When You're Strange
23 Medo e ódio
Notas iniciais
É sexta-feira. Eu tento fazer minha atividade de química, morrendo de sono, mesmo depois de ter dormido por horas essa tarde. É o que os remédios que Minato passou fazem comigo. Ele disse que é só no começo, que eu vou me adaptar. Também começaram a aparecer feridas na minha boca. O lápis escorrega frequentemente da minha mão suada e fria. Estou me sentindo um pouco tonta, talvez porque não tenha comido nada hoje. Lembro que meu almoço ainda está em meu guarda-roupa – tive que esperar Myuu sair para trabalhar para me desfazer dele e acabei dormindo. Agora posso finalmente leva-lo para o lixo lá de fora. Li em algum lugar que esse tipo de remédio também engorda.
Há uma mensagem eu meu celular. Naruto pergunta se eu quero sair hoje. Eu me pergunto se já posso chama-lo de namorado e faço careta porque, céus, isso soa muito estranho.
Naruto tentou me beijar pela primeira vez na noite em que todos os nossos colegas de turma estavam numa festa louca – a festa de despedida, antes das férias de inverno. Ele me ligou e disse que, já que nós fomos os únicos que decidimos ficar de fora, era justo fazermos nossa própria diversão. E eu achei uma boa ideia.
Tenho certeza que, para a maioria das pessoas, uma garota de dezessete anos que nunca beijou é no mínimo estranho. Mas essa era a verdade sobre mim, e dado esse contexto, acho que é minimamente compreensível que eu tenha evitado imediatamente essa tentativa de contato por parte do Uzumaki. Eu gostava de Naruto, sim, gostava muito. Mas nunca havia pensado em nós dessa forma, de fato que fiquei realmente surpresa. No geral, minha autoestima era tão baixa que eu nunca considerava a hipótese de alguém estar interessado em mim ou vir a se interessar, e justamente por isso, eu também não me interessava em ninguém. E pra ser franca, nunca tive muita vontade ou curiosidade acerca de sexo ou namoros. Enquanto o cérebro das pessoas da minha idade passa horas surpreendentes fantasiando sobre sexo, o meu estava muito ocupado fantasiando sobre o meu próprio corpo. Sozinho. E magro.
Naruto pediu desculpas e ficou tão sem graça que me senti mal.
– Me perdoe, não foi uma boa ideia – ele baixou a cabeça, olhando para os pés. – Meu pai tinha razão.
Eu parei na hora. Naruto não podia ter falado com seu pai sobre mim. Minato não podia ter falado sobre mim. Com ninguém. O que diabos mais eles falaram?
– Você está com uma cara. Calma. É só que... Meu pai percebeu que eu estava interessado em você, sabe – ele olha pra cima, com a testa franzida, totalmente sem jeito. – E aí ele disse que era uma péssima ideia porque você está passando por um momento delicado e eu sou o filho dele. Eu não devo me envolver com pacientes dele. É antiético e essa merda toda.
Aquela devia ser a primeira vez que eu ouvia Naruto dizer uma palavra que Kurenai consideraria imprópria, e eu ri. Eu ri porque foi muito natural e ele parecia realmente chateado.
– Então você concorda com ele que não é uma boa ideia?
– Não! – Naruto disse alto e energicamente. – Mas parece que você concorda.
Dessa vez fui eu que olhei pra qualquer direção em que o loiro não estivesse. E me apressei para chegarmos logo ao tal bar. Durante todo o tempo em que fiquei tomando meu único milk-shake ali, na frente de Naruto, eu fiquei pensando naquilo. Apesar do meu pouco interesse na minha vida amorosa, às vezes eu sentia falta de alguém comigo. Alguém que gostasse de mim, que fosse gentil. Que me abraçasse de um jeito não maternal. Eu sentia falta de alguém. E eu não queria ser uma má ideia, embora provavelmente eu fosse. Depois de duas horas, quando ele disse que precisava ir embora, eu não havia decidido nada. Eu só sei que, quando o acompanhei, eu beijei Naruto. E fui pra casa sozinha, sem dizer mais nada.
No outro dia, eu chorei tanto que quase pude sentir minha pele se desmanchar. Eu lembrei da noite anterior e fui para a frente do espelho. Eu vi meus olhos sem brilho, meu cabelo desarrumado, minha pele áspera, minhas medidas exacerbadas, minhas pernas grossas demais, meu lados assimétricos. E depois eu vi além. Eu vi a menina que nunca havia se relacionado com ninguém, que teve pouquíssimos amigos na vida, que tirava notas medíocres e que não era boa em nada. Uma garota que não causava interesse nem no próprio pai. E eu puxei meu cabelo e quis arrancar a minha cara, com raiva de mim e com raiva de Naruto, porque como ele podia dizer que estava interessado numa garota assim? O que ele ia ganhar com isso? Naruto Uzumaki é lindo e inteligente e gentil e eu nunca ia cair nessa conversa fiada. Eu me joguei na cama e me mordi meus braços. Era uma maneira eficiente que eu havia encontrado pra lidar com a frustração sem fazer barulho e sem deixar cicatrizes nos pulsos. Eu solucei até não ter mais forças e até as coisas não fazerem mais sentido pra mim. Até a noite anterior e tudo o que eu pensava sobre mim ficarem distantes. Eu dormi abraçada ao travesseiro, e por isso, acordei com dores no pescoço.
