When All My Love Is Gone
2 Capítulo 2
O resto do dia demorou a passar. Na caixa de bombons aberta ao seu lado, só tinha comido dois doces. Estava coberta com um cobertor grosso e peludo, seu corpo se perdia nele. A fazia se sentir segura, de certa forma. As horas iam passando pela greta da janela, na qual apenas alguns feixes de luz escapavam das cortinas e entravam no cômodo frio. Sapatos espalhados, roupas amontoadas e um coração amputado, porém forte, era o que se via no quarto de Alicia. Pôsteres de diversos artistas faziam um bonito mosaico, tomando metade da parede roxa. A outra metade morava um guarda-roupa grafitado com temas diversos. Poltronas vermelhas, uma cabeceira com uma flor de pelúcia. Ainda tinha prateleiras com livros e revistas e uma estante branca e rosa com o computador e um tablet para desenhar. Todo esse mundo de cores era despertado aos poucos pelos primeiros raios da manhã.
Alicia não pensava em nada, não queria pensar em nada. Só na música que era despejada nos seus ouvidos e fazia bem a sua cabeça. Misteriosamente, heavy metal a fazia se sentir mais calma. Era como se a orquestra pesada e os berros raivosos varressem toda a tensão que existia dentro de si. Era bom, muito bom!
Apesar de lutar contra isso, não lembrar o Thiago era uma missão impossível. Parte dela ainda gostava dele, apesar de tudo. Ela se esforçava para esse amor morrer.
O barulho irritante do despertador matinal lhe deu um susto. Desligou o mais rápido que pôde, não gostava de ser acordada. Sentia uma ligeira indisposição nas primeiras horas da manhã. Com várias contestações que sua mente lhe fazia, pôs-se de pé e dirigiu-se ao banheiro, sentindo todos os fios do seu corpo se arrepiar graças ao choque térmico.
Enquanto se despia, olhou-se no espelho. A imagem que via não era tão ruim, mas algumas coisas realmente não lhe agradavam nem um pouco. Os seus olhos amendoados lhe pareciam comuns demais; o seu cabelo castanho cacheado, da mesma cor dos olhos, lhe batia a altura dos ombros. Demorava a crescer, já que os seus cachos eram largos. Tinha o rosto quadrado e nariz grande, a pele com algumas espinhas e as suas unhas sempre com o esmalte descascado.
Sua estatura era abaixo da média e, ao contrário de muitas adolescentes, seu peso também. Não importava o quanto suas amigas elogiassem o seu corpo, sua luta era sempre manter o peso ideal dele que, por sinal, ainda estava abaixo.
Saiu de lá vestindo uma calça jeans, uma camisa com o logotipo do colégio e o cabelo molhado. Suspirou, mais um dia naquela escola. Começou a pentear o seu cabelo e quando estava de uma forma apresentável, sorriu discreta no espelho.
Tênis calçados, mochila no ombro e uma despedida aos pais. Poucas são as vezes em que Alicia tomava café da manhã, já se acostumou a comer pouco. Enquanto percorria os portões de várias casas, pensou em seus pais; o relacionamento deles é perfeito, na medida do possível. Claro que tiveram alguns desentendimentos no casamento, mas o amor sempre falou mais alto.
O seu pai era um homem bastante atraente e encantador. Tinha cabelos negros, olhos castanho-claros e um sorriso que fazia qualquer mulher derreter. Era fiel e romântico à sua mãe, que por sua vez, o tratava como se fossem eternos namorados. “Homens perfeitos existem, é só saber onde procurar” pensou. Queria também se casar com um homem assim um dia. Mas isso seria impossível. Se fosse verdade que existe um homem para cada mulher no mundo, então estaríamos fritas; o número de homens em relação às mulheres é de se fazer chorar! Não acreditava em alma-gêmea, tampa da panela ou metade da laranja. E, com os últimos acontecimentos, a sua esperança de achar o cara perfeito para ela tinha ido pelo ralo.
Após alguns minutos, chegou ao portão do colégio. Mais um dia no segundo ano do ensino médio. Não prestava atenção ás pessoas ao seu redor, a maioria era completas estranhas para ela. Chegando à sala de aula, sentou no seu lugar favorito: a última carteira a esquerda perto da janela. Gostava de sentar ali porque era calmo, podia ver o movimento e refletir quando a aula estava ficando demasiadamente chata.
