Welcome to my World!
39 Isso não é um adeus pequena Clarisse!
Notas iniciais
Fomos embora antes de todos, até por que não estávamos em condições de ser vistas por ninguém agora; péssimas seria pouco para descrever como nos encontrávamos no momento. Por isso, saímos pela porta dos fundos evitando qualquer olhar curioso.
Assim que coloquei os pés em meu quarto, uma chuva forte começou a cair lá fora e aos poucos fora se intensificando assim como minha dor… E sem muito esforço já havia se transformado em uma tempestade.
Talvez isso fizesse com que Vitor e os outros voltassem logo.
Entrei no banho o mais rápido que consegui, e a única coisa que eu conseguia pensar ao sentir o contato da água quente com meu corpo era nas mãos sujas de Rafael passeando por meu corpo, tais memórias me faziam sentir repulsa e ao mesmo tempo uma vontade horrível de me acabar em lágrimas e dessa vez não me contive, não havia nada que me impedisse.
Usei a parede como apoio e sentei-me no chão, sentindo a água fervente cair sobre minha cabeça se misturando freneticamente com minhas lágrimas.
“Filha, você não deve ficar tanto tempo no banho quando estiver chovendo, é perigoso” a voz de minha mãe ecoou em minha mente. E aquilo me trouxe memórias da época em que eu ainda a tinha.
Aquela lembrança não fez com que eu saísse dali, apenas piorou tudo. Nessa altura, não conseguia mais diferenciar minhas lágrimas da água.
Em que ponto minha vida tinha dado tão errado?
Já havia me perdido nos acontecimentos… Onde fica aquele botão de start over?
Seria uma boa recomeçar do zero agora.
Passei a noite sem me mover dali, apenas presa em meu próprio inferno pessoal. Só consegui despertar quando ouvi a voz de Vitor, ao bater na porta do banheiro.
— Méri, todos já estão prontos. Termina logo seu banho pra gente não atrasar a Clarisse — Vitor praticamente gritou para que eu escutasse.
Só então percebi que havia passado a noite inteira debaixo daquele chuveiro. O que havia dado em mim? E o pior é que nem assim consegui me sentir mais limpa. Levantei-me apressadamente, não queria perder a chance de ir até o aeroporto com Clarisse.
Me arrumei as pressas e assim que sai de meu quarto dei de cara com Vitor que também estava saindo do seu, automaticamente sorri ao vê-lo. Minha paz estava ali, naqueles cabelos bagunçados.
— Está pronta, senhorita Collins? — Brincou, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha carinhosamente.
— Prontíssima... Senhorito? Não, fica estranho demais… Como seria a versão de “senhorita” para homens, De la Riva? — Perguntei com sarcasmo.
— Eu lhe venero América Collins — Vitor respondeu sorrindo, e jogou-me sobre o ombro saindo correndo em seguida, ri alto com seu ato. Entretanto, o medo de cair veio á tona no mesmo instante fazendo-me agarrar sua camisa com força. Pensei em gritar para ele parar, mas lá no fundo eu sabia que ele jamais me deixaria cair, eu precisava apenas confiar.
(…)
— Vou sentir muitas saudades – minha irmã alertou após abraçar todos.
Seu rosto estava inchado pelas lágrimas, os cabelos bagunçados, olheiras fundas, Clarisse estava acabada. Vê-la assim fez-me lembrar de como ela era quando eu cheguei aqui, estava igual. Todos pensavam que era apenas o efeito de nervosismo pela viajem, porém eu sabia o real motivo.
— Isso não é um adeus pequena Clarisse, é apenas um até logo – Falei sorrindo de modo confortador, ela retribuiu o sorriso.
— Até logo então – ela disse, afastando-se de nós em seguida.
— Clarisse – quase gritei repentinamente, então ela virou-se para trás – esqueça o passado e viva o presente, okay?
Ela lançou-me o mesmo olhar “cúmplice” que costumávamos dividir sempre, e após isso sumiu por aqueles portões de embarque, deixando-me com aquele vazio enorme.
Se despedir de alguém que você criou um laço, memórias e uma história não costuma ser fácil.
Como saber se as coisas ainda serão iguais entre nós agora que ela está tão longe? Eu preciso da minha irmãzinha aqui, assim como precisava de minha mãe, e de todos que eventualmente foram embora de minha vida.
Quando voltei pra casa um sentimento horrível tomou conta de mim: Saudades.
Senti falta de tudo que aquele lugar costumava ser.
Sentia saudade até dos momentos em que eu estava andando e sem querer esbarrava com Meredith que imediatamente xingava-me por ser um total desastre ambulante, sentia falta de achar que Petterson era um bom homem e fazia minha mãe feliz… E principalmente, os jantares de sexta com toda família que minha mãe insistia em manter. Gostaria de poder voltar no tempo e ficar por lá mesmo.
— Está tudo bem, ruivinha? – Vitor indagou, abraçando-me por trás.
— Por que não estaria? — Revidei, aconchegando-me em seus braços.
— Desde ontem você está estranha. Ficou chateada por que eu bebi? – Ele perguntou, beijando meu pescoço.