Poucos minutos depois, Naruto me ligou. Eu atendi talvez porque ainda estivesse entorpecida pelo sono.
Eu não disse nada, e ele falou “alô” duas vezes antes de desistir e começar uma conversa real.
– Você está bem?
– Eu acabei de acordar.
Naruto ficou em silêncio. Eu também não sabia o que dizer. Minhas memórias ainda não haviam voltado a fazer sentido.
– Escute – Naruto disse depois de um suspiro tão alto que eu ouvi. Soltou um rugido. –Você... Você realmente me deixou confuso ontem. Eu não sei o que pensar, Hinata – mais silêncio meu. – A gente pode se encontrar pra falar disso?
– É que eu vou viajar amanhã pra Irlanda e daqui a pouco Myuu vai chegar para nós arrumarmos as malas.
– Oh, você vai visitar seu pai?
– Sim, isso mesmo.
– Você está bem?
Eu sorri. Era bom saber que, apesar de tudo, Naruto ainda era meu amigo, exatamente como era antes.
– Sim, eu acho que vou seguir seu conselho. Olha, eu não vou fingir que nada aconteceu... É que eu não sei o que pensar, mesmo. Eu gosto muito de você.
– Mas?
Eu estava torcendo para que Naruto não perguntasse. Ele poderia muito bem ter deixado para lá. Suspirei.
– Eu não sei se vai ser bom pra nós dois nos envolvermos. Digo, eu sou toda cheia de problemas e-
– Hinata, eu não me importo! – Naruto me interrompeu bruscamente, e bem, se ele estivesse em casa, com certeza todos teriam ouvido. – Todo mundo tem problemas. E eu não me importo com quantos ou quais você tenha, eu posso ajudar! Eu gosto de você. Tente. Você pode me dar uma resposta quando voltar.
E aí ele desligou. Eu fiquei deitada na cama com exatamente zero pensamentos em minha cabeça, até Myuu chegar.
Eu fui para a Irlanda esperando o pior. Na verdade, só fui por causa de Myuu, ela fazia muito por mim e não queria desagradá-la. Aconteceu que meu pai se mostrou uma pessoa muito melhor que a imagem que eu tinha. Ele parecia realmente arrependido, disse que tentava não forçar uma convivência comigo porque achava que eu o culpava pela morte da minha mãe e sentiu que precisava respeitar meu espaço. Meu pai sempre foi muito orgulhoso, mas mesmo assim, me pediu desculpas. Minha irmã era adorável e a minha bela e ruiva madrasta irlandesa parecia uma fada. Tudo era tão bom que eu custei a acreditar. E quando eu voltei a pensar em Naruto, eu percebi que nem tudo precisava ser tão ruim quanto eu supunha.
Por isso, quando eu voltei, disse a ele que queria tentar. Eu queria ficar junto de Naruto, eu queria muito. E ele me recebeu com seu sorriso gigante.
E naquele mesmo dia, aconteceu pré-requisito para que tudo começasse a ficar ruim até se tornar impossível.
Naquela mesma noite em que fizeram uma festa na Ellus pra me receber, na mesma noite que Neji apareceu e Sakura resolveu contar sua vida.
Eu fui embora com Naruto e Karin. Myuu não cansava nunca e também tinha ido para uma de suas festas malucas. Quando soube disso, Naruto insistiu para que eu dormisse na casa dele.
– No quarto da Karin, é claro – ele esclareceu, um pouco vermelho. – É seu primeiro dia de volta aqui, não pode dormir sozinha. Amanhã cedo nós passamos na sua casa pra pegar seus materiais.
Eu expliquei que não era necessário de forma alguma e que já estava acostumada a dormir sozinha, mas depois de alguma insistência dos Uzumaki, eu cedi.
Os pais de Naruto eram maravilhosos e o ambiente familiar era tão bom de um jeito que eu antes não acreditava que algum pudesse ser. Até Sakura gostava dos pais de Naruto e se sentia confortável quando vinha à casa deles. Era uma pena que, naquela hora, eles já estivessem dormindo.
Naruto nos desejou boa noite e se despediu. Karin me mostrou o banheiro e pegou uma escova reserva e me mostrou o pijama que me emprestaria tudo com muitos sorrisos e boa disposição. Havia algo de sádico no sorriso dela. Sempre havia. Todas as ações de Karin sempre pareciam ter um motivo secreto para serem feitas, eu me perguntava se era a única que via isso. Era por essa razão que, não importava o quão amigável ela se mostrasse, eu nunca consegui nem nunca iria conseguir confiar em Karin.
