When You Have A Killer In Your Tail

7 Capítulo 7Quando as cores choram


Notas iniciais
O titulo parece muito sentimental, Yeah... a historia desse capitulo segue uma linha dolorosa der se escrever e consequentemente de se ler. Eu estava pensando em posta-lo no domingo, mas preferia postar hoje porque na próxima semana eu não sei se vou entrar aqui.
Espero que gostem.

Era de noite, eles estavam no meio da exposição de quadros abstratos de James Novak, era a segunda vez que a mesma galeria abriu suas portas para as telas dele e ela poderia dizer que tinha gostado de todo o profissionalismo que a diretora tinha mostrado. Todos os seus amigos mais próximos estavam lá, principalmente Gabriel que não ia perder comida boa de graça, e estavam curtindo um bom tempo de entretenimento.

De vez em quando ela podia notar os olhares de seu namorado em cima das curvas aparentes que eram ressaltadas pelo seu vestido vermelho. Ela sorria sempre que seus olhos se encontravam.

O grande homem não tinha se contido e chegou junto dela:

-Tem certeza que você não quer carona? Ele olhava para ela com os olhos de cachorro, mas ela estava irredutível. Pegando uma taça de campane na mão ela falou:

-Não, eu posso muito bem cuidar disso enquanto você fica aqui aproveitando a noite- ela tinha dado um beijo nele e depois sussurrou em seu ouvido- e depois quando Jimmy estiver dormindo nos podemos terminar aquela conversa.

O sorriso que ela viu disse tudo o que precisava saber. Seria a melhor noite que eles teriam. Antes de deixar o lado de seu namorado ela fez uma cara sedutora e terminou seu champanhe.

-Eu te ligo quando for o momento.

Se namorado mal poderia esperar. Ele deu um sorriso sacana e depois se afastou dela deixando-a saber que ele estava de acordo.

Depois disso ele tinha pesquisado toda a galeria a procura de seu protegido de olhos azuis, não demorou muito para encontra-lo sonolento sentado em uma mesa perto de Dean e Castiel. Os dois pareciam apenas desviar de sua conversa para checar se ele estava ainda acordado.

Ela os cumprimentou e em seguida apoiou o outro homem- sempre usando camisas xadrez e calças jeans- para ajuda-lo a andar, ele parecia estar prestes a cair no sono a qualquer segundo. Ela sorriu com ternura quando o viu esfregar os olhos e logo depois disso e de avisarem a Gabriel que eles já estavam de partida eles deixaram o ambiente de luxo e forram para a rua onde encontrariam um táxi a sua espera.

Por uma coincidência do destino havia uma outra pessoa querendo compartilhar o carro com eles e como não haveria muita opção naquele horário da noite ela não teve escolha e empurrou Jimmy para o lado fazendo com que ela sentasse no meio e impedindo que o humor sonolento de seu amigo estragasse um pouco o passeio (todos eles sabiam que Jimmy com sono não é a melhor pessoa para estar perto). Quando todos estavam sentados e instalados o carro começou a andar.

Não demorou muito para que ela percebesse que algo estava muito errado. O taxista não perguntou o endereço e simplesmente começou a correr com o veiculo para uma parte escura da cidade, ao seu lado Jimmy estava ficando um pouco agitado e ela não deixou de ter medo... desde o dia em que ele tinha se perdido o pintor não tinha dormido bem e seus irmãos desconfiavam que ele sabia de algo que iria acontecer no futuro, mesmo assim ele não falava nada. A sua esquerda o outro homem tentava brigar com o taxista e não obteve nenhum sucesso, o motorista tinha fechado a comunicação entre ele e os passageiros e simplesmente dirigia para um lugar desconhecido.

-Mais que diabos? Esse doido deve estar trabalhando bêbado ou algo assim, quando eu sair disso vou processar essa empresa- foi somente nesse momento de raiva que o homem resolveu olhar para os outros dois passageiros, quando ele percebeu a mulher abraçando o outro homem como se ele fosse uma criança ele resolveu olhar um pouco mas... quando ele viu as lagrimas saindo dos olhos azuis intensos e ouviu a mulher de vestido vermelho falar palavras calmantes ele tinha deixado toda a raiva em nome de uma curiosidade-Ele está bem?

Jessica não tirou os olhos de Jimmy e o mantéu embalado ao peito:

-Ele só está um pouco sonolento. Ela nunca saberia dizer por que disse aquilo, mas na hora pareceu ser uma explicação melhor do que “Ele certamente está sentindo uma energia maligna vir desse motorista”- assim, vamos ficar e esperar esse idiota nos deixar na pior parte da cidade ou...?

Ela não teve tempo para falar mais nada, o carro tinha parado abruptamente e o motorista tinha travado as portas e aberto o vidro comunicante. Quando viu a arma apontada para seu rosto ela congelou completamente. O homem ameaçador na frente dela usava óculos escuros e se parecia muito familiar... foi somente depois de um tempo que ela pode se lembrar que o tinha visto em um desenho que Jimmy fez para a policia.

Ela tinha dado um pequeno grito.

-Ola vocês! O homem falou olhando para os seios dela e sorrindo de uma forma suja-Olá Jimmy, é sempre um prazer revê-lo- tudo o que o pintor fez foi encarar o taxista com um olhar penetrante, mas o maldito não teve nem uma ponta de medo e se voltou para o outro homem- eu não estou bêbado, vou admitir que tomei uma cervejinha antes do trabalho... um... agora que já nos conhecemos eu posso dizer quais são as regras daqui por diante. Ele apontou com o cano da arma para a janela onde todos poderiam ver um carro preto parado há poucos metros de onde estavam,não demorou muito para que ela reconhecesse o carro e quando o fez seus olhos ficaram grandes e lagrimas deslisaram por suas bochechas.

O que ela via era o carro dos detetives Kramer e Craven- que por dois meses eram os únicos oficiais que tinham o dever de proteger ela e Jimmy- sendo rodeado por seis homem armados até a cabeça. Enquanto o taxista cantarolava algo inapropriado para a situação os oficiais eram colocados para fora do carro e arrastados contra uma parede.

