpo, o seu sorriso enquanto me observava...
— Você estava chorando?
Suas palavras entraram-me por um ouvido e saíram pelo outro. Foi Sakura quem teve que responder, pois eu continuava em estado de choque mesmo depois dele ter me soltado. O local onde suas mãos me tocavam queimava.
— Aconteceram algumas coisas.
— Coisas? – Mayu inclinou a cabeça.
— Ele – Sakura olhou para o lado – perdeu o celular…
Ela pareceu perceber o quão ridículo aquilo soava apenas depois de já ter falado. Mas diferente do que ela pensou, Mayu pareceu entender que não era algo tão trivial como parecia. Foi então que ela lembrou-se, assim como eu, de que ele havia bem provavelmente ouvido parte da nossa conversa de ontem.
Mayu tornou a olhar em minha direção. Ele tinha feições estranhas que eu não conseguia entender muito bem. Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas tornou a fecha-la logo a seguida. Observei, confuso, enquanto ele desviava o olhar para o lado. Ele me parecia estar em algum grande dilema.
— Mayu, você vem ou não? – um dos seus colegas perguntou, já sentado em uma das mesas ocupadas pelos integrantes do clube de judô.
Mayu virou na direção deles e fez uma breve reverência.
— Desculpem. Kobayashi, fico te devendo essa.
— Okay. – O garoto não disse nada nos momentos seguintes, em que pousou seus olhos em mim. – Fique com seu amigo. Ele não me parece muito bem. Mas você está nos devendo!
Mayu apenas anuiu a cabeça e voltou sua atenção de volta a mim. Ele continuava totalmente silencioso, e isso estava começando a me incomodar.
— Vocês já estão de saída? – Ele peguntou, por fim.
— Sim. – Sakura respondeu.
— Okay.
Mayu agarrou os materiais que haviam sido espalhados e os retornou à segurança da mochila, a qual jogou por cima de um dos seus ombros. Sakura e eu nos limitamos a encará-lo por um momento, não entendendo de imediato o que ele estava fazendo exatamente. Quando me dei conta do que acontecia, lancei um olhar confuso em direção à ruiva, que parecia tampouco entender o que estava acontecendo.
— Vamos? – Mayu perguntou, ajeitando a mochila que quase despencara de seu ombro.
— Mayu… Você não precisa ir. Fique com seus amigos. Você nem comeu nada ainda. – Foi Sakura quem teve a iniciativa de contestá-lo.
— Mikoto-san…
— Ele está bem. – Sakura insistiu. – Não é, Mikorin?
Tudo que pude fazer foi acenar com a cabeça, ainda alheio ao que acontecia ao meu redor. Sakura teve que me dar uma cotovelada para que eu desse uma resposta decente.
— Sim! Sim, claro! – Meu tom era exagerado. Não que eu não estivesse bem. Não é que fosse uma mentira. É só que a Sakura tinha mais força do que parecia, e, sobretudo, acertar as costelas alheias era sacanagem.
Mayu se limitou a me encarar por alguns momentos. O seu silêncio e as suas feições apáticas tornavam difícil a tarefa de saber o que exatamente se passava em sua cabeça.
— Eu vou acompanhá-lo até em casa.
— Mayu…
— Chiyo-san.
Ela olhou para o lado, talvez meio confusa sobre como prosseguir numa discussão que sequer fazia sentido.
— Você sabe que vai ter que andar mais, e gastar energia, e…
Mayu anuiu a cabeça antes mesmo que ela terminasse o que tinha para falar. Sakura se via sem mais ideias. O mais novo a secava com os olhos, o que não era muito confortável. Ela desviou os olhos, rodando-os pelo salão, mas quando teve a coragem de encará-lo novamente, provavelmente com mais algum argumento não muito convincente em mente, silenciou-se, como se tivesse se dado conta de alguma grande realização.
— Oh...
Ela corou um pouco, antes de tornar a virar o rosto para as paredes. Seu comportamento não me fazia sentido. O que era tudo aquilo?
— Certo, okay. Hum… Mikorin, o Mayu vai com você até em casa.
Demorou alguns segundos para que meu cérebro decifrasse o significado daquelas palavras. E, quando o fez, não pude deixar de me sentir um tanto revoltado com toda aquela situação.
— O quê? Pera! Por quê? Não sou criança!
— Mikorin…
— Mikoto-san.
Mayu não precisou mais do que aquilo para passar o seu recado: ele não pretendia voltar atrás em suas palavras. Ele estava pronto para ser teimoso e discutir por quanto tempo fosse necessário. Ele se daria a esse esforço.
— Mayu, sério, não precisa.
— Mas eu quero.
— Mayu!
— Mikoto-san.
Tendo sempre sido fraco com a teimosia alheia, me vi franzir a sobrancelhas e exclamar, em um tom cansado:
— Okay, okay! Tanto faz! Faça o que quiser!
Sem dizer mais qualquer palavra, dei-os as minhas costas e caminhei em direção à caixa, só então notando que minha carteira estava na mochila. Parei e estendi a mão em direção a Mayu, que se aproximou e me ajudou a pegar o dinheiro, segurando a mochila para que eu remexesse nas coisas dentro dela.
Sakura observava a cena com um sorriso torto no rosto, como se não tivesse muita certeza do que estava fazendo. Ela se aproximou, pagou e logo partimos. O caminho na volta foi tão silencioso que chegava a incomodar.
.
...
.
Já estávamos caminhando há uns dez minutos sob o Sol forte quando a ruiva anunciou:
— Certo, eu vou por aqui.
Todos paramos e olhamos para a garota, que apontava em direção à uma ladeira.
— Okay. A gente se vê.
— Até mais, Chiyo-san.
— Err… Cuide bem do Mikoshiba, okay? – Havia incerteza na sua voz.
Confuso, eu apenas observava a cena. Eu não sabia bem o que ela queria dizer com aquilo, mas para Mayu o significado daquelas palavras estava bem claro, pois ele balançou a cabeça, em um “sim” silencioso.
Qual o problema deles? Eu estou bem! Totalmente bem! Cem por cento bem!
Mas guardei a minha frustração para mais tarde. Não era hora, nem momento. E, sinceramente, discutir com Mayu era bem mais cansativo do que as pessoas acreditariam.
