What happened in Hell Valley - 1985A

1 Uma visita inesperada... No meio da noite...


Notas iniciais
Apenas um rabisco, não sei se haverá continuação... Eu queria escrever sobre como a relação entre o Doutor e Marty iria se desenvolver no 1985 Alternativo... Se você gostar, comenta aí :)

1981

Emmett Brown nunca gostara de ter uma arma em casa e tentava ao máximo não usá-la, mas era algo terrivelmente necessário naquele lugar. Ele ainda se lembrava de quando Hill Valley ainda era um bom lugar, há muito tempo atrás, antes de Biff Tannen começar a tomar conta da cidade, transformando-a em seu parquinho pessoal que, após um tempo, já não lhe interessava tanto assim. Agora Hill Valley não era mais aquele lugar calmo e aconchegante de alguns anos atrás, mas sim um antro de bêbados, vagabundos, ladrões e assassinos.

As casas ficavam sempre trancadas, muitas com grades nas janelas e até nas portas e uma arma devia sempre estar em mãos com a quantidade de ladrões que apareciam até pelas ruas que antes eram conhecidas como as mais calmas e pacificas da cidade.

Então, é claro que até mesmo um cientista em geral pacífico como Emmett Brown, também tinha de ter uma arma por precaução, já que seu cachorro Einstein, não era nem de longe um cão de guarda, possuindo somente um latido alto o bastante para avisar de qualquer um que tente entrar na pequena garagem que servia de casa para os dois.

E, aliás, Einstein não tinha dificuldade em cumprir seu dever.

Emmett acordou tão logo um uivo longo soou pela casa.

“Droga!” Ele reclamou mais alguma coisa enquanto pulava da cama, pegando a espingarda que deixava logo ao lado, a carregando enquanto ignorava seus chinelos.

Emmett ergueu a arma enquanto saia do quarto, encontrando seu companheiro latindo alto e, de modo ou de outro, animado para quem quer que havia invadido a casa – Einstein era um cachorro muito amistoso afinal. O cientista viu uma forma contra a porta, não era grande nem parecia perigosa – apenas um pequeno e jovem vândalo, talvez –, não dava para ver direito com a pouca luz que entrava de fora.

“Por favor! Não atira!” A voz do desconhecido exclamou engasgada, aparentemente notando que o dono da casa tinha uma arma em mãos.

“Você tem sorte que eu não acredito em um modo de segurança mais drástico.” Emmett disse seriamente, mesmo notando como o garoto parecia assustado, mas não era muito bom acreditar nesses moleques que andavam por aí em Hill Valley. “Quem é você e como conseguiu entrar aqui?”

“É, você deixa tudo bem trancado...” O garoto murmurou, ainda encolhido contra a parede. Emmett podia ver as mãos desse levantadas, completamente vazias e sem aparentar oferecer perigo algum. “Eu acho que, ah, detonei a fechadura da sua porta... M-mas eu posso arranjar outra! Ah!” Ele exclamou quando Einstein pulou em sua direção, lambendo-o animadamente.

Emmett aproveitou a distração e lentamente caminhou até a mesa, a arma ainda apontada para o rapaz – mas é claro que sem vontade de apertar o gatilho – e tateou um pouco em busca da lanterna que havia deixado ali.

“Eca! Já chega!” O garoto murmurou entre risadas, tentando afastar o cachorro. “Senta!” E no mesmo instante uma luz forte veio em sua direção, o forçando a proteger os olhos.

Pela primeira vez o cientista pôde ver como era seu visitante repentino. Um moleque, devia de ter entre doze ou treze anos de idade, moreno e de olhos incrivelmente azuis. Emmett nunca havia visto olhos tão azuis quanto aqueles antes; olho que, aliás, o fitavam com curiosidade e medo.

“Ei... Você é aquele cara, ah...” O rapaz murmurou, examinando o maior com aqueles olhos. “Aquele cientista estranho do qual o pessoal falava...”

Emmett fez uma careta ao ouvir aquelas palavras.

