We're All Heroes
3 Uma intrometida alucinando sem memória
Notas iniciais
JULIE
Mordi o lábio, encarando o tapete marrom escuro aos meus pés. Aquilo não estava nada bem. Ah, por que eu sempre ficava no meio dos problemas familiares das pessoas, como uma intrometida? Olhei para Hugo, que estava paralisado, talvez assustado ou triste, de qualquer forma, meu coração apertou ao vê-lo assim. O sr. e a sra. Weasley encontravam-se parados em frente a nós dois, ambos agitados.
Hermione mexia os dedos e andava de um lado para o outro, totalmente pálida. Já Ronald, estava imóvel, fitando o filho. Havia alguma coisa errada naquela cena. Eu.
Obviamente, eu não deveria estar ali. Mas eu me sinto completamente autorizada a dizer que a culpa é toda de Hugo, completamente dele. Foi um Hugo alterado que bateu em minha porta, pedindo ajuda, não eu. Foi ele que me arrastou até ali, aquela sala silenciosa demais, não eu. E por causa de meu não-tão-melhor-amigo eu fui jogada no meio de uma guerra familiar.
– Sua irmã deve ter dito algo a você – a voz de Ronald era severa, como uma raiva contida. Hugo encolheu-se, e por um momento quase pensei que ele realmente soubesse algo sobre o paradeiro de Rose. Comprimi os lábios, afastando o pensamento. Não, ele me diria, Hugo é meu melhor amigo, ele me conta tudo, porque não diria algo tão importante?
– Não, pai. Se eu soubesse, te diria.
– Por Merlin, Hugo! Não é possível que sua irmã adolescente não tenha contado nada sobre fugir de casa – era a vez de Hermione fitar Hugo severamente, e tive de resistir ao impulso de abraçá-lo, para reconfortá-lo, protegê-lo de todos aqueles olhares. Eu não faria isso, é claro, porque ele poderia pensar coisas tolas, como eu estar apaixonada por ele desde os dez anos de idade o que definitivamente é uma coisa tola de se pensar, imagina só...
– Como você sabe que ela fugiu de casa? – alguém falou. Olhei em volta e percebi que essas palavras haviam saltado de minha boca sem eu nem ao menos perceber. Resisti ao impulso de bater minha cabeça na parede como uma louca. Meus pensamentos agitados estavam me deixando nervosa, e isso sempre fazia com que eu falasse coisas que não deveria. Agora Hermione, Ronald e Hugo me fitam esperando que eu explique a minha ridícula objeção. É tarde demais para controlar meu freio. Então, solto tudo de uma vez. – Bem, talvez, vocês sabem... Ela pode não ter fugido. Ela pode ter sido sequestrada ou...
Fui interrompida por um grunhido de horror que veio de Hermione, que claramente não havia pensado nisso. Isso na verdade é esquisito... Hermione Weasley não ter pensado em tudo realmente é algo grave.
Ah, mas que ótimo. Agora, além de discordar dos furiosos sr. e sra. Weasley, ainda joguei no colo deles uma hipótese bem mais horrorosa sobre o paradeiro da filha deles. Eu realmente queria bater minha cabeça na parede.
– Hermione vou mandar uma carta para Harry. Conversaremos sobre isso.
Antes que pergunte, sim, é realmente o Harry Potter. E embora eu já o tenha visto várias vezes, guardo uma admiração por ele desde o momento que soube de seus feitos. Sempre que tocam no nome dele fico instantaneamente empolgada. Mas não hoje.
– Julie, eu acho que você deve ir para sua casa – sra. Weasley disse gentilmente. Era incrível como as mães mudavam de humor tão facilmente de pessoa para pessoa Assenti com veemência. Tudo o que eu mais queria era ir para casa. Hermione olhou para Hugo e novamente adquiriu aquele ar gelado – E quanto a você, Hugo, vá para o seu quarto.
– Mãe eu não quero...
– Hugo – sibilou – Vá para seu quarto, eu, seu pai e Harry iremos ter uma conversa de adultos. Vá.
