Welcome to the show
8 Parte 8 - Culpa, saudades, amor e outras drogas
Notas iniciais
Neon
Andar por um corredor subterrâneo nunca foi tão divertido e confuso. Era como um jogo de sentidos. Com quase mil metros em linha reta, e milhares de salas e laboratórios, tinha a ligeira sensação de estar em um túnel de neons.
Arcos iluminados em azul florescente faziam o contorno do corredor, criando um clima futurístico. As paredes negras eram iluminadas por faixas de neon em um esquema de cores curioso. Era como se cada cômodo fosse um ambiente diferente e independente.
– Surpresa?
Encarei Celestia. Era como se aquele ambiente lhe fosse muito familiar, como se tivesse sido feita para aquilo. As luzes faziam seus olhos verdes – e seu cabelo também – ganharem um novo brilho.
– Meu pai... Realmente... Ele realmente fez tudo isso? – Falei mais para mim mesma do que para ela.
– Isso e muito mais... – Ela riu de leve, mas sua expressão logo voltou ao tom preocupado de antes.
Ainda estava usando um tipo de roupão de hospital. Era incrível como me sentia nova em folha, como se nada tivesse acontecido. No meu pulso, o bracelete continuava com um brilho vívido.
Olhei em volta. O corredor estava levemente tumultuado. Não era difícil esbarrar em alguém de jaleco. De algum modo isso me perturbava, todos pareciam depressivos e agitados.
Celestia parou de andar subitamente, parando em frente a um elevador de vidro. E foi assim que terminamos em um tipo de sala de planejamento, onde milhares de telas mostravam filmagens ao vivo das ruas de Gaterpillar, uma inclusive da minha rua. A sala estava incrivelmente bagunçada e aparentemente vazia.
– Chegamos. – Ela disse em um tom rápido, com uma expressão que não conseguia definir.
– Celestia? – Uma voz vinda de trás de uma cadeira soou ríspida.
Apertei os olhos tentando ver quem estava do outro lado. A luz na sala era fraca, em neon vermelho, o que dificultava a visão. Mesmo assim podia ver um tipo de culpa no rosto dela.
– Eu...
Ela começou a falar, mas se calou quando a cadeira se virou, revelando a nossa companhia. Senti um aperto incomum no peito. Meus olhos se arregalaram. Por um breve segundo, desejei poder não ver aquela cena nunca mais.
Ele estava horrível. As mesmas roupas, mas dessa vez amassadas e desarrumadas. Os fios de cabelo loiro caíam nos olhos quase tapando a vermelhidão e o inchaço. Ele estava atônito. Em seu rosto, uma expressão vazia fitava o chão. Do lado da cadeira, uma cartola repousava suja de sangue.
Culpa, saudades, amor e outras drogas
– S-Sebastian?
Ele não me olhou. Sentia o clima piorar cada vez mais na sala. Enquanto tentava entender o que acontecia, ele esticou o braço para pegar uma garrafa quase vazia de alguma bebida.
– O que ela faz aqui? – Ele perguntou enfim.
– Arya vai passar a ficar aqui, preciso que nos ajude.
– Celestia, leve essa criança para casa. Eu não tenho tempo para isso... – Ele falou sem me encarar.
A expressão dela mudou, como uma revolta contida.
– Precisamos dela, Sebastian! – Ela falou sem levantar o tom de voz, mas de um modo forte – Você é o nosso comandante, precisa nos ajudar.
Ele começou a rir. Não de um jeito divertido ou engraçado, mas de modo sádico, o que me assustou.
– Se ela é útil ou não, isso cabe a você decidir. Esse não é o meu trabalho, cuidar de filhinhas de papai que deram sorte de sobreviver.
Ele levantou e andou na minha direção. Estava mancando por algum motivo. Senti ele se aproximar o suficiente para sentir o forte cheiro de bebida e sangue. Só então notei seus punhos feridos.
– Você acha que é especial? – Ele perguntou praticamente encostando a testa na minha – Então faça merecer.
Ainda sem entender, me vi sendo arrastada para fora da sala junto com Celestia.
– Faça o que precisar com ela, porque para mim, ela simplesmente podia não existir.
A porta se fechou atrás de mim. As palavras secas de Sebastian ainda ecoavam na minha cabeça. Sem pensar, comecei a apertar os dedos nervosamente.
– Ele não era assim. – Celestia desabafou ao meu lado.
Olhei em seus olhos. Talvez ela saiba o porquê de tudo isso. Parei para pensar por alguns segundos, quando um pensamento me veio à cabeça.
– Celestia... – Fiz uma pausa – Helena e Sebastian...
– Eram um casal. – Ela completou a frase deixando as palavras soltas no ar.
Talvez fosse só confusão minha, mas de algum modo, as palavras de Sebastian me doíam mais do que esperava.
Fale com o autor