Ela me deixou ir ao banheiro primeiro, e logo depois, fui para o colchão que ela havia colocado no chão. Já estava quase dormindo quando ela saiu do banho e acendeu uma luz fraca rosa. Disse que não conseguia dormir no escuro. Eu sorri e dei de ombros, me virando para o outro lado. Mas ela não me deixou em paz por muito tempo.
– Você me odeia, né? Você acha que eu levei a Sakura pro buraco de novo. Eu sei.
– Não, Karin – respondi, sinceramente cansada. Eu só queria dormir. – Acho que a Sakura deixou bem claro que a única culpada pela situação em que ela está é ela mesma.
– Eu sou um peso pro Naruto e pros meus tios – ela continuou, sem emoção na voz. Até me parecia um pouco empolgada. – E agora você também faz parte.
– Olha, Karin – eu me virei de lado de novo, olhando para ela. – Naruto e os pais dele são maravilhosos, se você tem problemas, fale com eles, tenho certeza que irão te ajudar. Eu não tenho intimidade com você e não sou a pessoa certa. Sinto muito.
– Sakura não é a única que tem segredos – Karin sentou-se na cama. Pude ver seu rosto sem expressão, seus olhos bem abertos e sua voz era sádica como seu sorriso. – Você sabe por que eu moro com os meus tios?
– Não. Seus pais morreram?
– Meus pais estão tão vivos quanto eu. Tem uma foto aqui de mim com eles ano passado, se você quiser ver – Karin me passou um porta-retrato que estava em sua cômoda. Ela e os pais em algum jardim, abraçados. Eu podia dizer com certeza que o sorriso dela era forçado. O pai dela mal conseguia fingir um. Ele tinha cabelos grisalhos e olhos muito verdes e uma pele bronzeada. A mãe dela ainda parecia muito jovem e tinha grande semelhança física com Kushina. Era a única que parecia realmente feliz por estar ali. – O problema é que, aos oito anos de idade, eles já não conseguiam mais me suportar.
– Por quê?
Eu já havia desistido de dormir e iria apenas ouvir o que Karin tinha a dizer. Ela se deitou. E sorriu.
– Quando eu tinha quase sete anos, meus pais me matricularam em aulas de tênis. Meu pai jogava e eu achava muito bonito. Ele fez um amigo pessoal dele que era professor me ensinar. Ele era muito gentil, sabe. E eu era a aluna favorita dele. Sério, eu realmente arrasava o coração daquele homem aos sete anos de idade! Ele me amava de todas as maneiras, em todos os sentidos, até nos que eu não queria. Entende, Hinata, a Sakura pode até ser a pegadora mor, mas eu, querida, perdi a virgindade antes de todas vocês, vadias. E o mais impressionante é que até hoje eu vejo ele nos meus sonhos! Nossos momentos! Cara, acho que isso é que é amor verdadeiro, você não acha?
– Eu acho que você está muito doente – Eu me levantei e me sentei na cama de Karin. Os olhos dela estavam vermelhos, arregalados e quase não seguravam mais as lágrimas. Eu tive muita vontade de abraçar ela, e foi isso que eu fiz. Ela se agarrou no meu pijama e chorou muito. Chorou tão pesado que sentiu falta de ar. – Você nunca contou isso pra ninguém?
– Eu tentei falar com o meu pai, mas ele mandou eu calar a boca e nunca mais dizer algo como aquilo. Eu me senti muito envergonhada. Me senti um lixo. Quando eu via o senhor Bradley, eu começava a pensar que talvez fosse culpa minha. Eu tentava me comportar diferente todos os dias, mas não adiantava. Minha mãe percebeu que eu não estava satisfeita com as aulas e me perguntou se eu queria continuar. Eu disse que não. Mas ele ainda continuava a frequentar nossa casa. Eu tinha que ver aquele merda toda hora e aguentar. Então eu comecei a ir mal na escola, a não fazer nada direito em casa e a não deixar ninguém dormir direito. A ter sustos e chorar por qualquer coisa. Não sei como eles fizeram esse acordo, mas um dia eu simplesmente levantei e eles disseram que eu ia morar com a tia Kushina.
– Você melhorou aqui?
– Só de não ter que ver ele toda hora, né. Mas eu ainda sonho com isso às vezes e aí eu tenho que tomar alguma coisa pra não ficar sóbria. E eu também não consigo, você sabe, me relacionar com ninguém sexualmente – ela fez uma careta, virando o rosto. – Ugh. Eu sou patética.
– Para, não é culpa sua, você não é patética. Você já é forte por estar aqui. Mas você tem que contar pra Kushina e pro Minato.
Karin sorriu. Apoiou as palmas de suas mãos no colchão e me olhou ávida.
– Nunca. Sabe por que eu contei isso pra você, Hinata?
Eu balancei a cabeça, com milhares de rugas na testa. Eu senti minhas mãos gelarem, e não soube por que.
– Porque eu quero testar você.
– Como?
– Eu quero ver o que você vai fazer agora. Basicamente, você tem duas opções. Melhor escolher a que eu quero que você escolha. Boa noite, Hinatinha.
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