When skies are grey
1 When skies are grey
Notas iniciais
No abismo do Tártaro, criaturas brotam de um solo infértil; mais especificamente, feito de cacos de vidro; como se fossem cogumelos radioativos, suficientemente mortais pelo simples toque da pele. Haviam também demônios, que espalhavam seu rancor no ar, envenenando as escuridões primordiais com seus gritos enfurecidos e seus gemidos miseráveis.
Afinal, de onde surgiu todo esse mal; Mal este cujo nem mesmo titãs podem combater?
Nico tinha a resposta. Ele havia visto muito claramente a linha tênue entre loucura e sanidade desaparecer. Realidade era apenas uma utopia divina. E isto por acaso, numa terra de deuses e monstros, era importante?
As trevas são frutos de uma única árvore, semeada com ódio primitivo, regada com as piores maldições que o homem já testemunhou. Desde os tempos antigos, ela vem enraizando-se nas profundezas do Mundo Inferior, distribuindo o caos pela terra e dando origem a belas orquídeas vermelhas, tingidas com o sangue das guerras provocadas pela discórdia plantada por Éris.
Durante as noites no Acampamento Meio-Sangue, Nico ficava refletindo. Seria possível acabar com a fome do mundo? Acabar com as carnificinas e massacres? E quanto às enfermidades e contágios? Nico acreditava que sim. De acordo com as histórias ancestrais, os males dos humanos podiam ser finalizados com o corte da velha madeira musguenta do Tártaro. Porém seria suicídio caminhar solitário até as trevas abissais, levando em consideração apenas algumas palavras esquecidas em pergaminhos gregos. Iria o garoto sobreviver?
Wow, Nico não tinha ESSA resposta! Mas ele sabia que devia tentar. Ele foi ao Inferno várias vezes e voltou, literalmente. Ele era o grande filho de Hades, uma pequena demonstração da pouca, porém suficiente, luz que o deus poderia oferecer à Terra. Nada poderia impedí-lo.
Bom... Havia Solace.
Nico odiava-se por ter que botá-lo em perigo; contudo, estava ciente de que se quisesse viver uma segunda vez no abismo, deveria deixar ser guiado por uma luz, capaz de abrir caminhos até pelos campos mais obscuros.
Ele precisava do filho de Apolo.
Nico queria estar com Will Solace e passar todos os minutos de seu tempo ali com ele.
Todavia, ele soube de imediato que essa era uma péssima ideia quando as queres; espíritos diabólicos da morte violenta, das doenças e das infecções; os atacaram de surpresa. As morcegas velhacas davam rasantes no ar ácido, respiração do próprio Tártaro, e mostravam seus dentes laminados e suas garras pontiagudas.
- Will, corra pra longe delas! Você não pode deixar que elas sequer encostem em você! — Nico penteava os bagunçados cabelos negros com os dedos, afastando a franja já encharcada de suor dos olhos escuros, os quais quebravam a serenidade do garoto e perpetuavam sua expressão séria e ressentida, resultado de antigas paixões não correspondidas, pensava Will.
- Ahh, você não pode simplesmente mandar elas irem embora, como aquelas outras três raposas-voadoras que atormentavam Tântalo?
- Hey, elas não são Erínias! E além do mais, se eu pudesse comandá-las, você não acha que eu já não teria feito e nos tirado dessa? — Solace ouviu a resposta e fez biquinho de teimosia, como aquelas crianças mimadas de filmes. Fitou o outro com aqueles olhos azuis encantadores, fazendo a mente de Nico virar uma gelatina efervescente. Em meio aos tropeços, o loiro tentou correr.