Depois de uma breve troca de acenos, Sakura adiantou-se pelo seu caminho, sem olhar sequer uma vez para trás. Seus passos eram acelerados mesmo na subida. O Sol quente não parecia ser um obstáculo naquele momento.
Ficamos parados por algum tempo, simplesmente esperando que ela sumisse de vista. Depois, esperamos mais alguns instantes. Quando senti o Sol me queimar as orelhas, decidi que estava na hora de partir.
— Vamos? – Perguntei, já me distanciando.
Mayu apenas me seguiu, sem dizer qualquer palavra. Por algum motivo, eu não conseguia conter a ansiedade que crescia dentro de mim. Eu sabia que era bobagem. Era só Mayu, o irmão do Nozaki, o capitão do time de judô, o garoto preguiçoso que tinha uma curiosidade estranha pelas minhas figures… Esse Mayu.
Durante todo o caminho de pouco mais de quinze minutos, nenhuma palavra foi trocada. Mas o que eu podia fazer? Eu não sabia o que fazer, ou o que dizer. E ele, que parecia ter algo em mente, mantinha-se em silêncio, sem compartilhar os seus pensamentos. Não havia nada que eu pudesse fazer para aliviar a tensão. Eu só esperava que as coisas não ficassem assim por muito mais tempo, ou isso poderia acabar se tornando um problema. Quero dizer, ele provavelmente vai querer matar um pouco de tempo antes de ir para casa, e não sei se aguento ficar num cômodo fechado com ele nessa situação.
Será que por causa da Mayumayu? Será que ele quer me perguntar dela?
A ansiedade em meu peito apenas cresceu ainda mais. Quando chegamos em minha casa, abri a porta para que entrássemos. Pelo menos havíamos nos livrado do tempo abafado e do Sol ardente, pensei. Mayu ficou junto à porta até que eu o chamasse para dentro, o que fiz mais por obrigação do que por interesse, sinceramente.
— Você quer um pouco de água?
— Por favor.
— Okay. Por que não me espera lá no meu quarto?
Ele anuiu a cabeça e caminhou casa adentro, sumindo da minha vista. Um suspiro aliviado saiu de meus lábios assim que me vi sozinho. As coisas não podiam ficar assim. Eu tinha que fazer alguma coisa. Indo em direção à cozinha, apanhei uma garrafa de água na geladeira e dois copos no armário. Pensando no que eu podia fazer, fui para meu quarto, os copos de alguma forma equilibrados em uma das minhas mãos. Porém, o que me esperava foi suficiente para que eu desse uma breve risada.
Caminhei quarto adentro, largando a garrafa e os copos na mesa antes de me aproximar do garoto que tinha um gato folgado deitado em sua cabeça.
— Kaori, não faça isso.
Agarrei o felino pela sua pelagem de cor clara e o coloquei no chão. Mayu, que se encontrava deitado em minha cama, parecia de certa forma aliviado de se ver livre daquele cobertor de pelagem natural.
— Você podia ter tirado ele, sabe – falei o óbvio, um sorriso nos lábios. Eu balançava a cabeça para os lados, descrente que ele não tenha tentado fazer nada para se livrar de Kaori. – Você sabe como ele é folgado.
— Ele me arranha sempre que tento pegar ele. – Foi sua resposta.
— Sério? Estranho. Ele normalmente é manhoso e carinhoso com todo mundo.
— Talvez ele não goste de mim. Ou não goste de mim perto de você. – Mayu, que até então olhava para o teto, virou a cabeça a fim de tê-la virada em minha direção. Ele me olhava no fundo dos olhos, e eu me perguntava como ele conseguia fazer aquele tipo de coisa sem se sentir minimamente embaraçado.
Virei o rosto, sentindo-me subitamente quente. Meu rosto ardia e eu odiava isso, e odiava não entender porque aquilo estava acontecendo. Passei meus dedos pelos fios de cabelo rubros que me cobriam a cabeça. De novo, eu estava tenso, ótimo.
— Eu... – Olhei para os lados, pensando no que dizer. Qualquer coisas era melhor que o silêncio. Qualquer coisa. – Eu trouxe água!
— Você se importa se eu continuar deitado na sua cama por mais um tempinho?
— Ah? Não... Mas o que foi? Está passando mal? Foi o calor?
— Estou com sono. Acho que vou dormir um pouco. – Ele fechou os olhos. Seus cílios eram grandes. Eu nunca havia notado isso.
— Ah... Okay. – Eu virei o rosto, que ainda se encontrava corado. Eu sentia minha respiração pesada, como se o ar tivesse dobrado de peso dentro de meus pulmões.
— Tudo bem? – Ele perguntou, abrindo os olhos por um momento.
— Claro! Vou ficar bem aqui, jogando. – Eu disse, puxando o controle para perto de mim e o balançando no ar. Meu nervosismo se espalhava por debaixo da minha pele, tomando conta de cada pedaço do meu ser. Eu podia sentir seu olhar fixado em minha nuca.
— Okay… – Ele disse e, depois, silenciou-se.
Não demorou até eu ouvisse o som da sua respiração se tornar branda. Olhei uma última vez em sua direção, sem pensar em nada específico, e liguei o console e me foquei somente no jogo que exigia a minha atenção. Kaori se aproximou, se engrenhando em meu colo e miando baixinho. Com um sorriso fino no rosto, cocei atrás da sua orelha, ganhando outro miado em resposta.
.
...
.
— Não! Não! – Exclamei, revoltado. A traição tinha um gosto amargo. – Eu já disse que não é assim que as coisas funcionam! Qual o seu problema?!
Mayu remexeu-se atrás de mim e, naquele momento, vi que talvez fosse melhor diminuir o tom de minha voz, caso contrário eu o acordaria. Ainda assim, não encerrei a discussão com a garota de cabelos rosas e encaracolados que me exibia feições desagradadas, no outro lado da tela.
— Eu já disse que não estava te enrolando! – Murmurei, aproximando-me um pouco mais da televisão. – Você é tudo para mim, e eu já disse isso! Por que tenho que ficar repetindo e repetindo? É um teste? É um teste, não é?!
