Welcome to badlands

43 Capítulo Quarenta e Dois: incriminação.


Na sexta-feira daquela semana, no horário do almoço, a lanchonete estava praticamente vazia, apenas uma mesa era ocupada por duas garotas. Aiden e Keith continuavam seu trabalho, mesmo quando não havia um alma penada para servir.

Porém, quando o relógio parou no número 6, mostrando que já era 12:30, uma visita inesperada entrou pela porta de entrada e atravessou o espaço até o balcão com os olhos focados no filho.

Keith sentia o coração acelerado enquanto percebia a mulher se aproximar. Demorou alguns segundos até descobrir da onde conhecia aquela mulher. Sua mãe estava diferente, seus cabelos eram longos e lisos passando dos ombros, sua barriga estava grande, protuberante no vestido florido azul, coisa que nunca a viu usar.

Já fazia quase três anos que não a via. Ele se perguntou, como o garotinho que ainda sentia ser, se ela o via diferente também.

Aiden lhe deu um cutucão no braço quando não respondeu ao cumprimento tímido da mãe. Ele estava petrificado a encarando, os olhos arregalados.

— Bom dia. A senhora deseja alguma coisa? – Aiden perguntou quando percebeu que não poderia contar com Keith.

— Na verdade eu só vim falar com ele – ela pigarreou, tentando não soar grosseira. Aiden não se importou.

Keith se recompôs e encarou a mãe.

— Sim? – a voz saiu falhada, apenas um murmúrio dolorido.

— Você e sua namorada podem almoçar comigo? Se quiser ficamos aqui...

Aiden a interrompeu, não queria ter de trabalhar para os três naquela tarde. Keith não conseguiu nem argumentar que ele e Ingrid não eram namorados.

— Tem um restaurante muito bom aqui perto – ele começou – Darlia's.

— Você aceita isso, Keith? – sua mãe perguntou, já não sabendo mais como lidar com um adolescente. Ele não queria que ela se arrependesse de ir até lá, então acordou para a vida e trocou de roupa em cinco segundos.

Sua mãe dirigia um carro velho. Ele era vermelho e definitivamente não era dela, mas Keith não perguntou, não estava interessado em saber sobre sua vida nova.

Keith ligou para Ingrid enquanto estavam dentro do carro e enquanto falava com ela, que disse que precisava se arrumar porque só o Keith decidia as coisas de última hora – ele achou melhor não comentar que seria um almoço com a mãe dele -, sua mãe o encarava de soslaio. O caminho até a casa de Ingrid foi silencioso, mas os pensamentos de Keith não sossegaram. Se perguntava o que possivelmente ela queria com aquele almoço. Se permitia pensar o que ela estava pensando sobre ele. Orgulho? Decepção?

— Sua namorada é linda – sua mãe disse quando perceberam Ingrid sair do prédio, se dirigndo até o Keith, que estava com a cabeça do lado de fora do carro para ela enxergá-lo. Ele notou a expressão de confusão em seu rosto, mas ela apenas entrou no carro e não deixou mais nenhum sentimento transparecer.

— Essa é minha mãe – Keith apontou para a mãe, a encarando por cima do ombro atrás do volante e Ingrid a cumprimentou com um sorriso fraco, ele já havia lhe contado que sua mãe o abandonou aos quinze anos com seu pai bêbado, então Keith sabia que provavelmente ela não estava satisfeita em estar ali, mas sabia esconder tudo que pensava e sentia.

— Sabrina – ela apertou com firmeza a mão de Ingrid.

— Ingrid – sua voz saiu rouca e Keith percebeu o aperto frouxo e rápido. Mas Sabrina não se importou, apenas seguiu até o restaurante que Aiden sugeriu e o caminho inteiro ela os observava, mas não dizia nada.

Darlia's era um restaurante frequentado pelas pessoas que tinham mais dinheiro no bairro. Os pratos eram caros e em pequenas porções. Sawyer já havia ido na franquia do centro, mas naquele bairro o restaurante foi inaugurado há pouco tempo. Era um ambiente claro e estava cheio de gente. Nenhum dos três se importou com suas vestimentas enquanto seguiam com o garçom até uma mesa desocupada.