Quatro queres lançaram-se em direção à Nico. Péssima decisão. A espada de ferro estígio atravessou os corpos espectrais, que explodiram em uma nuvem de pó amarelo. O rei dos fantasmas não era mais o garotinho perdido pelos corredores sem fim do Labirinto de Dédalo. Ele havia se tornado um jovem forte e calculista. Os seus músculos agora podiam ser facilmente notados por baixo das habituais camisetas pretas e tinha finalmente cedido a cortar o cabelo com maior frequência. Isso certamente agradava Will. Este, ao contrário do filho de Hades, estava muito mais magro e até anêmico. Durante seus dias de tortura no Tártaro, ele não comia, nem bebia nada — Além de fogo do Rio Aqueronte, a contragosto. — Nem dormia, deixando-o com olheiras dignas de um vampiro. Achava irônico a princípio. O garoto pensava que os dois haviam estar trocando de corpo, ou algo do gênero. O moreno parecia literalmente se fortalecer a cada passo a caminho da árvore maldita, enquanto o outro, apenas sentia-se mais morto e dependente do calor de um abraço. Nico sentia falta do leve bronzeado de seu par, porém achava-o suficientemente atraente desse jeito. Solace não precisava ser um deus grego — Nota a irônia? — para conquistar o seu complicado coração. Os fios de cabelo eram dourados e delicadamente ondulados, formando cachinhos nas pontas; caracóis que mais pareciam chifrinhos; enquanto outras mechas jogavam-se desleixadamente pelo seu rosto. Os anéis roxos e avermelhados contornavam os olhos vivamente azuis do filho de Apolo, agora movido pela preocupação e pela dolorosa falta de sono, que provocava nele fortes dores de cabeça.
Acertando demônios como se fossem mosquitos pegos por uma raquete elétrica, Di Angelo acabou distraindo-se, deixando o companheiro à própria sorte. As arai curiosas, personificações das maldições, filhas de Nix, guinchavam insultos e investiram contra o loiro, como se estivessem sendo atraídas pelo cheiro de sangue fresco.
Espera... Sangue?!
O moreno desesperou-se ao ver a camiseta laranja manchada do outro ensopada de um líquido rubro. Desarmado, de olhos vidrados e à mercê da fúria do Tártaro, punindo-os por sua ousadia, Solace lutava como podia contra os monstros fantasmagóricos. “A garra que agarra, a bocarra que urra”, ele recitou mentalmente. Porém, lamentando-se, esta não era uma boa hora para poesias. “É o fim?”.
- Não! — Nico gritou em um acesso de ira. — Vocês não vão nem tocar no meu namorado!
Ele avançou como um animal selvagem e enterrou sua lâmina negra na garganta de uma doença ambulante e decapitou outra velha arai. Will assistia sua fúria com curiosidade, mas ainda com muito temor. Porém a palavra “namorado” continuava a ecoar em sua mente. Os dois haviam discutido há algumas semanas atrás. O Anjo — Apelido fofo dado por Jason, o filho de Júpiter do Acampamento Meio-Sangue. — havia deixado bem claro que não existia nada entre eles. Nada além de alguns beijos carinhosos durante as sessões de cinema à noite. Nada além da gostosa sensação de borboletas no estômago. Nada além de um calor provocante que percorria-lhe o corpo sempre que via-o sorrir, de modo suave e discreto. Nada além de... É, definitivamente, não havia absolutamente nada. Nico transformou a última diaba-morcega em uma névoa negra, que logo foi absorvida pelo ferro estígio, e correu para junto do amigo. As gotas de sangue ainda pingavam em poças vermelhas, as quais encharcavam tanto a camiseta como a bermuda havaina azul, de flores hippies também vermelhas, e brancas do garoto. O líquido viscoso escurecia de seu tom grená e tornava-se pequenos lagos de pura sombra projetados no chão de vidro do Tártaro.