“Devo me sentir lisonjeado por ser reconhecido mesmo que por meio de nominações não agradáveis?” Murmurou, descansando a lanterna na mesa de modo que a luz ficasse presa no garoto, mas que ele pudesse manter ambas as mãos em sua arma.

“Desculpe...” O rapaz murmurou, passando a mão na nuca, sem jeito. “É que é só assim que falam de você, então, ah...”

“Sim, eu tenho conhecimento de como as demais pessoas nessa cidade me definem.” Emmett disse seriamente. “Mas você não respondeu a minha primeira pergunta: Quem é você, garoto?”

“Ah, sou Marty... Marty McFly...” Marty disse quase timidamente, estendendo a mão para o cientista, mas rapidamente a recolhendo e a escondendo no bolso, notando que o outro não iria apertá-la.

“McFly?” Emmett se lembrava de já ter ouvido esse nome em algum lugar, ou lido. “Você... Não seria filho de George McFly, o jovem escritor?”

Marty pareceu surpreso pela pergunta e simplesmente abaixou o olhar, ambas as mãos nos bolsos de trás e se balançando em seus calcanhares.

“Sim... Ele mesmo...” Foi só o que disse.

No mesmo instante, o cientista decidiu não falar mais sobre aquilo. Ele se lembrava de ter lido num jornal há alguns anos atrás, de volta à 1973, quando o assassinato do promissor escritor havia sido marcado em letras garrafais.

“Eu, ah... Sinto muito...” Emmett murmurou sem saber o que dizer, não estava muito acostumado a ter de interagir com as pessoas, principalmente em relação a esses temas, já que vivera boa parte de sua vida sozinho, enfurnado em suas invenções que até agora não se provaram tão produtivas. “Einstein! Senta, garoto!” Ele disse para o cachorro que ainda parecia animado em conhecer o garoto.

Os dois permaneceram em silêncio, até que o som alto de um motor velho e envenenado soou pela estrada, do lado de fora da garagem, a luz dos faróis passando pelas janelas e refletindo na sala ainda muito escurecida. No mesmo instante Marty se abaixou, aparentemente preocupado.

“A luz!” E praticamente se rastejou agachado até a mesa ao lado do cientista, agarrando a lanterna e a apagando rapidamente.

Emmett se surpreendeu com o movimento do rapaz e deu alguns passos para trás, as mãos instintivamente se agarrando à espingarda quando tudo ficou escuro novamente. Mas Marty não fez nada, apenas ficou quieto no mesmo lugar, olhando em direção da janela com os olhos bem abertos.

Depois de um tempo os faróis se moveram e com o mesmo som alto o carro se distanciou pela estrada até que o barulho do motor e das rodas contra o asfalto destruído sumiram ao longe.

“Desculpe, ah, por isso...” Marty murmurou sem jeito, ligando a lanterna novamente e, agora que a tinha em mãos, a voltando para o cientista.

“Por acaso estão procurando por você?” Emmett perguntou, entendendo muito bem o que havia acontecido.

“Sim...” Marty disse simplesmente, se sentando ao lado do que ele notou ser um pote de comida de cachorro; ele torceu o nariz levemente, mas ficou no lugar.

“E me pergunto o porquê de tal coisa...?” Emmett insinuou, sem vontade de manter um criminoso ou algo assim por mais tempo do que era suficiente em sua casa. O que ele menos precisava no momento era de problemas.

“Eu não fiz nada de errado, ok?” Marty se defendeu rapidamente. “Ah... Sem contar fugir da escola nova...”

Emmett revirou os olhos ao ouvir aquilo. Lembrando que Hill Valley High School havia sido queimada dois anos antes, era de se esperar que os jovens da cidade não tivessem interesse algum em permanecer estudando, fosse aqui ou em qualquer outra escola de fora.

“Ei, ah... Eu disse quem eu sou, mas você...” O rapaz falou de repente, chamando a atenção do cientista.

“Emmett Brown.” Ele respondeu simplesmente.

“Emmett...” O menor repetiu, como se experimentando aquela palavra.

