When Tomorrow Comes

1 I Don't Remember Anything


Meu nome é Audrey. Tenho 17 anos. Isso é tudo que me lembro.

Me encaro no espelho do banheiro, com a respiração ofegante. Meu rosto não faz com que eu me lembre de nada. Uma mulher entra e eu finjo lavar as mãos.

Não sei como cheguei aqui. Aliás, não sei pra onde ir. Saio daquele banheiro imundo e começo a andar sem rumo.

Olho para as pessoas na rua, na esperança de que eu conheça alguém, mas é em vão. Começa a anoitecer e eu não tenho a menor ideia de onde estou.

Ando sem rumo por várias horas quando finalmente decido entrar em um barzinho em uma esquina. O lugar é uma espelunca com cadeiras e mesas sujas num canto. Leio um cartaz que indica alojamentos em um canto. Enfio as mãos nos bolsos e tiro de lá algumas notas. Não é muito, mas deve servir.

Peço uma água. Não é uma boa ideia ingerir álcool, já que perdi minha memória. Escuto algumas vozes, mas não as das pessoas conversando. É diferente. Parece que está dentro da minha cabeça. Decido ignorar e começo a beber minha água, tentando resolver o que vou fazer.

― Ei, você ― digo para o cara com uma barba nojenta atrás do balcão ― Quanto custa a noite nesse alojamento?
Ele me olha de cima abaixo. Percebo que está medindo as palavras antes de me responder.

― Custa trinta dólares, menina. Não tem eletricidade e nem água quente.

Conto as notas que ainda me restam no bolso. Ainda tenho o suficiente. Olho em volta e penso em procurar outro lugar, mas já está tarde demais. Resolvo pagar os trinta dólares. Ou isso ou a rua. Não vou me sentir nada segura dormindo no mesmo lugar que aquele homem, mas mesmo assim...

Ele estende a mão para pegar o dinheiro. Observo suas unhas sujas e quebradas se aproximarem de minha mão. Entrego os trita dólares a ele. Ele conta o dinheiro e aponta para uma escada caracol no fundo do bar. Levanto-me e antes de começar a andar ouço-o dizer "menina tola".

― O que você disse? — pergunto voltando-me para ele.

Ele balança a cabeça.

― Eu não disse nada, garota.

Respiro fundo e volto a subir as escadas. Talvez eu consiga ir embora.... Perder trinta dólares não seria o fim do mundo. Acabo entrando no quarto e tateando meus bolsos, tentando encontrar algo útil. Encontro apenas uma escova de cabelos. Por qual motivo eu carrego isso?

Me dirijo ao banheiro, observando a pia suja. Encontro uma toalha em péssimo estado, mas terá que servir. Tiro minha roupa e ligo o chuveiro, deixando a água gelada atingir minha pele nua. Como diabos eu cheguei até aqui?

Quando termino de tomar banho, mal me enxugo, com nojo da toalha. Visto minhas roupas novamente, já que não tenho mais nada, e fico olhando pela janela do quarto. Nem sei quanto tempo se passou quando escuto passos do lado de fora. Alguns segundos depois, alguém bate na porta. Não faço ideia de quem seja, mas não me arrisco a abrir. Ao invés disso simplesmente me encolho e tento fazer o mínimo de barulho possível. Talvez assim a pessoa vá embora.

Vou para outro canto do quarto para que, caso alguém olhe debaixo da porta, não veja a sombra dos meus pés. A pessoa bate novamente na porta, com mais força. Entro no banheiro e fecho a porta. Mas sou descuidada e a porta velha solta um rangido. As batidas cessam e por um momento de estupidez, penso que o indivíduo foi embora.

Estou quase saindo do banheiro quando ouço passos cada vez mais perto. Pelo o que posso concluir, quem quer que esteja ali entrou no quarto. Espio entre a fechadura e meu coração quase para. É o homem do balcão, e a julgar pela sua expressão, ele está se divertindo.

― Onde você está, menina? Sei que está aqui. Saia de seu esconderijo ― ele diz em um tom de voz divertido.

Ele parece ainda mais sinistro do que antes e o medo me invade, tomando conta de cada partícula do meu corpo. Parece que a única coisa que consigo escutar são as batidas do meu coração. De repente, algo cai em cima de mim e me assusto. Só não gritei porque minha voz falhou. Percebo que era a toalha, que eu havia pendurado na parte de cima do box. Não encontrei nenhuma explicação para a toalha ter caído, porque não está ventando e a única janela ― tão imunda que mal se pode enxergar através dela ― está fechada.

Os passos cessam e por um momento o silêncio é quase tranquilizador.

O homem começa a chutar a porta, cada vez com mais força.

Encolho-me em um canto do banheiro, na esperança de que se ficar bastante tempo aqui ele vá embora.

Ele não parece disposto a ir embora. Uma hora a porta irá ceder, e eu terei que fazer alguma coisa

Aperto os olhos na expectativa de acordar desse pesadelo. Abro-os, mas tudo o que vejo são minhas pernas jogadas no chão daquele banheiro imundo. O pânico me domina. A porta velha está prestes a ceder. Sinto um suor frio percorrer as minhas costas.

Entro no box, o canto mais afastado da porta que encontro. A porta cede. Eu grito novamente, mas dessa vez minha voz não falha. O homem sorri ironicamente.

― Está com medo, menina?

Aperto meu corpo contra a parede. Meu pânico crescente está claramente visível. Não sei o que fazer. De repente, a janela suja se abre e uma borrifada de vento frio entra naquele banheiro. Penso em me esgueirar pelo pequeno vidro aberto, mas ele é pequeno demais e o homem me alcançaria antes mesmo de eu conseguir chegar lá.