- Will, você pode me ouvir? — O moreno observava as fraturas expostas com um par de grandes olhos chorosos, negros como ônix. — Você é o curandeiro aqui, e não eu! — Sua mão magra e gelada enconstou na testa do loiro, roçando sobre sua pele branca medindo sua temperatura. Nico começou a desesperar-se. Ele esfriava muito rapidamente. O calor, abandonava aquele corpo com tal velocidade quanto o extermínio de sua vida, vítima de uma violenta infecção. — Você não devia estar assim, não devia estar a morrer; mas “Ah, deuses!”, por favor, diga que isso não é... Arghh! Me escuta: se você morrer, eu vou te m... Hunf! Deixa pra lá. Tá aí ainda?
- N... Ni...
- Eu estou aqui. Não fale nada, apenas descanse. Vou cuidar de você, tá? Apenas não morra — Nico parou o escândalo e suspirou aliviado.
- Tá. — Will fez um biquinho teimoso e fitou o colega com seu olhar amedrontado. Embora tivesse dificuldade para falar, sua mente estava quase explodindo. De dor. E também de amor. Será que Nico realmente se importava com ele ou será que a ideia de trazê-lo para aquele lugar, o Tártaro, era só um mero conforto para não o deixar desprotegido? Soava egoísta pensar assim. O loiro queria definitivamente acreditar que seu parceiro o amava, contudo, a expressão fria no rosto do moreno o fazia pensar que toda aquela gentileza fosse tratada apenas como obrigação. — Nam-namorad...
- Você tá sangrando pra caramba. — Ralhou, com visível alarde. — Você quer mesmo discutir isso AGORA?
- É que... E-eu amo... Você.
Nico sentiu como se uma flecha invisível estivesse sendo cravada entre suas costelas e tentou recuar, porém as mãos delicadas de Solace roçaram sobre sua pele e ele obrigou a si mesmo a ficar ali.
- Will, vai ficar tudo bem. — Este cortou a barra da camiseta preta com um caco de vidro de ponta lascada, no chão, e improvisou um pequeno pano e uma faixa como as que Solace utilizava na enfermaria do acampamento. Ele molhou o pedaço de pano no fogo líquido do Rio Aqueronte e limpou os filetes de sangue que saim dos ferimentos abertos, nem parecendo importar-se com o fato de estar usando uma camisa pela metade.
- Filho de Hades. N-Não minta. Vo-você sente quando a hora chega. Não sente?
Os olhos de Nico estavam carregados de água. As lágrimas não escorriam pelo rosto, e sim pela alma. Algo ali dentro sabia que o tempo estava correndo com grande velocidade. “Os minutos passam-se diferentes, aqui no Tártaro. Vivemos pela eternidade, e não nos damos aos luxo de ter relógios cuco ou coisas do tipo”, foi o que dissera o titã amigo Japeto — Ou Bob, como preferia. — O garoto logo lembrou que a alma do titã também havia sido desintegrada, reduzida a apenas uma vida sem sentido durante o infinito da humanidade.
- Por favor, não me faça chorar. Você sabe que eu não reajo muito bem.
- Hunf. Você... Você me ama, Nico? Você me ama? — O loiro delirava em seus pensamentos, deixando levar-se pelo som da própria voz, melosa, como se estivesse gostando de repetir a frase. Ele queria ser amado. Será que é assim tão difícil? Will fechou seus olhos e viajou para dentro da própria mente, atendo-se à doces memórias. Enfim, recuperou o controle da fala e desengasgou as palavras presas na garganta, acumuladas pela mágoa.
- Você lembra, não lembra? Quando eu te convidei para vir comigo até o Havaí, para passar as férias de verão. Quando eu tentei te ensinar a surfar. Quando você ficou igual um tomate por causa dos raios do sol...
- E-eu lembro. — Nico corou, como se estivesse recordando-se de algo muito constrangedor na viagem. E de fato era. — Durante a noite, eu andava de bicicleta, enquanto você me seguia atrás, a pé. Eu nunca me diverti tanto! E na hora de dormir...