“Sim, e agora que já nos apresentamos conforme é socialmente esperado, gostaria de pedir que se retirasse de minha casa.” O cientista falou, serio. “Já tenho o bastante de conflitos com a vizinhança e com alguns vândalos que aparecem vez ou outra por aqui e não gostaria de ter minha segurança nem a de Einstein em perigo por causa de um rapaz que fugiu da escola.”

“O nome dele é Einstein?” Marty se distraiu por um momento, vendo o cachorro se aconchegar em uma cesta com seu nome. “Ah, é claro!” Ele se levantou de repente, mas ao se virar para a porta algo o segurou. “O que é isso?”
A pergunta tomou Emmett de surpresa, principalmente pela curiosidade genuína na voz do garoto.

“É uma maquina para abrir comida enlatada. Comida canina enlatada.” Ele adicionou, observando enquanto Marty examinava sua criação com olhos curiosos, esticando a mão vez ou outra para tocar alguma parte, mas a recolhendo rapidamente, como se tivesse medo de quebrar alguma coisa.

“Você que fez? Legal.” Marty sorriu com real admiração, surpreendendo o outro. “E esses relógios aqui? Você é obcecado pelo ‘tempo’ ou o que?”

“Não obcecado, apenas...” Ele balançou a cabeça, se lembrando de suas anotações de um bom tempo atrás. “Interessado...”

Marty pegou a lanterna e estudou umas coisas mais, murmurando consigo mesmo quando fixava os olhos em algo que o interessava ou surpreendia. E para a surpresa de Emmett, o leve desconforto que sentira ao ter o garoto ali com ele sumira, e tudo o que ele pôde fazer foi sorrir e responder às perguntas curiosas do jovem McFly.

“Uau, barra pesada, Doutor...” Marty disse de repente depois que o cientista o explicou sobre como muitas de suas criações na verdade não deram em nada. Foi só depois de um tempo que ele notou como havia chamado o outro. “Ah, me desculpe, eu...”

“Está tudo bem.” Emmett acalmou o rapaz. “Eu tenho um doutorado de qualquer jeito. Pode me chamar do que quiser desde que não use meu nome ou meu nível de ensino como zombaria.”

“Claro que não... Doutor...” Marty sorriu ao repetir a palavra.

Emmett se surpreendeu com o sorriso genuíno e repentino do rapaz, sem se impedir de encará-lo; tirando sua família, ninguém nunca sorrira para ele daquele modo. Mas logo o sorriso sumiu, Marty desviou o olhar, passando a mão pela nuca sem jeito.

“Olha, Doutor, eu, ah...” Ele pareceu se bater com as palavras até que suspirou. “Eu sei que você não quer problemas e eu, ah, não quero dar problema nenhum pra você! Mas...” E levantou os olhos azuis para o cientista. “Por favor, será que eu posso ficar um tempo aqui?” Ele notou a repentina tensão que tomou o outro homem. “Eu não tenho para onde ir a não ser de volta pra minha, ah... Família...” Não parecia contente usando essa palavra. “E eu já sei o que vai acontecer se eu voltar lá. Meu... Pai vai me bater, com certeza, e ainda vai brigar com a minha mãe, porque ela sempre tenta me proteger...” Revirou os olhos, afundando as mãos nos bolsos. “E depois ele vai me mandar para outra escola e...”

Emmett ergueu uma sobrancelha quando o rapaz se calou, surpreso com a história toda. Pelo jeito Marty tinha uma vida difícil. O cientista se lembrava de que a viúva de George McFly havia se casado com Biff Tannen; ele não conhecia nenhum dos dois, mas pôde ver por jornais e pela televisão o quão desagradável aquele homem era. Tê-lo como padrasto não devia de ser algo muito interessante.

“E-eu prometo que não dou problemas!” Marty continuou quando o mais velho não lhe deu resposta alguma. “Eu posso até, ah, ajudar em alguma coisa! Alguma invenção que você tiver! Eu não sei muita coisa de ciência ou coisa do tipo, mas, ah... Ou eu posso ajudar a cuidar do Einstein...” Ele voltou o olhar para o cachorro que se remexera ao ouvir seu nome sendo chamado.

