O portal se abriu atrás dela com o som baixo de energia espiritual se dissipando no ar e Rukia deu o primeiro passo para fora do Senkaimon, sentindo imediatamente a diferença.

O Mundo Humano sempre fora estranho para ela. Barulhento. Quente demais. Vivo demais. Mesmo depois de tudo o que vivera ali, ainda existia uma sensação constante de excesso — luzes, vozes, cheiros, movimento. A Soul Society não possuía aquele tipo de caos.

Mas daquela vez… Algo estava errado.

O vento noturno atravessou a rua vazia, fazendo alguns papéis deslizarem pelo asfalto. Ao longe, ela conseguia ouvir o som de carros, televisão, pessoas conversando em apartamentos iluminados. Tudo parecia normal.

E, ainda assim…

Rukia parou, seu olhar se erguendo lentamente.

A pressão espiritual no ar estava instável. Não intensa, mas distorcida. Como uma superfície calma escondendo algo muito maior logo abaixo.

Sua mão deslizou instintivamente até o cabo de Sode no Shirayuki, presa à cintura.

“Isso não é Hollow comum…”

Ela fechou os olhos por um instante, concentrando-se. Havia vários rastros espirituais misturados: humanos, resíduos de Hollow abatidos... Shinigami Substituto.

Ichigo.

A presença espiritual dele era impossível de confundir ou de passar batido.

Mas havia outras. Duas. E aquelas presenças fizeram os olhos de Rukia se abrirem imediatamente.

Elas eram pesadas. Densas. Estranhas. Não eram exatamente como Hollow. Nem como Shinigami. Era algo... No meio disso. Algo errado.

O ar pareceu vibrar ao redor dela por um breve instante. Então... Uma explosão. Distante, mas poderosa o bastante para fazer as estruturas físicas ao redor estremecerem levemente.

Rukia virou o rosto na direção da pressão espiritual e seu cenho se franziu.

Ichigo, definitivamente.

Sem hesitar mais, ela desapareceu em um passo de shunpo.


O impacto abriu um sulco enorme no chão.

Ichigo deslizou vários metros para trás antes de conseguir parar, a sola das sandálias de palha incrivelmente intactas mesmo após rasgar o concreto enquanto tentava recuperar o equilíbrio. Seu braço inteiro latejava, como se Zangetsu de repente tivesse ficado muito pesada.

O cara estranho que se apresentara como Yammy abriu um sorriso grotesco.

— Só isso? — zombou, girando os ombros enormes. — Achei que você fosse mais divertido, Shinigami Substituto!

Ichigo cerrou os dentes.

Aquilo era absurdo. O sujeito era lento, corpulento e sem técnica nenhuma. E, ainda assim… Cada golpe parecia uma explosão.

Mais atrás, Orihime ajudava Chad a se levantar enquanto tentava esconder o nervosismo na própria voz.

— C-Chad-kun… Você está bem?

— Tsc… Já tive dias melhores…

O sangramento dele, porém, indicava outra situação.

O outro cara estranho, o que se apresentara como Ulquiorra, observava tudo em silêncio. Os olhos incrivelmente verdes e inexpressivos analisavam cada detalhe sem qualquer resquício de emoção.

Ichigo havia notado o buraco no centro do peito de cada um, mas se recusava a crer que fossem Hollow. Hollow não tinham rosto — a não ser que você lhes arrancasse a máscara — e, ainda assim, não deveriam possuir rostos e corpos tão humanos. Era bizarro: tudo neles apontava para Hollow, mas eles se pareciam demais com... Shinigami!

Os olhos de Ulquiorra se moveram discretamente para o lado e Ichigo conseguiu captar: uma nova presença espiritual.

Pequena.

Controlada.

Rápida.

Ulquiorra ergueu levemente o olhar e somente disse:

— Hum.

Yammy avançou outra vez, erguendo o braço gigantesco para esmagá-lo contra o chão.

Ichigo tentou mover o corpo, mas estava lento. Droga...

Então, uma figura surgiu entre os dois.

Hadō nº 4: Byakurai!

O clarão azul atravessou a noite. O disparo atingiu o braço de Yammy antes do impacto, desviando parcialmente a trajetória do golpe e criando uma explosão que sacudiu a rua.

Ichigo arregalou os olhos.