– Mãe! – Hugo exclamou, talvez alto demais. Ele parecia irritado e ofendido quando se levantou e acabou ficando mais alto que a mãe – Entenda! Eu não sou mais criança. Posso muito bem ouvir o que vocês vão falar. Sou um adulto, então me tratem como um! Vocês me tratam como se eu tivesse três anos de idade porque não conseguem admitir que seus filhos cresceram! Rose pode não estar perdida, e sim com alguns trouxas num bar qualquer porque ela é maior de idade! Você não percebe que...
– Hugo. Fica quieto. – interrompi-o porque ele estava estragando tudo. O modo como ele falava e suas palavras estavam enfurecendo seus pais. Se ele continuasse, provavelmente ele provocaria a Terceira Guerra Mundial entre sua família e não iria gostar. Acredite, sei do que estou falando. Além do mais, ele não era um adulto. Ele poderia ter dezessete anos, mas ele era uma criança. Ele fora muito insensível dizendo aquilo sobre Rose. Foi um apelo, já que ela jamais entraria num bar trouxa apenas para se divertir. Ela poderia estar realmente perdida já que não voltava para casa por dois dias.
Hermione fitou o filho, como se pensasse que tortura usaria nele.
– Você deve ir para casa agora, querida. – disse, sem desviar o olhar do filho – Venha, Hugo, vamos ter uma conversa de adulto. Vamos ver se você gosta.
JÚLIA
Meu rosto deveria estar marcado com a costura do estojo em que fiquei deitada por quarenta longos minutos. Agora, com cinco minutos faltando para a aula acabar, eu estava quase saltando da carteira para a liberdade. Ah, como eu odeio a escola.
As primeiras aulas da semana eram, em particular, as mais entediantes. Você não conhece ninguém e os professores só ficam falando sobre o modo de ensino deles. Você vai para a escola exatamente para fazer nada a não ser olhar para a cara daqueles professores esquisitos. A de agora, realmente era esquisita. Quero dizer, ela era uma legítima professora, com olhar severo e vocabulário perfeito. Mas havia algo de estranho nela. Não sei o que era, simplesmente achei-a estranhíssima.
Virei para o lado, procurando o olhar de Gabi mas, para variar, ela estava desenhando com aquelas mil canetinhas que ela guardava no estojo. Suspirei, frustrada e disfarçadamente olhei para trás, tentando encontrar o olhar de Isa, mas ela também parecia ocupada enquanto mexia no celular sob a mesa. Aquelas meninas, Giu e Mafê também não pareciam muito interessadas em trocar bilhetinhos comigo. E Juliana nem ao menos era de nossa classe. Só restou-me abaixar a cabeça sobre o estojo novamente.
Um barulho veio do corredor, mas ninguém pareceu notar. Olhei em volta, o barulho se aproximando, e percebi que Mafê também tinha ouvido. Sim! Eu não estava louca! Ela estava com o olhar fixo na parede, sua cabeça levantada. O barulho parecia-se com um misto de rosnados e choques de corpos contra o chão, como um cachorro louco barulhento. Tudo bem, talvez essa não fosse a melhor comparação. Quando o barulho ficou extremamente alto, como se o seu causador estivesse bem na nossa porta, a professora franziu o cenho para a porta, como se fosse ela que estivesse rosnando daquele jeito. Os outros alunos obviamente também notaram, e olharam em volta, confusos.
Então, algo estranho aconteceu.
A parede simplesmente desapareceu, cobrindo-nos com pó branco. Ou foi isso que achei que acontecera. Na verdade, ela havia sido arrancada. Arrancada. Como? Bem, aí é que entra o causador do barulho.
Era algo gigante. Parecia-se com uma serpente, mas era algo bizarro demais para ser uma serpente. Aquilo era completamente anormal, estou ficando louca. Olhei para meus colegas, e todos eles olhavam para aquilo como se fosse um incômodo, e não algo sobrenatural. É isso, estou louca, alucinando, preciso ir para a enfermaria, fugir dessa escola, não voltar mais. Vou fazer tratamento, vou...
Mafê passou por mim correndo, pulou os pedaços de cimento que estavam espalhados pelo chão e derrapou, parando em frente à criatura. Segui-a, porque se eu estava louca, ela também estava. De qualquer forma, a professora tinha sumido mesmo.
Espera.
Eu estou mesmo alucinando. A professora não poderia simplesmente ter saído sem ninguém perceber. Tudo bem, isso não é hora para pensar, esqueça a razão e entre nessa loucura, Júlia.
