Notas iniciais
O primeiro capítulo será algo bem leve, será apenas a iniciação da história, perdão pela trama mal explicada, será resolvido no segundo capítulo. Boa leitura.

São cinco horas. O garoto de cabelos morenos ergue a bandeja metálica da mesa, seus olhos castanhos se fixam na porta, esperava alguém ajuda-lo. Seus braços fraquejavam pra levantar a torta, apesar de ser bons o suficientes pra pular os muros de noite para ver seus amigos sem a ordem de sua mãe. Conseguiu erguer a bandeja, mas tomado pelo sono de uma noite inteira jogando, deixou que sua blusa sujasse com as laterais do creme. Sorriu enquanto seus olhos coçavam pra se fecharem mais uma vez, caminhou até a porta, indo até seu quintal, deixou a bandeja sobre uma mesa, limpando sua blusa. Ajeitou o cartaz que parabenizava uma pessoa. Olhando por reflexo para trás assim que a porta se abrira.

—Feliz aniversário, mãe.

A senhora de cabelos grisalhos balançava sua cadeira de rodas até o garoto, abrindo um sorriso calmo com seu rosto delicado e frágil, feliz em saber que sua cria tinha se lembrado daquela data, apesar de ter sido diagnosticado com um leve problema de memória, nada que se preocupasse muito. A senhora, completando seus 68 anos, era doce e boa com todos, sofria de uma paralisia em seus membros inferiores desde pequena, incapacitando-a de andar e de fazer várias outras tarefas, abraçou o filho, que mesmo não tendo seu sangue, era seu filho por amor. Seu nome era Lisandra Stephan, e o do seu filho, Anthony Stephan. Ambos se encontraram em um carinho imenso, como se eles se abraçassem desde a primeira vez que ele saiu daquele orfanato, seguido do som da campainha. O garoto vai atender, e é recebido com um sorriso por seus familiares, tios e primos próximos que viriam para a pequena festa de não tão alto orçamento. Mas um barulho foi ouvido do quintal, o jovem correu ao local, em um susto enorme, mas apenas para ver que sua mãe tinha, em um pequeno acidente, derrubado pratos de vidro. Se prontificou para comprar outros pratos, havia um pequeno mercado em duas quadras.

Em pouco tempo seguiu caminho até o lugar. Seus passos largos faziam ele chegar cada vez mais rápido, as pessoas o cumprimentavam, Anthony era querido por todos da vizinhança, bem educado, sempre ajudando os outros, não deixava nenhuma pessoa passar triste ao seu lado sem consola-la, parou por um segundo pra dar um empurrãozinho no balanço da doce Sarah, sua vizinha. Prosseguiu seu caminho, até entrar em uma pequena rua, que parecia que nunca tinha visto, estava escura, deserta e com uma atmosfera que dava medo a ele, uma pequena luz emanava de um dos becos, que era o único que geralmente era escuro, mesmo com a rua totalmente clara.

—Você não está sozinho.

A voz ecoou de repente, com o som da voz de uma pessoa sem forças e prestes a morrer, e como algo estranho, sem uma pessoa que a dissese. Olhou para os lados, amedrontado, seus olhos castanhos viram a luz, que antes era irrelevante. Decidiu ir ao seu encontro.

—Quem está aí?

E as palavras soavam secas, e foram as primeiras e últimas de Anthony, pelo menos naquele beco que normalmente escuro, ficara iluminado. Sua conciência foi apagada por momentos, até abrir os olhos. Não estava mais onde estava antes. A luz se apagou.

Anthony acordou, olhando o lugar ao redor, tirou a conclusão de que havia sido desmaiado e raptado por algum estranho, e o breve arrepio de desespero percorreu seu corpo, levantou-se, notando que não estava mais com os jeans e o moletom vermelho que usava antes, e sim com um moletom preto e longo, junto de uma calça larga, ambos pretos. Seu sangue gelou ao ver que estava em alguma espécie de templo, seus olhos coçavam, e sua mente estava confusa e vazia, não se lembrava do que aconteceu para ter chegado ali, apenas seguia em frente, a cada passo, se sentia observado, escutou uma voz.

—Você não está sozinho.
Uma pequena lembrança passou por sua cabeça, notou uma grande porta ao local de onde ouvia a voz, e cada vez que se aproximava, o lugar parecia se iluminar, até que tropeçou em algo macio, porém firme, não caiu, voltou a sua postura e olhou pra trás, um único olho o observava, um olho vermelho e de certa forma, grande.

Uma luz se acendeu. E lá estava, talvez o pronunciador da voz, mas não. Um gato. Um gato vermelho de porte médio, com patas levemente longas, e uma faixa que cobria toda a parte de seu focinho, e um de seus olhos costurado, mas fundo, como se tivesse sido arrancado. Em sua cauda, era possível notar seu osso separando-se de sua carne, e voltando com um pedaço que dava fim ao rabo, e além disso, duas asas, duas asas de morcego amarronzadas que saiam de suas costas. E esse ser olhava para Anthony, em um misto de raiva e pena, levantou as patas da frente e se arrastou até levantar as de trás, andava até onde a luz ecoava, Anthony apenas o seguia, a porta se abriu.

—Então é ele.

—Sim.

—Velho demais, não acha?

—Talvez.

—Você o deu a chance da vida?