A silhueta diante dele era pequena. Familiar. E usava o uniforme negro da Gotei 13. Ele levou irritantes segundos para conseguir falar.

— …Rukia?

Ela não olhou para trás. Os olhos permaneciam fixos nos dois inimigos à frente.

— Você está atrasado demais para ficar caído no chão, Ichigo.

A voz era a mesma. Mas havia algo diferente. Mais firme. Mais seguro.

Então Yammy rosnou irritado.

— Báa, outro Shinigami Substituto?!

Rukia finalmente ergueu um pouco o rosto e Ichigo conseguiu perceber para onde o olhar de Ulquiorra agora se direcionava: o distintivo de madeira preso ao braço dela.

...

Rukia, Tenente?!

O olhar verde permaneceu sobre a insígnia por um instante antes de voltar para ela.

— Entendo… — murmurou. — Você é a segunda oficial da 13ª Divisão.

Ichigo ainda se sentia congelado.

— Espera… Você… Isso é um crachá de tenente, não é?!

— Podemos conversar depois — respondeu Rukia, puxando lentamente a Zanpakutō. — Porque, infelizmente, eu acabei de chegar.

Yammy gargalhou.

— HAH?! Você acha que isso muda alguma coisa, pequena?!

A pressão espiritual dele explodiu outra vez. O chão tremeu.

Orihime recuou instintivamente.

Ulquiorra não parecia nem um pouco intimidado com a presença de um Shinigami tenente. Pelo contrário, ele parecia ainda mais perceptivo e treinado. A confiança parecia absoluta, o que, para Ichigo, era um péssimo sinal.

Atrás de todos, outra presença espiritual surgiu.

Depois outra.

Duas presenças absurdamente refinadas. Antigas. Conhecidas.

E então, pela primeira vez desde que apareceram no Mundo Humano, a expressão de Ulquiorra mudou... Mas ainda quase que imperceptivelmente.

Yammy virou o rosto.

— Hãa?

Urahara Kisuke surgiu sobre um poste, abanando o leque casualmente.

— Aaah… Isso parece um pouco problemático.

E, ao lado dele, parada sobre os fios elétricos como se aquilo fosse perfeitamente normal, Yoruichi cruzou os braços.

— Vocês estão fazendo bastante bagunça.

O silêncio durou um instante, então Ulquiorra falou:

— Yammy. Vamos nos retirar por hora.

— HAAAH?! — Yammy imediatamente virou o rosto, irritado. — Tá brincando?! Eu ainda nem—...

— Nossa missão não era combate prolongado.

O tom continuava calmo. Frio. Absoluto. Os olhos gélidos passaram por

Ichigo, Rukia, Urahara, e finalmente Yoruichi. Como se calculassem. Como se memorizassem.

— Já obtivemos informação relevante suficiente.

Yammy rangeu os dentes, claramente irritado, mas não discutiu outra vez. Ulquiorra abriu uma Garganta e, antes de atravessá-la, porém, ele olhou diretamente para Ichigo.

— Kurosaki Ichigo.

A voz baixa atravessou o silêncio da rua destruída.

— Você é ainda mais imperfeito do que Aizen-sama imaginava.

Então, desapareceram.

O silêncio que restou pareceu pesado demais depois daquilo.

Ichigo ficou parado por alguns segundos, tentando processar tudo, então finalmente virou o rosto para Rukia e encarou novamente o distintivo de tenente preso ao braço dela.

— Você... Virou tenente mesmo?

Rukia soltou um pequeno suspiro cansado, mas abriu um sorriso pequeno.

— Sim.

E desviou o olhar para o céu escuro acima deles.

O silêncio da rua destruída durou apenas até Urahara Kisuke bater o leque fechado contra o próprio ombro.

— Bem, então… — disse ele com leveza quase irritante. — Acho melhor continuarmos essa conversa em um lugar menos… Explosivo.

Yoruichi já havia saltado dos fios elétricos.

— Chad precisa de cuidados. E Orihime está quase tremendo até desmontar.

— E-Eu? Eu não estou… — Orihime tentou rebater automaticamente, antes de acabar admitindo que realmente estava tremendo.

Chad soltou um pequeno suspiro pelo nariz e um singelo:

— Acho que fui um pouco esmagado…

Como se estar estendido ao chão e sangrando da forma como estava não fosse algo preocupante.