Percebi que Gabi, Isa e Giu estavam atrás de mim. Será que elas estavam vendo o mesmo que eu?
– ANFISBENA! – alguém gritou, e percebi que Juliana estava ali, ao lado da criatura, suja e sangrando, ela fazia gestos desesperados direcionados à Mafê, que estava olhando para o monstro como se ele fosse a coisa mais incrível que ela já vira. Eu obviamente devo discordar. – MAFÊ, ACORDA! É ELA, É A...
Juliana foi interrompida pela outra cabeça da serpente atacando-a. É, acho que esqueci de mencionar. A serpente tinha uma cabeça de cada lado de seu corpo. Falei, bizarro.
Vi algo menor que a serpente vir em minha direção. Era como se fosse um javali gigante. Dei um berro, porque nenhuma alucinação poderia ser tão real assim.
– MENINAS, PEGUEM! – Juliana ainda gritando, jogou na direção de Gabi, Giu, Isa e eu uma porção de lâminas reluzentes que pareciam-se com adagas ou espadas. Eu não estou entendendo absolutamente nada. Mesmo assim, peguei a que estava mais perto de mim. Era mais pesada que pensei, mas serviu. Eu precisava me defender daquele porco, que chegava mais perto de mim à cada instante. Antes de atacá-lo, ainda tive tempo de ouvir Gabi gritando.
– ISSO VAI SER MUITO DIVERTIDO!
Como ela estava errada.
MAFÊ
Estava dentro de uma cabana de algo que pareciam lençóis, o chão era de terra batida. Um pedaço de tecido branco manchado encontrava-se jogado no canto da cabana e, ao seu lado uma garota estava sentada, sentindo uma onda de náusea abater-se nela, forçando-a a se sentar.
Passou a mão na testa, exausta sem saber o porquê. Ao trazer a mão de volta ao alcance de seu olhar, notou que estavam sujas de sangue.
O sangue era seu.
Fechou os olhos com força, tentando desesperadamente se manter consciente.
Uma velha senhora entrou na cabana, deixando um pequeno rastro sol que vinha de fora entrar, mas essa pequena parte da cabana iluminada pelo sol, essa pequena esperança que acendeu-se na menina foi logo substituída pelas sombras da cabana. A senhora olhou para a garota.
Seus olhos eram dourados.
Os olhos da criatura eram exatamente iguais aos da senhora. Exatamente iguais.
Eu era a menina, sei disso. Tenho que ser. Mas não sei. Talvez não, talvez esteja iludindo-me, dando a mim mesma falsas esperanças, como o rastro de sol na cabana escura. Não é como se fosse uma das piores sensações, de qualquer modo.
Nos últimos dias, não sei de mais nada. Não sei quem sou eu. Quem são meus amigos ou inimigos.
Tudo o que sei é que certo dia acordei numa espécie de abrigo para crianças órfãs, diagnosticada com amnésia, e simplesmente fui jogada nesse colégio. Nada me é familiar. Nada me ajuda a lembrar minha antiga vida.
No abrigo, sou tratada como se tivesse nascido lá. Como se conhecesse todos os adolescentes que vivem lá, como se, em um lindo dia eu fora tomar banho e batera a cabeça na banheira, ficando com amnésia. Mesmo sendo uma garota vazia e sem memória, não acredito nem um pouco nessa história.
Às vezes, tenho alguns flashes de memória, lembranças sem começo nem fim, pedaços de quebra cabeças destruídos que não fazem o menor sentido para mim. Pelo menos, posso sentir que, na verdade, eu posso recuperar a memória.
Mas isso é só no exato momento em que tenho a lembrança, porque logo depois, esqueço-a, como um sonho. Ela simplesmente evapora, deixa de existir, e volto a ser vazia, sem saber o que fazer com estes flashes inúteis que nunca ficam para ajudar-me a reconstruir meu quebra cabeça. Elas se vão, junto com a esperança.
É isso o que está acontecendo agora. Esse flash de memória, essa pequena fresta de luz em minha mente está sumindo. Indo embora, voando para longe de mim, sem nem ao menos ficar tempo o suficiente para que eu assimile o que aconteceu, o que eu vi, o que essa lembrança poderia servir na minha vida confusa de agora. Mas agora ela está longe. Consigo lembrar-me de algo sobre uma velha, uma garota eu não...
