Whatever
3 Sangue no Ar
Notas iniciais
1836, norte da França.
O aeromóvel deslizava placidamente por entre as poucas nuvens do céu francês, nos primeiros raios de sol da manhã. Os passageiros admiravam o horizonte e o solo nortenho da França através das pequenas janelas do veículo aéreo, ouvindo os fortes ruídos das engrenagens dos possantes motores movidos a vapor e conversando cordialmente entre si.
Lady Selma Winchester levantou-se de súbito do seu assento, fazendo visível suas elegantes vestimentas de tecidos finos e caros. Camadas e mais camadas de saias para fazer volume ao vestido creme com detalhes dourados e na cabeça equilibrava-se um chapéu muito bem ornado das cores do vestido. A mulher caminhou pelo estreito corredor da máquina voadora arrancando olhares invejosos das damas enquanto passava, dirigindo-se educadamente ao toalete. Coisa abominável pensava a Srª Winchester, era realmente horrível precisar dos banheiros do aeromóvel, tão apertados dizia ela.
Ao abrir a porta do WC Lady Selma foi tomada de repente por uma náusea e se apoiou à porta.
— Socorro! – Gritou ela reunindo forças.
Um funcionário da companhia aérea correu ao seu encontro, espantando-se com a cena apontada pela mulher. Havia um homem morto sentado ao sanitário, com sangue à escorrer do peito, onde um furo de bala fazia-se visível.
— Meu Deus! É horrível! – Exclamou uma senhora cobrindo os olhos.
A máquina sacudiu bruscamente fazendo-os perder o equilíbrio, com voz calma e inocente o piloto anunciou a descida à Paris. Todos recolheram-se aos seus lugares esperando pelo pouso. Chegaram em segurança, dali a meia hora foram reunidos em uma saleta apertada da Gendarmerie nationale— a polícia francesa –, para que fosse tomado os depoimentos. Pouco antes o aeromóvel havia sido totalmente inspecionado.
Um robô de madeira ouvia e registrava informações importantes como nomes pessoais e endereços dos passageiros, depois um à um, estes eram mandados para sala do inspetor Charles Neville, um homem peculiar devido ao seu rosto. Um acidente do passado obrigara-o a reconstituir a parte direita da face com metais, engrenagens e lentes de vidro, o homem era um dos primeiros ciborgues da época. A composição atual de sua face era de impressionar, fascinar ou inferir certo incômodo àquele que o olhasse.
— Conte-me Lady... ham...
— Selma Winchester – informou ela com voz chorosa.
— Srª Winchester, descreva o que aconteceu.
Selma descreveu com detalhes sua experiência nada agradável entre o voo Londres-Paris, enquanto o inspetor tomava nota dos principais fatos.
— Quando viu o morto?
— Há pouco mais de quarenta minutos.
Neville consultou a hora, o corpo fora visto aproximadamente as 6h15.
— A senhora o conhecia?
— Logicamente! Estou tão abalada, Alfred era meu marido!
— Minhas condolências, madame – respondeu em tom gentil. – Conhece alguém com motivos para matá-lo?
— Alfred era um homem íntegro, adorável. Não conheço ninguém que o quisesse morto – seu tom pareceu desconfiado, como se estivesse em dúvida.
— Lady Selma, por que não notou a falta de seu marido na viagem?
— Mas como, senhor? Ele me deixara no aeroporto, lá mesmo em Londres. Eu viajava sozinha!
— Sozinha? – Replicou o inspetor surpreso.
— Certamente, fiquei tão intrigada quando o vi. E ainda com um tiro no peito!
Selma levou as mãos à face, derramando mais lágrimas.
— Tem alguma suposição quanto a presença inesperada de seu marido no aeromóvel?
— Não, senhor.
— Sabe a quem pertence isto?
O inspetor apontou-lhe um relógio de bolso. Lady Winchester pareceu ter um lampejo de memória.
— O relógio do Srº Thompson! Mon Dieu!
— O que?
— Alfred achava que ele gostava de mim, os dois tiveram uma contenda algum tempo atrás.
— Pela senhora, suponho.
— Não exatamente. Eram sócios, houve um desentendimento e eles desfizeram a sociedade.
— Então de certo ele tinha um inimigo?
Selma assentiu receosa.
— Por que a contenda?
— Negócios, senhor. Seus desejos divergiam, a separação era inevitável. Alfred acabou por comprar a parte do Srº Thompson.
