*** Flashback on ***

Os dedos de Otávio percorriam sua pele suavemente, massageado-a em círculos. Cada toque deixava um rastro de brasa na pele já tão desacostumada aos carinhos de um homem. Ele não só a massageava, ele a tocava para nunca mais se esquecer de cada parte daquela pele. De olhos fechados, Charlô apenas tentava segurar os gemidos que brotavam de cada contato. Ela se setia desejada, ela sentia amada por aquele homem. Ela bem sabia que não deveria, pelo parentesco que os unis, mas desde a infância ela não pesava em outra coisa a não ser estar perto dele.

– Não acredito que isso não pode durar para sempre — Otávio disse à loira, deitada a seu lado.

– Nem eu, Otávio. Nem eu.

– Você precisa mesmo partir para a Europa? Assim, sozinha?

– Preciso, assim como você precisa partir para os EUA. Suas especializações não vão esperar, nem os nossos tios. — Charlô mudou sua posição, de forma a encarar diretamente o primo.

– Eu não quero ir. Mal acabei de entrar numa faculdade, não tenho a mínima necessidade de partir para o intercâmbio imediatamente. Tenho coisas mais importantes aqui — ele acarinhou o rosto que o encarava atentamente. Charlô fechou os olhos como resposta à ternura do toque, mas levantou-se e enrolou o lençol em volta de si, para ir embora.

– Nós precisamos ir, Otávio. Nós dois precisamos. — ela parou um pouco na soleira da porta, e com uma sombra de tristeza saiu do quarto.

*** Flashback off ***

Charlô abriu os olhos, um pouco atordoada e perdida sobre onde estava. A massagem havia acabado, e ela estava num momento de repouso. Ao lembrar disso, relaxou. Sentiu os olhos úmidos, o que demonstrava que o sonho tinha sido realmente sonhado, mais uma vez. Como em todos aqueles anos, a maior parte dos sonhos e devaneios fora de hora de Charlô eram Otávio, do passado deles, do futuro que eles poderiam ter tido. Ela se questionava sempre o porquê de tanto sofrimento. Ela não quis se casar, ela fugiu, isso era fato, mas qual o motivo de tudo ter caminhado daquela forma? Eles poderiam ter sido verdadeiramente tão felizes juntos, tão felizes...

Se ele tivesse começado por respeitar o tempo e o espaço dela, claro. Se os tios não houvessem interferido da maneira mais drástica e ele concordado. Ali Otávio assinava seu diploma de biltre, e parece que nunca largou a profissão.

– Não quis acordá-la antes, Charlô. Percebi o quão tensa e mentalmente cansada você estava.

– Também só percebi este cansaço todo agora. É complicado quando isso acontece, aos de trabalho sem paradas, de desafios. Uma hora a gente trava.

– Entrando nesse assunto, no telefone você me disse que tem um encontro no sábado. — A massoterapeuta mudou o assunto, tentado tornar a vida da cliente naquele momento menos pesada. — Logo acredito que precisará de um bom e completo serviço!

– Vou mesmo, Ludmilla, vou mesmo. Hidratação, depilação,manicure e pedicure, tudo o que você tiver ao alcance. Vamos ver quem é a velha.

***

Otávio acordou sobressaltado. Sonhara com mais um daqueles flashbacks de sua adolescência, com Charlô. Dessa vez, a primeira e única noite que tiveram juntos, um momento que ela parecia não mais lembrar, mas ele em momento nenhum conseguiu esquecer. As gotas de suor mostravam que ele precisaria de uma rápida ducha antes de voltar para a loja, e ao se levantar viu a porta do quarto de Charlô ainda fechada. Aonde ela teria ido, e não retornado ainda?

Olívia também não mais tinha dado as caras desde a manhã, naquele escarcéu que fizeram. Melhor assim, ele não queria saber de ninguém. Ou melhor, queria saber sim. Queria saber com que Charlô sairia no sábado, quem seria seu acompanhante. E ele giraria o mundo até descobrir.

Quase esqueceu-se do convite feito à Vânia para sair. E então teve uma ideia. Vânia poderia lhe ajudar a descobrir, isso ela poderia perguntar a Charlô sem problemas. E seria a primeira coisa que ele pediria a ela assim que colocasse os pés na loja.