― Ah ― é tudo o que consigo dizer. Então ele tinha namorada… Torço para que ele não esteja lendo minha mente.

― Então você já vai, né? ― Adam diz se dirigindo à Hillary.

Ela faz menção de falar alguma coisa mas ele lhe dá um olhar firme e ela se cala.

― Sim ― ela se vira e quando chega à porta diz: ― Tchau, Audrey.

Simplesmente fico parada. Eu não deveria me preocupar com o fato de Adam namorar Hillary, e sim com a conversa que escutei.

Quando Hillary fecha a porta Adam está de costas para mim. Possos ver seus ombros subindo e descendo quando ele solta um suspiro. Ele se vira para mim e eu não consigo ver nenhum traço de expressão em seu rosto.

― Você está bem? ― ele pergunta.

Dou de ombros.

― Por que não estaria?

Tentei parecer indiferente, mas não sei se funcionou. Eles me conhecem. Têm um plano contra mim.

Ele fez uma pausa.

― Hillary é um pouco… complicada.

― É mesmo? Sabe que nem se percebe? ― falo ironicamente e me arrependo no mesmo instante.

Por algum motivo Adam sorri.

― Dá pra você me ensinar aquela coisa de bloqueio agora? ― pergunto. ― Se vou ficar aqui, não quero você bisbilhotando minha mente.

Sim, ficar lá. Vou fingir que não escutei a conversa deles. Porque não tenho para onde ir e vou descobrir o que querem comigo. Pelo jeito, alguns traços da minha personalidade já estão aparecendo.

Ouço-o suspirar novamente.

― Tudo bem, vamos lá.

Ele gesticula para que eu me sente no sofá. Logo estamos os dois sentados um de frente para o outro. Adam me encara.

― O que foi? ― pergunto desconfortável.

Ele não responde e começa a explicação.

― Primeiro concentre-se. Esqueça tudo e pense apenas em uma coisa. Seu maior segredo. Algo que não quer que ninguém saiba. Pense nisto e em nada mais.

Não tenho muitas coisas de que me lembro e começo a pensar no episódio da escada. Sobre como aquela garota, Hillary, mexeu comigo. Quer dizer, não que eu tenha muito o que falar sobre ela, eu nem mesmo a conheço, mas ela não parece muito confiável para mim. E eu com certeza não gosto nem um pouco dela. Esse é meu maior segredo porque não quero que Adam saiba o que eu penso sobre ela. Sobre eles.

― Está pronta? ― ele diz olhando fixamente para mim. Eu assinto.

Adam se esforça por um tempo, mas por fim desiste.

― Acho que você aprendeu.

― E como sei se estou mesmo conseguindo?

Tive que perguntar. Quero ter certeza, não depender de ninguém.

― Eu já te disse, funcionou ― ele responde um pouco desnorteado.

― Você não entendeu o que eu quis dizer.

Adam junta as sobrancelhas.

― Ah ― responde, visivelmente chateado ― Você acha que não estou te falando a verdade, não é?

Não respondo diretamente a pergunta dele.

― Só gosto de ter certeza de tudo.

Ele suspira, apoiando os cotovelos nos próprios joelhos e apoiando a cabeça nas mãos.

― Você se lembra do que gosta, ruivinha?

Esse apelido… Uma lembrança do passado invade minha mente. Já o havia ouvido antes, mas onde? Ele havia me chamado assim no bar, mais cedo, mas não acho que seja só isso.

― Você não me respondeu, ruivinha.

― Você me chamava assim antes, não é?

― Eu já disse que não te conheço, Audrey.

― Então agora é Audrey? ― Não havia hora melhor para impedi-lo de ler meus pensamentos.

― Esse é seu nome, não é? ― continua.

― Estou cansada. Preciso dormir ― desvio completamente o assunto.

― Por favor, não me trate assim ― ele me encara.

― Assim… Como? ― pergunto um pouco confusa.

― Estou te ajudando, ruiv… Audrey. Você não precisa me tratar mal.

― Por que, de repente, você começou evitar me chamar de “ruivinha”?

― Acho que você não gosta. Só isso ― ele está claramente tentando disfarçar alguma coisa.

Eu o encaro, prestando atenção aos seus olhos. Eles eram… raros. Heterocromia não é exatamente algo comum. E os olhos dele me trariam alguma lembrança, eu sabia disso. Só precisava descobrir qual é.

Adam solta uma risada. Percebo que já conheço aquele som.

― Por que está me encarando?

― Quero me lembrar do seu rosto ― minha paciência com a sutileza já se esgotou.

Ele abaixa a cabeça. De repente um nome me vem à mente. Hondrix. Não sei o que significa.

― Hondrix ― digo em voz alta.

Ele levanta a cabeça devagar, com um sorriso um tanto melancólico no rosto.

― Eu sabia que você não iria esquecer ― murmura.

― Esquecer o quê, exatamente? ― pergunto um tanto confusa.

Ele não responde, apenas continua olhando para mim com o mesmo sorriso.

― Adam Hondrix ― digo de repente.

Ele assente.