Suspirei, cansado e já um tanto de saco cheio daquele jogo. Já fazia duas horas que eu tentava vencer a rota da garota rica, mas o progresso estava longe de ser significativo. Eu dava voltas, repetindo etapas e às vezes tendo de recomeçar por ver que as coisas não mostravam sinais de melhoras.
Decidido por uma pausa, arrastei-me pelo chão até que minhas costas batessem na cama. Apoiei minha cabeça no colchão e fechei os olhos. Acomodei-me da melhor forma que pude, a fim de ter mais conforto. Quando abri os olhos, um par de orbes negros me encaravam atentamente. Pego de surpresa, não pude evitar o salto que dei, ou mesmo os sons estranhos que me escaparam pelos lábios. Mayu parecia surpreso com minha reação. Provavelmente a considerava exagerada, o que, no fundo, era.
— Mayu! Quando você acordou?
— Agora há pouco. Pouco antes do seu discurso.
— Eh… – Olhei para o lado, envergonhado. – Você sempre me pega nos meus momentos mais constrangedores...
Eu tinha a cabeça baixa e os olhos fechados; naquele momento, eu não desejava encarar o mundo. Eu devia ser um exemplo, um bom exemplo, afinal eu era mais velho. Entretanto, eu me via incapaz disso. Eu era ruim com as palavras, e muitas vezes me via incapaz de tomar decisões. Eu não conseguia dizer não e tinha medo das consequências muito antes de sequer realizar a causa. Eu não era nem um pouco confiante. Eu sequer conseguia confessar os meus sentimentos para a garota que eu gostava!
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Mayu nada disse por longos segundos. Ele então levantou seu tronco da cama e sentou-se na beirada. Olhei para ele, esperando por fosse o que fosse que ele tinha para dizer.
— Água.
Pisquei algumas vezes, não entendo de imediato o que ele queria.
— Um copo de água, por favor. – Ele repetiu, talvez vendo que suas palavras não foram claras.
— Ah! Certo!
Apressei-me em encher um dos copos que repousavam sobre a mesa, que então entreguei para o moreno, que bebeu praticamente tudo em um gole.
— Obrigado.
Sorri de leve. Eu me sentia feliz, de repente. Olhei para as minhas mãos. Era idiotice me sentir útil por uma besteira daquelas? Às vezes, eu sentia que Mayu era a pessoa que mais me entendia no mundo. Nem mesmo Sakura ou Nozaki conseguiam ser tão perceptivos quanto ao que se passava comigo.
— Você sempre sabe do que preciso, né? – Quando tornei a olhar em sua direção, eu tinha um sorriso tímido no rosto.
— É que estou sempre olhando para você.
Naquele momento, senti minha face arder mais do que nunca, mais até mesmo do que naquele dia que tentei jogar as cenas eróticas daquele jogo que me emprestaram. Muito mais. O sorriso tentava se manter em meu rosto, mas meus lábios tremiam por conta do choque.
— Mikoto-san?
— E-Eu… Eu acho que devíamos ir até o Nozaki! Sim! Você ainda não o viu hoje, certo? E ele talvez possa me ajudar com essa rota e…
Mayu apenas me escutava, em silêncio, sem demostrar qualquer reação. Eu apanhava as minhas coisas e colocava numa mochila: o celular, o jogo, a carteira.
— Mayu, está me ouvindo?
O garoto suspirou e se pôs em pé. Depois de conferir se seu celular estava no bolso, me seguiu pela casa até chegarmos na porta. Kaori vinha logo atrás, confuso com toda aquela súbita movimentação. Afinal, tudo esteve tão quieto nas últimas horas.
— Kaori, cuide da casa. – Eu disse para o gato que havia nos seguido, e fechei a porta.
Era pouco mais de cinco horas quando nos direcionamos à casa do mangaká. Mayu não disse sequer uma palavra durante todo o caminho, que foi feito em um ritmo muito mais acelerado do que ele provavelmente gostaria.
.
...
.
— Oh, Nozaki! Muito bom te ver! – Eu disse, assim que o garoto abriu a porta. Ele olhou para mim, para Mayu e então para o celular, provavelmente conferindo se havia recebido alguma mensagem da qual não se lembrava. – Ah, desculpe vir sem avisar.
— Mayu, o que faz aqui? Nossa mãe vai ficar preocupada.
O mais novo apenas olhou para o lado, como se não fosse com ele. Nozaki suspirou, provavelmente já sentindo que aquela era a brisa antes da tempestade.
— Certo... Eu vou ligar para ela e dizer que você vai dormir aqui, hoje. Amanhã você não tem aula mesmo. Por enquanto, entrem.
E, assim, todos nos encaminhamos até o familiar cômodo. Haviam alguns papeis espalhados na mesa e um livro aberto. Devia estar estudando, pensei. Ele era, afinal, um estudante como qualquer outro.
Com a chegada de Nozaki na sala, tive minha atenção redirecionada. Ele cruzou os braços e nos encarou com um olhar suspeito.
— Posso saber o que está havendo?
— Achei que podia me ajudar neste jogo – eu disse, puxando minha mochila para o colo e a abrindo.
— Mikoshiba, você nunca aparece sem avisar. Está tudo bem?
— Claro que sim! É só que essa rota esta me dando uma dor de cabeça e não sei mais o que fazer e…
— Desculpe, irmão, acho que foi minha culpa. – Mayu me interrompeu.
— O quê? – Tanto eu quanto Nozaki olhamos em sua direção, questionando-o simultaneamente.
— Do que ele está falando, Mikoshiba? Ou melhor, o que você fez, Mayu?
— Não sei direito. – Foi a resposta sincera de Mayu.
— Não aconteceu nada! Sério! Então – puxei o jogo para fora da mochila, o nervosismo crescendo em mim – podemos começar?
Os irmãos trocaram olhares silenciosos entre si. Enquanto isso, tudo que eu podia fazer era lutar contra tudo que se passava dentro de mim. Aquele nervosismo era desnecessário, totalmente desnecessário. Eu tinha que pensar em outras coisas. Eu precisava me distrair.
— Certo. Vá ligando tudo, Mikoshiba. Eu vou buscar alguns petiscos. Mayu, pegue algumas almofadas no armário. Vamos precisar mais tarde.