- ...Nós tivemos que dividir a mesma cama. Achei que você surtaria, porém nem pareceu se incomodar com a ideia. — Solace sorriu de lado, com os olhos ainda fechados; mentalizando a lembrança e buscando nos pensamentos a sensação de aconchegar-se no amasso carinhoso do outro, de deliciar-se com o aroma de crisântemos dos cabelos de Nico. — Você dormiu à beirada, lembra? Enquanto eu deitei-me encostado na parede.
- V-você dormiu... Agarrado... Ao seu macaquinho de pelúcia. — O moreno, por um segundo, teve Síndrome do Avestruz e quis enterrar sua cara na areia, de tanta vergonha. — O único pr-problema... É que você não tinha nenhum macaco de pelúcia. E-eu...
- Pois é, muita coisa aconteceu naquele dia. — Will pareceu se divertir e deu bobamente uma risada baixa. Ele se calou, enquanto Nico deslizava seus dedos pelo rosto pálido do loiro, analisando a textura flácida de sua pele.
- E teve aquele dia, quando nós estávamos comendo sundae com calda de chocolate e alimentando os pombos da praça, e começou a chover de repente. — O moreno aconchegou-se deitado ao lado do namorado, contando histórias de um passado aparentemente feliz. — Eu estava morrendo de frio e a chuva martelava sobre as nossas cabeças. Pensei que eu virar um picolé ambulante, porém você puxou-me para perto e... M-me beijou. Seus lábios eram açucarados como chocolate, e... Hum... Maracujá. Eu queria apenas mais e mais, sendo que as grossas gotas de água maltratando meu corpo não mais importavam, comparadas ao conforto do teu abraço. Você me deixou quente. E não foi só daquela vez. Você curou minhas feridas e me aqueceu quando minha vida era apenas gelada e sem um sentido. Como pode? Como conseguiu enxergar a alma que vivia repousando no fundo desse poço de depressão?
Nico esperava por uma resposta agradável, uma palavra bonita, ou um simples sorriso, contudo, Will estava desacordado. Talvez estivesse dormindo. Talvez estivesse mort... Não. O outro se recusava a aceitar isso.
- Pessoas me abandonaram, durante toda a minha vida. Bianca me deixou. Meu pai me deixou. E Percy... Ele me deixou também. Você vai ser igual eles? Parabéns, seu idiota! Está conseguindo fazer-me chorar. — Nico debruçou-se sobre o peito do loiro e caiu em prantos. Os monstros deviam estar a espreita, rindo de sua tremenda covardia. Ele não dava a mínima. Queria que todos se fodessem. — Pensei que podia lutar contra quem eu era de verdade. Que erro. Pensei que se apenas te ignorasse, eu ia parar de me sentir tão vulnerável. Outro erro. Quer saber o que eu penso? Eu devia ter combatido meus medos e ter te dado mais valor, Will! Como eu posso explicar esse sentimento que nutro por você desde quando você enconstou suas mãos quentes nas minhas, frias e esqueléticas, prometendo que cuidaria de mim e me protegeria dos perigos? Isso foi tão clichê, e ao mesmo tempo tão fofo! Desculpe-me, por ter te deixado à minha sombra, alimentando suas esperanças, para então esmaga-las como um inseto incoveniente. E no final, você nunca desistiu de me procurar e de investir para cima de mim. É difícil dizer em voz alta, mas saiba que todo esse seu esforço valeu a pena. Porque eu te amo, Solace. E sempre irei te amar, pois você é meu namorado. Eu queria simplesmente enterrar minhas dores no fundo da alma; nunca mais sentir o amor. Porém você sempre dava um jeito de redescobrir-me e arrancar meus suspiros apaixonados. Você encontrava meus defeitos, só que ao invés de afastar-se, você se aproximou ainda mais de mim, enamorando cada pedaço do meu ser. Tem ideia de o quanto isso significa para mim? Durante todos esses anos de trevas, imerso em escuridão, você foi o único raio de sol que pode iluminar meu coração. Nós vamos sair dessa. Eu só te peço uma coisa: Não morra. Por favor.