Sabrina sentou-se ao lado do filho e Ingrid de seu outro lado. Ele queria passar segurança a ela, mas não conseguiria com a mãe tão próxima.

As mesas eram de madeira escura e as cadeiras tinham acentos aveludados em tom vermelho. Observaram o cardápio até decidirem o que comer – sabiam que seria Sabrina a pagar, mas não abusaram dos pedidos -. Keith percebeu que apesar do preço alto, naquele restaurante vendiam em porções maiores.

O garçom saiu de perto quando os três fizeram seus pedidos e Keith sabia que a verdade apareceria em alguns segundos.

— Eu espero que vocês estejam cuidando do meu neto direitinho...

— Neta – Keith a interrompeu – A Lara está ótima, né? – ele tocou a mão de Ingrid e a apertou, buscando apoio.

— Imagina as duas brincando juntas no quintal lá de casa – Sabrina sorriu para o filho, o que deixou Keith levemente surpreso, o coração acelerado pelo olhar carinhoso da mãe. – Está com quantos meses? – ela ergueu a mão para tocar na barriga de Ingrid, como se pedisse permissão e sorriu quando a garota aproximou-se dela.

— Quase quatro – Ingrid sorriu para Sabrina, ainda acariciando a barriga da garota, mas sem tirar a outra mão da sua. – Acredito que setembro será o grande mês de preparação – Keith notou que ela soava ansiosa e também percebeu que havia se equivocado em suas contas, mas não deixou de sorrir, nem quando um garçom se aproximou para os atender.

Ele nunca imaginou uma cena daquelas, principalmente depois de Sabrina tê-lo tratado tão mal quando ele contou que seria pai. Ela parecia arrependida e sempre a amou, ela era uma boa mãe. Mas não havia jeito de ele esquecer que ela o abandonou com um homem que nem o tratava bem.

— O que foi? – Ingrid sussurrou quando Sabrina levantou-se para ir ao banheiro – você nem tocou na lasanha – ela soava preocupada e Keith tirou os olhos das camadas de massa e encarou a garota.

— Não sei se confio nela – ele usou o mesmo tom de voz ao falar, não queria que ninguém o escutasse.

— Acho que ela está tentando – Ingrid respondeu, sabia de tudo que aconteceu com Keith e também tinha suas dúvidas a respeito de sua progenitora, mas percebeu o interesse e o desejo por uma segunda chance.

— Acho que preciso conversar em particular com ela – Keith desviou os olhos de Ingrid, mas ele não queria aquilo. Não queria ficar sozinho com Sabrina. Sentia que Ingrid que dava segurança naquele almoço. Porém sabia que precisava conversar com ela.

— Você nem precisa pedir uma coisa dessas – ela disse antes de se inclinar para lhe dar um beijo na bochecha e levantar-se da cadeira. Sabrina se aproximava da mesa quando Ingrid se afastou – o xixi é a pior parte, né? Depois do enjoo – Ingrid sorriu, tentando parecer despreocupada enquanto seguia para o banheiro.

— Ela é uma ótima garota, filho. Devo admitir que quando eu soube, fiquei preocupada. Achei que fosse aquelas garotas do bairro – Sabrina piscou o olho para Keith e riu depois que sentou em seu lugar e bebeu um gole de água enquanto ele arranjava coragem para começar.

— Por isso você me tratou daquele jeito? Como se eu fosse um irresponsável?

— Mas vocês foram, filho – Sabrina sorriu, tentando parecer equilibrada, mas Keith a conhecia. Seus olhos o analisando com receio denunciavam. – Estou aliviada que não é com qualquer garota, mas vocês ainda são jovens pra isso...

— Você e meu pai me tiveram quando tinham dezesseis, se eu não me engano – Keith soltou, venenoso – não vou deixar de ser um bom pai mesmo tendo dezessete.