E com as tarefas estipuladas, todos nos colocamos em ação. O logo do jogo surgia na tela da televisão quando Mayu retornou com algumas almofadas embaixo dos braços. Nozaki veio logo em seguida, uma travessa de salgadinhos nas mãos. Todos nos sentamos e, em silêncio, esperamos enquanto eu apertava os botões do console e adiantava até o ponto onde a rota realmente começava.
— Certo, aqui. É ela. Rica, temperamental e impossível. Ela nunca sabe o que quer e vive mudando de ideia. – Expliquei, enquanto entregava o controle nas mãos de Nozaki,
— Por que você simplesmente não olha na internet? – Mayu perguntou.
— Pelo jeito isso seria uma enorme traição e ele estaria brincando com o coração de uma donzela e isso seria imperdoável. Algo assim. – Nozaki disse, mecanicamente, repetindo o que eu já dissera tantas vezes a ele no passado.
— Mas é verdade! – Defendi-me.
— Olha, Mikorin, aqui esta o primeiro impasse.
— Mesmo? – Aproximei-me de Nozaki, curioso, olhando por cima de seu ombro. – Ué. Mas não é só dizer que o professor havia a chamado? Quero dizer, foi justamente para isso que fomos procurá-la.
— Você não acha estranho que ela esteja junto da sala de música logo quando uma das coisas que ela odeia é barulho? Além disso, a sala dela é do outro lado do prédio.
Nozaki desceu pelas opções e apertou em “O que faz aqui?”. Esperamos para ver o que acontecia, descobrindo que ela havia perdido um colar pertencente à sua mãe em algum lugar perto da sala de música.
— Hum? E não é que você tinha razão? Não acredito que notou um detalhe desses. Quem presta atenção no plano de fundo?
— Foi justamente por eu achar muito bem definida a inscrição que cheguei a essa conclusão.
— Ah, verdade. Agora que você falou…
Mayu apenas observava a cena, provavelmente achando estranho toda a seriedade para com um jogo. Ele se deitou, descansando a cabeça em um dos travesseiros. Enquanto isso, Nozaki e eu continuávamos discutindo sobre o assunto, enquanto íamos progredindo pela rota. Os salgadinhos já haviam há muito acabado quando finalmente o jogo mostrava sinais de que estávamos realmente indo pelo caminho certo.
— Okay... Não deve faltar muito. Logo devemos conseguir um segundo encontro.
— Ou não… Ela não me parece em clima de romance. Talvez tenha acontecido algo em casa de novo.
— Não acha que seria então o momento perfeito? Ela talvez precise de uma distração.
— Ela é séria e decidida demais pra esse tipo de técnica funcionar. Não vai conseguir subir sua popularidade desse jeito.
— Droga… Estávamos tão perto!
— Está ficando tarde. O Mayu mesmo já caiu no sono. Melhor pararmos por hoje?
— Não acho que o Mayu seja um bom parâmetro... Mas se você quer dormir, tudo bem. A gente continua outro dia. Posso deixar o jogo aqui? – Eu falei, enquanto ajeitava o jogo de volta na caixa e desligava a televisão.
Nozaki me encarou seriamente, sem dizer nada de princípio. Eram naqueles momentos que eu percebia a enorme semelhança dos irmãos. Muitos dos seus comportamentos e formas de reagir a uma certa situação eram iguais. A diferença é que Nozaki não me fazia entrar em parafuso.
— Mikoshiba, aconteceu alguma coisa entre você e o Mayu? – Ele perguntou, por fim.
Meu coração dá um salto, quase indo parar na minha boca. Não consigo manter meus olhos fixos nos de Nozaki.
— Eu já disse que não aconteceu nada.
— Vocês brigaram?
— O quê? Claro que não!
— Então o que foi?
— Eu só… Não sei. Eu entrei em pânico.
Nozaki franziu as sobrancelhas e não disse nada por longos segundos.
— Como assim?
— Ele… Ele me faz pensar em coisas, e não sei bem o que fazer com esses pensamentos. Sei lá. – As palavras se mostravam duzentas mil vezes mais vergonhosas depois que já haviam saído.
— Mikoshiba… – O seu tom de voz era sério. Olhei em sua direção, ansioso, um tanto arrependido de ter dito qualquer coisa. – Você poderia repetir? – Ele pediu, enquanto puxava uma folha de papel da mesa e um lápis.
Pisquei algumas vezes, não sabendo bem o que dizer de princípio.
— Não!
— Mas, Mikoshiba!
— Vamos dormir, okay?
Nozaki torceu o nariz e olhou para o outro lado, apoiando o papel na mesa e escrevendo alguma coisa rapidamente. Contive minha vontade de socá-lo.
— Nozaki!
— Okay, okay. Eu vou pegar uns cobertores.
— Acordo o Mayu ou deixo ele como está?
— Ele já está dormindo. Deixa ele assim mesmo. – E, dito isso, ele desapareceu casa adentro.
Sem saber o que fazer, olhei em minha volta. Levantando de meu lugar, apanhei as almofadas que haviam sido espalhadas pelo chão e as ajeitei de maneira confortável. Nozaki logo voltou, atirando um dos cobertores sobre mim assim que teve a chance. Eu me ajeitava para dormir enquanto ele cobria o irmão mais novo, que parecia estar preso em sono profundo. Foi quando Nozaki começou a se ajeitar no único sofá que havia na sala que voltei a me pronunciar.
— Você sabe que pode dormir na sua cama, né?
— É legal dormir na sala – ele disse, simplesmente.
Já deitado, virei para o outro lado. Eu nunca ia entender a cabeça do mangaká. Talvez fosse por educação, ou então gostasse de sentir a presença de outros a sua volta; ele morava sozinho, afinal. De qualquer forma, eu já havia há muito tempo cansado de tentar compreendê-lo.
— Boa noite.
— Boa noite.
Fechei os olhos, determinado a pegar no sono. O problema é que agora que eu tinha dado as costas a Nozaki, eu tinha Mayu novamente em meu campo de visão. O garoto dormia despreocupadamente, seu peito subindo e descendo em um ritmo lento. Enquanto isso, eu via os meus próprios batimentos acelerarem e uma pessoa surgir na minha mente. Apanhei o celular na mochila que não se encontrava longe. Não digitei nada. Limitei-me a reler conversas antigas e sorrir mais e mais a cada nova – antiga – frase.