Então Ichigo viu Rukia lançar um último olhar para o local onde a Garganta havia desaparecido. A pressão espiritual residual ainda parecia impregnar o ar como algo tóxico. Ela apertou discretamente os dedos ao redor da bainha da Zanpakutō, provavelmente pensando no que exatamente Aizen estava tramando agora, e no fim apenas acompanhou o grupo rumo ao Urahara Shop.


Ichigo não olhava exatamente para ela, mas para o distintivo de tenente preso ao braço dela.

— …

Rukia estreitou os olhos.

— O quê?

Ichigo piscou.

— O quê?

— Por que está me encarando?

— Não estou te encarando.

Está. É um crachá de tenente, como pode ver.

— E este é o emblema de Shinigami Substituto, como pode ver — respondeu Ichigo exibindo o pequeno amuleto de caveira.

Ela olhou para o distintivo por um instante.

— Eu vejo. Horrível.

— O quê?!

— Definitivamente, não foi algo desenvolvido pela Associação de Mulheres Shinigami.

— Eu não sou uma mulher Shinigami!

— Por isso não consegue perceber detalhes finos.

Ichigo franziu o cenho.

— Que “detalhes finos” um amuleto de combate deveria ter?!

— Detalhes que você não compreenderia.

Ele tentou rebater, mas não conseguiu pensar em algo suficientemente efetivo, então apenas bufou e virou o rosto de lado.

— Então... Como é que foi isso? Essa... Promoção.

Rukia permaneceu em silêncio por um instante.

Ichigo conhecia aquela pausa: ela estava decidindo o quanto explicaria.

— Capitão Ukitake recomendou o meu nome — respondeu por fim. — E tanto a Central quanto o Comandante aprovaram.

Ichigo piscou.

— É fácil assim ser promovido?

Ela estremeceu.

— Fácil? Como “fácil”?? Não foi nada fácil! — ela suspirou para fazer uma pausa, e então prosseguiu: — A 13ª Divisão precisava urgentemente de um tenente e eu já possuía Shikai despertada. Além disso, já havia atuado em campo inúmeras vezes.

Ele digeriu a informação por alguns instantes, então perguntou:

— Shikai, é...? Como você nunca me falou nada a respeito disso?

— Porque eu estava impossibilitada, oras! Lembra? Você roubou todos os meus poderes de Shinigami. Não adiantaria nada falar sobre Sode no Shirayuki.

Ichigo abriu a boca para responder, então parou. A memória veio rápido demais: a chuva muito fina, a rua escura. Rukia caída no chão, ferida, respirando com dificuldade, e então:

“Atravesse a Zanpakutō através do meu peito.”

Na época, aquilo parecera insanidade completa. Ichigo lembrava do calor da espada. Da pressão espiritual explodindo dentro do próprio corpo. Da sensação violenta e absurda de algo sendo despejado nele sem muito cuidado.

Os olhos dele se moveram involuntariamente para Rukia.

Pequena. Sentada ali como se nada tivesse acontecido. Como se aquela noite tivesse sido apenas o começo de uma longa sequência de problemas irritantes.

Mas não tinha sido só isso: ela havia apostado tudo nele. Mesmo sem conhecê-lo. Mesmo sendo perigoso. Mesmo podendo destruir a própria vida por aquilo.

Ichigo desviou o olhar antes que o silêncio começasse a ficar estranho demais.

— “Sode no Shirayuki”.

Foi tudo o que conseguiu dizer.

Rukia pareceu perceber imediatamente para onde os pensamentos dele tinham ido, porque também ficou em silêncio.

Ichigo sabia que, enquanto isso: Orihime observava os dois discretamente, Yoruichi abria um pequeno sorriso de canto, Urahara apenas mantinha o leque diante do rosto, e Chad tentava fingir fazer parte da mobília.

Então Ichigo coçou a nuca, claramente desconfortável.

— Legal.

— Legal?

— É... É um nome maneiro. Combina com você.

Rukia corou e Ichigo imediatamente ficou confuso. Havia dito algo demais?

— É... É considerada a mais bela das Zanpakutō de gelo...

Agora, ele corou. E desviou o olhar quase no mesmo instante.

Gelo.

Fazia sentido.

