When Death Comes To The World
3 Capítulo 2 - Hit Them in The Head
Já havia se passado três horas desde que o barulho cessara. Eu e Malu havíamos colocado alguns móveis para tampar a entrada do apartamento, protegendo-a perigo, e agora fazíamos turnos. Um vigiava a saída e o outro a janela. Estávamos assustados e tínhamos uma extrema fome.
–Alguma coisa aí? – Perguntou-me Malu enquanto observava tediosamente a porta
–Nada. – Respondi. Se bem que “nada” não era uma resposta muito coerente. A rua estava toda suja de sangue, carros estavam metidos em postes e um humano hipnotizado andava para lá e para cá. Era estranho saber que não acordei com aquele caos antes. – Apenas aquele mesmo zumbi...
Depois de muita discussão em cochichos entre eu e Malu sobre como chamaríamos aquelas pessoas hipnotizadas que exalavam cheiro de morte e vagavam solitariamente e sem rumo, resolvemos chama-los apenas de “zumbis”. Parecia o termo mais adequado para o momento. “Simples e moderno... Fora que eles parecem estar mortos”. disse-me ela ao sugerir este nome.
–Quer trocar? – Perguntou ela em tom de pedido – Quero tentar ficar olhando para ele e conseguir perder a fome.
Sem responder levantei-me e fui para onde Malu estava. Ela fez o mesmo, indo verificar a janela.
Alguns minutos se passaram pesadamente. A fome corroía nossos estômagos, o medo metralhava nossos corações, o tédio excitava os nossos dedos e a curiosidade de saber o que estava acontecendo atiçava nossos olhos. Talvez tenha sido essa estranha mistura de sentimentos que fez a nossa solidariedade aumentar consideravelmente quando Malu disse:
–Olha! Tem alguém lá em baixo! Alguém vivo!
Surpreso, corri para visualizar quem ou o que estava lá embaixo. Pelo vidro da janela pude ver que era um casal agachado, como se não quisessem ser vistos (E provavelmente não queriam). O cara era alto, magro e usava um boné para trás. Já a menina era baixinha e tinha longos cabelos ruivos e lisos que cobriam a pele branca de sua face. Ambos carregavam um machado cada um.
O que mais me assustava era que se eles permanecessem ali, seriam cercados e possivelmente devorados como o pobre cachorro da senhora Fitz. Pelo menos dez zumbis avançavam lentamente em direção a eles pela direita e mais outros dez pela esquerda.
Desesperado, abri a janela tentando – quase sem sucesso – não fazer nenhum ruído. Olhando para eles, assobiei. Agora eles olhavam para os lados procurando de onde havia saído aquele som, talvez desesperados. Assobiei novamente.
–Pst! Aqui em cima! – Disse numa espécie de sussurro alto a impaciente Malu, depois de ver que eles não nos achavam de maneira alguma
A garota olhou para cima e nos encontrou. Ela nos apontou para o seu parceiro e eles foram até o meio da rua. O cara levantou os olhos azuis junto a sua cabeça e mexeu os lábios em um exagerado “Ai é seguro?”. Vi o polegar de Malu se levantar e eles desaparecerem na entrada do prédio.
–Acho que salvamos duas vidas! – Disse minha amiga contente
–Malu... – Disse eu com uma espécie de desespero – Nós nos esquecemos da senhora Fitz!
Olhamos um para o outro. Vi os olhos dela chamuscados de compaixão pelos desconhecidos.
–Vai tirar os moveis da frente da porta! Eu vou buscar o bastão! – Ela disse antes de sair correndo.
Corri também visando buscar a retirada de qualquer obstáculo presente entre eu e a saída. Desesperadamente removi a poltrona, que era a primeira coisa que estava ao meu alcance. Odiava-me por ter tido tanto medo a ponto de colocar tantos objetos na frente da porta. Malu chegou e me ajudou a deslocar uma mesa. Estávamos quase chegando à praia da porta, depois de tanto nadar no mar de móveis.
Depois dos demorados segundos, finalmente havíamos conseguido fazer uma limpa e sair do apartamento. Já ao lado de fora nos lembramos do porque de tanta batalha contra nossos atos passados. A senhora Fitz nos aguardava sentada ao lado de um vaso. A velha putrefata se levantou ao perceber que havia carne fresca se oferecendo e nos olhou com seu único olho como se tivesse tirado sorte grande. Ela começou a chegar cada vez mais perto mancando com seus típicos passos lentos.
–Não se aproxime! – Malu gritou a senhora levantando o bastão
O zumbi continuou a caminhar em nossa direção. Minha amiga impulsionou toda sua força no bastão e este, por sua vez, acertou exatamente no peito da antiga mulher, arremessando-a no chão assim como ocorreu horas atrás.