A minha vontade de mandá-la uma mensagem era sufocante, mas contive-me. Era tarde, tarde demais para incomodá-la. Ela sempre dormia cedo. Não era a toa que ela tinha dormir como passatempo favorito. Ela me lembrava Mayu nesse ponto, e também na forma com que qualquer minima coisinha que ela dizia mexia consigo. Os dois eram muito parecidos.
Virei-me de forma a ter a cabeça enfiada na almofada. Eu sentia minha face arder e eu não sabia por causa de quem.
Eu amava Mayumayu; realmente amava. Eu nunca havia conhecido uma garota que me fizesse sentir tão a vontade. Eu conseguia ser eu mesmo, o que já era grande coisa. Todavia, nossa relação era baseada em mentiras, e eu me sentia mal por isso. Mas como contar a verdade? Como simplesmente dizer que não sou uma garota? Claro, pode ficar tudo bem. Mas e se não ficar? E se ela tiver um problema com isso?
Enquanto isso, não haviam segredos entre mim e Mayu. Eu também podia ser eu mesmo perto dele. Ele nada pensava de meu hobby, ou ao menos nada dizia. Ele os aceitava, apesar de, como hoje, achar certas coisas um tanto estranhas. Mas, sempre, ele perguntava e depois de ter recebido a sua resposta não mais tocava no assunto. Provavelmente ele pensava que não valia o esforço, mas eu gostava de pensar que era algo mais. Sua companhia era agradável, e seu silêncio reconfortante – quando as coisas não estavam tensas entre nós, obviamente. Entretanto, apesar de tudo isso, eu não conseguia definir a nossa relação como amizade. Era diferente.
Olhando novamente para meu celular, escondi-me sob os cobertores a fim de ter privacidade. Além disso, o que eu menos precisava no momento eram de sermões sobre usar o celular ao invés de dormir. Eu sabia que era tarde. Eu sabia que já passava da meia-noite. Porém, o que podia eu fazer se o sono não vinha? Eu tinha coisas demais na cabeça para simplesmente deixar tudo de lado; não que eu não quisesse, eu apenas não conseguia.
Eu estava cansado, mas não conseguia achar a tranquilidade necessária para adormecer.
Com os olhos novamente focados no celular, desviei minha atenção das mensagens de Mayumayu por um momento e dei uma olhada nas outras pessoas da minha lista de contatos. Havia uma boa quantidade de números, mas poucos que eu realmente me importasse, poucos que fossem realmente insubstituíveis.
O primeiro nome a me chamar a atenção foi o de Nozaki. Eu já o ajudava com seu manga há algum tempo e eramos bons amigos. Claro, às vezes, era meio difícil lidar com ele, mas ainda assim era uma companhia que eu não desejava perder. Mesmo com toda a sua esquisitisse, eu reconhecia o seu amor pelo seu trabalho e eu desejava ter algo assim para mim, um dia.
Logo abaixo vinha Sakura, a pobre garota que teve a infelicidade de se apaixonar por alguém como Nozaki. Mas eu torcia para que eles dessem certo, ou ao menos para que ele notasse de uma vez por todas os coraçõezinhos que apareciam nos olhos da ruiva toda vez que ela olha para ele. Sakura era uma pessoa doce e gentil, e certamente merecia mais do que um amor não correspondido.
O próximo nome a me chamar a atenção foi o da minha colega de classe e melhor amiga: Kashima. Era sempre divertido estar junto dela e assunto nunca nos faltava. Era meio chato o que estava acontecendo entre nós recentemente. Eu desejava que as coisas voltassem logo ao normal, mas eu sabia que não seria tão fácil.
Haviam ainda Hori, Wakamatsu e até Seo em minha lista de contatos. Foi quando cheguei no final da extensa listagem de nomes que dei falta de um em especial. Eu não tinha o número de Mayu, o que era estranho. Mesmo que eu não nos considere amigos, somos próximos. Ele até mesmo vinha lá em casa, às vezes. Claro, ele sempre me encontrou no portão da escola ou na casa do irmão, mas…
Aquilo era realmente esquisito e me incomodava de uma maneira indescritível.
Mayu também nunca pediu pelo meu número...
Olhei para o lado, vendo o moreno ainda adormecido. Ele se remexeu um pouco, a coberta tombando para o lado e deixando-o parcialmente descoberto. Quando voltei meus olhos de volta ao celular, eu continuava tão desconcertado quanto antes. Aquilo me incomodava mais do que deveria. Mas resolver isso não seria difícil. Eu só tinha que pedir o número dele. Fácil!
Olhei novamente na direção do mais novo. vendo-o se remexer mais uma vez. Era minha primeira vez vendo-o dormir e, sinceramente, acho que nunca o vi se movimentar tanto quando acordado. Talvez estivesse com frio, já que estava praticamente todo descoberto e a noite estava mais gelada do que havia sido previsto. Sem pensar duas vezes, me levantei e engatinhei até ele, cobrindo-o até as orelhas. Sorri um pouco, satisfeito com minha boa ação. Eu soltava o cobertor quando tive meu pulso subitamente agarrado. Contive minha vontade de gritar, não querendo acordar Nozaki.
— Mikoto? – Mayu perguntou, seus olhos entreabertos. Ele não me parecia estar totalmente desperto.
— Desculpe se te acordei. Você estava todo descoberto e pensei que podia estar com frio. Como a boa pessoa que sou, não pude deixar de cuidar de uma pessoa desamparada e… – As palavras saiam aos tropeços de minha boca.
— Mikoto-san... – Mayu suspirou e enfim me soltou; para meu alívio, porque ele pelo jeito não sabia conter sua força. – Você me assustou.
— Desculpe. Desculpe mesmo.
— É tarde.
— Eu sei... Eu devia estar dormindo, mas não está sendo fácil. Desculpe te acordar.
— Tudo bem.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, simplesmente olhando para a cara um do outro. Quando comecei a me sentir um tanto desconfortável com tudo aquilo, virei a cabeça.
— Eu acho que vou voltar pro meu lugar e… Sabe, dormir. Ou tentar. – Eu disse, já engatinhando de volta.
— Boa noite, Mikoto-san.
