When the Strawberry meets the Sky
25 Show me your teeth
O silêncio do perímetro dos últimos distritos não tinha nada de calmaria. Para Ikkaku, aquele era o tipo exato de quietude pesada de quem está prendendo a respiração antes de dar o bote.
Ele farejou o ar úmido e notou de imediato: galhos rompidos pelo chão com cortes limpos demais para terem sido feitos por animais, terra remexida onde os sensores metálicos do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento haviam sido arrancados sem a menor delicadeza e aquele odor ralo e irritante de sekkiseki esmagado. Ikkaku desacelerou o passo, sentindo a nuca pinicar. Aquele formigamento familiar nunca mentia quando havia aço por perto.
Yumichika ainda deu mais dois passos largos antes de notar que ele havia parado.
— O que foi?
Ikkaku não respondeu. Seus olhos estreitaram-se sob a sombra vermelha, varrendo a folhagem fechada até fixarem-se na penumbra junto ao solo.
— Tem alguém aqui.
Ela não surgiu de trás de nenhum tronco e nem desceu das copas como um espião afobado. Para a surpresa de Ikkaku, a garota parecia estar ali desde sempre, perfeitamente integrada à madeira úmida, sentada sobre a curva baixa de uma raiz exposta. Braços apoiados sobre os joelhos, bainha escura presa à cintura sem afetação. Cabelos castanhos presos no alto, franja desalinhada e um par de olhos grandes e bem delineados que já mediam os dois antes mesmo de cruzarem a linha de árvores.
Ela desceu da raiz com um salto curto, amortecendo o peso na ponta dos pés sem fazer estalar uma única pedra no cascalho.
Ikkaku deu um passo à frente, tomando a dianteira com a naturalidade de quem fareja briga:
— Então você é uma das pessoas que atacaram os pesquisadores.
— Sou.
— Vai tentar nos impedir de passar?
— Sim.
— Mesmo sabendo quem somos?
Ele viu os olhos dela descerem pelo shihakushō dos dois, notando a ausência de insígnias de tenente ou capitão, mas registrando a postura folgada e equilibrada demais para meros recrutas em território hostil.
— Sei o suficiente.
Um sorriso largo e afiado rasgou o rosto de Ikkaku.
— Você sabe usar isso na cintura?
— Sei.
— Ótimo!
O som do aço de Ikkaku deixando a bainha ecoou limpo na clareira.
— Ikkaku...
Yumichika advertiu atrás dele, o tom entediado escondendo a atenção redobrada.
— O quê?
— Você decidiu isso sozinho.
— Ela está no caminho.
— Minha reclamação não era sobre ela estar no caminho. Era sobre a sua falta de modos ao não perguntar o nome da dama antes de puxar a espada.
A garota não deu tempo para piadas. Ikkaku observou-a assumir uma base esquisita: corpo rebaixado, centro de gravidade colado ao chão e a ponta da espada apontada diagonalmente para baixo, fechando a linha central sem expor os ombros. Não era a postura clássica da Academia Shinō. Não havia arrogância aristocrática ali.
Ele franziu o cenho, achando aquilo curioso:
— Postura esquisita... Onde aprendeu isso?
Ela não respondeu. Avançou sem alarde, sem estardalhaço de passos ou poeira levantada, simplesmente deslizando para dentro do ângulo cego do ombro direito dele.
Ikkaku desceu a espada com tudo, querendo testar a resistência da guarda dela de primeira, mas a lâmina da garota não bateu de frente: ela usou o plano lateral do próprio aço para defletir a força bruta, girou o pulso com uma rapidez absurda e soltou um corte ascendente direto no tendão do antebraço dele.
Ikkaku puxou o braço no puro reflexo. O ar assobiou onde sua carne estava um milissegundo atrás. A precisão do contra-ataque era cirúrgica.
“Boa!”
O sangue dele começou a esquentar. Ele mandou três estocadas retas em sequência rápida, aumentando a cadência.