Nico pousou sua mão sobre o tórax gelado de Will, sentindo suas costelas e seus batimentos cardíacos desalecerando, ficando cada vez mais fracos. Ambos estavam encharcados; de lágrimas e suor frio, ou de sangue; e a tal camiseta preta havia sido reduzida a trapos usados para estancar o líquido rubro escurecido. A estampa de caveira cobria uma ferida na cabeça do loiro, como uma bandana de pirata, que o deixava venenosamente sexy. Nico procurou afastar esse pensamento, apenas por hora.
- Certa vez você me perguntou como eu havia sobrevivido sozinho no Tártaro. Eu respondi que precisei ser forte, sendo que na verdade, eu fui covarde e fraco, porque enquanto Percy e Annabeth tinham um ao outro, eu não tinha ninguém! Entende o que quero lhe dizer? EU NÃO SOBREVIVI AO TÁRTARO! Eu fui consumido pelas trevas abissais, desapareci na névoa da morte e servi de brinquedinho para monstros e gigantes demoníacos. Já Annabeth estava perfeitamente segura em companhia do NAMORADO DELA, que sabe até controlar veneno! Você me acha assim tão heróico? Eu sou apenas idiota o suficiente para retornar ao inferno por conta própria, levando-o junto comigo. Eu daria minha vida por você, mas não é tão fácil quanto parece. Eu fui estúpido, egoísta e deixei-me levar por planos infrutíferos. Mereço ser punido, e não você.
Sem hesitar, Nico compreendeu que podia fazer uma troca com a Morte. Levou sua mão até a espada negra. Sabia que, por ser feita do ferro estígio, a arma carregava inacreditáveis propriedades. Lembrou-se dos agradáveis momentos que havia passado com Will, ensolarados, e das promessas doces feitas entre si. “Um juramento a manter como alento final”, pensou. Este era apenas outro verso da grande profecia dos sete, que agora fazia imenso sentido para ele. Sacrifícios deveriam ser feitos. Memórias e sonhos morreriam com ele. É assim que vai terminar? Pelo menos, estariam juntos.
Juntos.
A espada caiu entre os dois corpos sonolentos. Rostos apagados misturaram-se à escuridão. Nico gritou dolorosamente; queria que o mundo soubesse o quanto estava sofrendo. O sangue negro esguichava de seus pulsos quando ele apagou completamente.
***
O cheiro nauseante de flores despertou Nico. Ele viu-se nu, encostado em uma árvore de um imenso jardim, enquanto Will ainda estava caído na grama verde, a poucos metros, também despido de suas roupas. Nada havia mudado?
- Pobre garoto. Deve estar cheio de perguntas. — Uma voz desdenhosa ecoou em sua mente e o aroma de jasmins parecia estar cada vez mais forte. Uma mulher de cabelos castanhos simplesmente apareceu numa nuvem de névoa negra e com um movimento mágico de sua mão, Nico notou que agora estava vestindo um manto feito de flores silvestres e folhas, assim como o loiro deitado de bruços. — Lembra de mim?
Nico obviamente lembraria de uma mulher como aquela. Usava um xale verde escuro e uma coroa de ossos, com uma caveira que aparentava ser intimidadora, se não estivesse sido engolida por raízes, plantas trepadeiras e botões de rosa agradavelmente fofos. Uma margarida florescia no olho esquerdo e um lírio brotava, enrolado aos chifres esqueléticos.
- Olá, Perséfone, minha madrasta querida. — Ele respondeu tão desdenhoso quanto ela, enquanto tentava parecer confiante.
- Não costumo usar esse nome lá em cima. Os humanos, quando vão à minha floricultura, chamam-me de Carmen. É mais sutil. — Ela acariciou o rosto branco do outro. — Enfim, o que deseja saber?
- Ahh... Onde estou? Deveria estar morto. Eu me...
