What if?

4 Lose my faith


Notas iniciais
And here we are! Música do capítulo: https://youtu.be/1nb13x-4x4Q Playlist completa: https://open.spotify.com/playlist/7dD4sxl82HbG94FR6yzY65?si=_u3nJWisQTS36WB-0Ru_Ug Boa leitura!

A noite passou em um piscar de olhos.

Remexendo-se sobre o cobertor macio que a recobria, lutava com o próprio despertar. Honestamente, há tempos não dormia tão bem; sentira falta daquele frio noturno que era típico e exclusivo do outono.



Algo confortável recostou sobre seu peito e a envolveu pela cintura. Sorriu com a sensação de acolhimento, se aconchegando ainda mais ao travesseiro felpudo que costumava ficar em sua cama todas as noites.



Sua cama… Na Califórnia.



Imediatamente abriu os olhos.



Travesseiros não tem braços, Jane.



Trabalhando lentamente, sua mente a lembrou que não estava em casa; aquela não era sua cama e aquele definitivamente não era seu travesseiro felpudo.



Seu corpo repousava de forma confortável contra o homem ao seu lado, apoiando o braço enfaixado sobre suas costas. Por instantes, não conseguiu evitar o sorriso em seu rosto quando o mesmo pareceu despertar apenas para se acolher em seu calor.



O nascer do sol e sua luz fraca do já começavam a invadir o ambiente, e alguns de seus raios escapavam pelas frestas da cortina permitindo que sua visão ganhasse mais clareza. Ele estava dormindo ao seu lado, tão calmo e sereno, abraçado a seu corpo. Sua respiração fraca denunciava o estágio avançado de seu sono.



O aparelho ao lado da cama indicava mais alguns minutos até o toque do despertador. “Sempre acordando em cima da hora”, ela pensou, recordando-se das milhares de vezes em que Kurt se atrasou para o trabalho com a desculpa de não ouvir o relógio tocar.



Com cautela, arriscou se mexer novamente e tentar levantar, mas em resposta recebeu um gemido rouco e abafado. Alguém não queria deixá-la ir.



Um nó se formou em sua garganta. Teriam sido assim suas manhãs dos últimos meses se tivesse optado por ficar?

Não pode deixar de imaginar.

Revezar noites no apartamento um do outro. Eventualmente, decidir que já era hora de morarem juntos. Jantares românticos nas noites de folgas e provocações durante as missões. Trabalhar lado a lado diariamente. O acompanhar nas visitas ao Colorado e se tornar mais próxima da pequena Bethany. Pensar no futuro... Fazer planos.

Quais planos teriam feito? Casamento? Filhos? Se mudar para um lugar mais calmo, talvez…



Beep. Beep. Beep.



Sua mente vagava tão intensamente pelos pensamentos que se não fosse por seu levantar brusco, teria perdido o barulho irritante que ecoava no ambiente.



Precisava voltar para realidade. Quaisquer que fossem os planos que pudessem ter feito, ficaram em um passado inexistente.



Agora, precisava levantar e encarar o que evitou nos últimos meses; pela forma como as coisas ocorrerá no dia anterior, já estava se preparando para a árdua missão que seria.



Não recebeu um beijo de bom dia, e muito menos café na cama. Ele se levantou, pegou algumas peças de roupa e saiu do quarto. Sem dizer uma palavra.



Durante a refeição matinal, as coisas não foram muito diferentes. Se alimentaram em silêncio, apenas ouvindo as agentes relatarem brevemente a ronda noturna. Alguns homens apareceram em suas residências, até mesmo perto do abrigo do ex hacker, mas não próximo ao apartamento de Kurt. Estavam seguros por hora.



Certo. Por hora, vamos agir normalmente. Trabalhamos durante o dia e a noite nos reunimos aqui, mas sem chegarmos todos juntos. Devemos estabelecer um código secreto caso alguém esteja em perigo, e outro para avisar que chegamos aqui em segurança.



Uh, Uh! O que acham de “Limão” para perigo e “Mel” para segurança? — Rich sugeriu animado enquanto mastigava um pão doce. Aquilo fez Jane rir.

Limão e Mel? Sério, Rich?!

Um pouco estranho, mas tudo bem. Estamos sem tempo para outra ideia. Agora vamos, seguiremos em carros separados para não chamar muita atenção. — Todos concordaram, terminando seus cafés e levantando para recolherem suas coisas.