-É melhor para todos fechar os olhos agora. Jessica não queria obedecer a esse filho da puta, mas se viu obrigada a faze-lo, ela não queria ver o que sabia que estava prestes a acontecer e não queria que Jimmy visse também, ela fechou os olhos dele com as mãos e em seguida apertou os seus. Os sons de tiros cortaram a noite logo depois.

O carro voltou a andar e acelerou em menos de um minuto. Seus olhos jamais iriam esquecer quando finalmente tinham chegado a seu destino. Era uma estrada de barro que não poderia ser muito longe de onde eles tinham sido pois a viagem foi muito curta, Jessica poderia sentir o cheiro de lama e a umidade em algum ponto mas logo depois o homem de óculos saiu de dentro do táxi e apontou a arma para a cabeça de Jimmy e em seguida fez um movimento indicando que estava disposto a mata-lo se eles fizessem alguma brincadeira. Ele mandou ela e o homem de cabelos ruivos saírem do carro. Eles obedeceram.

Ela foi vendada e obrigada a entrar na mata junto ao outro homem, todo o tempo ela estava com medo que aquele infeliz fizesse alguma coisa a Jimmy e tentava conversar com ele para tentar descobrir seus planos. A única coisa que ela recebeu foi o barulho de tiros. Nesse momento seu sangue gelou, ela poderia sentir a mão do outro refém agarrar seu braço e a puxar cada vez mais para dentro da mata mas os seus pensamentos não estavam ali, eles eram todos para Jimmy, para Sam e para todos os seus amigos. As lagrimas voltavam para seu rosto enquanto suas pernas corriam.

A ultima coisa que ela se lembrava era uma sensação de ardor em algum ponto de seu corpo e antes que ela pudesse colocar o que tinha sido seus muculos cederam e ela caiu na escuridão da inconsciência.

Isso tinha sido há um mês atras.

Dean estava preocupado Cas não queria mais comer e nem deixava-o entrar em seu quarto, a única coisa que o professor de historia ainda tinha um pouco de animo para fazer era dar aulas e mesmo isso não o deixava feliz. Seus alunos tinham pedido pra que ele arranjasse uma pessoa que pudesse substitui-lo até que tudo se resolva, mas ele tinha dito com um sorriso triste a seus alunos que se ele não trabalhasse ele poderia pirar.

Dean poderia dar um credito a ele com isso. Se ele imaginasse perder Sam ou seus filhos por todo esse tempo ele estaria comprando uma arma e tentando fazer a justiça com suas próprias mãos... ele poderia apenas se lembrar de como tudo tinha acontecido:

A cada minuto que se passava Sam ia ficando mais e mais nervoso, Dean poderia se lembrar de ter feito um comentário espirituoso sobre Jessica ter desistido dele... mas todos poderiam dizer que ela realmente o amava e seu silencio era estranho. Quando os tiros cortaram a noite todos os convidados entraram em panico e Gabriel foi ver o que tinha acontecido. Quando o capitão voltou com olhos de âmbar liquido dizendo que tinham matado seus homens tudo tinha virado de cabeça para baixo, a coisa só piorou quando eles descobriram que Jess e Jimmy nunca chegaram em casa.

O homem de olhos verdes não poderia pensar nisso, ele tinha prometido a Cas que ele manteria a esperança pelos dois já que o professor não era mais capaz de mante-la. Ele bateu mais uma vez na porta de seu amante e implorou para que ele saísse, era no meio do outono e Jessica tinha finalmente acordado ele poderia ficar feliz em saber disso mas nenhuma palavra saia de trás da porta de madeira.

-Por favor Cas- ele usou a sua voz mais quebrada e doce que conseguia reunir, ele não queria passar essa semana inteira sem ver os olhos azuis desbotados- você não pode pular refeição... venha comer por favor.

O silencio foi o único a cumprimenta-lo e ele não estava surpreso. Colocando as mãos em seu rosto ele começou a pensar em medidas desesperadas para tirar Castiel de seu quarto, mas antes que ele se decidisse sobre quebrar ou não a porta Gabriel apareceu com sua roupa de trabalho, sacou sua arma e deu um tiro na maçaneta do quarto. Logo depois ele tinha arrancado a porta aberta.

Dean não teve tempo nem fazer um comentário espirituoso sobre a sutileza do capitão, quando a porta se abriu ele pode ver seu namorado sentado em cima da cama, o rosto dele estava vermelho como se ele simplesmente tivesse se barbeado com um caco de vidro(12) e seus olhos estavam amplamente fechados como se ele tivesse sentindo dor. Não demorou muito tempo para que os dois outros homens percebessem que o historiador tinha realmente se barbeado com a intenção de cortar-se, as finas trilhas de sangue escorriam discretamente por seu rosto mas se alguém as visse um pouco mais de perto perceberia que eram cortes profundos.

Em um segundo os olhos verdes estavam ao lado dos azuis. Dean sondava Castiel com uma mão delicada e quando percebeu lagrimas em seu rosto ele o abraçou forte. Próximo a porta do quarto Gabriel olhava a cena atônito e deixou uma única pergunta sair de sua boca:

-Por que Castiel? Para o policial usar o nome completo de qualquer um de seus irmãos ele deveria estar em um total desespero. Em todo esse tempo que Dean tinha morado ao lado da família Novak ele nunca tinha visto o homem de olhos castanhos chamar Cas de outra coisa senão Cassy, a intonação que ele utilizou para sua pergunta tinha deixado os cabelos de trás de sua cabeça arrepiados e ele poderia se ver falando com Sam da mesma maneira. Aquela era a voz de um irmão que tinha passado mais tempo sendo pai do que sua verdadeira função e isso era muito familiar.

O professor tremeu um pouco nos braços de seu namorado, sua cabeça tinha se inclinado para a direção de seu irmão e se ele pudesse ver certamente teria mais medo dos olhos de âmbar do que da dor que ele mesmo tinha provocado. Ele esperou que seu corpo parasse de tremer para poder falar, antes disso um suspiro cansado tinha passado por seus lábios:

-Não foi por querer...- sua cabeça abaixada poderia dizer exatamente o contrario, mas os dois outros homens preferiram não prestar atenção na linguagem corporal confiando na pessoa que amavam- Eu estava pensando em todas as coisas que nossa mãe falava quando eramos crianças e...fiquei com raiva, mas antes de qualquer outro pensamento pior passar em minha mente eu ouvi Dean dizer que Jess acordou e acabei me cortando por causa do susto- ele levantou sua cabeça e olhou quase para os olhos verdes de seu amante, os olhos cegos eram esperançosos- isso é verdade?

-Sim, Cas. Sam ligou há poucos minutos. Dean foi o único a falar e depois abraçou Cas bem apertado, do outro lado do quarto e ainda em pé o capitão tinha largado sua arma. A pistola caiu com um baque metálico e ele não poderia conter sua raiva por um longo período de tempo, seus dentes rangeram e ele lutou por ar. Mais uma vez a sombra daquela mulher ainda fazia tantos prejuízos a todos eles. Graças a alguma força bondosa que ele insistia em acreditar sua raiva foi acalmando e ele pode se aproximar do seu irmão tocando em seu ombro e comunicando-se com Dean para pedir privacidade. O mecânico se levantou e disse que estaria acordando seus filhos para irem ver Jessica.

O silencio depois da saída de Dean era pesado e nenhum dos dois quis ser o primeiro a quebra-lo. Gabriel tinha puxado Cas em seus braços e tinha usado sua gravata para estancar o pouco de sangue que ainda escorria pelo seu rosto.

Eventualmente o silencio tinha de ser quebrado.

-Desculpe por passar quase todo o mês sendo um pé na bunda. Cas tocou no rosto de Gabriel para avaliar como o outro homem estava, para sua surpresa Gabriel tinha sorrido um meio sorriso e tinha imitado o gesto e retirado as lagrimas dos olhos com um polegar. O mais novo apenas poderia ficar com a curiosidade, ele não sabia o por que de Gabriel estar sorrindo mesmo que fosse um sorriso pequeno.

-Considerando tudo o que já nos aconteceu e o que está acontecendo eu acredito que você é o mais normal de nos três Cas- ele retirou as mãos do rosto e foi imitado por seu irmão mais novo, logo depois ele o puxou para mais um abraço- depois de todos esses anos você é o único que ainda consegue se lembrar dos tempos em que tínhamos uma verdadeira família sem que sentimentos de medo e raiva fluam para você. E só agora, depois que Jimmy foi sequestrado e eu... nenhum de meus homens sabe onde ele está ou como salva-lo você finalmente tem raiva dela.

Nenhum dos dois poderia dizer que isso era um elogio ou uma afirmação simples. Gabriel escondia seu medo e frustração em seu trabalho e em uma fraca esperança que estava ficando mais forte com a possibilidade de tirar informações de Jessica e Cas era sempre aquele que tinha medo, medo de ver seu gêmeo morto depois de ter mantido muitas esperanças e medo de ver o mais velho deles desabar em sentimentos de impotência. Era como se Castiel tivesse dado toda a sua esperança para Gabriel, para que ele pudesse trabalhar e encontrar logo o irmão perdido enquanto ele recebia a carga de depressão e duvidas.

-Sabe- Gabriel voltou a falar e dessa vez ele usava a voz mais calma e plana que ele poderia reunir. Ele tinha certeza que esse comentário era perfeito para a situação- Clairie (a mãe deles, mas Gabriel não poderia dizer outra coisa senão o nome da mulher) falou e falou sobre como eu era idiota, ela dizia que era um erro fugir para essa cidade e tentar criar vocês dois sozinho aos vinte e um anos. Ela insistia que eu me tornaria uma pessoa amarga e infeliz por tentar cuidar de dois...- a palavra que a mulher tinha usado se perdeu e ele não tinha coragem de repetir de novo, ele sabia que tanto Cas quanto Jimmy eram muito familiarizados com aquela palavra- vocês, mas sabe o que eu diria na cara dela se ela viesse nos visitar? Eu diria que ela nunca esteve tao errada em toda a porra de vida, diria que você Cas e Jimmy foram as duas pessoas que salvaram a minha alma. Eu poderia ter me tornado um maconheiro filho-da-puta ou um desequilibrado que morreria na cadeia, mas quando eu tomei minha decisão e resolvi criar vocês eu cresci, me tornei responsável, não esse tipo de responsabilidade, eu me interessei pelas pessoas e é isso que me faz feliz- ele estava chorando agora e enterrou a cabeça no ombro de Castiel- Eu nem sei mais que caralho estou falando... mas... eu também estou com medo Cas, também não consigo dormir pensando em como ele está o que estão fazendo com ele e mesmo assim eu não me deixo abater... não me deixo sabe por que? Porque Jimmy não iria querer nos ver deprimidos.

A compreensão atingiu Castiel como se fosse um murro em seu estomago. Ele poderia perceber o quão egoísta tinha sido. Jimmy nunca iria se perdoar se quando voltasse para casa ele não estivesse ali. Ele tocou nos cortes de seu rosto e teve nojo, nojo do que tinha se deixado transformar, ele não estava deprimido porque ele de alguma forma era um dispositivo que poderia aguentar a tristeza dos outros e deixa-los esperançosos, ele estava assim porque ele tinha perdido a fé seja ela em Deus ou nos seus irmãos. Gabriel tinha tudo para descobrir o que estava acontecendo e Jimmy era forte o suficiente para aguentar o tempo necessário. Ele colocou a cabeça para cima e pediu desculpas a Deus por todo o seu comportamento e pediu para que ele jamais esquecesse dele nos momentos mais terríveis.

-Eu estava sendo um completo idiota. Foi tudo o que ele disse antes de caminhar para o seu banheiro, se ele pudesse ver ele saberia que Gabriel estava sorrindo amplamente agora. Silenciosamente o irmão mais velho tinha agradecido Deus e a Jimmy por colocar um pouco de noção na cabeça do professor. Castiel ainda estava falando quanto a água foi ligada- Pelo menos eu não vou parecer um zumbi quando eu for ver Jessica.

Pelo tom que ele utilizou Gabriel poderia saber que isso era uma promessa. Ele pode sentir o alivio rastejando por suas veias quando ele percebeu que a depressão já não estava mais consumindo Cas. Talvez isso fosse a maneira Divina de dizer que as coisas estavam se resolvendo e ele se agarrou fortemente a esse pensamento.

Os cinco deles estavam dentro do carro- Castiel, Dean, Gabriel, Danny e Lisa- cada qual tinha um sorriso maior no rosto e todos estavam felizes por Cas estar melhor. Os dois gêmeos filhos de Dean passaram metade da viagem fazendo o professor prometer a eles que nunca mais deixaria o pai deles daquele jeito, certamente Cas não tinha percebido como as suas acoes tinham influenciado Dean e as crianças mas nada o impediu de se achar um imbecil. Com um meio sorriso ele prometeu aos dois que na qualidade de namorado do pai deles ele jamais deixaria Dean como ele tinha deixado. A única coisa que os olhos verdes do homem adulto fez foram brilhar com a palavra namorado, na realidade os dois ainda não tinham passado da primeira base e não tinham discutido sobre o desenvolvimento de sua relação desde a noite na galeria de arte, mas se o professor queria um relacionamento mais serio não seria ele que negaria.

Enquanto ele ainda pensava nesses assuntos românticos seus pés o levavam para a sala de paredes brancas onde Sam e Jessica estavam, o coitado do seu irmão gigante não tinha deixado o lado da mulher desde que os médicos disseram que ela poderia ter um acompanhante em seu quarto. A única coisa que o fazia sair de dentro daquele prédio com cheiro de amônia era suas aulas de inglês. Dean e seus filhos se apressaram para abraça-lo assim que o viram e perceberam muito rapidamente que o jovem estava com sacos negros debaixo dos olhos. Dean fez uma carranca.

Todos os outros preferiram ignorar a aparência de Sam para não falar sobre assuntos delicados na frente de Jessica. A pobre coitada estava esperando ansiosamente para ver Jimmy entre seu grupo, mas quando o pintor de olhos intensos não apareceu ela desabou em choro.

Pela cara de Sam a decisão de não ter contado para ela que Jimmy ainda estava sob o poder dos inimigos foi a pior coisa que tinha feito. A mulher olhou desesperadamente para Gabriel e praticamente gritou:

-Eu quero a verdade agora!

Alguém tinha argumentado com ela e dito que ela tinha acabado de acordar de um coma, que ela tinha levado um tiro no estomago e que ela não deveria se estressar, mas tudo isso nem ao menos passou pelo cérebro da mulher. Ela estava desesperada e gritou pelos seguranças do hospital.

Era bem provável que se não fosse por Jo, Chuck e Gabriel todos eles estariam presos agora. Os seguranças tinham pedido gentilmente que eles deixassem a mulher em paz logo depois de terem visto os distintivos brilhantes que os três deles mostravam. Logo depois a trupe inteira teve de ser rebocada para sentar-se pacientemente nas cadeiras do lobby, os únicos que ainda tinham um pouco de humor sobre tudo eram as crianças.

Apenas Gabriel e Sam conquistaram o direito de permanecer no quarto 504. lá dentro os dois ouviam o relato feito pelo capitão contando a mulher como tudo tinha acontecido, dizendo que tinha encontrado os corpos dos oficiais Kramer e Craven cinco quarteirões de distancia da galeria e que Jessica tinha sido encontrada junto a um homem ruivo- que tinha feito o possível e impossível para protege-la- dez metros dentro da mata com ferimentos de bala e pancadas devido a correrem cegos para continuarem vivos. Quem tinha os salvado era um pequeno grupo de des escoteiros que estavam começando a aprender sobre sobrevivência.

Jessica tinha sido aliviada ao saber que o homem que entrou no taxi com ela e que tinha salvo sua vida estava vivo e bem. Segundo Sam Gabriel tinha usado o dinheiro da venda de um dos quadros de Jimmy para pagar todas as despesas medicas de ambos, e mesmo que o homem tenha ficado imensamente grato a eles ninguém iria aceitar o dinheiro que ee insistia em devolver. Sam também contou que ele tinha deixado o hospital duas semanas depois e que ninguém se lembrava do nome dele, ela ficou um pouco decepcionada em não poder saber qual era seu nome. Mesmo assim ela abriu um sorriso com as noticias.

Quando foi a sua vez de falar ela apertou a mão de Sam durante todo o tempo. Seus olhos se enchiam de lagrimas quando ela se lembrava de como tinha sido inútil e não foi capaz de descobrir nada. Os dois homens não sabiam o que dizer, todos eles tinham muita esperança nesse momento e não acreditavam que esperta como ela era Jessica não tinha percebido nada que pudesse ajudar.

Foi só quando ela descrevia o motorista que ela se iluminou;

-Sim! Eu sei de algo interessante- ela olhou solenemente para os dois e depois respirou fundo- O motorista era o mesmo homem que entregou a caixa a Jimmy, ele disse que era “Sempre um prazer revê-lo”. E eu o reconheci daquele desenho que Jimmy fez para não precisar voltar a policia lembra? Era o mesmo cara.

Gabriel estava tao feliz que ele poderia beijar Jessica, depois de dar uma olhada em Sam e perceber que o cara sabia exatamente como ele estava se sentindo o policial deu um beijo na bochecha de sua empregada e abriu um sorriso gigante.

-Você é maravilhosa Jessica, você sabe disso? Ele pegou um dos doces que estavam em uma pequena caixa que Sam tinha comprado para ela e engoliu cinco de uma vez. Agora ele sabia por onde começar.

-Tem mais alguma coisa que eu preciso saber? Não precisa ser uma grande coisa, qualquer lembrança poderá ser util. Ele ainda tinha esperanças em conseguir uma localização, mas agora que ele tinha o nome as coisas iam ficar mais fáceis.

Jessica ficou em silencio por um momento. Ela fechou os olhos e se concentrou nas memorias que ela preferia esquecer, mas aquilo era importante e ela sabia que poderia ajudar. Pouco a pouco ela voltava para dentro do carro, podia sentir o cheiro e ver as cores e foi quando as imagens começaram a desfilar que ela abriu os olhos.

Segurando na mão de Sam ela disse:

-Ele fumou um charuto cubano quando estávamos sendo vendados, eu me lembro do cheiro e vi uma caixa de charutos no banco ao lado dele. O que mais chamou a minha atenção foi um colar que ele usava no pescoço, o pingente parecia ser uma bala de calibre 38 SPL (13) e parecia bem antiga.

A única explicação que Sam poderia atribuir ao aparente conhecimento de armas de sua namorada- ou quase- era ter morado cinco anos na casa de um policial. Ele ainda tinha os olhos grandes de cachorro voltados para Gabriel como se ele pudesse dizer que essa informação seria útil ou não, porque ele certamente não poderia. Quando ele olhou para os olhos do policial eles tinham virado cor-de-avela, ele parecia muito dentro de si mesmo, lembrando de todos os contatos e vendedores de armas que poderiam resolver esse tipo de enigma e rastrear uma bala... foi somente depois de um longo período de tempo que ele deixou escapar em uma voz miúda:

-Isso é ótimo Jess, eu vou passar as informações para o comissario.

Foi nesse momento que Sam se lembrou, o comissario...

No andar de baixo do hospital Danny e Lisa estavam praticamente discutindo com os policiais que conversavam com eles. Pela cara do tenente Chuck e pela forma como ele estava limpando seus óculos os dois “anjinhos” estavam sendo uma dor.

-Eu posso apostar que se Gabriel estivesse no caso Jimmy já estaria aqui brincando com a gente. Era a voz de Lisa sempre autoritária, os olhos da menina estavam fixos nos de Chuck.

-Eu já disse para você que o capitão Novak não é a maior autoridade da policia, o comissario decidiu...

-Eu não gostei desse comissario, ele chegou do nada e disse que tio Gabe não ia mais poder fazer parte do caso- Danny o tinha interrompido de maneira brusca muito parecido com a sua irma. O que Dean não esperava era a familiaridade que ele tinha colocado ao chamar Gabriel de tio- tá, eu entendi essa coisa de que ele era da família e não é bom para a família se envolver... mas... é claro que tio Gabe sabe muito mais do que aquele banana. E esse tinha sido o discurso mais longo que Danny tinha dado na frente de pessoas desconhecidas, Dean pensou que a indignação que seu filho estava sentindo era maior do que a timidez.

Jo tinha um sorriso no rosto o tempo todo, aparentemente o que os meninos estavam dizendo era exatamente o que ela pensava. Antes que ela fosse dar um super aperto de mão em Daniel o menino vomitou. Dean correu para o seu filho e o carregou para o banheiro.

-Vamos Danny, deixe Lisa ganhar essa briga por você. O menino não tinha nem a força para argumentar, ele estava tendo uma de suas piores dores de cabeça.

No momento em que se viu a sois com Melissa Jane Winchester o tenente Chuck Shurley se viu completamente dominado pelo medo. A menina era definitivamente uma feiticeira das palavras e quando não estava a fim de deixar um argumento ela não deixava. Sendo assim ele se viu obrigado a ouvir todas as coisas ruins que a menina estava falando de seu comissario Zacarias Alder.

Longe de tudo e de todos e em uma sala coberta por carpete escuro o pintor James Novak se encolhia. Esse seria um “daqueles dias” e as consequências da visita semanal eram as piores. Seus olhos azuis estavam muito intensos e arregalados com a visão da mulher loira em sua frente e ele sabia que desta vez as coisas seriam muito piores.

Jimmy tentou se arrastar para o canto mais longe que ele era capaz de alcançar, mas a sua força estava reduzida ao terço e sua pouca alimentação diária não o ajudava nada. Todos os ossos de seu corpo doíam como se estivessem em mil pedaços e sua pele parecia ser tao sensível que não conseguia mais sentir o carpete áspero sem se cortar, ele estava desesperado e sabia que não ia conseguir chegar muito longe da mulher que sadicamente andava muito devagar com sua faca na mão.

Todo o tempo ela sorria.

Ele não aguentava mais. Fracassando de seu plano original ele caiu de bruços com a boca tocando o chão, o cheiro ficava mais forte toda vez que ele se posicionava dessa maneira, mas pelo menos a podridão do local em que estava dava algo para se distrair. Se ele tentasse olhar um pouco para a sua direita ele poderia ver excrementos tingindo o carpete feio, mas nada naquela sala pequena poderia surpreende-lo, as fezes e os poucos pratos de comida que entravam aleatoriamente eram suas únicas companhias agradáveis. Das suas outras companhias ele não poderia dizer o mesmo.

A mulher ergueu a faca e deixou-se admirar por sua beleza, doía em todo o seu ser ter de machucar um homem tao bonito, mesmo assim era a única medida que ela poderia empregar nesse momento. Voltando-se para o que veio fazer ela tentou encontrar alguma parte do corpo do homem em sua frente que não estivesse danificada, essa tarefa seria quase impossível uma vez que ela tinha concordado em deixar seu lacaio de olhos amarelos no comando da brincadeira e sádico como era ele realmente fez jus a sua promessa de treinar seu chicote, uma vez que ela encontrou as canelas intactas seu movimento tornou-se constante e ela não disse uma única palavra enquanto desenhava linhas verticais na pele suja.

Não havia necessidade de dizer nada, ele já sabia o que ela queria ouvir.

E era sempre impressionante como aquele retardado diante de si permanecia em silencio, nenhuma palavra alem dos gritos de dor era pronunciada nem mesmo quando ela encravava sua faca na carne já sangrenta. Quatro centímetros de corte e nada, os gritos torturados vinham ainda altos, mas ele não tinha forças para lutar como antes. Seus movimentos eram cada vez mais fracos e lentos, o que era de se esperar depois de um mês sob o seu tratamento, mas quando a tortura acabava e ela olhava nos olhos dele a chama ainda estava lá, tao forte e azul quanto antes e certamente com a mesma intensidade que seguiria ele durante todo o tempo que ele estiver ali. Ela rangeu os dentes, tinha lido em algum lugar que a força de vontade é a maior força do homem... essa lembrança a deixava indignada! Força de vontade Jimmy tinha muita e era aparente na graça de seus olhos azuis, era aparente nas respostas que ele dava a ela toda vez que ela perguntava se ele tinha mudado de ideia e era aparente na força de seus gritos, mesmo que seu corpo estivesse no caminho da desistência sua alma não estava nem perto de chegar ali. Qualquer outra pessoa poderia dizer que esse pintor é um grande lutador, mas para ela aquilo não passava de desobediência. Ela precisava das informações e precisava delas logo. Girando a faca em um ângulo de trezentos e sessenta graus ela a cravou mais alguns centímetros dentro da pele e depois retirou-a em um único segundo, tudo isso apenas para fazer o mesmo na outra canela.

As lagrimas escorriam dos olhos de Jimmy e nesse momento elas não eram muito bem vindas, seus olhos ardiam e ficavam desfocados enquanto ele sentia suas pernas serem rasgadas como uma roupa velha. Cada milimetro que a faca avançava era uma dor pior e ele não era capaz de enfrentar sem gritar, mesmo que não desejasse os terríveis gritos torturados saiam de sua garganta como se ele não mais tivesse controle dela. Se ele fosse sincero consigo mesmo ele poderia dizer que nem ao menos era capaz de reconhecer sua voz, a voz grossa e áspera que saia de sua boca parecia ser a voz de qualquer um menos a dele. Seus gritos de dor pareciam ser cânticos da própria morte.

Mesmo assim ele não iria dizer mais nada alem deles.

Depois da dor vinha a pior parte, sempre que ela deixava sua sala era para pegar uma bacia de água do mar, ele poderia saber disso por causa do cheiro- era o único cheiro bom que ele estava autorizado a sentir- e do ardor terrível que ele sentia quando ela jogava a água em cima de suas feridas. Era preciso morder a língua para não emitir nenhum som e ele fazia isso porque de alguma forma muito bizarra seu cérebro sabia que se a mulher perguntasse algo nesse momento ele responderia apenas para não sofrer essa tortura de novo. Por causa da força que seus dentes exerciam sobre sua língua geralmente sangue escorria de sua boca e ele era obrigado a voltar para aterra desconhecida da inconsciência. O que geralmente acontecia.

Durante esses momentos a escuridão era sua amiga, a melhor amiga que ele poderia ter. Era logo depois de desmaiar que a mulher de cabelos de raio de sol deixava-o em paz e era a única razão que mantéu o anjo da morte de se aproximar, toda vez que ele desmaiava era por um dia inteiro o que conferia a seu corpo uma pequena felicidade e capacidade de se recuperar. Infelizmente o tempo que ele tinha acordado e sozinho não era o maior tempo em sua programação, sempre que percebiam que ele já estava de volta o homem de olhos amarelos voltava com um chicote ou com qualquer outro brinquedo para lhe fazer sofrer.

Jimmy tinha tentado fingir-se de morto, mas nada disso adiantou. Quando perceberam que ele estava há dois dias livre de suas atividades diárias logo um dos capangas que guardava sua sala foi convidado a entrar e a espanca-lo para ver se ele acordava. A única coisa que ele aprendeu com aquela experiencia foi que chutes podem ser tao mortais quanto chicotes.

Ele poderia ver o sangue escorrendo de sua boca e escurecendo mais ainda o tecido aveludado que cobria o chão. Não iria demorar muito tempo para que finalmente a paz se abatesse sobre ele e isso o deixou animado. O sal ardia em todo o seu corpo e parecia que iria corroê-lo como um objeto de metal exposto ao mar, seus olhos estavam se fechado e sua visão estava escurecendo... um fantasma de um sorriso se abriu em seus lábios secos e ele abraçou a escuridão, não muito antes de ver uma figura brilhante perto dele.

Mais uma vez a diversão tinha acabado. Recolhendo a faca coberta de sangue e deixando as gotas pingarem a poucos centímetros de seus pês ela se levantou do chão imundo e abanou seu vestido como se fosse uma mulher que acabara de levantar-se depois de passar uma hora sentada em uma cadeira de praia. Ela mordia seu lábio inferior ao perceber que mais uma vez não tinha obtido nenhuma resposta.

As coisas estavam deixando de serem lucrativas e ela precisava mudar de um plano rapidamente. Ela estava certa que Azazel concordaria com a sua proposta.

Quando saiu da sala ela finalmente pode respirar algo que não cheirasse a merda e ficou um pouco mais calma com isso. Olhando para o medico que estava a seu lado ela deu permissão para ele entrar, afinal ela não queria que um pintor valioso como era aquele morresse. Certamente existiam outros meios de procurar o que ela desejava. A porta se fechou quando o homem ruivo entrou e ela nem ao menos percebeu que ele trazia um pequeno prato de sopa consigo.

Se ela soubesse certamente mataria aquele homem simplesmente por ele não ter respeitado as regras de não alimentar os animais depois do treinamento.

Ela finalmente deixou o ambiente entrando em seu carro e voltando para o lugar que sabia estar segura.

Assim que a porta se fechou ele pode respirar aliviado, se a mulher visse o prato de sopa que ele tinha nas mãos certamente não viveria para poder alimentar o prisioneiro. E ele não seria de ajuda nenhuma morto.

Seus olhos caíram sobre a figura em sua frente, eram obvias as evidencias de maus tratos, a força dele estava sumindo aos poucos e o medico temia que seu cativeiro não duraria por mais tempo. Se abaixando ele checou os sinais vitais como sempre fazia, primeira verificou o pulso e contou as batidas que sempre seriam fracas depois do desmaio, verificou a temperatura do corpo, que sempre estava alta por causa de uma possível infecção devido ao metal e aos germes que ele era exposto e por ultimo checou sua respiração- previsível como todos os outros sinais vitais era sempre fraca e inconstante- que estava vindo de uma forma sufocada. O medico de cabelos ruivos rangeu os dentes, ele não queria que isso acontecesse, ele não queria ter de se envolver com coisas desse tipo mas e principalmente ele não queria ver uma pessoa que parecia tao forte e justa- ele poderia sentir isso do fundo de seu ser, até aquele momento o homem diante de si não tinha revelado nada contra sua vontade e seu pai sempre o tinha ensinado que as pessoas justas sempre guardam segredos- morrer diante de seus olhos.

Toda vez que ele entrava nessa sala fedorenta e abafada ele se lembrava de Papillon(13) e esse pensamento era um dos únicos que imedia-o de vomitar.

Fora saber se o prisioneiro ainda tinha condições de permanecer ali mais nada ele poderia fazer; não era autorizado a prescrever remédios, não era autorizado a enfaixar o corpo dolorido do homem e principalmente não poderia trazer comida. Pelo menos essa ultima ordem ele tinha forças para desobedecer descaradamente, os homens que traziam o alimento para aquela sala eram gratos a ele e não se importavam em ficar um dia ou dois sem entrar naquele ambiente mal cheiroso. Ele era grato por isso, pois nas condições em que estava seu prisioneiro não mais poderia alimentar-se e se a comida continuasse a ser entregue pelos outros capangas- que estavam no mesmo barco que ele acorrentados a falta de dinheiro e a humilhação de ter de trabalhar para pessoas de mal caráter- ela seria desperdiçada como tinha sido nos dois dias anteriores. Se olhasse um pouco mais a frete, perto da entrada da sala, ele poderia ver os pratos de comida e o arroz branco derramado que agora estava sendo um verdadeiro manjar para uma pequena barata.

Pela milésima segunda vez ele se perguntou como diabos ele tinha acabado nessa situação. Percebendo que os pensamentos não o levariam a absolutamente nada ele resolveu matar a pequena vida para impedir que esta trouxesse doenças ao prisioneiro no futuro.

Depois disso ele procurou o lugar mais relativamente limpo- algum lugar que não estivesse molhado de urina ou manchado de fezes ou sangue- e se sentou para esperar o tempo necessário para que o homem de olhos azuis acordasse. No canto esquerdo de sua visão periférica ele poderia ver a pequena bola de luz que estava pairando ao redor do corpo desmaiado e sorriu um pequeno sorriso. Ele sabia que seu prisioneiro também era capaz de ve-la e sabia que ele ficaria um pouco mais forte assim que acordasse.

O medico fechou os olhos confiando na energia para cuidar deles, a bola brilhante mudou para a cor laranja e girou em um circulo ao seu redor. Essa era a sua forma de dizer que tinha entendido o recado, pouco tempo depois ele partiu para a terra dos sonhos.

Ele acordou quase uma hora depois. A principio seus sentidos estavam um pouco atordoados, o cheiro forte e o ambiente abafado o deixaram nauseado e inquieto, mas quando ele se lembrou o por que de estar ali seus olhos se voltaram para o formulário humano em sua frente e ele relaxou ao ver os olhos muito azuis olhando para ele.

Ele o ajudou a ficar em uma posição quase sentada com as costas apoiadas na parede coberta por carpete e rangeu os dentes quando o companheiro de sala gemeu ao ser mudado de posição. Nenhum dos dois falou mais nada, ambos sabiam a gravidade de tudo e não eram nem um pouco confortáveis em manter uma conversa mesmo que esta fosse para acalma-los.

O ruivo se apressou em sua tarefa e começou a alimentar o moreno, devagar como sempre. Cada vez mais parecia que o estomago do outro não tinha a capacidade de processar a comida, ele demorava muito para engolir mantendo sempre a sopa dentro da boca e seus olhos ardiam cada vez que sua garganta acertava o movimento. Para uma tarefa que em media deveria demorar menos de dez minutos seu paciente levava o quadruplo de tempo e ainda assim não terminava com o prato, sempre deixando um quinto de seu conteúdo.

Era extremamente doloroso ver isso. E as coisas sempre arranjavam uma maneira de piorar, Jimmy mal tinha terminado de comer e o medico deixou o prato de sopa de lado para testar os reflexos de seu paciente como ele sempre fazia (para ele era uma questão de necessidade, com as condições em que o puseram ele poderia perder a visão ou desenvolver mais escaras do que as que já tinha) ele primeiro verificava os olhos tentando sempre prestar atenção as respostas dadas pelo outro e sempre aliviado quando percebia que ele ainda era capaz de enxergar tao bem quanto há um mês atras, depois ele aplicava massagens no corpo quase todo coberto por ferimentos, hematomas e escaras e esse era o melhor momento que eles tinham, Jimmy sorria e agradecia verbalmente por isso e as vezes eles poderiam conversar sobre outras coisas que não tinham nada a ver com tortura e salas abafadas. Tinha sido assim que o medico descobriu que eles já tinham se conhecido... o terceiro momento era o mais doloroso para ambos; testar a capacidade de locomoção. Jimmy sempre gemia longamente quando estava a ser erguido e sentia muitas dores ao tentar mexer-se e andar, era o processo mais lento e o que mais poderia leva-los a um afastamento, pois se algum dos guardas percebesse a ajuda certamente poderiam matar. Mesmo assim isso nunca tinha acontecido, o medico ruivo começou a pensar que alguém lá de cima- ou a bola de luz que os acompanhava sempre que estavam juntos- tinha uma parte nisso...sendo como for nenhum dos homens poderia dizer que estava esperando por mais ação em suas vidas.

-Vamos Jimmy- ele falava muito devagar e manita seu tom baixo, tinha levado menos de uma semana para ele perceber que o prisioneiro não era mais acostumado ao barulho- você consegue dar um passo, eu sei disso.

Jimmy apenas balançou a cabeça, ele não acreditava no que seu amigo dizia. Suas pernas pareciam estarem presas a uma ancora muito pesada e toda vez que ele tentava elas tremiam como gelatina, se não fosse pelo medico ele certamente teria caído com as costas no carpete.

Vendo que não havia nenhuma maneira de obter progresso por hoje o medico suspirou profundamente, como ele gostaria que as coisas fossem de outra forma, ele notou que a bola laranja tinha desaparecido e sentiu todos os seus ossos gelarem, definitivamente não era um bom sinal... ele começou a abaixar Jimmy para deita-lo mais uma vez quando percebeu o movimente do outro homem. Ele tinha levado as mãos a boca em um piscar de olhos.

-Jimmy? Ele levantou o homem antes mesmo de deita-lo e fez com que os olhos azuis encontrassem os seus castanhos, a pele do paciente era pálida e ele não precisou de uma resposta para saber o que era, movendo o pintor para um canto da sala onde ele poderia vomitar sem se preocupar com deixar um espaço limpo para dormir ele apoiou o peso de Jimmy sobre seu corpo e colocou o braço dele em seus ombros.

O pintor vomitou sob seus pês e desmaiou logo em seguida. Pelo menos ele tinha percebido a necessidade de vomitar antes que ele despejasse o jantar no local em que ele dormia.

O ruivo levou seu paciente de volta para o chão do outro lado da sala e o deitou sobre o carpete desgastado virando-o de lado para que ele estivesse confortável, seus olhos castanhos observaram a figura adormecida por um curto período de tempo antes de deixar a sala, por mais que ele queria ele não era permitido ficar ali muito tempo, e quando seus narizes agradeceram pela liberdade ele só pode rezar para que o sofrimento todo que presenciava tivesse um fim.

Ele jamais iria esperar que ele pudesse ter uma pequena participação nisso. Foi só três semanas depois que ele recebeu permissão para comprar mantimentos. Sim, ele estaria sendo vigiado por um dos lacaios confiáveis da mulher loira- que tinha de ser o homem de olhos amarelos- mas ele não tinha feito medicina porque ele era burro e um sorriso passou por seus lábios quando ele começou a planejar as coisas.

A bola de luz voltou a aparecer diante de seus olhos quando ele menos esperou, ela tinha dado uma volta ao redor de sua cabeça fazendo-o um pouco mais feliz do que ele estava e foi assim que ele percebeu que tinha a aprovação dela para colocar seu plano em pratica. Ele tocou a superfície da bolina com a palma da mão e sentiu seu calor, seus olhos estavam lacrimejando com a felicidade de poder toca-la e de alguma forma ele sabia que ela o ajudaria em tudo.

Mesmo sem saber muito sobre a natureza daquele ser ou suas intenções ele poderia confiar nela, afinal, foi seu próprio paciente que tinha dito a ele que a bola de luz era um amigo antigo. Ele poderia confiar nas pessoas que Jimmy dizia ser seus amigos, de alguma forma muito tosca para ele uma fé cega tinha se direcionado para aquele homem e ele daria tudo de si para protege-lo da mesma forma que protegeu a mulher que ele amou, mesmo que esta não tivesse sobrevivido.

Ele voltou a se sentar sob o colchão duro da cama que dormia pelo tempo que estava trabalhando para a mulher e prometeu para si mesmo que faria tudo isso acabar, mesmo que el fosse preso por ser cúmplice de tudo.

Quando ele acordasse seria a sua vez de desobedecer as ordens de sua patroa.

Em São francisco, na delegacia de policia de homicídios para ser exato, o capitão Novak sentou-se pesadamente em sua cadeira de couro, ele tinha acabado de voltar de mais uma conversa frustrante com seu comissario e Zacarias não estava nem um pouco perto de renunciar sua decisão. Com um mês e três semanas desde o desaparecimento de seu irmãozinho ele ainda não tinha permissão para investigar o caso, não tinha permissão para falar com seu tenente e com Jo- que tinha sido promovida a detetive por ter resolvido um assassinato e prendido o assassino- e a única coisa que o obrigava a estar ali, já que o comissario tinha resolvido assumir todas as suas funções uma vez que declarou que ele está “mentalmente incapacitado para exercer suas atividades”, era a vontade de fazer alguma coisa útil. Nesse momento tudo o que ele poderia fazer era digitar mandatos.

Isso fazia seu sangue queimar com o desejo assassino de mandar o comissario Allen se foder. O imbecil- ele sabia muito bem- tinha chegado onde estava não por ter sido um grande detetive ou por mostrar sua força diante da equipe, ele estava ali no topo da cadeia alimentar por fazer favores... Gabriel rangeu os dentes, os favores que seu superior estava fazendo certamente eram em prol do FBI aqueles idiotas queriam ter o caso só para eles e não se importavam em sacrificar alguns reféns em troca de uma visita a casa branca. Como alguém poderia fazer isso? Sera que nenhum daqueles federais tinha um irmão ou família para criar um pouco de empatia com a sua situação? Ele colocou a cabeça em suas mãos e olhou para o afresco que estava na parede diante de sua velha mesa de carvalho, o quadro pintado a óleo era um dos seus favoritos e ele o tinha ganhado de presente quando recebeu a sua primeira promoção na policia. Ele poderia se ver cerca de dezessete anos mais novo com sua nova farda de detetive e seu distintivo de sargento, ao lado esquerdo com uma mão em seu ombro era Cas- uma versão com dezoito anos de idade e que tinha acabado de entrar na faculdade- sorrindo amplamente com os olhos cegos olhando para a frente, mas foi a outra figura a que ele se demorou mais: o outro homem de cabelos loiros e olhos verdes, seu melhor amigo e parceiro na policia e na vida estava com uma garrafa de cerveja na mão sentado e esperando que Jimmy terminasse de pinta-los para poder beber. Fazia tantos anos que as vezes ele se esquecia de como Miguel era impaciente... as lagrimas correram por sua face e Gabriel não queria mais olhar para esse quadro, não agora quando a pessoa que o tinha feito não estava junto a si. Ele poderia ter perdido seu melhor amigo, mas não deixaria que a mesma pessoa levasse seu irmão.

-Se você estiver ai- ele disse em seu pensamento- proteja-o com tudo o que você tem. Eu vou fazer o impossível para salva-lo.

Já tendo um rascunho de ideia do que ele faria um sorriso se espalhou em seus lábios e seus olhos brilharam, cada vez mais ele sentia que não queria ficar ali digitando processos e mesmo que recusou a primeira tentativa algo dizia-lhe que passou da hora. Era o momento de entrar na clandestinidade, se o trabalho policial não estava sendo frutífero ele tinha todos os meios para fazer as coisas a sua maneira e ele sabia exatamente quem eram as pessoas, seja dentro da delegacia ou no mundo civil, que poderiam ajuda-lo com isso.

Tirando seu celular de uma pilha de relatórios que estava em cima da mesa ele discou um numero que estava em sua discagem rápida e colocou o aparelho em seu ouvido.

Seu sorriso apenas aumentou quando ele ouviu a saudação do outro lado da linha. E nem se quisesse ele poderia ver a bola laranja que estava pairando sob a sua cabeça.

Notas finais
Sobre a situaçao de Jimmy, ele sofre muito mais espancamentos do que os que estou mostrando. Sua rotina diária conta com chicotes, choque, facas e outras coisas que serão mostradas mais adiante...
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Mandy