When I Met You
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Notas iniciais
Tudo estava escuro.
Não reconhecia o local, nem quem estava nele.
“Não! Ele não!” ouvia alguém berrar, enquanto sentia ser levantado brutalmente. Sentia suas mãos me colocando em uma mesa , mas minha visão estava embargada. Juntava todas as minhas forças para não regurgitar ali mesmo, enquanto sentia uma droga ser injetada hábilmente no meu corpo.
Não via nem ouvia direito.
E a única coisa que via era uma pessoa sendo segurada e levada para longe, esperneando e fazendo força para ficar.
Não reconhecia seu rosto.
Não reconhecia meu rosto.
Tudo me era estranho.
Acordei suando frio e berrando.
Passei alguns minutos tentando voltar ao ritmo normal de respiração.
Meu coração queria saltar do peito.
Não é como se fosse a primeira vez que eu tenho um sonho desse tipo. Lembranças vagas têm me atormentado desde que sofri aquele atentado, e se fizeram mais presentes a partir do momento que ele voltou para a minha vida.
Por quê? Boa pergunta.
Porque eu nunca sei nada quando se trata dele, presumo.
Já fazem duas semanas do acontecido. Ele não apareceu nas aulas desde então e alguma coisa me dizia que não apareceria tão cedo. Eu resolvi ir contra todas as minhas regras internas e socializar com a turma. Bem, começando com o meu grupo de amigos. Estou indo relativamente bem, andando com pessoas no recreio, não ficando sozinho todo o tempo. Mas também resolvi que não seria o único a ser espionado. Ele, esteja onde quer que for, sabe muito mais sobre mim do que eu sobre ele.
Estou decidido a reverter essa situação.
Levarei a vantagem, com certeza.
Hoje é um dia ensolarado, uma quarta-feira, para ser mais exato. Estou me arrumando para ir à escola, tentando domar o meu cabelo, que parece especialmente rebelde essa manhã. Optei por um gel fraco, que realçava meus olhos. Agh, o que eu estou pensando? Ri, olhando-me no espelho e fazendo caretas variadas. Isso é divertido.
Fui para a cozinha, peguei alguns doces e parti em direção à escola. O primeiro horário é educação física.
Gente, como eu odeio esportes.
Chego na escola e vejo as pessoas já suadas que praticam futebol, com aquele uniforme ridículo. Fedendo e sorrindo, como se aquela bola representasse o mundo.
Já disse que odeio esportes? Pois é.
Avistei Caio ao longe conversando com Luana. Cheguei perto deles e dei um aceno de cabeça discreto, anunciando minha presença. Caio percebeu. Virou-se sorridente — como sempre — para mim, e me deu um de seus abraços de urso, que me fazem gargalhar ao sufoco.
–Hey, como pretende fazer aula de educação física assim?- disse com um olhar de reprovação às minhas roupas.
–Oi?
–Vá trocar-se — ele deu um riso cínico.
Caio sabia plenamente que eu não gosto de uniformes e roupas de ginástica.
–Não pretendo assistir aula a de ginástica hoje- disse, encolhendo os ombros- e você também não.
Ele me olhou meio confuso.
–Eu?
–Sim, eu preciso conversar contigo.- disse sério, mas logo após fazendo uma carinha fofa para que ele cedesse.
E como sempre, ele cedeu.
Sempre para mim.
Nós fomos a um lugar nas proximidades do colégio.
Eu decidi perguntar-lhe o que achava de James. Não sei o que esperar de resposta, mas estou pronto para o que for.
–Caio — segurei-o nós ombros, posicionando-o de frente para mim- o que você achou do novato?
Ele pareceu levemente incomodado.
Coçou a cabeça, hábito de nervosismo eminente.
–Quem? O tal do James, que matou aula junto contigo?
Como diabos ele sabia disso?
...
–Acho ele estranho. Sei lá, suspeito. Por que?
–Queria saber mais sobre ele. Me bateu a curiosidade.-menti, displicente.
–Ah...- ele não parecia ter se convencido.- já que já estamos aqui, vamos aproveitar o resto dos horários para fazer algo de interessante?
Lógico que eu pensei em alguma aventura, em que dois adolescentes vão para um pub adulto, onde se "divertem" fazendo coisas inapropriadas. Aceitei o convite.
Claro que não foi uma aventura assim. Fomos parar em uma singela sorveteria à três quadras do colégio, tomando cuidado para que ninguém percebesse que somos alunos que fugiram de sua escola.
E eu aqui, rindo de minhas fantasias ridículas. Nota: ver menos filmes.
Passamos o resto dos horários conversando. Conversando sobre mim, sobre minha relação com James, sobre Luana, sobre várias coisas.
Quando puxei meu assunto inicial, pela terceira vez no dia, ele me perguntou:
–Por que você insiste tanto nesse garoto?
Soltei um muxoxo de impaciência. É lógico que ele iria perceber.
Sentindo-me extremamente derrotado, resolvi contá-lo tudo. Falei tudo que me lembrava. Sobre meus pais, sobre o hospital, sobre ele. Sobre tudo.
Estranhamente, depois de eu acabar de relatar minha trágica vida e seus fatos emocionantes, ele fechou a cara e me olhou com uma semi-careta.
–E então. Você realmente acha que isso é apenas gratidão?
.
.
.
Quê?
–Claro que sim, oras! O que mais poderia ser? — tentava disfarçar, mas minhas mãos tremiam.
Ele olhou nos meus olhos fixamente, em um movimento quase hipnotizante.
–Repita isso.- ele parecia um tanto incomodado com suas deduções. Desnecessário.
–O que eu sinto por ele é só e somente gratidão- disse pausadamente, com a voz um pouco embargada.
Ele não pareceu se convencer, mas também não tocou novamente no assunto.
O resto da tarde se passou normalmente. Nós passeamos pela cidade, sem pessoas nos reconhecerem ou nos levarem de volta à escola. Agradeci por isso. Nem sei o que fariam se nos pegassem fora de aula. Suspensão no mínimo, algo assim, penso.
Nos próximos dias, continuei tentando, sem sucesso, arrancar informações sobre o garoto de meus colegas. Nenhum deles achava o assunto digno de atenção.
E foi na sexta seguinte, após várias especulações sem sucesso, que eu, estudando ao meio da noite, fui tomado por algumas reflexões indesejáveis.
Se eu não conheço ele, por que confio tanto?
"E então. Você realmente acha que isso é apenas gratidão?"
As palavras de Caio ecoavam em minha mente.
" Isso não é apenas gratidão " uma vozinha irritante me disse, no meu subconsciente.
Era o que me faltava, estou conversando sozinho.
–Mas se não é gratidão, o que é? — não pude evitar de me perguntar.
" Você é lerdo "essa vozinha com certeza me atormentava.
...
" Não é possível que não tenha percebido! É óbvio que você está completamente apaixon-" não pôde completar pois afastei de minha mente, enfiando uma almofada na cara com a resposta óbvia que me negava até então.
Então era isso o tempo todo.
Todo esse sentimento que me atacava como uma metralhadora não era apenas gratidão.
Peguei meu celular e mandei uma mensagem breve para Caio. Eu tenho certeza de que ele iria entender.
"De: Felipe.
Você tinha razão."
Todo esse tempo.
Tudo o que eu vivera.
Como eu não percebera em tanto tempo?
Eu estava apaixonado.
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