- Ah, eu sei o que você fez! Isso foi macabro, até mesmo para você, um filho de Hades. O que você estava pensando? Sua morte, apesar de ser tentadora para mim, não deve acontecer. Quíron sabe sobre essa missão tola de cortar a minha árvore da discórdia?
- Sua árvore?
- Exato. Em que outro lugar do Hades poderia haver terra fértil além de meus jardins? A propósito, é essa aí em que você está encostado.
O moreno engoliu em seco e levantou rapidamente de onde estava, com medo que pudesse contrair algum tipo de caos contagioso.
- Não estou nem aí com seus sermões. Esse é o certo a se fazer. Poderíamos trazer a paz e a esperança ao mundo.
- Querido, não é bem assim...
- E afinal, eu já morri uma vez. Minha alma sempre esteve aqui, no Tártaro.
- Ah, isso é verdade, de fato. Tirando o fato de que aqui não é aquele lugar repugnante. — Adiantou Perséfone. — Você estava destinado a perecer no Tártaro. Sobreviveu apenas por causa da intervenção de Gaia e seus filhos Gigantes, em especial, o anti-Parcas, Toas. Porém o destino não pode ser mudado por vocês, semideuses. Nem por nós, os deuses.
- Pois saibam as Parcas que agora está feito. Eu não pertenço mais ao mundo dos vivos.
- Você nunca pertenceu. — Ela riu, maldosamente e apontou para o corpo frágil e angelical de Will, em meio ao capim. — E por sua teimosia, levou-o consigo em direção ao fim. Que amável.
- Pensei que pudesse fazer uma troca. A alma dele pela minha.
- Tolinho, a única coisa que você conseguiu foi liberar o poder do Estige e despertar a fúria de Orco, aquele deus cópia-barata do seu pai. Achou que sacrificando sua vida seria o suficiente?
- Eu só queria que ele sobrivesse. ELE NÃO MERECIA ISSO! — Nico não se importou com as lágrimas escorrendo pela sua face. — Eu fui tão burro. Tão ingênuo.
- Maravilhoso. Promessas ao vento, juramentos quebrados e sonhos levados para o túmulo. Continue assim e eu posso deixá-lo viver na morada de Akhlys, afinal, Thanatos não poderá levá-lo ao nosso palácio se o seu espírito continuar preso no abismo.
Nico sentiu a raiva dominá-lo e concluiu que queria enfiar a cara de sua madrasta na lama. Porém o medo e insegurança substituíram sua ira, quando a mão gelada do Ceifador da Morte tocou seu ombro.
- M-mas o quê?
- Ele veio para levá-los. Mas eu posso ajudar, se quiser.
- Perséfone, por favor, se você pode salvar Solace, faça-o. Eu não desistirei de meu sacrifício. Faça o que for necessário por ele.
- E se eu puder, por acaso, salvar ambos?
O moreno franziu o cenho.
- Você está propondo um acordo, não está? O que quer de mim?
A deusa caminhou a passos lentos ao redor do jardim e cortou uma rosa vermelho-sangue com sua tesoura de florista.
- Veja esta flor. Linda, meiga e perfumada. É o amor que os humanos cultivam. Tal amor que se tarda a realizar-se, murcha e morre.
- E-eu não entendo.
Perséfone ria e divertia-se com a confusão do outro. Para ela, era animador vê-lo perdido nos encantos daquilo que ele sempre negou a si mesmo: A paixão.
- A questão é, Di Angelo, você tardou em demonstrar seus sentimentos. Isso foi errado. Mesmo odiando aquela sua mãe estúpida, pretendo te ajudar. O filho de Apolo não deve ser apagado da humanidade.
- Eu pensei que você não se importava. Pensei que você fosse apenas mais uma imortal chata que só dá valor a si mesma.