–Eu disse para não se aproximar! – Gritou novamente
Mas a insistência de nossa atacante continuava. Ela levantou-se e continuou a se aproximar. Um novo golpe e o bastão a atingiu na região do ventre e novamente ela caiu. Desta vez, o morto-vivo não tentou se levantar. Atacou-nos se arrastando. Aquilo agarrou ao meu pé e derrubou-me. Desesperado, tentei segurar-me a qualquer coisa que estivesse ali perto enquanto chutava a agressora com meu pé solto. Na esquina do corredor que dava acesso a escada, eu vi o casal aparecer. O cara largou uma mochila que ele tinha nas costas, veio em minha direção, levantou o machado e fincou o mesmo na cabeça da velha.
Lembro-me de quando era pequeno e fui viajar para a praia. Fui a um show, onde havia dois homens munidos de facões. Cocos eram jogados para cima e eles partiam as frutas tropicais ao meio. Em minha visão, a cabeça da senhora Fitz era um coco e o machado era o facão.
Sangue havia jorrado para todos os lados – inclusive em mim. Olhei para o crânio partido ao meio e me questionei sobre ter tomado a decisão certa de ajudar aquele casal.
–O que você fez? – Perguntou Malu, com medo. Ela estava colada a parede e tinha deixado o bastão cair
–Salvei a vida dele. – Disse o homem de olhos azuis enquanto estendia a mão para mim
Segurei a mão dele e levantei-me, com cara de confuso.
–Desculpem, mas vocês ao menos sabem o que esta acontecendo? – Perguntou a ruiva ao ver nosso desespero pelo corpo da senhora Fitz
–A única coisa que sabemos é que você matou aquela velha! – Gritou Malu para o homem, ignorando a menina
–Você estava espancando ela! – Ele retrucou
–Eu só queria mantê-la desacordada! Ela estava nos atacando! – Defendeu-se minha amiga
–Isso responde a minha pergunta! – Disse a menina para si mesma
–Nós podemos parar de discutir e entrar? – Eu disse interrompendo uma possível briga entre o cara com o boné para trás e Malu – Eu não sei se o prédio todo é exatamente seguro! – Tentei justificar
–Eles não são pessoas hipnotizadas. – Disse o homem. Estávamos todos sentados na pequena e redonda mesa da cozinha e a pouco ele havia me contado que seu nome era Thiago e de sua namorada, Júlia
–Nem ao menos eles estão vivos! – A ruiva disse, fazendo-me olhar para ela e descobrir que seus olhos são da cor mel
–Como assim eles não estão vivos? – Questionei-os – Eles se andam... E grunhem!
O olhar de Thiago correu de Júlia para Malu e desta para mim. Ele disse:
–Minha teoria é que existe alguma parte do cérebro ainda ativa.
–Como vocês tem certeza de que estão mortos? – Malu perguntou
–Nós já vimos acontecer... – Disse Júlia, olhando para baixo triste
Eu e minha melhor amiga nos olhamos assustados. Como assim eles já viram acontecer? O que aconteceu? Essas e mais perguntas rondavam em minha cabeça, mas foi Malu que as fez:
–O que aconteceu?
–Nós éramos quatro. Eu, Julia e mais um casal, dois grandes amigos nossos. Um deles foi mordido e... – Respondeu Thiago
–Espera aí... Como assim “mordido”? – Perguntei ansioso
–Para você se transformar em uma daquelas coisas... – Começou a dizer Júlia, quase caindo em choro, parando muitas para respirar pesadamente. – Você tem que... Ser mordido ou ter um grande arranhão por algum deles. Nosso amigo foi mordido... E então... E então – Ela havia caído em choro, não tinha mais condições de falar
–Ele ficou com uma febre desgraçada... – Continuou Thiago – E... Morreu. Depois de alguns minutos, ele não era mais ele. Ele devorou a namorada e... Desde então, estamos só.
Enquanto o cara de olhos azuis consolava a ruiva, eu olhei para minha amiga completamente assustado. Mas eu tinha mais uma única pergunta, antes de entender como aquele novo mundo funcionava:
–Mas como você conseguiu dar um fim naquilo ali fora? Digo, ela deu três pancadas fortes e a velha nem caiu inconsciente e você deu só uma e... Ela morreu. – Pensei se isso era possível
–Como eu disse antes: uma parte do cérebro ainda deve estar ativa. Ou seja, você tem que dar uma boa pancada na cabeça para acabar de vez com a vida daquelas coisas.
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