What about my dream
1 fita azul
Notas iniciais
Costumava vir aqui quando criança, desde que aprendi a ler me lembro deste lugar. Minha mãe tinha acabado de me libertar de casa, podia mostrar ao mundo o que sou capaz, porque eu era livre.
Mas toda liberdade tem seus limites. Para alguns, limite é a esquina da sua casa e para outros, o limite é o céu. O meu limite era a fronteira desta pequena cidade, minha mãe confiava em mim e eu nela. Tinha toda a cidade na palma da minha mão, mas eu era persistente, o único lugar que me agradava era o píer do lago perto de minha casa. Quieto, sem movimento da cidade grande. Apenas eu, as ondas batendo, algum livro e a minha árvore.
Já vi esta árvore crescer lindas flores rosas cativantes na primavera, também as vi cair no outono. Presenciei invernos rigorosos, onde nenhuma folha se quer nascia, porém, presenciei verões onde o verde contaminava minha visão.
Eu era livre, mas não livre o suficiente. Todos os dias, sentei neste mesmo píer, com os pés balançando conforme o vento, esperando que um dia fosse grande o suficiente gratificar meus dedos com sensação de conquista. Prometi a mim mesma neste mesmo lugar, que apenas abandonaria esta cidade quando meus pés sentirem a água sob meus pés, minha presença neste lugar perderia seu objetivo.
Um dia, fiquei com sérias dúvidas se realmente seria capaz de me libertar, estava desistindo de meu objetivo, tinha perdido o foco. Estava muito depressiva, minha fitinha de cabelo azul também me achava uma vergonha, ela tentou escapar de mim. Mas havia um homem na entrada do píer, este homem carregava uma fitinha azul, a minha fitinha azul.
Suas roupas lutam contra o vento, enquanto o vejo se direcionar a mim. Seus passos pesados sobre a madeira me assustam, estava acostumada aos meus passos leves e corridos. Pude notar um leve sorriso em seu rosto, o que me fez questionar o porque de tamanha felicidade ao me entregar uma fita de cabelo que já era minha, ele só a estava devolvendo. Me levanto subitamente, e meu vestido roda. O primeiro fato a ser notado sobre este homem misteriosamente feliz, é a sua altura em comparação a minha. Eu podia facilmente ser envolvida por aqueles braços e ainda parecer uma criança.
- Acho que se esqueceu de algo — entregando-me a minha fita, que guardo no bolso.
- Obrigado — murmuro, não sei dizer se ele foi capaz de ouvir.
Ele estende a mão e começa a movimentar sua boca.
- Patrick — disse, sorrindo — novo na cidade.
Retribuo timidamente
- Saiorse — respondi, devolvendo-lhe o melhor sorriso que fui capaz de dar, sem assustá-lo — aqui desde de que nasci.
- Nome curioso — diz, levantando sua mão direita até seu queixo e apontando para a esquerda. Como se estivesse pensando — Exótico, lindo. Adorei.
Limpei a garganta sem saber o que fazer. Devia agradecê-lo, como de costume. Mas por algum motivo, estava paralisada. Nos olhamos pelo que pareceram horas, quando uma folha do tamanho da palma de minha mão é levada pelo vento e atinge o rosto de Patrick. Vejo-o balançar a cabeça para se livrar, mas a folha não parecia feliz em deixar seu lugar no rosto de Patrick. Com um pouco de insistência, a folha volta a voar ao vento e começamos a rir insensatamente.
O riso cessou aos poucos, e quando se tornou inaudível, sentei-me na beira do píer, na esperança de sentir as ondas quebrarem sob meus pés. E nada aconteceu. Levo um susto quando percebo que Patrick se sentou ao meu lado, me fazendo acreditar que ele percebeu a minha intriga. Suas sobrancelhas se erguem e seus olhos brilham como um gênio escolar descobrindo o resultado de um cálculo que estivera empenhado a meses.
Patrick se levanta, me levando a pensar que ele me deixaria. E com isso, um pesar no peito me contamina. Conduzo minhas mãos ao meu coração com a intenção de apartar a dor, e então percebo que a presença de Patrick significara muito para mim. Não quero que se vá. Volte.
Para minha surpresa, meus braços são puxados para o alto me fazendo levantar em um pulo. Meus pulsos estão envoltos em mãos de ferro, e percebo que o rosto de Patrick está a poucos centímetros do meu, podia beijá-lo com um simples movimento. Um sorriso contamina seu rosto.
- Confie em mim.