Virando minha cabeça a fim de encará-lo, pisquei algumas vezes e dei um leve sorriso.
— Boa noite, Mayu.
Cobri-me pelos cobertores, praticamente me escondendo. Eu podia ouvir Mayu mexer-se do outro lado, bem provavelmente se ajeitando para voltar a dormir. Eu, por outro lado, continuava sem sono. Na verdade, eu estava ainda mais acordado do que antes. Meu coração batia rápido, meu pulso doía e a voz grave de Mayu ressoava em minha cabeça.
Eu não sabia o que era tudo aquilo, mas nada daquilo me fazia bem. Ter meus pensamentos monopolizados dessa forma… Se fosse Mayumayu eu entenderia, entenderia perfeitamente. Faria sentido. Mas Mayu? Eu provavelmente só estava angustiado por não saber a forma certa de tratá-lo. Talvez eu não o veja como amigo porque não tenho seu telefone. Ele não está na lista! Sim, é isso! Quando eu pegar seu número, pela manhã, tudo estará em ordem.
Mas então por que não consigo realmente acreditar nisso?
Pergunto-me se Mayumayu saberia o que fazer. Eu queria tanto falar com ela que chegava a me dar coceira. Mas eu tinha esse direito? Não sendo sincero, enganando-a todos os dias durante os últimos meses… Amando-a.
Eu precisava dela. Eu precisava, de verdade, dela. E para tê-la “de verdade”, eu precisava começar esclarecendo tudo. Era hora de ser sincero e me preocupar depois.
Apanhei o celular, sabendo que eu estava cometendo um erro, mas eu estava cansado, e confuso, e Mayu não me sabia da cabeça e eu precisava dela para conversar sobre isso, porque eu não tinha ninguém mais para o cargo. Sakura? Nozaki? Eles não eram opções, não no momento.
.
[Mamiko ♡] é tarde eu sei disso mas tem algo que eu queria te dizer e isso seria que eu na vdd não sou bem qem vc acha q sou, mas oq importa é que me imçporto com vc e q gosto mr de vc e n quero q me odeie mas sou um cara
[Mamiko ♡] eu sei que a gente n se conhece mt bem mas eu realmns,h
[Mamiko ♡] realmente* queria q vc me dessse uma chance. eu to apaixonado por vc e queria uma chnace
[Mamiko ♡] chance*
[Mamiko ♡] desculpe pelo texto, eu tou meio que surtando aqui
[Mamiko ♡] ah mas eu nunca tive a intenção de te enganar
[Mamiko ♡] na vdd eu agi como sempre ajo qnd falava c vc
[Mamiko ♡] eu sou daquele jeito msm
[Mamiko ♡] o eu agr é q n esrá normal
[Mamiko ♡] e eu peço desculpas por isso
[Mamiko ♡] não era assim q eu queria q as coisas fossem, mas eu realmente preciso de uma resposta ヽ(゜ロ゜;)ノ Desculpe.
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Ciente de que eu não conseguiria uma resposta até de manhã, desliguei meu celular, a fim de evitar a tentação de vigiá-lo durante toda a madrugada. Larguei o aparelho em cima de minha mochila e voltei ao meu esconderijo sob as cobertas. Já passava da uma da manhã quando enfim tive o prazer de cair no sono.
No dia seguinte, quando acordei, a primeira coisa que fiz foi trazer meu celular para mais perto e ligá-lo. Quase automaticamente o senti vibrar em minhas mãos, recebendo as mensagens que haviam sido enviadas enquanto ele estava desligado. Olhei em volta, me vendo sozinho na sala. Permaneci com o aparelho em mãos por longos instantes, não sabendo se eu queria realmente saber o que dizia a resposta de Mayumayu. Eu não me arrependia, mas eu nunca havia me sentido tão ansioso em toda a minha vida. E, sinceramente, tenho coração de manteiga, e ele não foi feito para ser despedaçado. Suspirando, juntei toda minha coragem e fui olhar a caixa de entrada.
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[Mayumayu] Desculpe, não posso responder aos seus sentimentos. E quanto a parte de você ser um cara… Bem, eu já havia percebido há um tempo.
[Mamiko ♡] Oh! Hum… Ok! Eu entendo. ( ´△`) Mas se quiser mais tempo para pensar, não sei…
[Mayumayu] N
[Mayumayu] Desculpe
[Mayumayu] Eu amo uma pessoa. E há algum tempo.
[Mamiko ♡] Oh! Q lgl! Espero que dê tudo certo entre vcs! (*^▽^*) E, hmm… Vc ainda quer falar cmg? Pq, sério, se vc n quiser eu totalmente entendo. N precisa nem dizer nd.
[Mayumayu] Eu já disse que gosto das nossas conversas.
[Mamiko ♡] Obrigado! (^v^)Também gosto muito de falar com vc!!
[Mamiko ♡] E se me permite dizer, acho q n devia perder tanto tempo. Devia se arriscar e se confessar para essa pessoa, principalmente se esse “algum tempo” é algo, não sei, por volta de cinco meses? (⌒_⌒;)
[Mamiko ♡] Ah! Não é que eu ache que teria conseguido um sim se não tivesse enrolado tanto! Eu apenas acho ruim ficar se remoendo dessa maneira! Não acho que seja bom, nem pra mente, nem pro coração! Digo por experiência. E se quiser conversar…
[Mayumayu] Bgd. Eu acho que vc tem razão.
[Mayumayu] Talvez esteja realmente na hora…
[Mamiko ♡] Boa sorte!! (((o(*゚▽゚*)o)))
[Mamiko ♡] Qualquer coisa eu estou aqui!
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— Ah! Mikorin! Você finalmente acordou!
A voz alegre de Sakura inundou o quarto, trazendo-me de volta para a realidade. Abaixei o celular, mas sem soltá-lo. Eu não conseguia largar, não conseguia abrir mão. Fiquei em silêncio vendo a ruiva se aproximar, suas feições alegres logo se transformando noutras.
— Mikorin! – Ela se adiantou para o meu lado, acelerando os seus passos. – O que houve? Por que está chorando?
— Eu não estou chorando! É só que caiu um cisco no meu olho e… E meu peito dói. – Largando o celular no colo, levei as mãos aos olhos, que esfreguei com força a fim de conter as lágrimas que se acumulavam. Eu realmente não chorava, mas estava bem próximo disso. – Acho que meu coração foi despedaçado… – Falei, por fim.