— Na época era diferente, Keith – Sabrina pigarreou – você sabe que eu e seu pai não somos bons exemplos, então pra que trazer isso aqui? Estou tentando ter um almoço agradável com você. Seu pai era ruim pra mim e não me arrependo de ir embora, me arrependo apenas de tê-lo deixado com você.

— Claro, esqueceu que tinha filho...

— Não – Sabrina o interrompeu e agarrou sua mão em cima da mesa – eu nunca esqueci de você, Keith. Ligava e seu pai sempre dizia que você não queria falar comigo...

— Você parou de ligar dois meses depois de ir embora. Você não veio me ver, saber como eu estava – Keith percebeu alguns olhares na direção deles e notou que seu tom de voz estava alto, mas respirou fundo e esperou que os curiosos parassem de olhar para encarar sua mãe. – Não sei o que você quer, mas não há como esquecer tudo que aconteceu.

— Não estou pedindo para esquecer. Eu errei muito, você tem razão. Mas eu quero que as coisas melhorem entre a gente. Você será um pai diferente do seu e eu quero presenciar isso. Quero conhecer minha neta e quero que você leve sua irmã para passear. Quero as duas brincando juntas, quero que você conheça minha casa, meu marido. Você está quase virando um homem, mas sei que cresceu muito cedo por causa minha. Estou orgulhosa por você ter feito seu futuro, mas quero fazer parte dele – em nenhum momento os olhos de Sabrina deixaram os de Keith, que estavam arregalados para segurar as lágrimas. – Eu só quero uma chance.

Keith não soube o que responder porque sentia que se abrisse a boca, brigaria ou choraria, apenas apertou forte a mão de sua mãe, aquilo seria o suficiente.

*

Naquele fim de semana Tristan estava de folga do seu trabalho porque haviam começado as obras para o clube e ele só precisaria voltar a trabalhar na semana seguinte. Ele passou esse tempo dormindo, porque sentia que tinha sono para regular, mas quando estava pegando no sono no domingo à tarde, escutou alguém batendo em sua porta.

— Filho, Keith está querendo falar com você – o rosto da sua mãe apareceu por entre a porta após Tristan murmurar um "entre" rouco.

— O que? – ele franziu o cenho, sem saber se havia entendido direito. Keith em um domingo ali?

Sua mãe desapareceu no corredor e a porta permaneceu aberta, alguns segundos depois o rosto sorridente de Keith preencheu o lugar onde Daisy estava.

Tristan sentou-se na cama e esfregou os olhos.

— Entra aí – ele o encarou por cima do ombro e Keith entrou, fechando a porta – aconteceu alguma coisa? – ele bocejou enquanto encarava o amigo.

— Então... eu queria saber se você pode me dar uma carona até a Costa Rica. Eu vim aqui pedir pro meu pai, mas o velho safado nem tá em casa – ele bufou.

— Sabe que ainda não tenho habilitação – Tristan começou, mas levantou-se da cama. Ele ainda estava fazendo suas aulas teóricas, mas faria aquilo pelo amigo. Ele ficou parado no meio do quarto, encarando Keith perto da porta – Eu vou me trocar, pode me esperar na sala?

— Então vai me levar? – Keith sorriu – Juro que não vou demorar! Só quero comprar um presentinho pra Lara e depois ir pra casa da Ingrid.

— Você vai ficar por lá?

— Sim, você pode me levar?

Tristan apenas assentiu e Keith saiu do quarto, seguindo até a sala onde Osmar estava deitado no sofá e Daisy preparando o café.

— Quer um café, querido? – ela perguntou a Keith quando o viu sentar na poltrona.

— Não, muito obrigado — ele negou e sorriu para ela, que entregou uma caneca com café com leite para Osmar.

— Ele vai te levar? Se ele ficar inseguro de dirigir sem habilitação, eu levo vocês – Osmar ajeitou-se no sofá para Daisy sentar-se ao seu lado.

— Ele vai sim – Keith respondeu, embora soubesse que o amigo ficava ansioso em fazer isso.

— Eu acho perigoso – Daisy se intrometeu, bebericando seu café.

