Welcome to my World!
48 Nunca imaginei que fosse capaz de caber tanto amor dentro de mim!
Notas iniciais
— Isso é pessoal, não leia, por favor! – implorei descendo as escadas o mais rápido que consegui.
— Tarde demais – falou com a voz embargada, ainda olhando para aquela carta.
— Vitor, eu… – tentei pensar em alguma desculpa, mas não havia nada que explicasse aquilo, nada seria bom o suficiente, apenas a verdade.
— Por que não me mandou essa carta? – ele finalmente me encarou, notei que seus olhos estavam cheios d`água. Foi então que percebi que a conversa que eu havia esperado tanto tempo para acontecer, seria exatamente agora.
E mesmo que eu tenha imaginado esse momento várias vezes, não faço ideia do que falar ou como agir.
— Eu não podia – senti meus olhos se encherem de lágrimas também.
— Você podia sim. – aquela lágrima finalmente escorreu pelos olhos dele, fazendo meu coração se encher de dor – Podia ter feito qualquer coisa, menos ficar apenas olhando enquanto eu era um completo idiota com você e, desistia do nosso amor por nada.
— Eu não tinha opções, Vitor, você não sabe metade da história. – tentei explicar, mas não conseguia.
— Quando ele fez isso com você? – perguntou, parecendo ser tomado pelo desespero.
— Isso não tem importância agora…
— Quando? – praticamente gritou, se aproximando de mim.
— Na festa de despedida da Clarisse. – soltei rápido, assustada por seu tom de voz.
Ele parecia estar se sentindo de tantas formas que sou incapaz de nomear de alguma específica… Aflito, triste, culpado, atordoado; estava sentindo tudo que eu não queria que ele sentisse!
— Foi ele quem fez isso com você a primeira vez também? – perguntou e eu apenas balancei a cabeça em concordância, sentindo lágrimas escorrerem por meus olhos – Por que não me disse? Assim que você o viu chegar aqui, por que não me contou? Eu… Eu teria evitado…
— Ninguém podia ter evitado Vitor, não se sinta culpado. – falei, passando a mão por seu rosto que agora também estava encharcado pelas lágrimas.
— Não acredito que você passou por isso duas vezes, – suas lágrimas se intensificavam – duas vezes... – repetiu pausadamente, em baixo som – Não acredito que pensei que você tinha me traído; não acredito que eu não percebi; não acredito que não estive do seu lado no momento em que você mais precisou. – o abracei com toda força que consegui, tentando tirar dele toda dor que eu sei que ele estava sentindo nesse momento.
— Está tudo bem, meu amor. – falei tentando acalmá-lo, ainda durante o abraço.
— Me perdoe América, me desculpe – falou sem parar de chorar, retribuindo o abraço.
— Você não precisa se desculpar por nada, apenas prometa que sempre estará comigo, okay? Esse ano longe de você foi o pior da minha vida, De La Riva. Nunca imaginei que fosse capaz de caber tanto amor dentro de mim.
Foi então que ele se afastou de mim rapidamente e me encarou profundamente, pensei se teria dito algo errado para ele ter se afastado, mas logo afastei esses pensamentos quando ele repentinamente se aproximou, beijando-me, e trazendo de volta a cor que por tanto tempo esteve afastada do meu mundo.
— Eu te amo tanto, você é a mulher da minha vida. – começou a dizer, assim que se afastou o mínimo possível de meus lábios, com seu nariz apoiado ao meu, nós dois estávamos de olhos fechados e eu só conseguia ouvir com muita atenção cada palavra que ele dizia – E eu sinto muito, sinto por tudo, mas principalmente por nós, sinto por ter deixado que uma mentira destruísse o que tínhamos, sinto por ter deixado você. – ele parou de falar por um segundo e abriu os olhos, fitando-me – E mesmo que me traia de verdade da próxima vez, prometo não me afastar de você. – finalizou sorrindo, sorri de volta e dei um tapa de leve em seu ombro.