Sakura levou as mãos aos lábios e puxou-me para perto de si. Era a primeira vez que eu me via tão perto de uma garota. Ela cheirava a flores, talvez… Frésia. Mas não era Sakura quem eu pensei que teria um dia em meus braços — apesar de, no caso, ser meio que o contrário.
— Eu me confessei, Sakura. – Ela passeava seus dedos pelas minhas costas. – Eu falei a verdade.
— Mikorin… Você vai ficar bem. Okay?
— Mas, Sakura…
— Talvez ela não fosse a pessoa pra você.
— Mas eu amo ela.
— Eu sei! Eu sei disso! De amor não correspondido eu entendo bem. – Ela falou, exasperando-se um pouco, apesar de ser perceptível que ela tentava se controlar. – Dói! Dói muito! Mas você vai ficar bem. Eu estou bem, não estou?
Permaneci em silêncio, apenas desfrutando do seu perfume. Era relaxante. Se ao menos ele pudesse levar minha dor embora.
— Você não pode chorar, Mikorin! Não se quiser que as coisas fiquem bem! Você tem que ficar firme. Ou vai deixar que esse seja o fim da amizade de vocês? Terminar é mais fácil do que começar, e você não vai querer perdê-la. Ela não é uma amiga importante?
— Sim, ela é.
— E se ela um dia se apaixonar, você não vai apoiá-la?
Eu nada disse. As palavras haviam entalado em minha garganta. Sakura se afastou e olhou-me diretamente nos olhos.
— Mikoshiba?
— Sim! Droga! Eu vou!
Fechei os olhos, sentindo meu peito doer por conta do coração despedaçado. Respirei fundo e, quando enfim tive a coragem de os abrir, o que me aguarda era uma ruiva muito satisfeita. Seu grandes olhos de um púrpura cintilante me encaravam atentamente. De repente, eu me sentia meio sem graça por todo o meu drama.
— Obrigado, Sakura.
— Não há por onde, Mikorin.
Sakura tinha um sorriso doce na face. Ela se levantou e eu a imitei, pondo-me em pé. De repente, um tanto sem graça, eu não sabia o que exatamente dizer. Por isso, permaneci em silêncio, sentindo-me desconfortável, o que nunca havia acontecido quando eu estava com Sakura. Olhei ao redor, estranhando o silêncio.
— Cadê o Nozaki? E o Mayu?
— Eles foram comprar algo para o almoço. Logo devem estar de volta.
— Almoço? Que horas são?
— Pouco depois do meio dia.
Pisquei algumas vezes, descrente de que eu dormira tanto assim. Eu pensava que era mais cedo! Se bem que isso explicava a minha barriga, que começava a se sentir irritada.
— Eles podiam ter me acordado... Você podia ter me acordado!
— Você parecia cansado. E Mayu disse que você não dormiu bem. Achamos que não tinha mal em deixar que dormisse.
— O Mayu disse… Hum...– Olhei para o chão, de maneira distraída.
Sakura se limitou a me observar, quieta, por alguns instantes. Seus lábios se mexiam de maneira inquieta, mostrando que ela tinha algo a dizer. Entretanto, acabei por me pronunciar antes que ela tivesse a chance.
— Sakura, você tem o número do Mayu?
— Do Mayu? – Ela parecia um tanto surpresa, e outro tanto confusa. – Não, eu não tenho.
— É, eu também não…
De volta ao silêncio, ninguém disse nada por longos segundos. A ruiva continuava a me olhar com feições ansiosas.
— Mikorin, o que o Mayu é para você?
— Eu… Eu não sei. – Respondi sinceramente. Levei uma mão ao meu cabelo já tão desgrenhado e o baguncei ainda mais.
— Sabe, eu acho que o Mayu – mas Sakura não teve chance de terminar de se pronunciar, pois a porta bateu e Nozaki e o irmão entraram em cena.
— Sakura. Mikoshiba. – Nozaki nos comprimentou. O mais novo limitou-se a nos fazer um leve aceno com a cabeça.
Troquei um olhar silencioso com a garota que permanecia ao meu lado, e que tinha feições semelhantes às minhas. Apesar de toda a ansiedade envolvida, estava claro que teríamos que deixar aquela conversa para mais tarde. Forçando um sorriso no rosto e fingindo que nada havia acontecido, nos aproximamos a fim de os dar uma mão.
Posicionando-me ao lado de Mayu, comecei a retirar as coisas da sacola. Nozaki e Sakura foram até a cozinha, a fim de buscar alguns pratos e talheres. Assim que ficamos sozinhos, Mayu parou o que fazia e olhou eu minha direção.
— Você está bem?
Pego de surpresa, respondi o que eu sabia ser a resposta correta, apesar de não ser nada sincera.
— Sim. Só cansado.
— Okay.
Ele nada mais disse. E em meio ao silêncio que surgiu, nada havia para distrair o meu coração, que voltou logo a doer. Droga.
.
...
.
— Okay, está na hora de ir. – Anunciei, levantando-me do meu lugar junto à mesa. – Vou deixar meu jogo ai, okay?
— Certo. – Nozaki respondeu, simplesmente, pondo-se de pé a fim de me acompanhar até a porta.
Mayu, que se encontrava distraído deitado no sofá, levantou a cabeça, curioso e, ao notar a movimentação, também seguiu atrás. Quando nos alcançou, já estávamos junto à porta.
— Eu também vou, irmão.
— Certo. E prepare-se para ouvir uma boas da nossa mãe.
O mais novo anuiu a cabeça e, sabendo que nosso caminho seria o mesmo por algum tempo, perguntei:
— Vamos?
Mayu anuiu a cabeça. Mesmo andando a passos lentos, não demorou até que a casa de Nozaki ficasse para trás. Era então somente eu e ele, caminhando lado a lado e inevitavelmente acompanhados de um silêncio angustiante.
.
...
.
O Sol quente incomodava, e muito. A sensação da roupa colando no corpo suado ainda era a primeira colocada na minha lista de razões para se odiar o verão. Todavia, naquele momento, havia algo que conseguia ser ainda mais incômodo. Eu desejava que Mayu parasse com seus olhares furtivos. Ele certamente não estava sendo nem um pouco discreto.
