A noite, já ia animada quando a esguia e bela figura loira passou pela rua cheia de pessoas barulhentas e inconvenientes. Alguns gritavam qualquer coisa; outros simplesmente torciam o pescoço, mas a jovem mulher não lhes prestava a menor atenção. Caminhava com a postura perfeita, imponente e indiferente, na direção de um pequeno café, que também estava razoavelmente movimentado.

Foi com alívio que Sagitta Malfoy alcançou o abrigo morno e acolhedor, que receara não encontrar com tanta facilidade; era um ambiente completamente desconhecido e, por isso, dedicou-se a correr os olhos pelas paredes e assentos com bastante calma, apertando um pouco mais a nota que lhe trouxera até ali:

Vá para o Soho. A cafeteria de Great Marlborough.

Dez e meia. Não se atrase.

É urgente.

R.

Consultou o relógio de pulso para se certificar de que estava no horário, mas mal pôs os olhos nos ponteiros, identificou sua companhia, sentada em uma das mesas próximas da janela, utilizando um aparelho trouxa para se distrair. Os longos cabelos ruivos e encaracolados caíam todos de um lado, ocultando o rosto de Rose Weasley.

— Hey, you. — Anunciou-se a loira, e a outra ergueu os olhos, assustada, mas logo abriu um sorriso aliviado, erguendo-se para cumprimentá-la.

— Desculpe fazer você sair tão tarde…

— Não tem problema. — Sagie acomodou-se no assento defronte, curiosa e ligeiramente preocupada. Com toda a calma do mundo, a ruiva desligou seu celular e guardou-o na bolsa; a Malfoy observou, com orgulho, o belo diamante rosa que a garota ostentava na mão direita, e lembrou-se das inúmeras vezes que seu irmão quase lhe tirara do sério na busca pelo “anel perfeito”.

— Como você está? — A loira fitou os olhos azuis da amiga, e viu-se em uma daquelas raras ocasiões em que compreendia o que Scorpius dizia sobre ela: não conseguiu decifrá-la.

— Bem. No meio da Londres trouxa, mas bem. — Acrescentou, com uma risadinha, referindo-se ao fato de não ter o hábito de passear pelo Soho. — Mas você não me trouxe até aqui pra perguntar como eu estou.

— Não, não trouxe. — Rose sorriu fracamente, e Sagitta soube que ela estava ganhando tempo para si mesma. Pacientemente, aguardou, e percebeu, neste meio tempo, que o copo de café sobre a mesa estava frio. — Eu… precisei sair mais cedo do Ministério hoje.

— Por que?

— Não estava me sentindo bem.

Novamente, a ruiva se calou; em mais uma tentativa de ganhar tempo, passou a brincar com seu anel de noivado, nervosa.

— Não vai desistir e deixar meu irmão no altar, vai? — Brincou, embora houvesse uma certa preocupação real em sua voz.

— É, exatamente isso. Ia pedir pra me ajudar a fugir. — Riu a outra.

— Tudo bem, a gente vai de carro!

— De jeito nenhum! Quero ficar inteira!

A dupla riu por um instante, mergulhada nas lembranças de uma aventura não tão antiga. Mas Sagitta não se deixou distrair, e Rose logo parou de rir também. Para os trouxas ao redor, as duas não passavam de duas amigas conversando, mas somente elas sabiam por tudo que haviam passado para chegar até aquele ponto; toda aquela jornada havia forçado ambas a desenvolver certas habilidades e adquirir certos conhecimentos uma a respeito da outra. Em outros tempos, Sagitta teria simplesmente reclamado por estar perdendo seu precioso tempo, mas agora conhecia Rose, e sabia que somente algo realmente sério a perturbava daquela forma.

— Dá para acreditar que falta só um mês?

— Considerando todo o estresse pelo qual o Scorpius está me fazendo passar, fico muito feliz por só faltar um mês.

— Já disse pra ele te deixar em paz. — Informou Rose, parecendo aborrecida por ter sido ignorada, mas a outra apenas riu mais uma vez.

— Está nervosa?

— Sagie, você sabe que eu inventei a ansiedade, não é?

— É verdade, me esqueci. — A loira ergueu uma das mãos para acentuar as desculpas, mas ainda estava tentando entender o ponto daquela conversa.

