When the Strawberry meets the Sky
23 The shadow census
O relatório repousava aberto sobre a mesa de metal polido.
O silêncio do Gijutsukaihatsu Kyoku* era interrompido apenas pelo riscar constante de uma caneta sobre papel e pelo zumbido grave dos monitores espirituais ao fundo.
Kurotsuchi Mayuri não parecia interessado na narrativa dos acontecimentos políticos que faziam o Conselho dos Capitães tremer. Seus olhos dourados, frios e cirúrgicos, percorriam exclusivamente os dados brutos.
Ele ignorava os termos "novo membro da família Shiba" e "filho de Shiba Kūkaku", deslizando as unhas longas sobre as páginas sem dar a mínima para a linhagem caída da nobreza.
Sua mão parou no terço inferior da terceira folha.
"...energia espiritual fragmentada e dispersa..."
Mayuri parou. Lêu de novo. E então mais uma vez.
O capitão da 12ª Divisão inclinou a cabeça levemente, soltando um ruído baixo na garganta. Não era algo teatral para impressionar os subordinados; era uma vocalização íntima, quase involuntária.
— Fragmentada...
Murmurou, folheando a página seguinte.
— Dispersa...
Mais uma página.
— Drenada continuamente.
O silêncio retornou ao laboratório. Mayuri batia a ponta do dedo indicador ritmicamente contra a superfície da mesa metálica.
— E, ainda assim...
A boca pintada curvou-se nos cantos.
— Viva.
Akon, que permanecia a dois passos de distância ajustando as leituras de um visor portátil, ergueu os olhos sem alterar a expressão apática.
— Presidente... Acredita que o objeto esteja mantendo essa alma artificialmente estável?
Mayuri nem respondeu de imediato. Levantou-se da cadeira com um roçar ruidoso de tecido e caminhou até a grande lousa de vidro no centro da sala. Pegou o giz e desenhou rapidamente um círculo perfeito. Logo ao lado, desenhou outro. Ligou os dois por uma linha reta e firme.
— Errado.
Ele fez um risco rápido cortando a linha.
— Se fosse apenas um recipiente...
Outro risco, estilhaçando a forma geométrica.
— ...ela já teria rompido sob a própria pressão interna.
Silêncio. E então Mayuri abaixou a mão, a ponta do giz tocando o centro do primeiro círculo.
— O objeto não contém a alma...
Ele faz uma pausa.
— Ele conversa com ela.
Akon piscou, o ritmo de suas anotações desacelerando por um milésimo de segundo. As ramificações de uma interação bilateral entre um amuleto e um fluxo espiritual desordenado abriam portas que a 12ª Divisão jamais havia catalogado.
Mayuri virou-se de costas para a lousa, a ordem saindo curta e cortante:
— Akon, selecione oito pesquisadores.
Akon prontamente anotou no dispositivo.
— Instrumentação portátil. Três barreiras de observação. Sensores passivos. Nada de contato direto.
— Entendido — confirmou o assistente. — Devemos abordar Shiba Sora se o indivíduo deixar o perímetro da propriedade?
Mayuri olhou para ele por cima do ombro, os olhos fixos como se tivesse acabado de ouvir uma estupidez sem precedentes.
— Claro que não.
Ele fechou o relatório copiado de Soi Fong com um estalo seco.
— Vamos observar um fenômeno.
Uma mudança brusca.
Nada de metal, luzes esterilizadas ou telas flutuantes. Apenas vento, madeira podre e árvores antigas.
Nos limites externos do 80º Distrito do Rukongai Ocidental, o ar úmido da tarde trazia o cheiro de folha queimada e terra batida. Um acampamento improvisado começava a tomar forma na clareira fechada pela vegetação densa.
— Nunca pensei que o Presidente nos mandaria para os últimos distritos.
Reclamou um dos pesquisadores da 12ª Divisão, ajustando as tiras de couro de uma caixa de transporte pesada.
— Esse lugar cheira a mofo.
— Reclame menos e feche o circuito.
Respondeu o segundo, ajoelhado junto às raízes de um carvalho secular, enterrando pequenos bastões metálicos dotados de cristais de sekkiseki** na terra úmida.
A operação era cirúrgica e extremamente organizada. Dispositivos de rastreamento passivo eram cravados no solo; outros, camuflados nos galhos altos. Um terceiro Shinigami desenhava selos invisíveis de isolamento no ar para garantir que a presença da equipe não fosse notada pelas almas locais.
Até que pequenas anomalias começaram a acontecer.
Bip.
O pesquisador junto à mesa de mapas olhou para o monitor preso ao pulso. O indicador do sensor número quatro havia oscilado. Nenhuma leitura de reiatsu anormal. Apenas um solavanco de frequência.
Ele piscou, ajustou o mostrador e continuou o trabalho.
Alguns minutos se passaram.
Bip.
Agora no sensor instalado a cinquenta metros ao norte. Uma assinatura extremamente fraca. Tão sutil que parecia o roçar de um inseto espiritual na barreira. Apenas um segundo... e desapareceu.
— Estranho...
Murmurou o homem, ajeitando os óculos.
— Algum animal?
Perguntou o colega, sem interromper a calibração de um receptor de freqüência.
— Talvez... Algum cão selvagem do distrito baixo.