Jane, assim como os outros, estava pronta para sair quando sentiu algo em seu caminho. — Onde pensa que vai?



Engraçado… o homem à sua frente não se parecia nada com o que estava abraçado a sua cintura pela manhã.



Eu vou com vocês, não tem nada que eu possa fazer ficando...



Não. Você fica aqui. Os seguranças ficarão do lado de fora.



O resto do time já havia fugido da situação, provavelmente já o esperando ao lado de fora. “Espertos”.



Já tivemos essa conversa antes e você deve se lembrar como acabou. Eu não sou útil ficando aqui trancada o dia todo.



Você também não será útil se ficar exposta e acabar sendo morta.



Touché.



Olha, nós dois sabemos que é mais seguro se eu estiver lá. Se não quiser que eu vá a campo, tudo bem, eu não vou. Mas até onde sei eu não sou uma prisioneira, então não vou aceitar ser tratada como uma. Se não me deixar ir, sabe que irei atrás deles do meu jeito.



E ele realmente sabia. Desde a primeira vez em que trabalharam juntos, Kurt sabia que nem sempre conseguiria controlá-la. Meses atrás, Mayfair disse isso à ele quando a deixou que os acompanhassem na pista sobre a primeira tatuagem. A primeira vez que trabalharam juntos, sua primeira memória, e a primeira vez que confiou sua vida à ela.



Gostando ou não, sabia que ela estava certa. Seria mais útil e seguro se estivesse ao seu lado como nos velhos tempos. Exceto pelo fato de que não seria exatamente igual.



Ela não era a mesma. Ele não era o mesmo.



Okay. Mas você fica no escritório, sem campo, sem escapadas, sem gracinhas. Se eu disser para fazer algo, você faça. Caso contrário, os seguranças te trarão de volta pra cá. Entendeu?



Como eu disse velhos hábitos nunca mudam.



Seria um longo dia.



Não houve surpresa dos outros integrantes quando ela desceu ao seu lado para rua. Sinceramente, pode jurar notar um certo alívio no olhar dos colegas. Rich, como sempre, demonstrou abertamente sua satisfação e até se convidou para ir no mesmo veículo que os dois. Zapata, Reade e Patterson prontamente concordaram.



Horas mais tarde já estavam reunidos no laboratório. O FBI havia concordado em trabalhar conjuntamente com a CIA para este caso, considerando o envolvimento da organização em anteriormente ajudar a ex-agente em seu plano de recomeço.



Até agora, não muito fora descoberto.

O site continuava ativo e intacto, mas Patterson e Rich já estavam se organizando para derrubá-lo. Algumas câmeras de segurança perto de sua residência foram desativadas impossibilitando o rastreio do trajeto feito pelos atiradores.

Optaram por rever seus últimos passos para tentar achar algo útil, já que ela estava sendo observada.



Eu acordo por volta das 8h, tomo café e treino em casa… Minha primeira aula é geralmente depois do meio dia e a última não passa das 20h. Chego em casa às 21h no máximo. Aos fins de semana vou até às 16h e eu ajudo um amigo do Keaton com o estúdio de tatuagem às vezes, como uma forma de informar que está tudo bem.



Um beco sem saída.



Engraçado… você disse que não sabia onde ela estava.— A alfinetada de Dotcon para o agente da cia o rendeu uma cotovelada discreta. Não era hora para brincadeiras.



Você se lembra de ter visto ou ouvido algo incomum nas últimas semanas? Talvez algum desconhecido perto de onde morava. — Tentando amenizar o clima, Reade e Zapata trabalhavam observando as gravações disponíveis a procura de algo incomum.



Não, não… era sempre a mesma coisa e as mesmas pessoas. É um bairro antigo e não muito perto do centro, não tem muita movimentação.



Frustrada e cansada, passou os dedos sobre os cabelos agora um pouco maiores, a ponto de esconder o pássaro em seu pescoço. Detalhe que não passou despercebido por Kurt.



Espera, volta um pouco… — Ela pediu, se aproximando mais do televisor. Algo chamou sua atenção. — Quando foi isso?



Uns 3 dias atrás, por volta das 23h. — Patterson respondeu, congelando a imagem.



Conhece esse cara?— o moreno a questiona surpreso, ampliando a imagem do circuito de segurança.



