When The Sea Was Godless And Free

2 A Expiação do Marinheiro Clark


Horas depois, Lena guiou o candeeiro para dentro do depósito e encontrou o homem cabisbaixo perto dos barris. Os passos sobre a madeira assustaram o intruso; ele movimenta a cabeça e tenta reconhecer Lena. Quando a luz iluminou a face confusa dele, Lena sorriu pela aparente tão pouca idade do rapaz e a covardia de Edge em empregá-lo. O corpo magro, encolhido e vestido por uma camisa de mangas longas, calça marrom e um gibão gasto, peças comicamente largas, ganho de algum roubo, Lena pensou. Mas, a análise foi interrompida justamente por ele, para sua surpresa.

"Perdão, senhor...digo senhora. Eu...eu não sou quem procura." ele diz inquieto, a fala pesada com forte sotaque e olhos que brilhavam com um desespero quase crente para Lena.

Por certo, esse seria o bom início de conversa, principalmente por um homem que teme pela vida, apontar o erro da captura ou alegar inocência, mas não era a primeira conversa de Lena com traidores. A capitã não emite nenhum som em resposta, salvo o de sua respiração. Ela ajusta a postura, cruza os braços e com o movimento suave de uma das sobrancelhas formando um arco único e de desdém, ela decide participar.

"E quem é você exatamente?"

Com apenas esse pequeno conjunto de palavras, Lena observa o preso desfazer-se do contato visual com ela para buscar respostas no chão envernizado, enquanto movimentava as mãos atadas.

"Clark," ele diz com entusiasmo o nome estrangeiro, limpa a garganta e acrescenta, "Clark Danvers."

O intruso tinha um nome, seja ele real ou não, Lena aceitou. Ela o esperava, afinal.

Nos sujos portos havia um tipo de específico de comércio. Alguns homens eram responsáveis por repassar as correspondências roubadas dos principais políticos da região. As informações como a localização do exército ou lista de aliados e contribuintes eram altamente valorizadas por inimigos dos mesmos, especialmente no cenário de constantes guerras.

Principalmente, após eleição de Morgan Edge para presidência provincial, Lena O'Thorul havia se tornado uma grande ameaça à Coroa Inglesa, e apesar do risco em negociar com os mercantes do leste da Irlanda onde as políticas eram mais abertas com a Inglaterra, os negócios continuavam sendo negócios e a vantagem sobre Morgan Edge seria satisfatória.

Mas, para alcançar seu objetivo ela deveria lançar uma proposta adequada à linguagem dos ladrões.

"Clark, quanto foi oferecido pelas cartas?" ela pergunta com a voz monótona.

"Senhora, novamente. Houve um grande. Grande engano." ele insiste, "Eu não sei de carta alguma, senhora. Eu...eu tentei explicar, mas eles me prenderam e–" ele tenta dizer com as palavras rápidas e incompreensíveis, mas Lena ignora.

"Para quem iria entregá-las?"

"Santo Deus!"

"Você pode cooperar ou posso matá-lo neste exato momento e você vai conhecer a Deus bem mais cedo, garoto." Ela diz retirando a adaga da bainha, "O que haveria de ganhar, certo?" e aponta o fio da navalha contra a garganta dele.

"Onde estão as cartas?" Lena pergunta com assustadora suavidade.

"Eu não sei." Foram as únicas palavras ditas como um sussurro pelo jovem de olhos fechados.

Ela pressiona a navalha com mais força e tentação de proferir um corte devagar e profundo, mas se afasta com descrença e pressiona a ponte do nariz.

As articulações de Edge, o interesse de uma monarca sobre muitas vidas, o teatro do canalha em sua frente e a cada palavra desperdiçada alguém próximo de sua família morre.

Com a raiva imponente sobre as suas ideias, é difícil pensar.

"Séan." ele diz baixo, mas chama a atenção da capitã, "Eu estava substituindo Séan. Nas docas."

Eles retornaram ao silêncio, mas o homem esperava ansioso pela reação da capitã.

"Senhora, por favor. Acredite em mim." ele implora, "Não sou quem procura."

Lena buscava com atenção, o olhar do preso ou algo para acusá-lo da farsa ou tentativa de prolongar os dias de vida.

Então, satisfeita, Lena haveria de conceder o pedido, não puniria o indivíduo de maneira rápida e infeliz, com facas e sangue, mas deixá-lo sem qualquer alimento ou água por dois dias, seria uma agradável tática de persuasão.

No local pequeno com apenas uma fonte de luz; ocupado não somente pelas coisas lá depositadas, mas pela suspensão das palavras e o palpável ódio, a nobre mulher sustentava um semblante não afetado e apesar da mandíbula travada ou punhos cerrados, ela partiu dali.

No escuro, restou somente para a atenção dele os sons dos pequenos roedores que passavam, o candeeiro com pouco óleo; preso com seus pensamentos.

Bem, esse não era o plano.

Em retrospecto, suas ações eram de total sentido: sempre haviam garotos que ganhavam alguns trocados ajudando trabalhadores do porto no embarque e desembarque de mercadorias e bem...Kara viu uma oportunidade, então, Alexandra cortou os cabelos de Kara e com as roupas "emprestadas" de Jeremiah, Kara desejou passar despercebida no Porto como um estivador qualquer.

Mas, no final um carregamento, sentiu o forte golpe na nuca e acordou presa com homens revisitando os seus bolsos.

O que poderia fazer? Lutar contra homens altamente armados com o conhecimento em inúmeros métodos de como matar uma pessoa...Absolutamente, não. Mas, ela mantinha a esperança que escutassem sua história.

Bem, Kara estava diante de uma adorável tarefa. Absolutamente, assim como a verdade, morrer desconhecido não era uma opção. Mas, também não era a primeira vez que sua vida estava à mercê do discurso...

O seu raciocínio e o calmo balançar do navio foram interrompidos pela sensação de um forte impacto, gritos e grande movimentação no convés acima.