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22 Pulei a parte de acreditar nos arco íris e nos contos de fadas!
Notas iniciais
Dia Seguinte...
Eu dormi muito mal, não podia esperar outra coisa depois de tudo que aconteceu ontem. Pude ver o momento que amanheceu, o dia estava chuvoso. Não senti vontade de me levantar, aquele dia eu não queria nada além de fechar os olhos e ficar ali para sempre, mas, a vida não para, não podemos fugir dos problemas, ou os enfrentamos ou eles nós enfrenta, sinceramente, não sei qual é pior.
Levantei-me e me arrumei, vesti um corpete com uma jaqueta preta por cima, um short meio rasgado, acompanhado de uma meia calça condigno ao frio, e para finalizar, coloquei uma bota e o máximo de maquiagem que consegui, não queria que percebessem meu rosto abatido, devido as minhas lágrimas sórdidas e uma péssima noite de sono. Eu tinha que descer e encarar tudo isso, respirei fundo, e então, apenas fui.
— Bom dia, meu bem! — Minha mãe cumprimentou assim que me viu entrar na cozinha.
— Olá. — retruquei.
— Você não parece estar bem — Ela comentou, nesse momento fiquei com medo de não ter passado maquiagem o suficiente — O seu olhar, você parece estar triste por algo. — Respirei fundo, eram apenas essas babaquices que todos dizem, “mães sempre sabem quando os filhos estão mal e blá blá”, eu não preciso me preocupar.
— Estou ótima. — Avisei, dando pouca importância para aquela conversa.
— Tem certeza? — Ela perguntou e tentou se aproximar.
— Tudo está igual, eu não vou mudar! — Nem mesmo entendi por que eu disse isso, particularmente, hoje não é meu melhor dia. Eu sinto mais que nunca que preciso deixar claro que ainda sou América Collins, a mesma marenta que todos sempre têm medo de se aproximar, essa é quem sempre fui, me apavora que esteja em questão alguém me ver de outra forma.
— Ninguém quer que você mude, filha. Eu amo você exatamente assim. -Esforcei-me o máximo que pude para não revirar os olhos. Essa frase, "eu te amo", me irrita mais do que qualquer coisa.
— Melhor mesmo, você poderia avisar para todos então que nada mudou? — Pedi e ela me olhou como se não tivesse entendido, então apenas peguei uma maçã e andei em direção à porta, com o intuito de sair, eu estava andando tão rápido que nem percebi que Vitor estava entrando ali, então acabamos tropeçando, nos encaramos e, por um segundo, passou pela minha cabeça tudo que aconteceu ontem, mas não foi por muito tempo, logo eu me manifestei:
—Bem vindo ao inferno, De La Riva! — Engoli seco e o empurrei para o lado de forma mais agressiva que o necessário, em seguida, apenas sai.
Fui até o pátio da casa, não costumava ir ali tanto, por algum motivo que desconheço. Quando cheguei, meus olhos foram direito para a fonte de água, no jardim também tinha algo bem parecido, não entendo por que duas em só uma casa, mas, não posso negar que ambas são maravilhosas.
— O que faz aqui, garota? — Meredith, minha "tia" louca, disse repentinamente, assustando-me, já que eu nem sabia que ela estava ali, afinal, ela nunca estava em casa, sempre tinha trabalho demais e quando estava, preferia se isolar. — Você está parecendo uma selvagem com essas roupas. — Respirei fundo, eu já ouvi isso tantas vezes, então, ouvir dela que era uma pessoa naturalmente crítica, não me afetou em nada, afinal, eu gostava de me sentir diferente.
— O que você está fazendo aqui? — Perguntei, ignorando tudo que ela havia dito.
— Gosto de vir aqui por que quase nunca tem ninguém, você estragou meus planos — Ela avisou.
— Saiba que você também arruinou os meus, queria ficar sozinha. — Falei, porém, ela continuou em silêncio. — Parece que você decidiu passar mais tempo do que o esperado aqui, não é? — Comentei, sentando-me, no banco em seu lado.
— Do que está reclamando, estamos aqui faz o mesmo tempo, porém, você me vence. — Meredith lembrou, encarando-me.