Sim, e já vi essa jaqueta antes. O nome dele é Clem. Ele… — ela ponderou, olhando de relance para Kurt, voltando novamente para foto sobre a tela. — Eu o conheci pouco tempo depois que me mudei para Califórnia, nós somos amigos.



É claro que são… — seu riso irônico, embora baixo, pode ser ouvido ao fundo. Aquela fora as gota d'água para Jane.



Durante todo o dia havia feito exatamente o que mandara: Obedeceu ordens, não pisou o pé para fora do escritório, sempre que precisava ir ao banheiro havia um agente lhe acompanhando. Tudo exatamente como ele queria.



Mas não era o suficiente.



Era como se estivesse presa no passado quando descobriram sua antiga identidade e fora levada e torturada pela CIA. Ao voltar, fez um acordo de liberdade com Nas Kamal e teve de lidar com todos os olhares e julgamentos possíveis sempre que estava por perto.



Na época, sabia que ignorar e seguir em frente era a melhor escolha, visto a morte recente de um membro tão importante da equipe por uma culpa. Mas agora não.



Dessa vez, ela não matou ou causou a morte de ninguém. Dessa vez, ela era a única vítima ali. Dessa vez, não iria aceitar seus comentários às escondidas como ele havia feito no dia em que o ouviu no corredor com Zapata, dizendo o quanto desprezava ter de trabalhar ao seu lado. Dessa vez, não iria se calar.



Isso não está dando em nada. Vou ligar para o FBI local e ver se encontraram alguma coisa mais útil. — Antes que a figura tivesse a oportunidade de deixar o local como pretendia, ela disparou em sua direção.



Desculpa, você tem algo para me dizer?



Algo pra te dizer? — Parou no meio fio entre a porta e o corredor. — Não, não tenho. Por que teria? — e novamente, aquele tom irônico estava presente em sua voz ao dar meia volta.



Porque desde que cheguei aqui, você não olha pra mim, não fala comigo, mas faz questão de fazer um comentário irônico a cada coisa que digo. Então se tem algo para me falar, apenas me diga e acabamos logo com isso! Não temos tempo a perder.



Ela disse com firmeza. Já era tempo de esclarecerem as coisas e colocar seus comentários no cesto de lixo. Estava cansada de seus olhares.



Você quer que eu fale com você? Fine! Vamos lá. Eu não gosto disso, você não devia estar aqui. Você não é do FBI, Jane, e também não é mais uma consultora. Você é só uma civil que precisa da nossa proteção. Devia ter ficado no apartamento em segurança, e não estar aqui brincando de agente.



A forma como cada palavra saia de sua boca era irônica, e firme, como se estivessem há horas presas em sua garganta. Era notória a tensão que se instalou no laboratório. Zapata, Patterson e Reade trocaram alguns olhares desconfortáveis, sabendo o rumo que esse diálogo tomaria.



Você acha que eu queria estar aqui, Kurt? Acha que eu queria ter deixado tudo que construí pra trás e voltar com um alvo nas costas?! Está errado. Assim como está errado sobre eu precisar da droga da proteção do FBI. Eu não preciso, e nunca precisei! Sou mais do que capaz de cuidar de mim mesma!



É mesmo? Então me explica, se é tão capaz de cuidar de si mesma como acabou levando um tiro e vindo parar aqui de novo? E aliás, se não fosse pelo FBI nem na Califórnia você estaria! Não precisa mesmo de nós? Então o que está fazendo aqui ainda? Não se preocupe em ser egoísta de ir embora, você não ficou quando queríamos, tenho certeza de que um civil a menos ajudando não fará falta.



O FBI não me colocou na Califórnia, a CIA o fez. Eu não pedi proteção para vocês, não pedi ajuda para ir embora assim como não pedi pra você ficar no caso! Você quem escolheu isso, assim como o FBI escolhia as coisas por mim meses atrás. Você está bravo comigo porque assim que pude escolher por mim, eu não fiz o que você queria, certo? Eu não fiquei aqui e brinquei de casinha como queria e agora está descontando suas frustrações em mim. Mas adivinha, Kurt Weller? Você não me quer aqui eu não quero estar aqui tanto quanto, aguentando seus julgamentos e...



Hey, já falaram o suficiente, chega! — Agora, Patterson tomava a frente novamente. A situação estava fugindo do controle. — Jane, o que acha que ele estava lá? Vocês tinham marcado alguma coisa? Ele disse que iria?