Não tenho o que fazer. Apenas encaro o homem, tentando adivinhar o que irá acontecer a seguir.

Estou tremendo. Ele parece se divertir com o meu pânico. O homem já está dentro do banheiro, se aproximando de mim. De repente, o espelho quebra, e eu sinto alguma familiaridade nessa situação.

Eu não sei o que está acontecendo, mas algo dentro de mim diz que eu causei aquilo, apenas não sei como.

Ele se assustou com a situação. Por um momento, pensei que ele fosse recuar. Mas ele ignorou e voltou a se aproximar de mim. Talvez eu consiga controlar...

Logo, a lâmpada estoura e ficamos no escuro.

― O que está acontecendo? ― ele diz num tom de voz que demonstra espanto.

― Está com medo, menino? ― eu não sei de onde veio isso, mas eu disse com a maior naturalidade do mundo.

Meus olhos começam a se adaptar à escuridão e eu já consigo enxergar a silhueta do homem.

Chuto o mais alto que consigo, atingindo seu rosto. Ele solta um grito de dor e algumas gotas que deduzo ser sangue espirram em mim. De repente eu já não sinto mais medo.

Agora consigo enxergar melhor. Ele está com as mãos cobrindo o nariz, talvez esteja quebrado.

Ele se contorce para baixo e vejo a oportunidade perfeita. Chuto-o novamente, atingindo desta vez sua virilha. Ele cai no chão de joelhos e eu corro para fora dali. Desço as escadas correndo, não suporto ficar mais um minuto ali dentro.

Finalmente sinto o ar noturno da rua atingir meu rosto. Me sinto mais tranquila agora, apesar de não ter dinheiro e nem para onde ir. As casas noturnas são todas pagas e eu não entro em outro bar nem morta.

Começo a pensar sobre o que aconteceu no alojamento. Poderes. Eu tenho poderes.

Balanço a cabeça. Isso é bobagem. Como eu poderia ter poderes?

Eu não tenho para onde ir, então caminho sem rumo durante o resto da noite. O Sol começa a aparecer no horizonte. Uma pequenina luzinha lá ao longe.

Chego a um parque. Algumas pessoas já estão correndo, e só de olhar para elas já fico cansada. Esgotei todas as minhas energias. Sento num banco e respiro fundo. O aroma do lugar me faz bem.

Olho para minhas roupas. A camiseta preta e o jeans rasgado estão mais sujos do que me lembro. Passo a mão pelo cabelo. Meus fios ruivos estão completamente desgrenhados.

Naquele momento, a coisa que eu mais queria no mundo era achar um celular no meu bolso. Eu poderia ver os contatos, tentar lembrar de alguma coisa. Mas agora só me resta uma escova.

Várias pessoas passam por mim e eu tento associá-las a algum rosto conhecido, mas é inútil. Nada me vem à mente.

Algumas crianças chegam e começam a brincar no playground. Fico observando e acabo caindo no sono. Quando acordo, percebo que o sol está bem mais alto no céu. Uma senhora passa ao meu lado.

― Por favor ― chamo ―, a senhora sabe me dizer que horas são?

― Claro ― ela puxa a manga para olhar o relógio ― Meio-dia.

― Obrigada.

Levanto e ando pelo parque, ainda sem saber o que fazer ou para onde ir.

Resolvo sair dali. Procurar um lugar. Qualquer lugar.

Ando mais alguns quarteirões e encontro um bar. "Droga", penso. Pelo menos esse parece menos... infecto.

Quando vejo um casal e seu filho sentados numa mesa do lado de fora do bar, resolvo entrar. O ambiente é bem melhor.

O bar parece limpo. Completamente o oposto do qual eu havia entrado na noite anterior. Algumas pessoas me olham, devido as minhas roupas em farrapos, mas eu não ligo. Sento em uma banqueta em frente ao balcão. Enfio a mão nos bolsos e vejo que ainda tenho algumas notas, o suficiente para alguma bebida. Decido pedir um copo de vodca. Dane-se minha memória, dane-se o álcool. Eu não aguentaria mais um minuto sóbria.

― Bebendo a essa hora?

Olho para trás e vejo um rapaz sorrindo. Ele tem mais ou menos a minha idade, talvez um pouco mais velho, e é moreno. Mas a primeira coisa que eu reparei foram seus olhos: heterocromia. Um de seus olhos era azul, e o outro era manchado de castanho.

Começo a pensar se ele me conhece. Talvez saiba de onde eu vim, ou se tenho algum lugar para ir.

Não sei bem o que responder. Vou ser sincera. Se ele me conhecer, talvez me ajude.

― Desculpe... Eu te conheço?

― Não... — ele me olha, franzindo as sobrancelhas.

― O que foi? — pergunto.

― Nada. Desculpe.

Decido ignorar, ele não será de nenhuma utilidade. Volto meu olhar para meu copo, mas o garoto continua me encarando.

― Posso ajudar? ― digo num tom frio.

― Eu é que pergunto.

Não é possível. Como ele sabe?

O encaro por alguns segundos. Quem é esse garoto?

― Algo me diz que somos parecidos ― comenta.

― Sei ― estreito os olhos. Dois caras esquisitos em menos de 24 horas é demais pra mim. A diferença é que esse é bem mais bonito...

― Qual é seu nome? ― pergunto.

― Adam ― ele sorri.

― O meu é Audrey.

― Eu sei.

― Como sabe?

― Li sua mente.

― Você é louco.

― Não sou louco, Audrey Hollister. Somos mais parecidos do que você imagina.