What Is Your Sun Like?
3 Capítulo 3
-Mas de novo? — Kanon falou, mal-humorado, logo depois de abrir a porta e ver quem o visitava. — Eu já vou, Takuya, não dá pra esperar nem cinco minutos? — e com aquela frase, largou a porta aberta e voltou pro interior do quarto, provavelmente com a intenção de terminar de se arrumar.
-Não, dessa vez é diferente — foi a resposta do guitarrista. Vendo a porta aberta, adentrou o quarto também.
Era admirável que Kanon tivesse ao menos se trocado para ir. Em uma ocasião normal, nunca deixaria sua preciosa solidão para se juntar aos outros – e a Takuya, principalmente.
-Diferente? — perguntou, não exatamente com o que se poderia chamar de interesse; apenas por perguntar, mesmo. Sentou-se na cama que havia escolhido e voltou sua atenção para a tevê, que continuava ligada.
-É, Kanon — o outro disse. — Os meninos foram lá pro kiosque... conversar uma coisa que eu não posso ouvir — tinha ele próprio achado sua desculpa um verdadeiro lixo, mas Miku tinha dado alguma idéia? Não, solução ninguém dava; o que gostavam de dar era problemas para serem solucionados... e o pobre Takuya que se virasse. Assim sendo, tentou ser menos autocrítico, ao menos daquela vez.
-Uma coisa que você não pode ouvir? — o baixista sorriu. Adorava quando os outros integrantes excluíam o novo; em sua cabeça, talvez fosse bem merecido.
-É. Então, eu achei que talvez pudesse ficar aqui com você — o ruivo deu de ombros, e abriu um sorriso simpático. O sorriso que costumava abrir quando via esperanças de se aproximar do outro. Mas Kanon, pelo visto, não havia gostado da idéia. — Posso...?
A resposta foi instantânea:
-Na verdade, Takuya, eu já estava de saída — levantou-se da cama. — Você não vai se incomodar de ficar aqui sozinho, vai? Já deve ter se acostumado — acrescentou, em tom mais baixo, como se estivesse falando consigo próprio. Mais dois passos e já estava em frente à porta, pronto pra encostar na maçaneta.
O outro sentiu o estômago embrulhando; sabia que não conseguiria voltar a falar com Kanon antes da noite chegar se ele saísse por aquela porta sem companhia. E como poderia atender ao pedido de Miku — e ao seu próprio — se não existiriam mais oportunidades de ficar a sós com ele? Entrou em pânico. Precisava pensar em algo rápido, um motivo bem convincente que fizesse o outro permanecer no chalé.
-Kanon, não é por nada... — arriscou, com a voz presa na garganta. — Mas acho que você também não pode ouvir.
Sim, havia dado certo: Kanon não voltou a aproximar o corpo da saída. O problema agora era outro; o mesmo olhava-o incrédulo.
-Eu o quê? — perguntou, estreitando os olhos.
-Você... — agora, o guitarrista se sentia menos seguro de suas palavras. Desviou o olhar, fitou apenas a parede mais próxima. — ... não pode ir?...
-Não posso ir — ao fim daquelas palavras Kanon já se encontrava impaciente. — Isso é ridículo, eles sempre me chamam pra tudo. Por que não chamariam dessa vez?
Foi só então que Takuya teve uma idéia. Uma idéia bem interessante; quem sabe, brilhante. A resposta não poderia ter sido mais inteligente:
-Talvez eles estejam falando de uma coisa que precisam esconder de mim e de você.
-Como...?
-Alguma coisa importante pra você, Kanon. Não tem nada que seja importante pra você? Alguma coisa que eles precisem manter em segredo, e que me envolva?
Não demorou nada, Kanon pensou exatamente no que Takuya queria que pensasse: Bou. Era a única coisa que o interessava tanto, e que envolvia o novato. Sim, sim, o assunto só podia ser Bou. Se desse sorte, a volta de Bou. Fazia sentido; esconderiam dele, Kanon, para fazer uma surpresa, e de Takuya para que ele não se magoasse. De repente, o moreno sentiu uma vontade incrível de respeitar a privacidade dos amigos: se precisavam ficar sozinhos para chegar à conclusão de que o ex-integrante era muito melhor do que aquele novo, desajeitado, que ficassem. Sentiu, na hora, até uma ponta de pena pelo que seria substituído. Uma ponta de pena que logo passou, quando se lembrou de que Takuya talvez ainda não tivesse pensado em tudo aquilo, e que ele ainda teria de ser duro para mostrar que o outro não significava absolutamente nada.
Voltou ao sorriso:
-Quer dizer que eles querem ficar sozinhos? Ótimo. Eu vou conhecer o hotel, sim? Você pode ficar aqui no quarto.