— Sabe que é um idiota por ter acredito nisso, não é? — disse, enquanto acariciava seus cabelos – Quando vai aprender que só sei amar você? – o encarei e logo senti todo meu corpo se arrepiar, apenas pelo olhar que ele dirigia a mim também. — Você não pode me olhar desse jeito.
Então senti suas mãos se entrelaçarem em minha cintura, puxando-me com firmeza para seu colo. E seu olhar apenas se intensificou, era excitante, sugestivo, instigante e me fazia estremecer cada vez mais, mordi meu lábio inferior sem desviar meus olhos dos seus.
Ele moveu seus lábios para dizer algo, porém o contive.
— Shh – coloquei meu dedo em seus lábios – Apenas me leve para o seu quarto, garoto. – sorri e ele devolveu o sorriso.
Em seguida, subiu as escadas comigo ainda em seu colo, e o resto daquela noite gerou uma cama quebrada e muita bagunça.
Dia Seguinte…
Acordei confusa, sem saber se toda a noite teria sido apenas um sonho como as diversas outras vezes.
Entretanto, assim que senti a cama quebrada em baixo de mim, um sorriso nasceu em meus lábios. Era real.
Porém, logo fui invadida por mais confusão: Vitor não estava ali. Levantei-me da cama e vesti sua blusa que ainda estava jogada no chão.
Olhei ao meu redor por um instante, havia tanto tempo em que eu não entrava em seu quarto. As coisas continuavam iguais, exceto que agora não havia mais uma foto de nós dois em sua mesa e sim, uma dele com Paula. É claro.
Ainda tinha este detalhe.
Eu tecnicamente havia me tornado a “amante” agora, temi pela reação de Paula quando descobrisse que Vitor e eu estávamos juntos novamente. Ela sempre teve tendências explosivas.
Meu estômago embrulhou ao continuar olhando para aquela foto horrível dos dois, onde ela abraçava Vitor e o mesmo apenas sorria para a foto, de modo desajustado. Abaixei o porta retrato, escondendo a péssima visão.
E nesse mesmo momento, Vitor entrou pela porta, com o cabelo bagunçado de sempre que eu tanto amava, sorri no mesmo instante, constatando que ele ainda era definitivamente o mesmo.
O De La Riva carregava uma bandeja de café da manhã bem exagerada e belas flores.
— Droga, pretendia ter chegado antes que você roubasse minha blusa – falou, fazendo-me sorrir ainda mais, enquanto ele se aproximava de mim, entregando-me a flor.
— Desde quando se tornou tão romântico? – perguntei, pegando a flor e arrumando seu cabelo um pouco.
— Eu sempre fui. – respondeu, bagunçando seu cabelo novamente e, me beijando em seguida.
— Muito obrigada. – falei após o beijo, e ele colocou a bandeja em cima da mesma mesa onde estava a foto.
— Não me lembro dessa foto caída. – comentou, levantando sua foto com Paula novamente.
— Não me irrite logo cedo, De La Riva – berrei, abaixando a foto outra vez.
— Eu amo vê-la com ciúmes. – falou, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.
— Eu não estou com ciúmes – revirei os olhos, fazendo com que ele gargalhasse – O que você tem na cabeça? Não tinha alguém melhor para colocar em meu lugar?
— Ela não estava em seu lugar.
— Eu sei, você entendeu o que eu quis dizer…
— Não, você não sabe. Ninguém jamais poderia estar em seu lugar, pois só você cabe aqui – ele disse e eu o beijei novamente, nunca me cansaria. – E respondendo sua pergunta: Fiquei com ela por que sabia que iria te irritar se você soubesse. – me afastei novamente.
— Você é repudiante. – reclamei, após ouvir seu péssimo motivo.
— Eu sei – ele gargalhou novamente – Mas mesmo assim você me ama.
