Welcome to badlands
23 Capítulo Vinte e Dois: nenhuma notícia boa chega às duas horas da madrugada.
O silêncio era ensurdecedor enquanto Aiden olhava para Sawyer deitado, encarando o teto do quarto. Ele queria dizer algo, reconforta-lo, mas não sabia o que dizer.
— Aquela cena não sai da minha cabeça – Sawyer irrompeu o silêncio, mas sua voz era um sussurro arrastado.
Sawyer reviveria aquela cena o tempo inteiro. Reviveria as palavras de Seth enquanto o arrastava pelo bairro até ficar longe dos policiais.
— Você não pode fazer nada – ele havia dito, lhe encarando com aqueles olhos selvagens que Sawyer tinha igual – A gente não pode se envolver com a policia.
— E é certo deixar uma criança morrer porque você tem medo de ser preso pelas suas merdas? – Sawyer grunhiu, enquanto ainda tinha força para falar.
— Não é – Seth suspirou – mas você precisa entender como o mundo funciona.
Sawyer não entendia. Não compreendia como um policial poderia fazer aquilo com alguém sem a pessoa fazer absolutamente nada.
— O policial vai te cassar até o inferno se você fizer algo contra ele – Seth disse antes de chegarem à lanchonete naquela tarde. O tom usado por ele parecia ameaça e não um conselho de irmão.
— Você não tinha o que fazer – Aiden disse, tirando Saywer do transe. Ele olhou para o lado, encarando Aiden.
— Eu tinha, sim – ele bufou.
Sawyer odiava muitas coisas.
Odiava quando pessoas desconhecidas se aproximavam de seus amigos.
Odiava o fato de sua mãe só estar bem porque Seth pediu que ela parasse de tomar remédios.
Odiava sentir ciúmes de Aiden, embora não pudesse falar nada.
Odiava saber que todos o comparavam com Seth assim que os vissem lado a lado.
Mas acima de tudo, ele odiava injustiças.
E foi com isso em mente que Sawyer saiu de casa naquela madrugada, determinado a fazer algo de diferente do que fez há algumas horas.
Aiden ficou dormindo porque Sawyer não o deixou ir junto, era algo que ele precisava lidar sozinho.
Sawyer encarou a porta de madeira pino e respirou fundo.
Já passava das duas horas da madrugada.
"Nenhuma notícia boa chega às duas horas da madrugada", ele pensava enquanto estava parado na frente da porta.
Sawyer queria ser a notícia boa.
Bateu três vezes na porta e percebeu a luz do andar de cima acender. Ele se afastou e olhou para a pessoa na janela.
— O que tá fazendo aí, perdedor? – Mikael encarou Sawyer e cuspiu em sua direção – já desço.
Mikael tinha a mesma idade de Sawyer, prestes a se tornar de maior. Mikael sempre tratou Sawyer do jeito que ele gostava: indiferente e divertido, do jeito que ele gostava de tratar seus amigos.
— Que cara pálida igual papel é essa?
Mikael era quase do tamanho da porta de tão alto, estava sem camiseta e os cabelos crespos bagunçados, ergueu o braço esquerdo na porta e encarou Sawyer com aqueles olhos claros, a boca em um sorriso divertido.
Sawyer tentou olhar para qualquer coisa, menos os seus braços musculosos e seu peitoral. Ergueu a sobrancelha e soltou o ar, percebendo sua respiração saindo como fumaça de sua boca. Esfregou as mãos e as enfiou no bolso.
— E como você pode tá tão bem, porra? – Sawyer encarou o garoto do outro lado da porta.
— Já ficou sabendo? – Mikael desfez o sorriso tão rápido que Sawyer se questionou se ele estava sorrindo antes. Seu braço caiu ao lado do corpo e ele abriu mais a porta, convidando Sawyer para entrar.
Sawyer ficou parado na porta enquanto Mikael sentava-se no sofá e se inclinava para acender o abajur da sala.