Não como o gelo brutal que congelava tudo pelo caminho, como o de Tōshirō. “Sode no Shirayuki” soava diferente disso.

Parecia mais... Sofisticado. Mais suave. Mais bonito... Mas não de um jeito menos perigoso.

Ele conseguia imaginar a neve cobrindo o chão durante uma luta e a temperatura caindo gradualmente até o simples ato de respirar começar a se tornar estranho...

De alguma forma, aquilo combinava com Rukia.

Fria à primeira vista.

Controlada.

Elegante quando queria.

E muito capaz de surpreender quando provocada.

Ichigo deu de ombros.

— É. Combina com você.

E desviou o olhar para não vê-la enrubescer de novo, nem permitir a si mesmo fazer o mesmo.

— Mas não fica convencida, Tenente.


O cheiro de chá quente e ervas medicinais havia tomado completamente o interior do Urahara Shop.

Depois da destruição da rua, do peso absurdo da pressão espiritual daqueles dois estranhos e da tensão que ainda parecia impregnada no ar, o silêncio relativamente tranquilo da loja quase parecia irreal.

Quase.

Chad estava sentado próximo à parede enquanto Tessai terminava de envolver parte de seu tronco com faixas limpas. Orihime permanecia ao lado dele, ajudando como podia e claramente mais calma agora, embora ainda segurasse a xícara de chá com as duas mãos como se precisasse daquilo para manter o corpo funcionando normalmente. No mais, ela parecia mais leve e animada.

Ichigo estava jogado de qualquer jeito perto da mesa baixa da sala principal.

Do outro lado dela, Rukia permanecia sentada com uma postura definitivamente muito mais composta do que a dele, o crachá de tenente ainda preso ao braço. O que continuava irritantemente estranho de olhar.

Ichigo desviou os olhos antes que ela percebesse de novo.

Yoruichi estava encostada em uma das colunas de madeira da sala, braços cruzados, aparentemente relaxada. Urahara, por outro lado, permanecia sentado abanando o leque lentamente, embora o olhar escondido sob a sombra do chapéu estivesse atento demais para alguém realmente tranquilo.

Foi Ichigo quem rompeu o silêncio primeiro:

— Então… Aqueles caras eram Hollow, certo?

Rukia imediatamente franziu o cenho.

— Sim. E não.

— Isso ajudou muito...

— Eu estou sendo séria.

Ela apoiou a xícara na mesa.

— Existem registros antigos sobre algo chamado “Arrancar”. Hollow que removeram as próprias máscaras e obtiveram poderes semelhantes aos de Shinigami.

Orihime arregalou os olhos.

— Remover… A máscara?

— Então isso é realmente possível? — Ichigo perguntou imediatamente, mas de maneira bem automática.

Rukia hesitou. Aquilo sozinho já era uma resposta ruim o bastante.

— Não deveria ser.

O ambiente pareceu ficar um pouco mais pesado.

Ichigo lembrou do buraco no peito deles. Dos rostos bem humanos. Da forma como Ulquiorra observava tudo como se estivesse classificando insetos. Então franziu o cenho.

— Eles falaram o nome do Aizen como se trabalhassem pra ele.

Urahara finalmente abriu a boca.

— Porque provavelmente trabalham.

A leveza habitual da voz dele não desaparecera completamente… Mas diminuíra.

Yoruichi descruzou os braços.

— Aizen já possuía interesse nos limites entre Hollow e Shinigami muito antes de abandonar a Soul Society.

— Então aquilo é culpa dele — concluiu Ichigo.

— Muito provavelmente — respondeu Urahara. — E, honestamente, eu preferia estar errado.

Ichigo apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Tsc…

A irritação no rosto dele era evidente. Porque aquilo nunca acabava. Sempre surgia alguma coisa pior.

Primeiro, Hollow.

Depois, Shinigami.

Depois, Capitães traidores.

Agora… Seja lá o que aqueles caras eram.

Rukia observou discretamente a expressão dele antes de voltar os olhos para a própria xícara.

— O comportamento deles também foi estranho.

— Estranho como? — perguntou Chad.

— Eles recuaram cedo demais.

Aquilo fez Urahara sorrir minimamente por trás do leque.

— Ah… Então você percebeu.

Rukia assentiu.

— Eles não pareciam feridos o suficiente para desistir.

