A história do Gabriel é a mais difícil de todas.

Demorou semanas até ele finalmente contar o que tinha acontecido, como ele tinha ido parar na cidade dos perdidos e condenados.

Durante uma brincadeira entre nós quatro, tínhamos que beber um copo de alguma coisa com teor alcoólico a cada confissão, Gabriel foi quem bebeu mais, pois tinha conseguido algumas bebidas extras por ter sido o primeiro de nós a completar dezoito, na sua última confissão ele disse:

—Estou na cidade dos perdidos, pois descobri que não gosto de beijar meninas nem de tocar meninas, e então achei que meus pais levariam numa boa, e então eu contei numa manhã durante o café... então o meu pai, eu... nunca percebi o tamanho preconceito, tivemos uma briga gigante.

As primeiras lágrimas escaparam dos olhos de Gabriel, então eu saí e passei o dia fora, me encontrei com um outro garoto com quem eu estava saindo, e foi o primeiro beijo em que eu senti alguma coisa, então... eu voltei pra casa, achei que a poeira tinha baixado, mas não... meu pai começou a me bater e gritar e minha mãe não fazia nada então eu não queria machuca-lo , mas eu acabei fazendo e meio que quebrei o nariz dele, e depois de tudo minha mãe simplesmente disse “arrume suas coisas, você vai ficar na sua tia até que você se resolva” e ela disse isso como se eu estivesse doente, não me deu um abraço ou disse eu te amo, nem olhou nos meus olhos.

E então a brincadeira acabou, o silencio se estabeleceu e não foi nada constrangedor, nós precisamos do silencio.

Naquele dia, depois das palavras de Gabriel, Duda juntava as garrafas de bebida enquanto eu e Eduardo tentávamos dar banho em Gabriel que não parava de chorar.

—Procure algumas toalhas, Lua.

Pediu Eduardo enquanto, segurava Gabriel para não cair, nós tiramos suas roupas e colocamos ele na banheira enquanto enchia.

—Você só precisa de amor, Gabriel.

Disse enquanto beijava sua bochecha.

—Você só precisa de amor, Gabriel.

Repetiu Eduardo, enquanto beijava seus lábios.

...

Então a partir desse dia, éramos as relações que precisávamos ser.

Fiquei esperando na casa de Gabriel com minhas malas, enquanto o ônibus não chegava, ajudava ele a arrumar suas últimas coisas, dando risada das piores piadas possíveis.

E com muita sorte conseguimos assentos para três pessoas na frente, onde ninguém gostava de ficar, ou seja, os doces e piadas seriam apenas nossos, como sempre.

Durante a viagem, conversávamos sobre a saudade da Duda, momentos especiais e planos de como sobreviver aos dez dias, ou ficávamos enrolados um no outro apenas dormindo.

A pior parte para mim era a divisão de quarto, meninos com meninos e meninas com meninas, agora a minha outra parte mulher, Duda, tinha ido embora, ou seja, ia ter que dividir um quarto com outra garota que me desprezava, quanto eu a desprezava.