O assunto predominante naquela turma era obviamente, os quinze anos da Camila. Quem ficou com quem, fofoquinhas e boatos eram as conversas do momento. Alicia nunca gostou de fazer parte desses grupinhos, ainda mais agora. Não tinha como evitar que bocas alheias viessem a falar de Thiago e a sua galinhagem. Porém, de certo modo, gostava do rumo que os boatos estavam levando. Ao menos, sentia que muitas pessoas o viam como um completo cafajeste!
Logo foi abordada por Juliana. Alta, de cabelos castanhos ondulados e olhos de uma intensa cor verde, ela chamava atenção por onde passava. Tinha pele clara, moreno-clara. Sempre gostou de ser a estrela, sempre gostou de atenção. Talvez seja por isso que ela era a garota mais popular da escola; o que não era sinônimo de futilidade. As duas eram amigas, e sempre contavam uma com a outra para tudo.
Alicia começou a sua narrativa — o flagra, o fora e o quão magoada ela se sentia. A garota ouvia tudo com atenção, balançando a cabeça algumas vezes para dizer que estava acompanhado o raciocínio. Quando a história acabou, prestou-se a falar:
_ Sabe, eu nem sei se posso te falar isso, mas eu sempre achei que ele estava te enganando desde o começo. Conheço aquele moleque desde o ginásio, e ele nunca foi o tipo de cara que se prende a uma garota só. Ele quer mais é passar a mão pra depois gritar para todo mundo o quanto ele é “foda”. E você, como uma garotinha tão “ingênua”, foi perfeita para mostrar para os mais velhos o quanto ele era maduro...
Alicia suspirou e abaixou a cabeça. Encarar a realidade era difícil. Percebeu que ela estava tão cega pelo amor, que a situação era muito mais grave do que parecia.
O professor entrou na sala, dando início a primeira aula da manhã, de literatura. Tinha voz alta e clara e uma aparência um pouco assustadora, mas era muito gentil e conselheiro. Ela gostava das aulas dele e principalmente das piadas que ele fazia com seus alunos. Aproveitou para esvaziar a mente e acreditar que o garoto era página virada. Sem muito sucesso, lógico.
Entre intertextualizações e observações fabulosas que o autor fazia sobre o universo ao seu redor, Alicia pensou se seria realmente saudável ficar perdendo o seu tempo e a sua saúde com um garoto que a humilhou em público. Questionou-se se ainda amava-o como antes, e a sua resposta mostrou-se tão incerta como o seu próprio coração.
De repente, seu celular vibrou no bolso do jeans. Era uma mensagem de Juliana:
Quer que eu va falar c/ ele?
A garota pensou que tinha muita sorte de ter uma amiga como ela! Mas não queria discussões, não agora:
Ñ quero nem ver a cara dele. Eu sinto nojo Quero mais é q ele c ferre c/ aquela puta
E desligou o celular. Decerto, Juliana iria insistir naquela conversa até ela mudar de ideia. Era fato que Alicia sentia muito ódio de Thiago, e tinha certeza que Juliana também. Gostava do apoio da menina, mas tinha que digerir tudo antes de fazer qualquer coisa.
E as horas foram passando devagar. Concordava que “Dom Casmurro” era uma literatura difícil de ser lida e em algumas partes não conseguimos distinguir se as afirmações do narrador são reais ou fictícias. A história era bastante cansativa porque precisava ler mais de uma vez – ou duas, ou três – para poder compreendê-la. Isso juntando o fato que a garota não gostava nem um pouco da narrativa, cheia de entrelinhas, tornava a aula ainda mais chata.
O exercício proposto era fazer uma redação em cima do que foi lido até momento. Ora, como se tudo o que leu ainda precisava ser relido, estudado, observado e anotado? O professor decerto deve achar que ela conhece o Machado de Assis e toda a tarde toma cafezinho na varanda da casa dele!
Deixou o caderno de lado e olhou as horas no relógio. 8:45 e Thiago não estava lá. Não sentiu a sua falta. E sentiu admiração por ele; pelo menos vergonha na cara ele tinha.
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