Em seu terceiro dia de convalescença, Charlô recebeu uma ligação inesperada.
– Charlô? É você?
– Sim, quem gostaria?
– Não sei se lembrará de mim, meu bem. Edward las Casas.
– Edward? Sério?
– Sim, minha querida Charlotte. Quanto tempo. Quantas saudades.
Charlô ficou em silêncio, lembrando. Edward foi um de seus mais notáveis namorados. Notável em tudo mesmo. Era bonito, culto, educado, e um excelente amante. Poucas vezes Charlô se sentiu tão amada, e tão satisfeita. Fisicamente, claro.
– Muitas saudades. Mas me diga, Edward, como foi que me encontrou?
– Bom, acabo de voltar de uma viagem ao exterior, passei por alguns lugares e lembrei-me de você; trouxe alguns souvenirs para te dar, meu bem. Então fui à loja, soube que há algum tempo você e o Otávio moram aqui, e como você não estava e nem tinha previsão de volta, resolvi te ligar.
– Estou muito feliz e lisonjeada com sua lembrança, Edward. Chegou em uma hora muito necessária.
– E por quê?
– Não estou me sentindo muito bem. Muito desvalorizada como mulher.
– Está brincando, Charlô? O mundo gira ao seu redor!
– Girava querido, girava. Quando eu era jovem
– Charlô, posso provar a você que é só alucinação sua.
– E como, querido?
– Aceita sair comigo no sábado? Um jantar, que tal?
Oh. Meu. Deus. Tudo o que Charlô conseguia pensar naquele momento.
– Mas já? Assim? Você mal chegou, mal me encontrou...
– Exatamente por isso, Charlô. Quero vê-la.
– Eu não sei... Sábado... Tudo bem. Vamos sim.
– Combinado. Eu cuido de tudo. Esteja preparada às oito.
– Nossa, tão tarde.
– Não para nós, minha querida Charlô.
Charlô olhava para a janela, tentando entender como é que ela poderia se envolver com alguém tão perfeitinho, tão aristocrático. Mas, do jeito que sua vida amorosa andava, não era para se recusar.
– Bom, hoje é quinta. Posso me preparar.

Charlô pegou o telefone e marcou todos os recursos que podia: esteticista, manicure, cabeleireira, tudo. Estaria impecável.
Na sexta-feira, Charlô saiu bem cedo para seu dia de beleza. Não antes sem dar de cara com Otávio.
– Ah, então a araponga resolveu sair da toca, hã?
– Bom dia para você também, meu querido primo Otávio.
– Sem essa de bom dia, não me entedie. Onde vai tão cedo?
– E desde quando lhe devo satisfações, biltre?
– Desde quando moramos na mesma casa e trabalhamos na mesma fábrica, além de dividirmos os recursos destas.
– Se é assim, pode ir contando onde você costuma ir toda noite como bigode preto.
– Que bigode, que bigode preto? Não tem bigode nenhum, sua maluca!
– Ah, agora eu sou louca? VÁ TE CATAR, BIMBINHO!
Charlô desceu para tomar seu café-da-manhã, encontrando com Felipe na mesa.
– Tão cedo de pé, mamãe? Estava preocupado.
– Tenho alguns compromissos, Pipinho.
– Não venha me dizer que marcou de sair com o Nando também?
– O Nando? Que Nando? O motorista? Pra quê?
– Olha, mamãe, sem querer ofendê-la com a idade, ms parece ser praxe por aqui sair com os funcionários mais jovens e bonitos, sabe?
– O que você quer dizer, Felipe?
– O tio Otávio fez isso. Convidou a Vânia para sair, jantar no iate! E deu de cara com Roberta Leone e Nando por lá! Consegue acreditar?
Charlô não conseguiu tomar o café. Encarou o filho como se ele fosse algum louco.
– Seu tio? Com a Vânia?
– Não só ela, mamãe, mas todas minhas ex-namoradas, pra ser mais abrangente.
Boquiaberta, Charlô saiu da mesa levando seu café.
– Mamãe, onde a senhora vai com essa xícara de café?
– Bebê-la, Pipinho, bebê-la.
Caminhou delicadamente pelos cômodos da casa, parando à primeira janela e contemplando o dia. A semana seria bem tensa.
– Não saiu ainda?
– Não tenho tempo para falar com você, Otávio.
– Ah não? E por que está aí, à toa, na janela?
– Pensando em como os homens podem ser cafajestes, Bimbinho. — O olhar dela perfurou-o.
– Você fala assim porque está é precisando de um, sua megera. Isso, rã, isso é falta.
– Nem tanta — ela disse sorrindo — vou sair no sábado com alguém.
– Ah é? Quem é o bêbado?
– Não te interessa. E com licença, tenho esteticista daqui a pouco.
– Esteticista para quê, Cumbuqueta? Você está VELHA! VELHA! E nada muda isso, nem mesmo milagre.
Charlô virou-se para ele, e perdendo o resto da compostura que com muito custo guardara, atirou o conteúdo da xícara no rosto do primo. O café ainda estava quente, o que o deixou ainda mais irritado.
–Pelo menos, Otávio, eu não preciso pintar nada ou sair com alguém mais novo para ser jovem. Sou aceita da forma que eu sou. Biltre. — e saiu andando, deixando um perplexo, zangado e sujo Otávio para trás.