- Meu Anjo, eu sou a deusa da primavera. Todavia, sou também a rainha dos Infernos. — Ela brandou, com orgulho, enquanto enterrava o caule de uma flor na terra escura. — Como as rosas, sou formosa e agradável, como também sou espinhenta e impaciente. Vivo em meio a meu próprio mundo agridoce. Podem acusar-me de falsa e insensível, mas quando o frio irrompe, todos imploram pela piedade de Carmen, não vê? Os homens, as mulheres. Todos gostam de Carmen.
Nico não sabia o que dizer. Estava desconfiado de tal serenidade, porém sabia que a deusa estava disposta a salvá-los.
- Qual é seu plano? — Perguntou em meio a soluços.
A florista suspirou e prosseguiu.
- Depois que o Lorde Titã Cronos foi derrotado, seu pai responsabilizou-me pela criação da espada de Hades. A arma forjada por meus servos esqueletos podia ceifar uma vida, ou então devolvê-la a um morto, com o simples corte da lâmina.
- Isso é perigoso. E proibido.
- É, eu sei. E por isso, decidi escondê-la em um lugar onde ninguém, além de mim, é claro, pudesse chegar. Nos meus jardins, um dos únicos locais; se não o único; onde há luz. Este lugar onde estamos, para ser mais exata.
- E você pretende usar a magia da espada em Will?
- Não exatamente, caro Nico. Eu enterrei a espada. E a partir de então, o poder manifestou-se sobre o solo. Todos os frutos deste jardim possuem a capacidade de enfraquecer e controlar a morte.
O sorriso no rosto de Thanatos desapareceu e ele encostou-se em portas de madeira arranhadas e detonadas por cupins. “As Portas da Morte na versão rústica”, pensou Nico.
- Entende o que estou querendo dizer? O único jeito é tratá-lo com as frutas. Porém, você sabe que haverá aquele sacrifício...
- ...Porque ele ficará condenado a passar seus dias no Mundo Inferior. — Os olhos de Nico estavam injetados de sangue. Ele não podia ser tão egoísta a ponto de dar à Will esse fardo a ser carregado. — Não. Solace nunca concordaria com isso. Ele é muito jovem para ser amaldiçoado dessa forma...
- EU TAMBÉM ERA! — Perséfone gritou enfurecida. — EU TAMBÉM ERA MUITO JOVEM QUANDO FUI SEQUESTRADA POR SEU PAI.
O moreno recuou, temendo que a deusa invocasse seu poder divino.
- Não se afaste. Desculpe-me, Nico. — Ela também parecia estar a ponto de chorar a qualquer segundo. — Eu não lido muito bem com esse assunto. O que interessa é que ele te ama. E isso é o suficiente.
- E-eu não sou capaz.
- Sim, você é. E você vai alimentá-lo. É sua única opção. — Perséfone entregou ao garoto uma banana. — Não tem sementes. Não sei qual é o efeito colateral. Talvez vocês possam simplesmente ir para casa, como se nada tivesse acontecido. Todavia antes de tudo, devo alertá-lo quanto uma última coisa.
Antes aliviado com as boas notícias, agora o moreno voltou a estressar-se com as possibilidades de dar tudo errado.
- O que é, madrasta?
- Como pode ver, vocês dois não estão mortos; porém, como já disse, não pertencem mais ao mundo dos vivos.
- Isso significa que...
- ...A energia da espada é instável. Vocês podem viver outra vez...
- ...Ou morrer por definitivo.
O deus encapuzado sorria venenosamente para Nico. Mas ele não hesitou quando pôs a banana na boca e mordeu dois bucados. O Anjo cambaleou e agachou-se ao lado do loiro. Tratou-o, derramando de poucos em poucos a água de uma das fontes do jardim.