Não. Eu nunca disse onde morava. Nós saímos algumas vezes para um café no centro, mas só isso. — Tentando recompor sua postura, tentou recapitular tudo que havia acontecido na noite anterior a seu ataque. — Tínhamos combinado de sair no fim de semana, mas só isso… não sei como ele chegou até lá.



Certo, bom, já é um começo. Ele tentou contato depois que chegou aqui?



Ele me mandou mensagem hoje de manhã mas não tive tempo para responder. – Chegou o aparelho em seu bolso, mas não havia nada de novo. — Acha que eles chegaram até mim por meio dele? Não faz sentido.



Não podemos excluir nenhuma possibilidade. — Kurt parecia mais calmo ao dizer. — De alguma forma, eles sabiam onde você estava. Qualquer pessoa pode ter dado alguma pista e…



Na verdade… — Zapata o interrompeu, direcionando seu olhar para os dois hackers a sua frente, que entenderam o recado. — Nós já temos uma ideia de como chegaram até a Califórnia.



Como? Keaton era o único que sabia onde eu estava.



Projetando o post de uma rede social sobre a tela, Patterson evitou contato visual ao explicar. — Um dos seus alunos postou essa foto algumas semanas atrás… Olhe ao fundo.



Aproximando a imagem, já se preparavam para a segunda onda de tensão que se instalaria no laboratório.



Essa sou eu em uma das aulas!



Recebemos um alerta de imagem por conta das tatuagens e conseguimos derrubar a postagem alguns minutos, mas alguém pode ter visto antes.



Como eu só fiquei sabendo disso agora? — Surpreso, Kurt se aproximou da mesa.



Nós não achamos que fosse nada relevante. — Arriscando, Reach respondeu ao chefe. — Era só uma foto de um aluno.



Uma foto com a localização da Jane. — A resposta veio certeira, fazendo com que todos se calassem. — Achei que com tudo o que aconteceu meses atrás, havíamos entendido que segredos podem ter consequências desastrosas! Somos um time, o único que saiu intacto daquele dia. Devemos confiar e compartilhar informações uns com os outros!



Estava claro que sua fala não se referia somente ao presente. Cada palavra soara carregada por muita mágoa, assim como suas feições. Quando ela se foi, Weller tentou conseguir sua localização por semanas, até os amigos o convencerem a desistir.

Isso não irá se repetir.



— Desculpe.

Reconheciam o erro que havia sido manter a informação para si, e decidiram por não debater, pois perderiam a pouca razão que os restava.



Por que não encerramos por hoje? — Lutando com a vontade de prosseguir o trabalho, Jane tocou seu ombro levemente, olhando para os demais. Ao sentir seus ombros relaxarem, o ar faltou à seus pulmões quando teve a sensação de que tal toque havia o desarmado. — Já está tarde.



Preciso terminar um relatório. Nos vemos no apartamento. – Foi tudo o que ele disse ao deixar o local sem deixar transparecer alguma emoção.



Era mais do que claro em sua mente a tensão que deveria ter sido o ambiente nos meses antecedentes. A dinâmica entre eles havia mudado, e como temera ao chegar ali, parte da culpa era sua.



Eu sei que não é o momento certo, mas obrigada… por não mostrar a ele.Sua fala gerou certa surpresa aos colegas. Pode notar uma certa decepção em alguns dos olhares.



Você deixou claro que não queria contato conosco, apenas respeitamos isso. — Inicialmente, a resposta seca de Reade lhe causou um aperto no peito, mas uma ponta de compreensão em sua voz reacendeu sua esperança. Sua atitude fora egoísta, e agora estava lidando com as consequências disso.



Que tal uma pizza e um banho quente?— Amenizando o clima, Rich deu um tapinha sobre a mesa, pegando as chaves do bolso. — Separados, claro, quero dizer, se alguém quiser um banho conjunto eu até topo mas não acho que o grandalhão vá gostar muito da idéia…

Pizza e banho. É o que precisamos para hoje. — Tomando as chaves de suas mãos, Reade arrancou alguns risos ao empurrar todos para fora. Inclusive Jane.



Pizza e banho.

Notas finais
Mais alguém queria uma pizza e um banho quente? ai ai esse Clem... See you when I see you :)