— Eu vi – ele disse, tentando ser corajoso, mas Mikael não escutou.
— Senta aqui – Mikael tocou no acento do sofá ao seu lado.
— Eu não quero ficar muito tempo – ele pigarreou – eu só quero te falar o que aconteceu.
— Como assim? – Mikael franziu o cenho e levantou do sofá. Sawyer deu dois passos para trás.
— Eu vi o que aconteceu com o Jonas.
Aiden não conseguia dormir encarando a janela, embora não conseguisse ver nada.
Pensou em descer, ver se havia alguém acordado para lhe fazer companhia, mas se sentiria mais seguro quieto no quarto de Sawyer.
— Como você viu, Sawyer? – Mikael alterou sua voz e a casa toda pareceu tremer com sua raiva. Sawyer nunca se sentia intimidado, nem por seu irmão, mas Mikael estava bravo.
— Eu estava lá quando o policial atirou nele.
— Que? – Mikael franziu o cenho – Que policial, Sawyer? Ele foi morto por um traficante. Deve ser um dos caras do seu irmão.
Sawyer cerrou os punhos no seu colo. Mikael o encarou e um brilho de reconhecimento passou por seu rosto.
— É pelo seu irmão que você tá fazendo isso? Quer encrencar os cu azul porque eles tão querendo caçar aquele aidético?
Sawyer sentiu suas unhas roídas o machucarem na palma da mão.
— Pelo seu semblante você deve tá metido com droga. Usando, eu diria – Mikael riu com desprezo.
— Mikael – Sawyer murmurou, tentando recuperar a voz e a calma. Sentiu quando sua unha perfurou a pele e arregalou os olhos, encarando o garoto enorme à sua frente – eu juro pra você – ele notou o semblante de desprezo de Mikael e fraquejou – acredite em mim, pelo seu irmão...
Sawyer engoliu em seco. Mikael ficou calado, o encarando enquanto ele levantava e erguia a cabeça para Mikael.
— Eu estava ali quando o policial atirou no seu irmão porque ele achou que estava armado. Eu estava ali e não teve nada a ver com meu irmão, ele apenas me tirou de lá. – Sawyer ficou sem fôlego depois de conseguir falar tudo aquilo, mas Mikael não parecia convencido. – Eu o vi morrer, Mikael. – Sawyer sentiu uma lágrima solitária caindo do lado esquerdo do seu rosto, mas não se incomodou em limpar.
Tristan estava estudando em seu quarto naquela madrugada, mas sua atenção voltava para a sua mãe e Osmar e a vida que lhe prometiam. Era tentador, Tristan só conheceu desgraça e tristeza a sua vida toda e seria um alívio escapar disso.
Mas também seria escapar de si mesmo. Tristan era aquilo, com seus problemas e preocupações. Sua vida dolorosa o moldou para ser aquele garoto que em breve correria atrás dos seus sonhos.
Tristan não queria fugir de si mesmo e ir embora de tudo que ele conhecia.
Keith era o único dos garotos dormindo naquela madrugada, mas seus sonhos oscilavam entre prazer e medo.
No sonho, Vanny pegou seus cabelos pela nuca e lhe fez cheirar uma carreira de cocaína. Keith não conseguia desvencilhar-se dela e não queria soltar a mão da sua coxa nua.
Vanny pegou seu rosto novamente e o beijou, mas seu rosto estava coberto por pó. Keith passou a língua por seu rosto.
Ele acordou no susto, às três e doze da madrugada e foi em busca do seu porco de cerâmica.
— Eu preciso contar a verdade. Aquele policial é um assassino.
— Eu odeio concordar com seu irmão – Mikael começou, sentindo seu coração pulsar forte no peito. Sawyer contou tudo que havia acontecido, contou inclusive sobre as palavras de Seth – É sua palavra contra a de dois policiais.