- Recordo de nosso primeiro beijo. Teus braços envolviam-me num amasso quente e confortável, segurando todo esse amor. Amor esse que eu nem mesmo poderia compreender. Queria poder deitar minha cabeça sobre seu ombro e derramar lágrimas o suficiente por nós dois — Perséfone assistia a cena com visível tristeza. — Sei que posso aguentar seu peso quando seguir o caminho. O nosso caminho. Você me guiou uma vez, e agora sou eu quem devo apoiá-lo. Mas serei eu forte o suficiente para isso? Espero que sim... A música está acabando, por favor não me deixe sozinho — Até mesmo Thanatos parecia comovido com a novela, observando seu relógio de pulso, analisando cada tick-tock de desespero. — Então vai ser assim? Você será apenas outra estrela que morre e explode numa névoa de fogo, riscando a noite com suas marcas, espalhando a luz por uma última vez? Te amei o suficiente para saber que nunca poderia ficar longe de você. Eu fui um poço de escuridão, e então eu tive você.
- Nico... — A deusa tentou acalmar os nervos do menor, mas este ignorava tudo a sua volta, de olhos fechados.
- Quer saber? Não fará diferença, Solace. Ninguém sentirá nossa falta. Será mesmo? Ah, não importa. — Ele aproximou seus lábios e beijou Will na testa. — Apenas prometa: Quando eu chegar, deixe as luzes acesas. Vivi nas sombras o suficiente para uma vida.
***
O moreno abriu os olhos e não viu nada além de escuridão.
Ah, havia Thanatos com suas Portas da Morte. O deus estava em pé, flutuando acima de suas cabeças. Ele não estava sorrindo, mas também não aparentava estar triste ou desapontado. Sua expressão neutra era sem dúvida a coisa que mais o assustava.
O garoto sentiu um calor inquietante em seu peito. De fato, era Will que agitava-se como se estivesse acordando de um pesadelo.
- N-Ni-co? — Chamou uma voz fraca e carinhosa. Solace levantou sua cabeça e foi vítima de um abraço de tamanduá mutante na mesma hora. — É v-você?
Os dois trocaram carinhos e o loiro tocou o peito nu do outro, na tentativa de ouvir as batidas do coração.
- Sim, sim, sou eu! De verdade! Eu fiquei com tanto medo de te perder! — Berrou Nico, enquanto beijava o outro ansiosamente. — Me desculpe... E-eu...
- Nico. Nós estamos mortos? — O loiro interrompeu a euforia do filho de Hades e fitou seu rosto. — Não sinto seus batimentos. E-eu estou com... M-medo... Do escuro.
- Não se preocupe. Não há o que temer. Vivos ou mortos, não importa agora.
- Por favor, me tira desse lugar.
- Tudo bem, nosso destino aguarda atrás daquelas portas. Vida ou morte. Seja o que os deuses quiserem. — O moreno ajudou o namorado a levantar-se e o deixou apoiado sobre seu ombro. Lembrou vagamente de quando Solace havia proibido-o de usar magia do Mundo Inferior durante a guerra contra Gaia e achou irônico o fato de que agora, era ele quem estava salvando e carregando o filho de Apolo. — Seja forte.
- Eu não entendo! O que te faz ficar tão tranquilo? — Os olhos azuis cor do céu, lacrimosos, encontraram-se com os olhos negros cor de ônix. Beijaram-se suavamente enquanto Nico apalpava a fechadura enferrujada da porta e a abria lentamente.
Uma luz cegante afastou a escuridão infinita no instante em que a entrada abriu-se por completo.
- Eu estou tranquilo, porque seja como for... — Ele corou por um segundo e tentou retomar as palavras. Limpou uma mancha de sangue no rosto de Will e deu-lhe mais um selinho carinhoso. À frente deles, estava o fim ou o recomeço. Nico não tinha nenhum motivo para estar calmo, porém no fundo de seu coração, havia esperança. — ...Seja como for, Solace... Nós estamos juntos.
Juntos.
Sorriram um para o outro e permitiram que as mãos de ambos entrelaçassem-se. Os dois seguiram seu caminho, unidos, como se nunca tivessem um dia posto seus pés no Tártaro.
Notas finais
Eu amo vocês.
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