—Apenas não quis que fosse tão cedo...

O garoto pisava amedrontado, não conseguia dizer uma palavra, não sabia onde estava e nem quem enfrentava ali, o lugar era um corredor extenso, parecia que era feito de mármore, além de uma madeira fina e bela, e artefatos de tempos antigos e novos. Ao final do corredor, uma cadeira alta, acima de uma espécie de palco, onde estava sentado um homem, de aparentemente 18 a 19 anos, com um capuz cobrindo parte de sua cabeça, e cabelos ruivos cobrindo seus olhos, descansava um cajado em suas mãos, enquanto fazia menção de silêncio, ao seu lado, várias cadeiras vazias, e apenas 19 preenchidas, todos usando a mesma roupa, um cinza escuro e um capuz branco. Ao lado do ruivo, um jovem de cabelos longos, olhando diretamente para Anthony, parecia mais velhos que os outros, se levantou da cadeira, preenchendo mais uma das que estavam ao lado dos 19, o ruivo se levantou, batendo o cajado no chão, nenhum som foi ouvido, até que sua boca se mexeu.

—Você é o escolhido.

Anthony olhou e engoliu seco, imaginou estar em um sonho, mas tudo aquilo mexia em sua cabeça como um simples pesadelo não mexia, tremeu seu corpo inteiro, o ruivo apenas se levantou enquanto ia a direção dele, segurou em seu rosto e olhou em seus olhos, sua expressão era fria, sem pena alguma, o tempo parecia correr devagar antes dele repetir a mesma coisa.

—Anthony Fahabs Stephan. Você foi o escolhido.
As palavras soavam grego ao garoto, não entendia o que ele tinha dito, por mais que repetisse, aquilo não se assimilava em sua cabeça, mas tudo parou com um toque, um toque do homem do cajado em sua testa, seus olhos presenciavam cenas terríveis, cenas de mortes, torturas e perdas, Anthony caiu para trás com a mão na testa, tremendo, lágrimas escorriam de seu rosto apenas por ver aquilo, até que tudo se cessou, interrompidos pelas palavras do ruivo.

—Você deve me conhecer...

—Eu...não quero ser...a morte...

—Mas é claro que não quer, e você não é.

—Eu não entendo.

—Vai entender.

Um dos 20 sentados na cadeira se pronunciou.

—Não vai dar certo, ele é velho demais.

—Calado, você é inútil aqui, pelo menos no momento.

Todo o clima pesado foi interrompido pela porta batendo em um estrondo, e risadas com tom insano e fúnebre, parecia que tinha paralisado ao ver Anthony, arrastou seus pés até ele, seus cabelos de cores fortes e misturadas apenas não era mais estranho que seus olhos brilhantes, e a estrela em seu olho esquerdo.

—HahahahHAHAHHAAHHAHAHAH! Ton! É você! Eu venho te vendo a tanto tempo! HAHAAHAH...

—Como sabe meu apelido?! Quem é você?

Ton estava diante da causa de sua cabeça remexida, confusa e depressiva, mesmo sem saber. A garota segurou-no pelas maçãs do rosto e forçou um beijo em seus lábios, se separando e voltando a rir, com o batom colorido azul-rosa manchado, Anthony permanecia inerte, olhando aquela figura assustadoramente feliz, ou o que parecia ser, Morte encarou-a por um segundo, e sua expressão feliz se tornou de tristeza, repentinamente, e caiu no chão chorando, Anthony se pronunciou, mostrando irritação.

—O que fez pra ela?!

—Acredite, eu não fiz nada.

E foi surpreendido mais uma vez com o beijo estranho da louca, que agora, mesmo com o rosto vermelho de lágrimas, era feliz, Anthony a expulsou com um leve empurrão, hora que ela voltou a rir. Anthony agora olhava para as 20 cadeiras, que o olhavam com indiferença, porém, com uma pequena parte de pena no que sobrou de seus corações frios. O ruivo passou um tempo sussurrando algo ao gato, e logo olhou para os olhos confusos de Anthony, ele ainda não tinha percebido, mas a garota misteriosa, Paranóia como a chamavam, fez ele se acalmar apenas de entrar no lugar, não por obrigação, mas sua alma que antes era pura não aguentava ver alguém desesperado, mesmo que tenha visto sofrimento pior, não conseguia aguentar aquilo, não com Anthony. Paranóia, ou Karine, como gostava de ser chamada, ainda era doce e boa, apesar de ter suas recaidas por natureza. Tinha um curto cabelo colorido de azul, rosa e verde, ambos muito chamativos, um de seus olhos era azul, e o outro, roxo com uma estrela amarelada, era onde via todos que possuiam suas condições. Karine acariciou os cabelos de Anthony, até agarrar algo que ele só tinha percebido com o toque dela, um longo galho morto saia de seu cabelo castanho, Anthony se assustou de primeira, mas acalmou-se com a grande proximidade de Karine, que o impedia de sentir medo. A garota apalpou os 7 galhos daquele tipo estranho de chifre, Morte a interrompeu, com um tom mais leve do que antes, talvez por uma certa simpatia inexplicável pela garota.

—Quer contar a ele o que significam?

—Seria ótimo...

E tudo se escureceu novamente, não na luminosidade local, mas sim na alma de Anthony, que agora compreendia forçadamente o que era agora, suas obrigações, sua nova vida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.