— Sim, mas eu moro aqui — dei uma pausa, ao dizer isso não senti a mesma tristeza de antes, achei estranho, entretanto, continuei — Já você disse que ficaria por aqui apenas um tempo, e olhe só, já se passaram quase 6 meses.
— Minha casa me dá a sensação que estou sozinha. — Ela explicou.
— Não entendo, considerando que aqui você também fica sozinha quase o tempo todo.
— É diferente. Gosto de me sentir sozinha, não de estar sozinha. — Ela disse e eu franzi o cenho, já tinha ouvido essa frase, mas, ao contrário, na verdade.
— Seja sincera, essa nem colou. Você gosta de estar sozinha o mesmo tanto que gosta de sentir-se sozinha. — Eu disse e ela deixou escapar um pequeno sorriso.
— Você é diferente. Não é tão rasa quanto essa juventude — Ela disse e eu arqueei a sobrancelha, isso de alguma forma teria sido um elogio? — Não que isso torne você melhor. – completou. Claro que não era um elogio, afinal, estamos falando dela, Meredith, a velha mais chata que pode existir.
— Claro. — Dei de ombros, com sorriso irônico.
— Eu costumava ser como você quando eu era mais jovem — Ela comentou, engasguei por um instante imaginando tal cena. — Pode ser difícil acreditar, mas fui. Talvez com um pouco mais de vida e menos fechada. — Concluiu.
— O que te fez mudar? – Perguntei, não podendo conter a curiosidade.
— Experiências ruins. -Contou, fazendo-me entender no mesmo instante. Somente o amor é forte o suficiente para mudar as pessoas, de forma ruim, claro.
— Você se apaixonou. Deu sua vida por alguém que não merecia e se machucou no fim, não é?
— Você sabe demais para ser apenas uma garotinha. — Ela disse, parecendo surpresa.
— Suponho que sim, pulei a parte de acreditar nos arco íris e nos contos de fadas — Expliquei, dando de ombros — Mas, então, agora estou curiosa, me diz, o que o amor aprontou contigo?
— Eu era um pouco mais nova que você quando me apaixonei totalmente por um rapaz que eu considerava perfeito, ele parecia ser diferente, com o tempo me ganhou, me tinha em suas mãos, mas, descobri que todo aquele amor era falso quando o peguei com outra mulher, isso me destruiu. Eu estava grávida, mas, resolvi tirar o bebê e me divorciar dele, porém, ele não queria isso, disse que se cortaria e fingiria que quem tinha feito aquilo fui eu, eu não acreditei que ele teria coragem de fazer tal barbaridade, então tirei meu próprio filho e pedi o divorcio... Mas, ele cumpriu o que tinha dito, se cortou e por pouco não morreu e realmente me acusou. Por muito pouco não fiquei presa, mas de alguma forma eles descobriram que eu era inocente. Passei anos ao lado de um completo psicopata, e eu era tão burra, tão apaixonada, que em momento algum percebi. — Enquanto ela dizia tudo isso, não parou de olhar para um ponto fixo da parede, eu não sabia como agir, não acreditava que ela tinha desabafado comigo, na verdade, nós nunca nos demos bem, então, isso é estranho.
— Você foi imbecil. — Foi tudo que consegui dizer e ela franziu o cenho, provavelmente surpresa com meu atrevimento.
— Diz isso por que tirei meu filho?
— Por que pensa isso? — Indaguei, sem entender.
— Todos me julgam por isso, e é somente nisso que sinto culpa, no resto da história fui a inocente. — Ela explicou.
— Não acho que o aborto seja certo, você fez e não se cuidou, deve criar, mas, ao mesmo tempo, acho que você fez o melhor. Seu filho não seria feliz, também tive meus pais divorciados, pois meu pai traiu minha mãe, mas minha situação foi pior, eu achava que eles se amavam de verdade. O que mais doeu foi minha mãe me deixar... Então, me diz, se seu filho estivesse vivo, se você não tivesse o tirado, teria feito o que?
— Provavelmente teria o levado pra adoção. — Ela contou, sendo sincera.