A garota não tentou bloquear nenhuma. Ela cedeu meio passo a cada golpe, lendo a mecânica do ombro dele e dançando no ritmo até a terceira estocada terminar. No instante em que o peso do corpo de Ikkaku foi à frente para recuperar a base, ela infiltrou-se por dentro da guarda como fumaça.
A lâmina fria dela parou a dois dedos da sua jugular.
O mundo pareceu emudecer na clareira.
Ikkaku sentiu o arrepio gelado subir pela espinha. Atrás dele, até o abanar do leque de Yumichika cessou.
Os olhos castanhos dela não tinham deboche nem vaidade; apenas a constatação fria do espaço conquistado. Ela recuou um passo rápido antes que ele pudesse tentar prender o pulso dela no contragolpe.
Ikkaku levou o polegar à lateral do pescoço. Sentiu a linha fina e quente de sangue onde o aço havia raspado de leve.
Uma gargalhada curta e empolgada estourou no peito dele:
— Você é boa, garota! Pouca gente consegue colocar a lâmina tão perto sem perder o braço!
— Obrigada.
— Agora vamos lutar a sério!
A atmosfera pesou de verdade. Ikkaku não liberou a Shikai, mas dobrou a pressão física e a força bruta dos golpes. Cada descida de sua lâmina estalava com violência seca no ar, partindo galhos caídos e abrindo sulcos na terra. Ele viu a garota começar a sentir o impacto nos ossos do antebraço a cada desvio forçado. Aquele estilo econômico dela era afiado, mas segurar o tranco físico contínuo de um veterano da 11ª Divisão cobrava um preço alto em oxigênio.
— Ikkaku...
A voz de Yumichika veio da margem da clareira, analítica.
— Não deixe que ela dite o ritmo. Ela está usando a sua própria inércia contra você.
Ikkaku notou a garota lançar um olhar rápido de esguelha para o parceiro. Ficou claro para ele: ela havia percebido que Yumichika não estava apenas assistindo, mas decodificando cada micro-ajuste de seus pés e a geometria dos desvios.
Sentindo a vantagem, Ikkaku prensou-a contra o tronco de um pinheiro grosso. Sem espaço para recuo linear, ele desferiu um golpe horizontal largo para partir a madeira e a cintura dela no mesmo arco.
Ela dobrou os joelhos no último instante, escorregou por baixo do corte sentindo as lascas de casca voarem sobre sua cabeça e girou por trás dele, apontando o fio reto contra as costas desprotegidas de Ikkaku.
Ikkaku girou o corpo com uma velocidade brutal, travando a lâmina dela no cabo da própria espada com um baque seco. O impacto fez a terra sob suas sandálias ceder em poeira.
Ele encarou os olhos castanhos dela a centímetros de distância. Havia suor descendo pela têmpora da garota, mas nenhuma hesitação.
“Ela não queria me cortar... Queria me empurrar para longe da trilha.”
Ikkaku empurrou-a para longe usando o peso do tronco e saltou para trás, o peito subindo e descendo com pura adrenalina.
— Nada mal para quem luta sem brasão! — gritou ele, girando a espada na mão.
Antes que pudesse avançar de novo para terminar a diversão, Yumichika deu um passo à frente, cruzando seu caminho com elegância irritante e colocando a mão espalmada no peito de Ikkaku.
— Posso?
Ikkaku olhou de lado, bufando de raiva:
— Quer lutar com ela? Por quê? O combate mal começou a esquentar!
Yumichika abriu um leque com um estalo suave:
— Porque ela tem um estilo bonito. E porque você está sendo bruto demais e ainda não conseguiu deitá-la no chão.
— Seu desgraçado...
— E, também, convenhamos: ela é linda. Seria um desperdício deixá-la em pedaços antes de vermos até onde essa técnica vai.
Ikkaku viu a garota puxar o ar com força pela primeira vez, a mão disfarçando a pontada de cansaço nas costelas. Ela olhou para os dois e entendeu o óbvio: encarar a dupla junta seria o fim imediato, mas aceitar o revezamento mantinha a chance de um duelo individual e ganhava tempo precioso para o território.
— Vem.
Ela limpava o suor da testa com o dorso da braçadeira.