Selma contou-lhe qualquer coisa sobre o relógio, que tinha as iniciais do ex-sócio do seu recém-finado marido e a conversa não se alongou por mais tempo.
O inspetor agradeceu a mulher e liberou-a logo em seguida, chamando Greg Thompson para o inquérito. O homem era velho e calvo, de olhos verdes penetrantes e expressões severas, sua mão esquerda era mecânica.
— O que faço aqui? – Indagou insatisfeito.
— É apenas praxe, senhor. Diga-me, qual tipo de relação tinha com o morto?
— Nada, felizmente.
— Hein?
Charles levantou uma sobrancelha.
— Éramos sócios como deve ter dito Lady Selma, não somos mais.
— Conhece isto, senhor?
— Meu relógio! Formidável.
— Estava na cena do crime. Isso faz do senhor um suspeito em potencial.
— Mas eu posso explicar!
— Prossiga.
Greg discorreu sobre a viagem, informando ao inspetor que assim que entrara na máquina foi ao WC, retirou seu relógio para tomar as horas e o forte sacolejo do aeromóvel partindo o fez derrubar o objeto. Suas costas não eram mais as mesmas, decidiu que pediria para algum funcionário pegar-lhe o relógio, mas ao voltar a cabine de passageiros esqueceu-se do pedido.
— Viu algum movimento incomum durante a viagem?
— Não, ah... sim. Durante o voo pensei ter ouvido um estouro, mas esses veículos fazem tanto barulho, não? Deve ter vindo dos motores.
— Antes do estouro, o que viu?
— Lembro-me de ter visto uma dama sair em direção ao WC. Acho que é só isto, inspetor.
Srº Thompson deixou a sala, pedindo para que a dama entrasse. Seu nome era Marlise Calés.
Tomou-se notas dos acontecimentos que precederam a descoberta do corpo, Marlise estava calma, apesar de já conhecer Charles de lugares mais divertidos.
— Então a Srta. foi ao WC?
— Lógico! O que há de fazer quando não se consegue suportar as vontades do corpo?
— Há que horas foi ao toalete?
— Acho que às 5h50 – disse acrescentando logo em seguida: não suporto voos matinais.
Charles observava a mulher com cautela, seu vestido chamava sua atenção. Era algo pouco perceptível, mas para sua experiência era bem claro.
— Posso ver as suas mãos, senhora?
— Aqui não lhe devo intimidades!
O inspetor Neville as tomou assim mesmo, enquanto era atingido por uma torrente de protestos vindo da mulher. Com uma lupa olhou as pontas dos dedos, debaixo das unhas e pensou.
— É um procedimento de rotina – explicou.
A dama foi liberada do interrogatório e os demais passageiros também tiveram seus testemunhos anotados e arquivados no computador de madeira da polícia. Em seguida as malas foram muito bem revistadas e uma nova inspeção foi feita no aeromóvel para certificar de que Neville não deixou passar nenhuma pista. A arma do crime não foi encontrada, deixando o inspetor deveras irritado. Chamou de volta a sala as senhoras Selma e Marlise.
— Onde pôs a arma, madame?
Marlise o olhou com ar de espanto.
— Que arma? Está à pensar que eu matei aquele homem? Que motivos tinha eu para isso?
— Lady Selma, tinha motivos para pensar que seu marido à traia?
— Bem... às vezes ele chegava tarde, meio embriagado e cheio de perfumes, mas eu confiava muito em Alfred!
— Tem conhecimento de que Marlise Calès é dançarina de cabaret?
A mulher fez que não.
— A conhece?
— Pouco, frequentamos os mesmos lugares, apenas – anuiu em voz triste.
— Aonde quer chegar, inspetor?
— Na pólvora entre as linhas de suas digitais e no seu vestido. A senhora matou aquele homem, mas me diga: como ele foi parar ali?
Marlise negou com veemência, mas não foi muito longe. Charles mandou que levantasse as saias de seu vestido, revelando o coldre e a arma agarradas em suas coxas. A dançarina narrou a história brevemente. Alfred era seu amante, mas os dois se desentenderam, Marlise queria que o homem se casasse com ela, mas ele a humilhou, afirmando que ela era apenas uma prostituta. Então, naquela manhã o homem embarcara disfarçado para vê-la, seria uma aventura pelos ares, todavia Marlise já tinha tudo arquitetado, se vingaria do patife por menospreza-la amargamente. Mal sabia ela que uns simples resquícios de pólvora – quase imperceptíveis – tirariam o gosto de sua vingança.
Fale com o autor