Mas uma pausa. Tanto Rose quanto Sagitta odiavam pausas. O mundo continuava a girar durante aquele silêncio, era tudo perda de tempo! A ruiva respirou profundamente e encarou a mesa antes de prosseguir:

— Eu acabei de sair do consultório. Eu… Bom, é que… — Rose enrolou-se nas palavras; irritada consigo mesma, disparou: — Eu estou grávida.

— QUÊ?! — Exclamou Sagie, e algumas pessoas próximas se viraram para olhar; Rose expirou todo o ar de uma só vez, parecendo aliviada e confusa por ter dito aquelas palavras em voz alta. — Ah, meu Deus!

A loira ergueu-se imediatamente e puxou a amiga para um abraço, o qual Rose retribuiu sem entender muito bem o que estava acontecendo.

— Ah, eu vou ser titia! Titia Sagie! — Exclamou ela, com um enorme sorriso nos lábios e os olhos verdes cintilando ao se acomodar novamente eu seu lugar, inquieta. — Parabéns, Rosie!

— Eu estou em choque. — Riu a ruiva, nervosa, correndo uma das mãos pálidas pelos cabelos vermelhos, mas parecendo feliz. — Quer dizer, parece que foi ontem que nos formamos, e há uns meses atrás eu estava em expedição com os Scamander, já estávamos planejando outra para o começo do inverno…

— A senhora não vai a lugar algum, Rose Malfoy! — Repreendeu Sagie, usando automaticamente o sobrenome de sua família, ainda extasiada. — Vai ficar bem aqui e ser mimada ao melhor estilo da minha família! Eu insisto!

— Com certeza é bem melhor do que o estilo Weasley. Meu pai ainda faz drama com esse casamento.

— Mas isso é diferente! Ele vai ser vovô!

— Vovô de um Malfoy. — Rose riu gostosamente por um instante. — Eu me esforcei tanto para agradá-lo e terminei assim.

— Ele vai superar. — Sagie fez um gesto de dispensa com a mão, embora ainda estivesse bastante animada.

— Mas e a minha pesquisa? — Ali estava. Sagie soube no instante em que ouviu aquela simples combinação de palavras: o ponto daquela conversa. — Scorpius ainda está para tirar a licença de Curandeiro, e eu tinha viagens marcadas para os próximos três anos! Como posso ser uma magizoologista de dentro de casa?

— Uau, nem parece a garota que passava dezoito horas por dia enfiada na biblioteca de Hogwarts. — Rose riu, pois reconhecia a ironia que era ter escolhido uma carreira que exigia viagens constantes após passar tantos anos enfiada entre as estantes abafadas da biblioteca escolar.

— Acho que somos um pouco jovens demais para isso. — Insistiu a ruiva. — É uma criança, não um gato! Vai mudar todos os nossos planos…

— Scorpius com certeza já será certificado quando o bebê nascer, está bem avançado no curso. E não é como se você fosse passar por isso sozinha, né?! — A garota pareceu ligeiramente ofendida.

— Mas e a minha pesquisa? — Repetiu Rose, parecendo ligeiramente alarmada por não ter recebido uma resposta da primeira vez.

— Lorcan e Lysander podem te manter informada através de cartas.

— Não é a mesma coisa.

— Vai ter bastante tempo para viajar depois!

Rose se calou, um sorriso fraco nos lábios. Ainda possuía inúmeras dúvidas e questionamentos, e uma parte dela queria resolvê-las ainda naquela noite. Mas a outra parte… Ah, a outra parte estava simplesmente radiante!

— Só um minuto… — Sagitta deixou de lado sua pequena festa interior e franziu a testa. — Então o Scorpius ainda não sabe que vai ser pai?

— Não. Eu vim pra cá assim que saí da consulta.

— Ele vai detestar quando descobrir que eu soube primeiro. — Comentou a loira, cheia de si, mas uma nova dúvida lhe tomou a cabeça. — Mas… por que me contar?

Rose deu de ombros.

— Não tinha com quem falar sobre isso.

Era mentira. Uma enorme e descarada mentira, as duas sabiam muito bem disso: além de Scorpius, havia Ron, Hermione e Hugo, que com certeza daria pulos de felicidade com a notícia; James e Fred, que iniciariam uma disputa imediata pelo favoritismo da criança; Dominique, de quem a ruiva sempre fora muito próxima, e que com certeza voltaria correndo (literalmente) da França por conta da novidade; havia Teddy, Victoire, os avós Weasley e os Granger, Molly, Roxanne... em resumo, havia apenas uma família inteira com a qual Rose poderia conversar sobre aquilo…

Mas ela havia escolhido Sagie.

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