— E daí?
— Você é mais esperto que isso – Mikael ergueu a sobrancelha – você sabe que ninguém vai acreditar em você. E se acreditarem, ninguém vai fazer nada. É mais fácil eles te prenderem e a justiça não vai ser feita.
Mikael, estava sozinho em casa porque sua mãe desapareceu após o acontecido.
— Eu gostaria de fazer justiça com minhas próprias mãos.
— Ah – Mikael riu – vai matar o policial?
Sawyer não respondeu, ele sabia que não seria capaz daquilo.
— Você sabe se ali tem câmeras? – Mikael perguntou quando se acomodou na poltrona da sala.
— Não sei – Sawyer fez uma careta – vamos lá ver.
— Não consigo – Mikael respondeu rapidamente – acho que nem limparam o sangue dele ainda.
Keith colocou a mão dentro do porquinho, mas só o que encontrou foi o dinheiro que estava economizando para o apartamento. Sua vontade naquele momento era atravessar a rua e ir até a casa de Sawyer, implorar por um pouco de pó, mas olhou para o relógio ao lado da sua cama e voltou a deitar a cabeça no travesseiro.
Porém seus pensamentos não o deixavam dormir. Não era a vontade de se drogar, mas a vontade de sentir algo além daquele vazio em seu peito.
Ele levantou da cama, vestiu calça de moletom e saiu de casa.
Tristan pegou no sono enquanto estudava matemática, mas acordou quando ouviu o barulho da maçaneta. A porta não abriu, porque já fazia tempo que Tristan a trancava.
Depois de a maçaneta redonda girar três vezes sem sucesso, o silêncio dominou o quarto novamente.
Tristan não conseguiu dormir naquela noite.
Keith bateu na porta vagarosamente a principio, mas quando percebeu que ninguém atenderia, bateu novamente. Não queria encontrar Seth porque não teria dinheiro para pagá-lo. Não queria encontrar a mãe deles porque ele não queria parecer um viciado.
Mas definitivamente não esperava encontrar Aiden do outro lado da porta.
Ele se afastou, olhando para a casa.
— O que você tá fazendo ai?
Aiden arregalou os olhos quando percebeu o que estava acontecendo e engoliu em seco.
— Eu briguei com meu tio, lembra?
Keith ia argumentar que já fazia dias que aquilo havia acontecido, mas lembrou-se o porquê havia ido até lá.
— Sawyer não está?
— Não, foi resolver o negócio do garoto morto.
— Como assim? Ele foi atrás do policial?
— Meu Deus, espero que não – Aiden começou a ficar preocupado, se questionando se esse era o motivo de toda a demora.
— Você sabe onde ele guarda o pó?
Aiden queria voltar para a cama e esquecer que encontrou Keith, que lhe trouxe duas preocupações.
"Nenhuma notícia boa chega às duas horas da madrugada", ele pensou, lembrando-se do que Sawyer costumava falar quando estavam juntos no quarto e seu irmão aparecia.
Sawyer passou pela praça para ir pra casa, mas não conseguiu encarar o lugar onde o corpo de Jonas caiu, ele sabia que Mikael estava certo.
Encarou todas as casas e lojas ao redor, mas não via câmeras e nem possíveis testemunhas.
Sentia que a esperança havia ido embora dele da mesma forma que seu sono naquela madrugada, mas percebeu uma luz vermelha piscando no teto da loja de ferramentas.
Quando se aproximou e percebeu que era uma câmera de segurança, sentiu a esperança retornando. Pensou em voltar para a casa de Mikael e contar a novidade, mas lembrou-se de Aiden. Deitado sozinho na sua cama.
Então voltou para a casa.
Mas se pudesse, teria virado as costas e voltado para a casa de Mikael.
Ele encarou as costas de Keith e a cara preocupada de Aiden.
Sawyer estava começando a virar-se para sair dali quando Aiden o viu.
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