Balanço a cabeça em afirmativa. E penso pela segunda vez, este era um estranho. Estou confiando minha vida a um estranho. Ele poderia me estuprar, me roubar, ou pior, me matar. Eu não o conhecia. Como fui ser tão estúpida. Começo a surtar em silêncio para que Patrick não perceba o medo e se aproveite de mim.
Suas mãos conduzem as minhas como em uma dança até a ponta do píer novamente. Meus pés estão prestes a perder chão. Ele vai me afogar. Me contorço na tentativa de escapar mas suas mãos são muito mais fortes em comparação a minha. Tento chutá-lo no joelho, mas foi mal calculado e acertei o ar.
- Eu pedi para confiar em mim, — disse suavemente — vou ajudá-la. Não adiantará de nada se você tentar escapar. Quero ajudá-la a por os pés na água. — Ele era bom de leitura facial, devo admitir — Já experienciei algo parecido, queria poder tocar as nuvens.
- Sou tão previsível assim?
- Eu conheço quando alguém está se sentindo infeliz por não alcançar seus objetivos.
Houve uma longa pausa, onde absorvia suas palavras.
- Já realizou seu sonho? — perguntei, curiosa.
- Já.
- Mas como? As nuvens estão tão acima de nós. Você por acaso voa?
Ele riu. Aquele risada parecia vir de um anjo.
- Nunca especifiquei como iria tocar as nuvens. Então, visitei um dos maiores edifícios dos Estados Unidos em um dia de neblina. Foi admirável, toquei-a e senti como se minha infância se concretizasse, finalmente. — disse Patrick
- Que legal. É uma espécie de trapaça de vida.
- E é exatamente o que vamos fazer.
Tirei minha sapatilha e senti os meus pés, e eles definitivamente não estavam mais tocando o chão. Um sensação de prazer me contaminou, indo do meu peito aos braços e pernas, chegando as mãos e pés quase que me paralisando de adrenalina. Meus cabelos soltos atrapalham um pouco minha visão, mas isso não atrapalha a sessão que senti ao sentir a água salgada entre meus dedos. Se o céu existir, realmente espero que seja assim. Um fragmento de onda está vindo em minha direção e molha minhas pernas nuas. Sinto minha face arder de abrir um grande sorriso, um sorriso que achei que era impossível de ser feito. Até agora.
Ainda estou sobre efeito da adrenalina quando braços fortes, que já havia esquecido, me puxam de volta a madeira acolhedora do píer. Milhares de palavras corriam por minha cabeça, devia agradecer ou comentar o quão incrível fora? Palavras e mais palavras, todas sem significado perto do que acabara de ocorrer aqui. Vejo um sorriso no rosto de Patrick que faz com que as palavras saiam com facilidade.
- E agora?
Bom, palavras saiam com facilidade, mas não era nem perto disso o que eu realmente queria ter dito ao meu estranho.
- E agora nós procuramos um novo sonho.
Procurar um novo sonho? Minha vida toda fora baseada neste pequeno sonho que se realizou a segundos atrás. Um novo sonho. Soava tão bem mas não tinha fundamento. Eu não tinha um novo sonho.
- Esse é o momento no qual você acha que pode morrer, que já fez tudo na vida, seu propósito acabou. Não é bem assim — disse Patrick olhando nos meus olhos — Não desista, a vida tem muito a oferecer.
Suas mãos envolvem minhas maçãs do rosto, e nossos narizes estão a poucos centímetros. A distância começa a diminuir rapidamente, e meus olhos se fecham. Consigo apreciar seus lábios nos meus. Quando retribuo, consigo sentir um sorriso se formando em Patrick e até em mim. Suas mãos descem até minha cintura e envolvo seu pescoço com meus braços. Mas de repente tudo fora tirado de mim. Patrick recuou
Sim, agora eu sabia que a vida tinha muito mais a oferecer. E eu estava disposta a correr atrás. Eu acabei de decidir qual sonho perseguir agora. E meu sonho é Patrick. Patrick. Patrick. Somente Patrick. Meu mundo rodeado de Patricks. Meu estranho precisa voltar. Agora não era mais uma questão de apenas "achar Patrick interessante", ele me fazia bem como ninguém mais me fez sentir.
Meu sonho Patrick, estava se afastando de mim. Começo a me questionar se fiz algo errado. Corro atrás dele e quando o alcanço, fico nas pontas dos pés e ponho a mão em seu ombro. Seu rosto vira para se encontrar com o meu.
- Eu fiz algo errado Saiorse, preciso consertar.
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