O cientista não sabia o que falar, estava ainda processando tudo aquilo. Ele podia ver bem que era um perigo iminente ter o garoto ali – e se alguém enviado por Biff aparece por ali? Eles não precisavam de mandado para entrar nas casas –, mas ao mesmo tempo ele não queria mandar aquele garoto para a forca.

Marty havia sido o único que se interessara por seu trabalho, por suas invenções, em muitos anos, e pelo jeito era um dos poucos que não o via como completo maluco.

E além do mais, Marty parecia perdido, sozinho e abatido... Como se não tivesse realmente um lugar para chamar de lar, o que não devia de ter, de fato. Por algum motivo aquele garoto o lembrava de... Bem, de si mesmo, em alguma parte de sua vida presa naquela garagem... E Marty não parecia apresentar perigo nenhum por si só, ele parecia sincero, um garoto calmo e educado que simplesmente procurava um lugar para se proteger naquele inferno. Por algum motivo, Emmett sentia que podia confiar naquele moleque.

Emmett suspirou.

“Muito bem, Marty...” Disse, notando quando o garoto ergueu os olhos azuis esperançosos para ele, sem segurar um sorriso. “Você pode ficar aqui por um tempo, até que a procura por você se torne menos intensa. Talvez eles pensem que você saiu da cidade...” E pousou a mão no ombro de Marty, sentindo como esse tremia levemente. “A única condição a ser mencionada, é claro, é a de que não saia daqui ou então a sua estadia aqui não terá servido para muita coisa.”

“Sério?” O moleque não parecia acreditar no que ouvia. “Você me deixa ficar aqui?”

“Sim, deixe-me apenas--“ Emmett não chegou a terminar aquela frase.

De repente, Marty estava com os braços em volta de sua cintura, o abraçando e apertando a cabeça contra a base de seu peito – era um garoto tão baixinho...

“Ah, desculpe, Doutor...” Marty se afastou, voltando a afundar as mãos nos bolsos, encabulado. “É só que eu, ah...”

“Está tudo bem.” Emmett balançou a cabeça indo até o lado da porta e acendendo a luz finalmente, revelando sua garagem/casa incrivelmente bagunçada para o rapaz por completo. Ele examinou a porta, vendo um dos lacres no chão, Marty possivelmente chutara a porta para entrar. “Como eu dizia, deixe-me arrumar um lugar para que possa dormir.”

Se Emmett tivesse levantado o olhar enquanto guardava sua arma, ele teria notado o leve rosado que apareceu nas bochechas do garoto.

“Ora, Doutor, eu posso dormir no sofá...” Marty disse, desviando de algumas caixas até o sofá pequeno.

“Besteira, é pequeno demais, até pra você.” Por um momento o cientista quis se bater por falar aquilo, notando como poderia parecer um insulto para o menor. “Eu tenho uma cama extra aqui.” Ele tirou algumas caixas de cima da cama diminuta que ficava num canto, balançando os cobertores que estavam um pouco empoeirados. “Espero que não se importe com a poeira. Não havia muito uso para essa cama então...”

“Se você visse os lugares em que já dormi, Doutor...” Marty riu levemente, lisonjeado pela preocupação. “Acho que poeira é a menor de minhas preocupações.”

Minha nossa! Pergunto-me por o que esse garoto já passou!, Emmett pensou, mantendo-se calado enquanto o garoto checava a cama.

“É confortável.” Marty se deixou cair no colchão, afastando algumas nuvens de poeira que subiram de repente. “Esse lugar parece bem empoeirado... Ah, eu podia até limpar pra você, Doutor...”

Por algum motivo, Emmett corou aquelas palavras.

“Não há a necessidade.” Ele disse simplesmente, sorrindo ao ouvir o rapaz rindo.

“Mesmo assim, muito obrigado, Doutor.” Marty sorriu, apertando o travesseiro para tentar deixá-lo macio. “Não acho que alguém mais nessa cidade iria realmente me ajudar...”

De fato, Marty estava surpreso e demasiadamente feliz por dentro. Finalmente havia encontrado alguém em quem confiar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!