— Pode ficar tranquila, mãe – Tristan surgiu atrás dela, com Zion em seus pés e pegou a chave de Osmar que ele sempre deixava no aparador de madeira em frente à porta de entrada. – Já trago seu carro, Osmar.

— Fiquem a vontade, curtam esse domingão.

Tristan assentiu e Keith levantou-se da poltrona para saírem. Zion, sempre que percebia que Tristan ia sair sem ele, começava a choramingar, o que fazia Daisy ficar irritada, mas Osmar sabia lidar bem com o cachorro.

— Foi difícil perdoar sua mãe depois que ela voltou? – Keith perguntou, assim que Tristan deu partida no carro. Ele o encarou, confuso. – Sabe, quando ela chegou e você não saía de perto dela. Foi difícil acreditar que ela estava sendo sincera?

— Não foi difícil, mas acho que eu queria que fosse verdade, por isso deixei que entrasse na minha vida – Tristan respondeu, sem tirar os olhos da estrada novamente. – Porque?

— Bom, minha mãe apareceu na sexta para almoçar comigo e Ingrid, mas não sei se acredito nela. Pediu perdão, disse que errou...

— O que você tem a perder se perdoá-la? – Tristan o questionou, o que fez Keith ficar quieto e encarar a rua à frente deles por um instante. Percebeu que estavam saindo do bairro. Passaram pela lanchonete fechada, pelos prédios deles, onde Aiden estava sozinho.

— Ela me enganar de novo – ele deu de ombros, desesperado por um motivo.

— Ela não te enganou, ela só foi embora por causa do seu pai. Ela deveria ter te levado, claro, mas agora não tem como pensar como seria, né? Apenas como é.

Keith considerou o que Tristan disse, sabendo que o amigo estava certo e uma grande parte sua queria a mãe de volta. Queria sua irmã e filha brincando juntas. Até Ingrid pareceu satisfeita depois de conhecer Sabrina.

— Acho que tentar não vai me prejudicar mesmo... – Keith murmurou enquanto olhava para a janela. E encarou Tristan de soslaio. Pela primeira vez naquele dia ele realmente olhou para Tristan.

Tristan sempre teve uma expressão triste no rosto. Keith costumava olhar para os seus olhos grandes e enxergar apenas infelicidade neles, mas naquele dia ele parecia nervoso. E não era por dirigir sem habilitação ou preocupações em casa, ele percebeu que tudo estava bem. Sabia que ele estava diferente depois de Eleanor ser presa e depois de começar a terapia, mas aquele Tristan era o mesmo de quando eram pequenos, parecia temeroso.

— Você tá bem, cara? – Keith encarou o amigo, que desviou os olhos da estrada por alguns segundos, aproveitando o sinal vermelho.

— Claro, porque? – ele até tentou forçar um sorriso, mas não chegou aos olhos.

— Só pra saber – Keith deu de ombros, não insistiria no assunto.

— Bom, na verdade – Tristan pigarreou – não sei bem se foi o que conversamos sobre Aiden e Sawyer... – ele começou, o que fez Keith virar o rosto para olhá-lo melhor. – Eu conheci um garoto da faculdade e nós nos beijamos...

Keith arregalou os olhos, surpreso.

— E? – ele não conseguia desviar os olhos de Tristan, que segurava o volante com força.

— Não sei o que eu senti. Mas senti o mesmo quando Katherine me beijou – ele suspirou – não sei se eu realmente gosto de algum dos dois.

— Ou dos dois, né? – Keith deu de ombros, mas não sabia bem o que pensar.

— É, não sei – Tristan fez uma careta. – Você quer ir em qual loja? – Ele perguntou quando percebeu que haviam chegado ao bairro rico da cidade.

Tristan estacionou o carro em uma vaga e os dois caminharam pela calçada do centrinho, onde haviam diversas lojas. Keith entrou em algumas, mas não encontrava nada que o agradasse. Tristan tentava ajudar, mostrando roupinhas e acessórios, mas ele só foi encontrar a roupa ideal quando entraram na última loja da rua.

