Os passos ressoavam cada vez mais distantes, ecoando o barulho de galhos sendo quebrados e folhas secas sendo esmagadas na floresta. Ainda assim, ela sequer se atrevia a respirar, apurando os ouvidos na intenção de distinguir os sons com precisão.

Só quando ouviu os passos refrearem e retornar pelo caminho por aonde vieram, parando de vir ao seu encalço, que Claudine se permitiu um suspiro de alívio e, de imediato, se arrependeu, pela pontada que causou em seu braço, o qual pressionava com força como se com isso pudesse conter a dor. Praguejou no silêncio de sua mente e esperou até ter certeza de que não retornariam – aproveitando para se recuperar da corrida desenfreada – antes de continuar seu caminho.

Não que tivesse um caminho a seguir. Mas não podia retornar.

Seguiu a esmo para dentro da floresta, as copas altas das árvores proporcionando sombra e proteção do sol a pino. Estava sozinha – ou era o que pensava até que um som vindo além dos arbustos a alarmou.

— Quem está aí?! — a voz imperativa ressoou forte, perdendo-se por entre a vegetação.

Estava ficando louca? Alucinando por conta da fraqueza que lhe acometia? Poderia jogar uma pedra ou um galho na direção para afugentar quem o que quer que fosse, mas acalmou-se ao pensar que não deveria passar de um animal. As pessoas do vilarejo não viriam tão longe em busca dela. E se fosse mesmo um animal, era sua chance de capturar uma presa e retomar suas forças.

Se sua voz não tivesse feito a fonte do som fugir, não iria se exaltar mais. O caminhar de Claudine era silencioso, como se seus pés mal tocassem o chão enquanto avançava cuidadosamente na direção que ouviu o barulho. O som não parecia distante e, à medida que seguia, o cheiro ficava mais forte.

Sangue.

Quem, ou que quer que fosse, estava ferido. E não podia ter ido longe.

Afastando uma folhagem mais espessa que bloqueava sua visão, pode ver as gotas de sangue formando um caminho até uma grande árvore, cuja sombra impediu que qualquer outra crescesse em seu entorno.

O aroma era inebriante. Nunca havia sentido nada parecido. E não vinha de um animal como pensara a princípio: uma bela mulher se encontrava ferida junto às raízes grossas da árvore. Sua mão se apoiava no tronco, o corpo estava tenso, como se quisesse fugir.

Uma reação usual à sua presença. Sabia que ela poderia correr a qualquer instante. Mas percebeu que ela não conseguiria ir longe: havia uma ferida aberta em sua coxa, que sangrava exposta através da abertura de suas vestimentas, um quimono com belas estampas de tom roxo. Embora em alerta, sua expressão grave, que em nada combinava com um rosto tão belo, ela não se movia. Devia ser esperta, afinal sabia a situação em que estava. A ferida não parecia grave, porém a tornava uma presa fácil visto que deveria atrapalhá-la a caminhar.

Uma força maior guiava seus passos na direção daquela mulher. O cheiro daquele sangue a atraía, não havia dor, não havia cansaço, apenas a vontade de se aproximar. Em transe, abaixou-se junto a ela, lambendo as presas que cresciam mediante a visão de sangue fresco, as pupilas se afinando e o sorriso de canto se formando. Tinha certeza de que aquele seria o melhor sangue que já havia provado, só pelo aroma doce que fazia com que salivasse. Guiou as pontas dos dedos até a região, apertando a lateral do ferimento, vendo como o líquido espesso, escarlate, escorria mais intenso.

Ao mesmo tempo, um ganido contido, assim como o corpo da mulher se encolhendo, fez com que rapidamente cessasse o toque, como se houvesse levado um choque.

Ergueu os olhos para fitá-la. Seus olhos tinham uma cor peculiar, diferente das pessoas que costumava encontrar naquele país. Eram quase como se pudessem ver através de si.

Havia a assustado? Claro que sim.

Engolindo a seco, Claudine cerrou o punho com força, quebrando o contato visual.

— Espere um pouco.

Não tinha qualquer necessidade de pedir, afinal aquela mulher não iria a lugar algum. Porém precisava desviar sua atenção, manter-se ocupada, mesmo que apenas falando, pois caso contrário acabaria a machucando. O cheiro do sangue nunca foi tão tentador como agora. Havia a hipnotizado. Por isso, precisava tomar cuidado.

Os gestos eram mecânicos, porém teve força de vontade suficiente para retirar o cantil que trazia na bolsa pendurada a tiracolo, esparramando a água de dentro do recipiente sobre a ferida para lavá-la, engolindo a seco ao ver o sangue se esvaindo junto com a água. Não havia muito consigo, mas arrancou uma das mangas da capa que usava, utilizando o lado que estava limpo para improvisar tiras e enfaixar a ferida.

Não é como se fosse grande coisa. Já estava arruinado depois do ataque que sofrera.

— Pronto.

Anunciou, ficando de pé assim que terminou. Já estava ficando desconfortável com aqueles olhos indecifráveis a observando tão de perto, sem falar nada.

— O que está fazendo por aqui? Onde você mora?

A bandagem, mesmo que improvisada, ajudava a bloquear o cheiro do sangue, mesmo que ele ainda estivesse impresso em seu olfato. Viu a mulher acompanhar seus gestos enquanto se levantava, mas não dizia nada, mesmo após as perguntas.

Irritante.

Havia acabado de ajudá-la. Ela não deveria demonstrar um pouco mais de gratidão?!

— Eu não vou fazer nada. Me diga de uma vez onde mora, vou te ajudar a chegar lá e nunca mais nos veremos!

Soava mais impaciente do que gostaria, mesmo que não pudesse culpar a mulher: quem gostaria de ser ajudada por um monstro? Mas seus nervos estavam à flor da pele e ver quando ela fechou os olhos, desviando o rosto com descaso, levou Claudine a grunhir.

— Agradeço, mas não preciso de ajuda para isso.

O tom era suave e delicado. Soava como uma melodia. Mas não impediu Claudine de bater o pé, exasperada.

— Ótimo! Quero ver você chegar a algum lugar nesse estado! Passar bem!

Em um rompante, deu as costas à mulher, voltando a se embrenhar na mata.