Indescritível mesmo foi o alívio que Takuya sentiu, ao saber que Kanon não iria atrás dos outros. Mas sua vontade ainda não havia sido concluída.
-Kanon...?
-Sim?
Sentiu o rosto corar quando se deu conta do pedido que estava para fazer:
-Você...se incomodaria se eu fosse junto?...
Kanon virou-se novamente para ele. Recusar um pedido daqueles não seria fácil.
-Bom, eu queria ficar sozi--
-Por favor, Kanon-senpai?
Foi inevitável sorrir depois de ser tratado daquela forma. O sufixo \"senpai\" costumava ser usado quando uma pessoa queria tratar um superior com respeito. E pensar que ele, Kanon, era superior... ah, não era nada mal. Além do mais, o guitarrista estava admitindo que era um sem-experiência, um aprendiz; admitindo que os que estavam lá a mais tempo eram veteranos. Àquilo, o moreno não teve como dizer não.
Em menos de dez minutos eles já haviam saído, e agora andavam pelos caminhos do hotel sem rumo. Takuya já imaginava que bem seria capaz de se perder, mas caso aquilo acontecesse, teria logo como agradar o outro: não esquecera de meter a mão na mochila de Miku, e pegar algumas balas de leite das que o baixista tanto gostava. Sua intenção principal era chegar a uma quadra; não importava qual, só de ter um \"pra onde seguir\", já se sentia melhor. O resto seria na base do improviso...e da sorte. Mas, pelo jeito, aquele não era um de seus melhores dias. Não importava o quanto tentasse, não conseguia arrancar uma palavra sequer do outro; o máximo em que havia chegado era ouvir um (afirmação), ou dois (negação) gemidos como resposta. Quando resolveu fazer perguntas mais complexas, ficou no completo silêncio; Kanon estava ignorando-o de novo.
Para seu primeiro sinal de que ninguém no céu o odiava, conseguiu achar uma pequena quadra livre: a de beisebol. Também, não hesitou. Logo ele e um Kanon mal-humorado estavam lá. Ainda teve ânimo o suficiente para encontrar a bola, e mostrá-la ao outro com um entusiasmo quase contagiante.
-Você joga? — perguntou, sorrindo.
A resposta foi um sinal negativo com a cabeça, enquanto o moreno se sentava em um dos bancos de madeira que ficavam nas laterais daquele mini-campo. Mesmo assim, Takuya não se deu por vencido; ainda com a bola na mão, chamou o outro:
-Não pode ser assim tão difícil — riu, e lançou a bola para que ele pegasse.
Correndo o risco de levar uma bolada na cabeça, Kanon viu a bola se aproximando e pegou de primeira, com uma só mão; sinal de que ele jogava, sim. O que foi realmente devastador para o outro: o baixista havia mentido, simplesmente por não querer jogar com ele. Suspirou, frustrado com o próprio fracasso, e se aproximou do mesmo banco de madeira.
-Não joga?
Kanon não respondeu. Apenas manteve o olhar baixo, como quem tem vergonha de assumir mentiras.
-Kanon-senpai... — Takuya começou, e sentou ao lado dele. Sabia que o moreno gostava de ser chamado daquela fora, então não hestitou em fazê-lo. — Você me acha um guitarrista ruim?
Kanon franziu a testa, pensando na resposta; não teria vergonha de dizer que sim, caso conviesse à situação... mas o caso era que não achava. Takuya podia ser um novato, um aprendiz, um pirralho perdido na turma... mas um mau guitarrista? Não, isso não. Depois de Bou sair da banda, vendo as várias e várias pessoas que haviam recorrido à banda para fazer o teste, os integrantes tiveram bem uma idéia do que era ouvir um guitarrista ruim. E Takuya não era, nem chegava perto. Na verdade, ele era excelente.
-Não, Takuya — foi a resposta. — Você não é ruim.
E só ela já fez com que o ruivo abrisse um sorriso; entretanto, antes que Kanon o percebesse, preferiu exterminá-lo. Não queria parecer esperançoso antes da hora, e ainda havia perguntas a serem feitas.
-Então você me acha... — riu, deu de ombros com vergonha da próxima. — Chato?
O baixista respondeu com um sinal negativo com a cabeça. Chato? Chato era ele próprio, Kanon. E sabia disso. Desprezando uma pessoa que... bem, que não tinha culpa. A verdade era que ele não tinha culpa de nada, o pobre Takuya.
O guitarrista deixou que o silêncio tomasse conta do ambiente antes de continuar.
-E você... Kanon... eu não vim até aqui pra substituir o Bou — e dizendo aquilo, tocou a mão do baixista, que o encarou assustado.
Seria possível que Takuya tivesse descoberto o por que dele tanto o desprezar? Ficou sem reação.
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