— Porque provavelmente não estavam — respondeu Yoruichi.

Orihime apertou um pouco mais os dedos ao redor da xícara e perguntou:

— Então… Por que foram embora?

Urahara fechou o leque devagar.

— Porque eles já conseguiram o que queriam.

Silêncio.

Ichigo ergueu os olhos imediatamente.

— E o que eles queriam?

O olhar de Urahara passou brevemente por ele.

— Você.

A resposta caiu seca no ambiente.

Ichigo ficou em silêncio.

Rukia estreitou discretamente os olhos. Ela provavelmente já suspeitava daquilo.

— Aquele Ulquiorra observava o Kurosaki-kun com muito interesse — disse Orihime. — Mesmo durante a luta. Ele claramente não estava interessado em matar a mim ou ao Chad-kun.

Ichigo bufou irritado.

— Ótimo. Então agora eu sou oficialmente o alvo favorito de todo mundo.

— Você já era alvo antes — Yoruichi comentou casualmente.

— Obrigado por lembrar disso, Yoruichi-san.

Orihime soltou uma pequena risada nervosa.

O clima teria afundado ainda mais se Rukia não tivesse finalmente suspirado e dito:

— Bem… Não era exatamente por isso que vim.

Ichigo virou o rosto.

— Hum?

Rukia pareceu organizar os pensamentos por um instante antes de responder:

— Existe outra situação acontecendo na Soul Society.

— Outra? — Ichigo imediatamente rebateu. — Vocês não descansam nunca?

— O que está dizendo? Não foi planejado!

— Eu sei!

Rukia ignorou a reclamação.

— Shihōin Yūshirō desapareceu.

Silêncio.

E todos imediatamente voltaram os rostos para Yoruichi.

Ichigo piscou uma vez.

— Quem?

— Shihōin Yūshirō — repetiu Rukia. — O irmão mais novo de Shihōin Yoruichi.

Ele virou lentamente o rosto para a mulher encostada na coluna.

— Fala sério, você tem um irmão?!

Yoruichi abriu um sorriso.

— Que reação rude é essa?

— Você nunca falou nem mesmo que tinha uma família.

— Você nunca perguntou.

— Por qual motivo eu perguntaria? Você era um gato, lembra?

Orihime arregalou os olhos.

— Yoruichi-san tem... Um irmãozinho…???

— “Irmãozinho” é uma forma irritante de dizer isso — comentou Yoruichi.

— Espera, espera — Ichigo interrompeu, apontando de um lado para o outro. — Então existe outro gato ninja correndo por aí??

— Yūshirō-sama não é um “gato ninja”! — Rukia respondeu. — Mas desapareceu da Seireitei há alguns dias.

Ichigo ainda parecia preso na parte do “irmão”.

— E você veio pro Mundo Humano pra procurar ele?

Rukia assentiu.

— Os Tenentes acreditam que ele possa ter fugido para cá, em busca da irmã.

Ichigo apoiou o rosto na mão.

— Isso parece estranhamente específico...

— Yūshirō-sama sempre demonstrou interesse em conhecer a sua irmã mais velha — explicou Rukia. — Mas... Fugir do Kizokugai é algo que não deveria... Acontecer com frequência.

Os olhos dela deslizaram brevemente para Yoruichi e depois para Urahara, que imediatamente fingiu não perceber.

— Yare yare… Que acusação terrível!

— Porque claramente foi uma coincidência outro Shihōin também ter desaparecido há cerca de cem anos... — respondeu Rukia secamente.

Ichigo olhou de novo para Yoruichi.

— Então esse seu irmão tá solto no Mundo Humano agora?

Ela permaneceu em silêncio por um instante muito curto, mas suficiente para Rukia perceber.

E talvez Urahara também.

Quando ela respondeu, a voz estava casual outra vez:

— Se ele realmente veio pra cá… Então provavelmente está perdido.

— Isso foi cruel.

— Foi honesto.

Orihime inclinou levemente a cabeça.

— Yoruichi-san está preocupada?

— Hum?

Mas Yoruichi sorriu. Pequeno, preguiçoso... E difícil de ler.

— Claro que estou. Ele ainda é o meu irmãozinho.

No entanto, pela primeira vez desde o início daquela pequena reunião, o sorriso não alcançou completamente os olhos dela.