— Claro que não, está tudo bem amor – Falei virando-me para o mesmo e depositando um selinho em seus lábios.
— Foi embora sem avisar ninguém por que então? Fiquei preocupado – Respondeu, me dando outro selinho de volta.
— Percebi pelas cem ligações perdidas no meu celular – Falei rindo e lhe dando outro selinho novamente.
— Okay, já deu desse jogo, isso é tortura – Vitor falou, rindo e beijando-me de verdade em seguida. Passaram-se mais de dez minutos e eu ainda não queria me afastar de seus lábios, entretanto fui obrigada, ou então nós dois morreríamos sem ar.
— Não quero perder você – Sussurrei, finalmente me afastando.
— Tá brincando? Não existe Vitor De la Riva sem América Collins – Ele disse, fazendo-me sorrir. – Eu sei como as coisas estão confusas agora, com tudo mudando, tantas percas… E tem isso do seu pai aqui o tempo inteiro, querendo levar você pra longe de mim... Mas eu quero que saiba que eu não vou deixar nada separar nós dois, está bem? Se for preciso vou dentro da sua mala quando essa mudança for acontecer mesmo, ou te sequestro e levo pra um lugar onde tenha só nós dois.
— Gostei dessa ideia – Brinquei, pendurando-me em seus ombros.
— É? E eu gosto da ideia de estar contigo – Ele revidou de modo carinhoso, fazendo-me olhá-lo profundamente e completamente apaixonada – Foi a melhor coisa que me aconteceu, Collins – Vitor completou e dessa vez fui eu quem o beijou. Chega a ser difícil explicar como eu o amo.
Horas mais tarde…
Ainda quando estávamos no aeroporto Daniel havia me chamado para ir em sua casa, dizendo que “precisávamos conversar”; eu sabia muito bem sobre o que ele queria falar e eu não queria mesmo ter que tocar nesse assunto.
Entretanto, eu sabia que não poderia me esconder de Daniel para sempre. Ele não me deixaria em paz até que eu falasse algo, por isso estava em sua casa agora.
— Antes de tudo, onde o Rafael se enfiou? Desde ontem não o vejo. Não estou reclamando mas… é bem estranho – Foi a primeira coisa que disse quando cheguei ali.
— O desgraçado foi embora antes que eu tivesse chance de acabar com ele – Daniel respondeu – O demônio se despediu de todos na festa mesmo, dizendo que tinha que voltar pois havia rolado uns problemas com a família… Claro que não cai nessa, podia ter morrido alguém na família dele que mesmo assim eu tenho certeza que ele não perderia a chance de lhe infernizar – Ele completou.
Eu sabia muito bem porque Rafael havia ido embora assim, provavelmente pensou que nós iríamos denunciá-lo, ainda bem que pensou... Não suportaria vê-lo novamente!
Apenas espero que quando o mesmo perceber que não o denunciamos, ele não decida voltar novamente. A única coisa que desejo é nunca mais voltar a ouvir sua voz já que não posso ter a satisfação de vê-lo atrás das grades.
— América, ontem você sumiu repentinamente e por algum motivo ele também, aconteceu alguma coisa? – Daniel voltou a perguntar, encarando-me preocupado. Não consegui dizer nada, era muita pressão saber se devia contar ou não, tudo isso… era pressão demais pra mim.
Então, a única coisa que consegui fazer foi começar a chorar feito uma idiota. Daniel apenas se aproximou, abraçando-me.
— Eu sou um imbecil, droga… Eu sabia do que ele era capaz; sabia que não ia terminar bem você e ele no mesmo lugar novamente e mesmo assim fui idiota a ponto de encher a cara e esquecer você... Por favor, me mata? – Daniel disse de forma desesperada, apertando ainda mais aquele abraço.
Parecia cheio de culpa.
— Isso não importa mais, é tarde demais, sempre é… Quando se trata de mim é normal as coisas terminarem ruins, não tinha como você adivinhar — Respondi, tentando controlar aquelas malditas e incessantes lágrimas.
— Dessa vez as coisas não ficarão assim! Vou denunciar esse maldito agora mesmo, e logo em seguida, vou contar ao Vitor quem ele era e o que ele fez a você. Tenho certeza que se a polícia não encontrar o Rafael, o Vitor o encontra e não irá medir esforços para matá-lo no mesmo instante – Daniel falou feito louco, já se afastando de mim e saindo dali sem me dar tempo de dizer absolutamente nada em minha defesa.
Corri atrás dele imediatamente, gritando arduamente para que ele parasse com aquilo e me ouvisse por um instante.
Eu queria aquilo mais que ninguém... Ver Rafael finalmente pagar por tudo que havia me feito.
Mas eu sabia que aquilo não podia acontecer.
Não sei o que havia dado em mim, mas sequer olhei para os lados antes de atravessar a rua.
Tudo que eu conseguia pensar era em impedir Daniel.
— Espere – foi tudo que lembro de dizer e então fui atingida por um grande estrondo e tudo ficou preto.
“Pode contar seus segredos ao vento, mas depois, não vá culpá-lo por contar tudo ás árvores.” — Khalil Gibran.
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