Voltaram ao trabalho.
Mais dez minutos e outro sensor ativou. Desta vez, dois ao mesmo tempo — em direções diametralmente opostas. A leitura durou a fração de um piscar de olhos antes de evaporar completamente no ar calmo da mata.
O primeiro pesquisador parou de digitar. Um calafrio incômodo desceu por sua nuca.
— Não gosto disso.
O colega soltou uma risada curta, empurrando o equipamento para o centro da mesa.
— Você está vendo coisas. O Rukongai Oeste é um deserto de indigentes, não há nada aqui que...
...
Na mata densa, o silêncio era absoluto.
Nenhuma folha se movia fora do ritmo do vento. Nenhum galho estalava. Entre as sombras copiosas de dois galhos trançados, a dez metros acima do solo, um par de olhos castanhos observava a movimentação no acampamento. Os contornos marcados e atentos acompanhavam cada movimento dos homens de branco.
A garota fechou os olhos por um segundo e expirou o ar de seus pulmões de forma lenta, contínua. A pouca assinatura espiritual que seu corpo emitia evaporou completamente. Ela tornou-se apenas mais uma sombra entre as árvores.
Mais adiante, o ar oscilou. Dois vultos trajando quimonos escuros moveram-se pela copa das árvores sem produzir um único ruído. Depois três. A comunicação entre eles não utilizava palavras; apenas sinais discretos com os dedos no ar. Tão rápido quanto surgiram, eles se desdobraram pela periferia do acampamento, cercando os limites do perímetro.
...
O pesquisador finalmente sentiu o peso do ambiente.
— Esperem...
Ele ergueu a mão, encarando o painel totalmente apagado. Levantou a cabeça devagar, a garganta seca.
— Alguém está...
THUNK!
Uma adaga de lâmina curva e fosca atravessou o mapa de couro preso à mesa de madeira, cravando-se até a metade do cabo a milímetros dos dedos do pesquisador.
Ninguém foi atingido. Apenas o mapa fora perfurado.
Silêncio absoluto.
Amarrado ao pomo da arma, um pedaço de tecido negro tremulava com o vento. Sem brasões. Sem símbolos da nobreza. Sem divisões.
— Invasores!
Gritou um dos Shinigami, a mão disparando para a bainha da Zanpakutō.
Os oito homens puxaram suas lâminas seladas em sincronia, assumindo posturas de combate defensivas. Mas já era tarde demais.
Uma a uma, sem o som de incantações de Kidō ou explosões de energia, as lanternas espirituais dispostas ao redor do acampamento apagaram-se. Não por falha técnica, mas como se uma presença invisível estivesse simplesmente caminhando entre elas e cortando seus fluxos de ar com a ponta de uma lâmina.
A escuridão da mata avançou sobre o pequeno perímetro iluminado.
Então, vinda do alto da copa das árvores, surgiu uma voz. Calma. Ritmada. Sem qualquer tom de hesitação ou raiva:
— A Divisão Oeste não permitirá postos avançados da Seireitei em território do Rukongai.
O silêncio engoliu o acampamento novamente. Os pesquisadores giraram sobre os próprios calcanhares, tentando localizar a origem do som, mas o vento parecia mover a voz para todas as direções ao mesmo tempo.
— Recolham seus equipamentos...
Um passo leve soou sobre a grama úmida. Da penumbra das árvores, a silhueta feminina emergiu devagar. Os cabelos castanhos presos firmemente em um rabo-de-cavalo alto, as braçadeiras escuras cobrindo os antebraços e uma katana parcialmente embainhada na lateral do corpo.
— ...ou nós faremos isso por vocês.
Apenas o som de metal colidindo e gritos abafados cortou a noite nos minutos seguintes.
A luta não durou. Não era um duelo de esgrimistas; era uma varredura tática efetuada por agentes que conheciam cada raiz e cada declive daquela terra.
Nos corredores frios do Instituto de Pesquisa e Tecnologia na Seireitei, as portas duplas do laboratório de Mayuri se abriram.
Um dos pesquisadores enviados à missão cambaleou para dentro, a roupa branca rasgada e manchada de fuligem, o ombro esquerdo ensanguentado. Ele segurava contra o peito apenas um pedaço de papel parcialmente queimado e amassado.
Akon interceptou o homem antes que ele caísse no chão, pegando o documento de suas mãos trêmulas e entregando-o diretamente ao Presidente do Instituto.
Mayuri pegou o papel rasgado. O texto continha apenas uma frase escrita às pressas sob o impacto do ataque:
"Não era um único alvo. Há uma organização no Rukongai."
Kurotsuchi Mayuri encarou o papel amassado por longos segundos. Lentamente, a boca pintada abriu-se em um sorriso largo e perturbador — o primeiro sorriso real em dias.
Ele não estava irritado pela perda do equipamento ou de seus subordinados. Pelo contrário: sua hipótese inicial acabara de se provar pequena demais para a realidade.
— Omoshiroi...
Murmurou Mayuri, a voz grave vibrando no silêncio do laboratório.
— Então, não é apenas um Shiba.
E ele pegou o relatório original de Soi Fong sobre a mesa o fechando com um único movimento definitivo. Nemu, pouco atrás dele, moveu-se minimamente.
— Não encontrei um espécime. Encontrei um hábitat.
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