— É tão estranho ouvir alguém dizendo com tanta segurança “você me ama”. — comentei.
— Depois de uma vida de não acredito no amor e sou uma adolescente rebelde de mal com a vida e tudo mais, é comum que se sinta assim. — disse, zombando de mim.
— Qual é a sua, Vitor? Acabamos de nos resolver e você já está me provocando? — indaguei, segurando o riso.
— Acho que estou com saudades da América que me odeia. — explicou, fazendo-me franzir o cenho.
— Não entendo o porque; saiba que eu ainda te odeio!
— Ah, é? E como funciona isso? Por que ontem você falou que me amava. — falou, irritando-me ainda mais.
— É, mas eu amá-lo não significa que não possa te odiar também. — Nem eu entendi o que quis dizer com isso.
— Uau, isso foi confuso — dessa vez fui eu quem gargalhei.
— Você devia parar de falar. — falei.
— Eu até gostaria mesmo, pois o próximo assunto não é tão divertido quanto esse. — Vitor falou, adotando uma expressão mais séria.
— O que houve? — Perguntei imediatamente, com medo de que fosse algo pudesse nos atrapalhar novamente.
— Quando fui lá embaixo, a Clarisse me contou o resto do que houve. — explicou.
— Precisamos mesmo falar disso? – perguntei, respirando fundo.
— Eu não queria ruivinha, não mesmo, mas acho que você já não falou por tempo demais. — ele disse, notei uma ponta de reprovação em sua voz.
— Acho que me acostumei a viver assim. — dei de ombros.
— E isso é péssimo. O Rafael não pode se livrar disso tão fácil assim, e não vai.
— Do que está falando? – indaguei.
— Clarisse foi até a delegacia ontem. – meu coração palpitou forte ao ouvir tais palavras.
— O que isso quer dizer? – falei com a voz em baixo tom, sentindo meus olhos se encherem de lágrimas.
— Quer dizer que aquele idiota vai pagar por todo mal que te causou. – ele explicou e por algum motivo senti várias lágrimas descendo por meus olhos.
Eu havia esperado tanto tempo para ouvir aquelas palavras, que agora não conseguia ter outra reação que não fosse chorar feito uma idiota.
— Eu não acredito – falei quando ele me abraçou.
— Isso vai acabar, América. Está mais próximo de terminar do que você imagina. – falou e eu apenas não conseguia parar de chorar – Você não merecia ter passado por nada disso, nem a Clarisse, aliás, ninguém merecia. Por isso eu te prometo que terá justiça, nem que eu tenha que fazê-la com minhas próprias mãos. – o abracei mais forte ainda, pensando em suas palavras.
Ele estava certo.
Ninguém merecia ser submetido há um abuso sexual, muito menos dois, mal consigo imaginar quem passa por isso constantemente… Agradeço por ter conseguido.
Por ter sido forte por tanto tempo.
Por não ter desistido de mim mesma.
Estupro é provavelmente uma das piores coisas que pode acontecer com alguém; a vida parece perder o sentido, você sente que não tem mais valor.
Sei o quanto tenho sorte por ter pessoas que me apoiaram em todos meus momentos difíceis.
Mas e quem não teve com quem contar?
Eu só queria poder dizer a todas as pessoas que assim como eu, já passaram por isso, que elas não são menos especiais.
Que elas ainda podem ter amor de verdade.
Que elas não precisam ter nojo de si mesmas e nem se odiar.
Queria poder dizer o quão forte elas foram por ter passado por isso e mesmo assim acordar todos os dias e agir normalmente.
E principalmente, implorar para elas não desistirem.
Mas e quem já desistiu?
Eu só posso sentir muito e realmente sinto; mas não as julgo, pois sei o quão difícil é.
“Tem que melhorar, a maneira que tratamos uns aos outros e olhamos uns pelos outros, de alguma forma temos que melhorar.” — 13 Reasons Why.
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