— Então você fez certo. Não há nada pior que crescer com a vontade de saber quais seriam os motivos para alguém abandonar você. — Contei e ela me olhou com um pouco de pena, odiava isso — Na verdade você foi imbecil por que acreditou algum momento que o amor existisse, esse é o maior erro de alguém.
— Você está certa, um dia também pensei assim, entretanto, deixei esse sentimento me enganar. Não permita que aconteça igual com você, pequena. Não permita que o amor te destrua.
— Pode deixar! — Falei e me levantei, eu e Meredith estávamos conversando como velhas amigas, isso é ridículo. Nunca pensei que fosse dizer isso, mas, eu e ela tínhamos algo em comum por incrível que pareça. — Hey, não se sinta mal por ter tirado seu filho, você nem seria uma boa mãe mesmo. — Contei, e antes de sair totalmente pude notar que ela sorriu para mim.
Se fosse qualquer outra pessoa, iria se ofender com aquilo, brigar comigo e ficar chateada, mas, se tratando de Meredith não, ela parecia ser totalmente alheia há esses sentimentos. Acho que isso é o que mais gosto nela (a única coisa que gosto na verdade) Assim eu posso dizer tudo que sinto, sem medo que ela fique fazendo aqueles dramas desnecessários ou coisa assim.
Voltei para o meu quarto. O que eu poderia fazer em um domingo tão longo e entediante? Abri a janela e sentei-me em minha cama, bufando. Eu poderia ficar ali a tarde inteira vendo a chuva cair, mas, isso me faria pensar muito, eu não quero isso. Então, para minha sorte, recebi uma ligação, era Daniel.
— E aí, ruivinha. — Ele cumprimentou.
— Oi Dan. — Respondi, sem ânimo algum.
— Você brigou com a Sophia?
— Não. — Revirei os olhos e praguejei Sophia mentalmente, claro que ela já tinha contado tudo para o Daniel.
— América, não faz isso! Ela se apega fácil e gosta de você, eu sei que mesmo negando você também gosta dela, não a afaste. Ela está chateada. -Ele parecia estar tentando criar alguma ponta de arrependimento em mim.
— Se ela não falasse tanto nada disso teria acontecido. — Afirmei, dando de ombros.
— Ela só tentou ajudar, se você quer saber, eu mesmo sugeri. Você e o Vitor se amam, só que os dois são idiotas demais pra assumir.
— A gente se ama, quer dizer, claro que a gente não se ama! VOCÊ FICOU MALUCO!? Quantas vezes eu vou ter que repetir que eu não acredito...
— Você acha que sou imbecil? -Ele falou, interrompendo-me, em um tom mais elevado — Vocês podem negar para vocês mesmo, mas, não enganam mais ninguém, desde que você chegou vocês manterão essa farsa de ódio, mas, saiba que não funcionou, tanto o seu olhar como o dele os entrega.
— Pare de falar besteira ou então eu desligo! — Avisei, já irritada com todas aquelas idiotices.
— América, na verdade, eu não liguei pra falar disso, só para pedir que não afaste a Sophia. Eu te amo, marrenta, não quero que fique sozinha! Ela é uma boa amiga, dê uma chance a ela — Quando eu estava prestes a dizer algo, ele interrompeu-me novamente, eu odeio isso — Apenas tente, pode ser? — Ele insistiu, e eu bufei.
— Me passa o endereço da Sophia!? — Pedi e ele gargalhou, contente por minhas palavras, eu até pensei em dizer outra coisa, dar uma de marrenta como sempre e me julgar certa, mas, seria em vão, ele tinha razão, apenas em relação a Sophia.
Após ele me passar o endereço dela, nos despedimos, e então, desliguei o telefone, colocando-o de lado. Então sai do quarto novamente, dessa vez eu iria à casa de Sophia. Já estava sentindo falta das inúmeras chatices dela e nós não estamos sem nos falar nem por um dia, então acho melhor mantê-la por perto.
“Perder a memória não seria má ideia.
Eu não quero mais sofrer, seja com ou sem você.”
— Sinail Junior
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