Era um vestido rosa de veludo com um pequeno bolso na frente. Sabia que ela só usaria quando crescesse, mas estava feliz com a escolha. A ida até a casa de Ingrid foi marcada por Keith sem conseguir parar de falar.

— Você acha que ela vai gostar? – ele pegou o vestido na sacola pela terceira vez.

— Ela quem? Ingrid ou Lara? – Tristan perguntou, rindo.

— Ingrid – Keith revirou os olhos – às vezes não consigo entendê-la.

— Deve ser difícil carregar um bebê e estar quase sempre sozinha, né? – Tristan virou o rosto para Keith, que desviou os olhos para a janela, envergonhado.

Keith não tinha tanto tempo quanto gostaria para ficar com Ingrid, que nunca reclamou e até parecia que preferia quando ele não estava perto, mas sempre que ela queria vê-lo ou falar sobre Lara, ia até a lanchonete.

— Acho que sim – Keith respondeu, decidindo que falaria sobre isso com ela.

Ingrid já sabia que ele ia visitá-la naquele dia e o esperava no portão do prédio. Quando se despediu de Tristan, sentia que precisava dizer algo.

— Não fica pensando muito sobre o muleque lá – Keith disse, com a mão na porta – uma hora você descobre se gosta mesmo.

Keith não sabia dar conselhos ou conversar sobre coisas que não eram de seu entendimento, e Tristan o conhecia o suficiente para saber que aquela era sua forma de tentar, então assentiu, agradecido pelo conselho e se despediu.

— Se precisar de carona de volta, pode me ligar. – Tristan disse quando Keith abriu a porta, embora soubesse que provavelmente ele dormiria ali.

Tristan tentou não pensar em Tobias ou qualquer outra coisa enquanto dirigia para a casa. Apenas ligou o rádio e seguiu seu caminho, sem desviar os olhos da rua e dos retrovisores.

*

— Eu trouxe um presente pra minha filha – foi a primeira coisa que Keith disse quando Ingrid abriu o portão para ele. Ela parecia cansada, mas forçou um sorriso quando ele a abraçou. – Tá tudo bem? – ele tocou em seu ombro e a encarou de perto. Suas olheiras eram profundas.

— Cansada, só – ela bocejou.

— Você anda dormindo bem? Se alimentando bem? Lara tá incomodando?

Ingrid o encarou com o cenho franzido e pegou em sua mão para entrarem no condomínio. Ela se escorou no elevador e ele se aproximou, a puxando pelo ombro em um abraço sem jeito.

— Você pode responder, por favor? – ele pediu, em um sussurro baixo.

— Porque você está tão preocupado? Eu fiquei até tarde desenhando roupas pra faculdade, por isso estou cansada.

— Mas você não pode fazer isso. Sabe que precisa dormir.

— Tudo bem, Keith, fale com meus professores para pararem de passar trabalhos – ela bufou, fazendo com que ele se afastasse dela. Ingrid saiu do elevador e seguiu até a porta do seu apartamento, que estava aberta. Sua mãe estava sentada na mesa, com diversos papéis à sua frente.

Keith já conhecia sua mãe, mas ela não era grande fã de Keith.

— Mãe, vamos pro quarto, ta? – Ingrid entrou no apartamento e seguiu até o fim do corredor, onde era seu quarto.

— Boa tarde – Keith pigarreou, cumprimentando a mãe de Ingrid, mas ela apenas o olhou por cima dos óculos de grau.

Keith percebeu que a cama de Ingrid estava cheia de presentes e sua escrivaninha cheia de papéis e tinta. Ele tentou não sentir-se mal por perceber que só ele demorou a comprar um presente, mas o colocou em cima da cama, junto com os outros, o que fez Ingrid o encarar estupefata.

— Eu quero ver! – ela pegou a sacola da mão dele, que estava a caminho de pegar para entregá-la. Ingrid abriu a sacola e quando viu o vestido pequeno seus olhos brilharam. Ela o pegou e ergueu à sua frente. – É lindo, