When You Came To Me
1 Prólogo
Notas iniciais
A pessoa que visse Rachel Berry naquele dia não teria dúvidas de que havia algo de errado acontecendo com a mulher. A costumeira preocupação com o visual e a organização sempre em dia de sua mesa, naquela segunda-feira, não estavam como sempre. Os cabelos negros e por vezes lisos e ondulados de Rachel estavam um tanto bagunçados – o que era quase um charme, se ela fosse observada com um pouco mais de atenção –, mas o pingente com o nome “Rachel” que sempre estivera em pescoço, naquele dia, estava fazendo falta. Fora esquecido em sua mesa de criado-mudo.
Também não havia salto alto nos pés da mulher, porque aquele era um dia em que ela queria ter certeza de que não iria se esborrachar ao primeiro dobrar de esquina. Por isso as sapatilhas. O batom era simples, pois ela tinha a ligeira impressão de que não queria chamar a atenção quando chegasse ao escritório. Uma mudança e tanto de atitude, se ela bem parasse para analisar, afinal, quem diria que Rachel Berry não iria querer chamar a atenção algum dia?
Mas esse dia tinha chegado, e era aquela segunda-feira.
Rachel era secretária em uma empresa multinacional cuja administração e contabilidade funcionava no décimo quinto andar de um prédio em Nova Iorque, próximo à tão famosa avenida Broadway e àquele monumento dono da atenção de tantos turistas chamado Times Square. Estava com vinte e dois anos e até que se sentia feliz com a posição que tinha, mas era inevitável o desejo de “querer algo mais”.
Aliás, fora esse o desejo que a levara até Nova Iorque. Muitos sabiam que a viagem a qual ela se submetera no verão do ano passado era para, na verdade, tentar um papel de sucesso na Broadway, algo que, por mais bela que fosse a voz da mulher, não fora possível por conta dos seus problemas de atuação – costumavam dizer que ela era dramática demais, até mesmo para os padrões dos musicais da Broadway. Portanto, sabendo da necessidade de ter dinheiro em um lugar como aquele, cujas contas e custo de vida costumavam ser um tanto salgados, Rachel descera do patamar de estrela no qual se colocara e decidira arranjar um emprego que pudesse mantê-la – uma medida temporária para uma futura estrela da Broadway, e era bom que todos soubessem disso.
Seu pequeno apartamento ficava próximo ao prédio em que trabalhava, portanto, estresses com trânsito e táxis eram desnecessários e evitáveis. Em contraparte, mesmo naquele dia, Rachel estava com pressa, e os cinco minutos de caminhada até o quarteirão em que trabalhava pareceram incríveis cinco horas. A parada para o café, feita em cinco dos sete dias da semana – basicamente, os dias em que ela trabalhava – não fora feita porque, na sua agenda, e diante de um ataque tão grande de nervosismo, não havia espaço para uma bobagem como essa.
Por isso, quando adentrou a recepção do andar em que trabalhava e disse pelo menos quatro “Bom dia!”, distribuídos entre as primeiras trinta pessoas que encontrara por lá, Rachel Berry estava irreconhecível, e os comentários maldosos, feitos aos sussurros para que não chegassem aos ouvidos daquela louca, foram inevitáveis.
Ao chegar ao seu posto de trabalho, sua bolsa fez um barulho de um corpo morto ao cair sobre a mesa. Rachel tinha diante de si uma mesa em L, que lhe fornecia uma vista panorâmica de todo o escritório e suas baias, e um computador com tela de LCD que ainda não tinha ligado, embora a secretária tivesse a impressão de que já o tivesse ligado há mais de cinco minutos – não o ligara há mais do que cinco segundos, na verdade. Inconscientemente, levou uma mão ao local onde costumava deixar seu copo de café, mas não o encontrou por lá. Praguejou aos sussurros, dizendo pelo menos meia dúzia de palavrões.
Foi nesse instante que uma mão branca, cujas unhas estavam lindamente pintadas com uma tonalidade de roxo, pousou um copo de café em sua mesa, próximo ao local em que ficava o telefone. Rachel, à primeira instância, não seria capaz de dizer a quem pertencia àquela mão – não que tivesse algum interesse em fazer essa adivinhação. Sem pensar duas vezes, já que o computador não tinha ligado ainda, ela levantou o rosto e seguiu o curso do braço até o rosto da mulher que lhe oferecia aquele copo.
– Eu sei quem você é – Rachel disse, sacudindo um indicador na direção da loira diante de si. – Não sei o seu nome inteiro, mas é conhecida como Fabray, a moça da contabilidade, não é?
Como aquela sede tinha muitos funcionários, era natural que Rachel se enganasse uma vez ou outra com os nomes, mas não foi esse o caso diante da loira à sua frente. Aquela de fato era Quinn Fabray, e ela não era só famosa por ser a moça da contabilidade, muito pelo contrário; Quinn era linda, sempre muito bem vestida, bem arrumada, e merecedora da alcunha de mulher mais linda do escritório. Tinha os olhos mais bonitos que Rachel Berry já vira na vida, e isso para não mencionar o nariz perfeito que ela desejava muito que fosse seu algum dia. Às vezes, Rachel achava o próprio nariz horrível.
– Quinn Fabray – disse Quinn, sorrindo de leve não como se achasse graça da situação, mas porque queria ser simpática.
– É muita bondade sua querer me oferecer esse café, mas...
– Não diga não, Berry. Acabei de ver a sua mão tateando a mesa em busca de um copo que nem esse.
– Já que você insiste – Rachel agarrou o copo e deu umas boas goladas, como se não estivesse só com vontade de um café, mas com uma fome insaciável dele. – Não vai precisar dele mesmo?
– Acho que é um pouco tarde para fazer essa pergunta, não? Quase não há mais café no copo.
– Espero poder pagá-lo de volta algum dia.
– A oportunidade vai chegar, pode ficar tranquila.
Quinn Fabray apoiou os braços cruzados sobre a baia da mesa de Rachel e então a secretária percebeu que a estranha visita não surgira ali apenas para oferecer o café, mas para conversar também.
– O que está acontecendo, afinal? – Quinn perguntou, apertando os olhos.
– Como assim?
– Tudo bem que secretárias costumam ser bem estabanadas naturalmente, mas até você está um pouco estranha hoje. Há algo acontecendo sobre o qual eu e o escritório não estamos sabendo?
Rachel piscou algumas vezes, a boca levemente aberta. Quinn não era e nem nunca foi sua melhor amiga, e Rachel não se lembrava de algum dia sequer ter trocado algumas palavras com ela que não estivessem relacionadas a trabalho, pagamento de contas e aprovação de processos.
– A menos que seja um problema pessoal, é claro – Quinn emendou, afastando-se pela primeira vez. – Se for, acho que não é da minha conta, não é mesmo?
Rachel olhou rapidamente às suas costas, no que parecia um gesto de quem queria fugir da conversa, mas que era mais um sinal de que a sua preocupação estava relacionada à pessoa que deveria estar dentro daquela sala. Até a sexta-feira da semana passada, o homem que tomava o cargo de Vice Presidente e gastava horas e horas de suas semanas enfurnado nas paredes de vidro daquele ambiente era o Sr. Goodman, um homem gordo, falador e autoritário com o qual Rachel não gostava de trabalhar em absoluto. Com o tempo, ela até aprendera a aturá-lo, mas a presença do homem não a agradava de forma alguma. Por conta de reestruturações e cortes de custos, esse VP fora demitido e os boatos diziam que ele fora substituído por um talento mais novo e barato, um recém-formado com Pós-Graduação em Administração Empresarial que era de confiança do diretor da empresa.
Mas nem o diretor era uma flor que se cheirasse, e justamente por ser um homem de confiança dele o mais novo chefe do setor era que Rachel estava tão apreensiva.
– O novo VP começa a trabalhar hoje – disse Rachel para Quinn depois de dois minutos de pausa. Quinn só esperara todo aquele tempo porque era naturalmente uma altruísta que, apesar de falar muito mal de Rachel nos tempos vagos, não suportava ver alguém passando por algum problema e não oferecer a sua ajuda.
– Ah, então é isso. Você já sabe quem é?
– Não, é claro que não. Por isso estou tão nervosa.
– Eu, no seu lugar, ficaria contente.
– Por quê?
– Existe alguém que poderia ser pior do que o Goodman?
– Não sei ao certo. Conheço tão pouco desse meio...
– Fique tranquila. A preocupação que você tem a gente da contabilidade também tem. Somos nós que recebemos os xingamentos por contas altas, não somos? Seja quem for, não tem como ser pior do que o Goodman. Vai dar tudo certo.
Rachel apertou os olhos na direção de Quinn e disse:
– Obrigada.
– De nada. Qualquer coisa, você sabe o meu ramal. Sou ótima em fazer de conta que estou trabalhando quando, na verdade, estou fofocando. Você devia tentar qualquer dia. – Com uma batida de punho fechado sobre a baia, Quinn pontuou o seu discurso se retirou.
Nem meio minuto depois, outra pessoa surgiu à sua frente, mas esse não era um funcionário da empresa. Em seu uniforme pardo, com uma bermuda que terminava acima dos joelhos e um boné que deixava mechas de cabelos louros surgirem em sua nuca e por cima de suas orelhas, aquele era o entregador da UPS.
– O novo entregador da UPS – Rachel sussurrou, contemplando os olhos claros e belos que a contemplavam com a mesma atenção. Aquele, sem dúvida alguma, era o entregador mais bonito que ela já vira na vida.
– Ah, então vocês prestam atenção em gente como a gente, na verdade? – o homem usou os lábios enormes e carnudos para dizer.
E quem não notaria você?, Rachel pensou, mas, no lugar, disse:
– Sou uma mera secretária. Estamos na mesma.
O homem sorriu. Talvez fosse um flerte, mas Rachel jamais seria capaz de afirmar isso.
– Tenho uma entrega para a contabilidade – ele disse, pousando uma caixa grande de papelão sobre a mesa de Rachel, mostrando braços bem trabalhados que certamente não foram conseguidos por carregar caixas como aquelas. – Pediram que eu viesse até aqui.
– Talvez porque imaginaram que eu seria capaz de dizer qual o caminho a seguir – a secretária disse, agora bem humorada. – Está vendo aquela mulher loira em pé ali? – Rachel apontou Quinn ao dizer isso. – Ela é da contabilidade. Pode entregar diretamente para ela.
– Está bem. Tenha um bom dia, madame – disse o entregador a Rachel e ela teve a ligeira suspeita de que ele usara um sotaque diferente no final da frase, o que talvez considerasse engraçado, antes de agarrar a aba do boné em um aceno de despedida.
Voltando-se para frente, onde a tela de espera do computador aguardava uma senha, Rachel finalmente pensou em trabalhar.
Não conseguiu, é claro. Burburinhos começaram a se fazer em algumas baias à sua frente, e Rachel, curiosa como era, não deixaria de levantar os olhos do que era mais importante para observar a fonte de tanto barulho, deixaria?
Havia um homem caminhando pelo corredor, mas estava tão distante que Rachel não soube dizer se o conhecia. Ele era alto, muito mais alto do que qualquer homem que ela conhecia, e estava vestido em um paletó preto, carregando uma maleta também preta em uma das mãos. Caminhava com tanta segurança que parecia o dono do lugar.
– Oh, meu Deus! – Rachel exclamou, ao se dar conta de quem era aquele homem.
De cabelos negros e curtos e olhos tão negros e pequenos em um rosto grande, de maxilares salientes, e com algumas pintas, aquele certamente era o novo VP e o homem mais bonito que Rachel Berry já vira na vida, aquele que facilmente a fizera se esquecer do fulano entregador da UPS. A poucos metros de distância da mesa da secretária, ele ergueu as sobrancelhas a direção dela e sorriu. O corpo da mulher pegou fogo como se tivesse sido mergulhado em água escaldante. Estava tão avoada, pensando em como seria trabalhar com ele e se algum dia seria capaz de se aproximar do chefe como, num súbito, seus pensamentos fantasiaram – Rachel, afaste esse tipo de pensamento da cabeça! –, quando o ouviu insistir em uma pergunta que já fizera outras duas vezes.
– Você deve ser a Rachel Berry, correto?
Rachel levantou-se num pulo e estendeu uma mão à frente.
– Rachel Berry, sim, senhor.
O homem riu ao agarrar a mão da secretária. Talvez fosse mais simpático do que o Goodman. E quem não seria?
– O que é tão engraçado? – ela perguntou, corando, envergonhada.
– Eu costumava agir assim no exército. Você me fez lembrar daqueles tempos.
A voz dele era suave e sincera, quase calorosa.
– Costumam me chamar de Sr. Hudson, mas você pode me chamar de Finn – ele emendou e, surpreendentemente, levou a mão da secretária aos lábios para um beijo. Em nenhum momento afastou seus olhos negros dos olhos também negros de Rachel Berry, o que a fez estremecer. – Posso te chamar de Rachel também?
– Você é o novo VP?
– Isso não responde a minha pergunta.
Rachel corou ainda mais, se é que isso era possível.
– C-Claro – ela gaguejou. – Rachel, por mim, tudo bem.
– Não gosto dessas formalidades entre chefe e funcionário. Estamos no mesmo barco e trabalhamos pela mesma causa. Deveríamos nos tratar como iguais, não?
Rachel assentiu nervosamente com a cabeça.
– Isso responde a sua pergunta? – Finn Hudson perguntou, mas sua voz soara tão sedutora que Rachel pensou estar recebendo um flerte. Como sempre, ela não seria capaz de afirmar com certeza.
– Responde, Sr. Hudson...
– Finn, por favor – ele interrompeu.
– Finn – ela repetiu.
– Que bom. Vou precisar do seu apoio para conhecer melhor as pessoas que trabalham aqui. Posso contar com você para esse tipo de coisa?
– Para isso e para o que mais precisar.
Finn dessa vez não só riu, mas gargalhou. Não foi preciso mais do que isso para que a garota percebesse que acabara de dizer uma imensa besteira.
– Me desculpa! – Rachel disse e levou ambas as mãos à boca.
– Não há o que desculpar – ele disse e apoiou uma mão no ombro da secretária, sorrindo, dessa vez, de um jeito consolador. – Sinto que vamos nos dar muito bem.
– Eu também – Rachel afirmou, embora tivesse pensado em dizer algo como “Estou torcendo por isso”.
Como não tinha mais nada para dizer, Finn se retirou e entrou na sala que agora era sua por direito.
Rachel sentiu como se só então tivesse permissão para respirar.
Será que essa não seria uma boa hora para chamar uma amiga para conversar e pagar o café que um dia eu prometi?, pensou e puxou a cadeira para se sentar. As pernas tremiam e ela temia não conseguir mais ficar em pé.
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