Mas, por outro lado, dessa forma eu podia me evitar que meus pensamentos fossem tomados por Mayumayu. Era uma distração; uma distração desconfortável, mas ainda uma distração. Toda vez que eu pensava nela, eu sentia um aperto me tomar o peito. Eu me perguntava quanto tempo mais toda essa dor duraria. Quanto mais eu teria que aguentar? Perante minha fraqueza, tudo que eu podia fazer era desejar que tudo voltasse ao normal o quanto antes. Eu queria minha vida pacífica e despreocupada de volta.
Na verdade, o que eu queria mesmo era que as coisas tivessem dado certo… Meus pensamentos estavam longes de serem otimistas. Mayu ainda me encarava, agora mais descaradamente, seus lábios ainda lacrados. De repente, ele parou. Mecanicamente, imitei-o. Agora, trocávamos olhares ansiosos, esperando por seja lá o que estivesse por vir.
— Suco?
Ergui uma sobrancelha, mas logo compreendi a mensagem.
— É… Esta quente. Tem uma loja ali adiante. Podemos fazer uma pausa.
Nos encaminhamos à uma mureta, onde Mayu me deixou para ir atrás dos refrescos. Limitei-me a observar enquanto suas costas se tornavam mais e mais distantes. Mayu… Eu ainda não sabia exatamente como o tratar. Amigos? Colegas? A ideia dele ser apenas o “irmão mais novo do Nozaki” não mais me parecia certa àquela altura.
Preciso pegar o seu número. Não que eu acreditasse que aquela seria a solução dos meus problemas. Eu apenas gostava de pensar que seria.
Quando o moreno tornou a aparecer no meu campo de visão, ele vinha com duas garrafas de suco nas mãos. Quando me alcançou, estendeu uma para mim. Sorri, enquanto pegava a bebida.
— Obrigado.
— Nada.
Abri e dei um grande gole, apreciando a sensação do líquido gelado descendo pela minha garganta seca. O alívio foi praticamente imediato. Eu nem havia percebido que estava com tanta sede. Mayu bebia da sua em goles menores, aproveitando cada gota. Ele ainda tinhas seus olhos virados para mim, e aquilo estava começando a me deixar desconfortável…
Olhei para o lado e puxei meu celular do bolso, vendo aquela como uma boa oportunidade para nos livrar daquele silêncio desconfortável.
— Hum! Percebi que não tenho seu número. Mayu, me passa seu celular.
Ele não respondeu de imediato.
— Não.
Virei imediatamente em sua direção, duvidando de meus ouvidos, mas sabendo que não havia acontecido qualquer engano.
— Por que não?!
Mas o que se seguiu foi o silêncio. Mayu agora sequer olhava em minha direção. Observei enquanto ele acabava com o que restava da sua bebida. Mesmo depois, ele continuou em silêncio. Por dentro, eu via minhas emoções ferverem. Tudo naquela situação era constrangedor, todavia, o sentimento que mais crescia em mim não era a vergonha, mas a raiva. Eu simplesmente não conseguia evitar de me sentir irritado. Era como se toda a dor de cabeça que eu tenho tido por causa dele tivesse sido à toa. Aparentemente, eu não passava de um “amigo do meu irmão mais velho”, e isso não me agradava.
Sem pensar por mais sequer um segundo, eu me levantei. Porém, foi eu me por de pé que Mayu me agarrou a mão com força. Quando olhei para baixo, vi-o com expressões que eu não esperava. Ele parecia agitado, nervoso. Seus lábios se encontravam entreabertos, e tudo que eu pude fazer foi esperar por palavras que não vieram.
— Pode me soltar?
— Mikoto-san, eu…
— Se tem alguma coisa pra falar, que fale de uma vez. – Resmunguei, impaciente.
Mayu se levantou e vi meu olhar subir. Sempre que nos encontrávamos ele me parecia mais alto. Ele unia seus lábios com força e parecia mais ansioso que nunca.
— Eu gosto de você.
Tudo que pude fazer foi encará-lo, sem saber exatamente a reação apropriada para aquela situação.
— O quê? – Eu tinha as sobrancelhas franzidas, mas não era raiva que eu sentia. Meu rosto ardia, e eu não conseguia conter o constrangimento que coloria meu rosto de um tom róseo. – Isso não tem graça.
— Não é brincadeira. – Mayu respondeu, suas palavras firmes. Seus olhos me fitavam, constrangidos, mas cheio de determinação. – Eu realmente gosto de você, Mikoto-san.
O que se seguiu foi um longo e desconfortável silêncio. Mas o que eu podia fazer?! Eu não sabia o que responder, o que fazer. Tudo que eu mais queria naquele momento era poder desaparecer e não mais ter que enfrentar aquela situação.
Meu coração batia acelerado. Eu não mais conseguia olhar em sua direção. Sua mão ainda segurava a minha, com força, permitindo-me sentir o seu calor. Nada daquilo era um sonho. Aquilo era real, cem por cento real. O que fazer? O que fazer?!
Puxei minha mão e ele enfim me soltou, e assim eu me vi livre. Abri meus lábios e permiti que as palavras saíssem, antes mesmo de ter certeza de que elas eram realmente a resposta correta. Eu apenas queria um final para tudo aquilo. E, querendo ou não, eu o devia uma resposta; caso contrário, seria injusto.
— Eu – as palavras falham. Vi-me tendo de recomeçar. Meu coração corria acelerado, e meu nervosismo batia no teto. – Eu gosto de uma outra pessoa. – As palavras saem, por fim.
Silêncio. Não olhei para Mayu, porque eu não queria ver com que feições ele me olhava. Tudo que pude fazer foi correr, correr para bem longe, desejando mais que tudo sumir da face da Terra. Quando olhei uma última vez em sua direção, rapidamente, por cima do ombro, vi-o encarando a própria mão. Ele então se virou e também partiu.
Nem mesmo depois de chegar em casa, nem mesmo na solidão de meu quarto, consegui fazer com que meu coração se acalmasse. Kaori rondou a minha volta e miou, talvez se perguntando o que havia de errado comigo. Todavia, eu tampouco tinha a resposta.
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