Ikkaku cruzou os braços contra o tronco de uma árvore e ficou assistindo, percebendo a mudança total no ritmo do combate.
Yumichika não despejava peso bruto como ele. Ele lutava com uma fluidez quase teatral, esgrimindo com a precisão geométrica do aço refinado. A garota tentou encaixar o mesmo padrão de desvio que usou contra a força de Ikkaku, mas Yumichika não entregava o corpo nos golpes: fintava, empurrava a ponta da lâmina dela para fora da linha central com toques sutis da guarda e recompunha a postura com facilidade insultante.
— Sem excessos.
Comentava Yumichika enquanto aparava uma investida baixa com a ponta da bainha.
— É raro ver alguém do Rukongai com tanta disciplina nas mãos. Quem ensinou você a manejar o aço dessa forma?
— Menos conversa.
A garota tentou atacar a linha baixa com uma finta no tornozelo, mas Ikkaku viu o desgaste do primeiro embate cobrar a conta: ela atrasou o desvio por uma fração de segundo na troca de base. A ponta da lâmina de Yumichika abriu um rasgo no ombro esquerdo dela, e o sangue manchou o quimono escuro.
Yumichika aproveitou a brecha e avançou um passo largo, prendendo a espada principal dela contra o chão com uma trava de lâminas limpa e rente aos nós dos dedos.
— Fim da linha, eu acho — disse Yumichika, calmo demais, aproximando o rosto para encerrar o embate.
Click.
O som metálico seco fez Ikkaku arregalar os olhos.
Uma lâmina curta e fosca saltou de dentro da braçadeira direita da garota direto para a mão livre. Ela girou o pulso num arco ascendente mirando diretamente os olhos de Yumichika.
Yumichika puxou a cabeça para trás no puro susto. A adaga passou raspando seus cílios, cortando alguns fios de cabelo no ar com um zumbido agudo.
O parceiro de Ikkaku recuou quatro passos apressados, a mão tocando a testa assustada, encarando a lâmina oculta com um misto de choque genuíno e puro fascínio estético.
— Entendo. Então você ainda tinha dentes escondidos...
A garota recompôs-se rapidamente, mas Ikkaku notou que o braço esquerdo dela tremia pelo esforço contínuo e a respiração estava curta demais para manter aquele ritmo. Ela olhou para Yumichika, perfeitamente de pé, e depois olhou de soslaio para ele, encostado na árvore, inteiro e pronto para entrar de novo.
Ikkaku sabia que ela já havia feito a matemática: não dava para vencer dois oficiais veteranos no desgaste físico.
Com um movimento seco do pulso esquerdo, ela atirou a adaga curta na direção do peito de Yumichika. Ele rebateu a arma com o dorso da espada com facilidade, mas aquela fração de segundo era tudo o que ela queria: a mão direita da garota esmagou uma cápsula escura contra as pedras do chão.
A fumaça acinzentada e espessa de sekkiseki com pólvora explodiu, cegando a visão, irritando os olhos e abafando qualquer rastro de reiatsu no raio de vinte metros.
Ikkaku desembainhou num reflexo e correu para dentro da névoa:
— Ela correu!
Yumichika esticou o braço, travando o ombro de Ikkaku com força antes que ele sumisse na mata fechada.
— Deixe, Ikkaku.
— A gente alcança ela em dois minutos! Ela tá sangrando!
Yumichika apenas olhou para a própria manga rasgada, para os fios de cabelo cortados no chão e para os pingos sutis de sangue nas folhas da trilha à frente.
— O objetivo dela era segurar o perímetro e nos cansar. Se entrarmos nessa mata densa atrás de alguém que luta nas sombras e conhece cada raiz do terreno, estaremos jogando o jogo dela.
Ikkaku bufou, sentindo a adrenalina baixar devagar enquanto a fumaça se dissipava entre os galhos. Embainhou a espada com um estalo seco e deixou o sorriso orgulhoso voltar ao rosto, olhando na direção onde a garota havia desaparecido:
— Garota durona. Da próxima vez, não deixo você entrar na minha frente.
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