Cerca de meia hora depois, estamos sentados no chão do quarto de hóspedes, um de frente para o outro. Hillary acabou de ir embora.

Adam me olha como se esperasse que eu comece a falar.

― Será que dá pra você falar logo? Temos muito a esclarecer ― quebro o silêncio.

― Tudo bem ― ele abaixa a cabeça ― Como eu já disse, nos conhecemos no orfanato.

― Então você também vivia lá?

― Sim. E bom, nós já não tínhamos muita esperança de sermos adotados. É raro que adotem adolescentes. Então nós fugimos.

Então além de não ter uma família eu fugi com um menino. Faço um gesto para que ele continue a falar.

― E foi quando fugimos que conhecemos a Hillary ― ele dá uma risada ― Meu Deus, você sempre a odiou.

― E por quê? Qual era o meu problema com ela? ― pergunto. Pelo menos eu estava certa: já nos conhecíamos e nunca nos demos bem.

― O seu problema era que ela gostava de mim.

― E o que isso tem a ver com eu não gostar dela?

Ele sorri e não me responde. Fico apenas observando-o, mas a resposta que espero não vem. Finalmente, ele continua a falar.

― Enfim… E foi a Hillary que nos apresentou ao tal grupo. O grupo que você viu no seu sonho.

― O que eles são? Por que fizeram aquilo?

Adam respira fundo antes de começar a falar.

― Eles procuram pessoas com poderes. Mas você nunca gostou da ideia desse grupo. E hoje posso admitir: você tinha razão.

― Por que eles queriam me obrigar a entrar nisso?

― Porque o líder não tem poderes.

― Desculpe, estou confusa. Como assim ele não tem poderes?

― O nome do líder é Takeda. Ele não tem poderes e esse é o motivo que o levou a criar esse grupo. Ele queria arranjar um jeito de ter poderes.

― E você contribuiu com isso de livre e espontânea vontade?

― Não, claro que não. No começo eu não sabia.

― O que ele disse para você que o fez concordar com isso?

― Ele, nada. Foi a Hillary. Ela fazia parte do grupo e… ― eu o interrompo.

― Espere. A Hillary tem poderes? ― ele assente. ― Quais?

― Comunicação com animais.

Me levanto, nervosa.

― E foi assim que ela te convenceu a entrar nesse grupo, seu idiota?

Ele solta uma de suas risadas.

― Obrigado pela parte que me toca, mas não. Agora sente-se de novo, ainda há muito para te contar.

Sento a contragosto.

― Pois bem, continue ― digo.

― Enfim. Você sempre soube que o grupo não era coisa boa. Então eu tentei te convencer a entrar para o grupo.

― E por que você se juntou a eles?

― No começo, eu te apoiei. Mas Takeda começou a nos ameaçar. Então eu tentei te convencer a entrar para o grupo.

― Você simplesmente se rendeu para um flango?

Ele ri.

― Senti falta das besteiras que você fala.

― Estou falando sério.

― Não, não me rendi. Você acha mesmo que eu iria deixar que eles te capturassem?

― No final das contas você deixou, não é?

Ele me encara. Paro para pensar por um momento. Lembro de como me senti no parque com Adam. Ele me transmitiu sensação de segurança. Por que agora desconfio tanto dele? Se está me contando tudo isso, é porque quer me ajudar, não é…?

Percebo que ainda não processei tudo o que ele me disse. Hillary tem poderes e provavelmente já sabia qual era o meu. Por que ela me perguntou aquilo enquanto eu lavava a louça? Saber se já adquiri controle sobre meu poder novamente? E o que Adam quis dizer com sermos “um pouco mais” do que amigos?

― Você sabe muito bem o que eu quis dizer ― ele diz de repente com aquele sorriso irônico.

― Eu odeio quando você faz isso.

E se nós éramos tão próximos, por que ele está com Hillary?

Ele fica sério de repente.

― Hillary é só uma desculpa.

― Como assim?

― Quando pegaram você, me disseram que eu teria que fingir não te conhecer e fazer o possível para levá-la a Takeda. Mas para isso eu não poderia demonstrar nenhum afeto por você.

― Mas você já me contou tudo. E agora, o que pretende?

― O que você sempre me disse para fazer.

― O quê?

― Enfrentá-los.

Levanto uma sobrancelha.

― Você é louco?

― Nós dois somos. Nós vamos nos infiltrar.

― Está querendo dizer que pretende me levar lá novamente? Você é louco.

― Você teve essa ideia muito antes, ruivinha.

― Eles apagaram minha memória e me jogaram em um banheiro sujo como uma moradora de rua. Acho que as circunstâncias mudaram.

― Jogaram você lá por uma razão. Eles têm um plano, Audrey.

― Que plano?

Ele suspira e olha para baixo.

― Você vai precisar confiar em mim.

― Confiar em você? Pelo que me lembro acabei de conhecer você e me parece que ainda esconde coisas de mim, Adam. Como espera que eu confie em você?

Ele analisa meu rosto por um momento.

― Não, ruivinha. Nós nos conhecemos há treze anos.

― Acontece, olho ímpar, que eu não me recordo de todo esse tempo.

Ele olha para baixo e sorri.

― Olho ímpar. Não achei que você fosse lembrar.

O encaro, confusa.

― E de onde eu tirei isso?

― É que é o nome que se dá a gatos com heterocromia. E você sempre me achou atraente, sabe? ― ele sorri ironicamente e é como se estivéssemos no parque de novo.

― Mentiroso ― rio e dou um tapa fraco no braço dele ― Estou falando sério, qual é a razão?

―Eu também estou falando sério.

― Não acho você atraente ― minto.

― Esqueceu que posso ler sua mente? E não se preocupe, você já admitiu isso no passado.

― Você é um idiota, sabia?

― É, você costumava falar isso também.

― Estávamos falando sobre uma coisa importante.

― Você me achar atraente é uma coisa importante.

― Cale a boca.

Ele tenta conter uma risada.

― Tudo bem. Desculpe, ruivinha. Bom, onde estávamos?

― Algo entre eu confiar em você e nosso passado.

― Como eu já disse, não há nenhum jeito de escapar deles. Será preciso enfrentá-los.

― Por que enfrentá-los se podemos fugir? Não seria mais simples?

― Porque não podemos fugir! ― ele aumenta o tom de voz. ― Será que dá para você entender?

― Tudo bem, Adam ― respondo no mesmo tom ―, qual é o seu plano?

― Eu já disse ― ele volta a falar normalmente ― Enfrentá-los.

― Tudo bem. Faremos isso então.

― Tenho alguns assuntos para resolver agora. É sobre o grupo. Você vai ficar aí?

Assinto e Adam sai do quarto. Preciso pensar sobre tudo o que ele me disse.