Não me lembro. Eu. Não. Me. Lembro. Sinto vontade de gritar. Chorar. Espernear, até que a lembrança volte e eu consiga saber o porquê de eu estar parada em frente de uma serpente sinistra feito uma retardada.
Os sons, que antes estavam distantes, como num sonho, voltaram e percebi que estava no meio de uma batalha. Havia algo pesado em minha mão. Uma espada de prata. Domi. Espera, o quê?
– CUIDADO! – uma voz familiar gritou e avistei Juliana correndo e esfaqueando o monstro nos pés, o que só pareceu irritá-lo, fazendo-o tentar abocanhá-la com seus caninos nada bonitos. Juliana. Ah, sim. Ela era a única coisa que me pareceu familiar desde o momento em que fui parar naquele abrigo. Bem, talvez a segunda única coisa. A primeira eram... os livros. Livros em grego que achei debaixo de meu colchão no dormitório. Lê-los me trazia uma sensação maravilhosa de reconhecimento.
Tudo bem, meus pensamentos estão me distraindo, enquanto as pessoas ao meu redor lutam com monstros. Sou uma inútil mesmo.
Um raio de luz verde atravessou a sala e a serpente se desfez, como um castelo de areia destruído pelo vento. Fico boquiaberta, mas não por muito tempo.
Uma criatura estava vindo até mim. Sua cauda era como a de um escorpião, e reconheci-o. Era um manticore.
Espera um pouco.
Como eu sei disso?
Não havia tempo para pensar, porque ele estava perto demais, então segurei a espada e esperei o momento certo para atacar, horrorizada. Não pelos monstros, não pelo fato de que em segundos tentarei matar um ser vivo como eu. A minha descoberta é muito mais assustadora.
Isso me é familiar.
HUGO
Desviei-me de um arbusto, tentando fazer o mínimo de barulho possível ao andar pela grama alta. Sem sucesso, é claro. Minha mochila pesada e minhas botas de sola grossa não ajudavam nem um pouco na matéria de não fazer barulho. Parei em frente à casa de Julie, olhando para cima. Seu quarto ficava no segundo andar, o que me obrigava a chamar a atenção dela à distância. E a única maneira que eu conhecia era jogar uma pedra.
Ria. Sim, clichê, mas não é como se fôssemos namorados saindo escondidos ou algo assim. Ela minha amiga, e preciso de sua ajuda. Só isso.
Peguei uma pedra do chão e joguei, torcendo para que não fizesse barulho demais ou quebrasse a janela. Ou os dois.
Eu sei que eu poderia simplesmente aparatar para seu quarto, mas não queria assustá-la e fazê-la acordar aos gritos, acordando a casa toda e arruinando meus planos. Então seus pais me levariam de volta para casa, onde eu seria castigado até ano que vem, quando eu atingiria a maioridade. Não queria mais problemas com meus pais. Ainda me lembro bem da conversa de adulto que minha mãe me fez ouvir. Estremeci.
O choque da pedra contra o vidro resultou-se em um barulho suficientemente alto para acordar a casa toda, mas pelo menos não quebrei a janela. Fiquei paralisado, esperando os gritos mal humorados da família de Julie. Nada aconteceu.
Será que nem ela ouvira a pedra? Eu iria ficar lá, esperando feito um idiota minha amiga preguiçosa e surda às duas horas da manhã, tremendo de frio?
Para meu alívio, a janela se abriu e uma Julie descabelada colocou a cabeça para fora, procurando o causador daquilo. Ela estava linda, mesmo com os cabelos embaraçados. Seus olhos brilhavam de curiosidade e ela estava levemente corada. Eu poderia ficar a noite inteira só olhando para ela, e tudo ia ficar bem.
Tudo bem, Hugo, chega de pensar besteiras, concentre-se.
Acenei para ela e aparatei para seu quarto.
Seu edredom estava amassado num canto da cama, e ela sentou no outro, fazendo-me uma pergunta silenciosa com o olhar. O que é que eu estava fazendo ali. Sorri.
– Bem, vim te buscar – sussurrei – vamos procurar minha irmã.
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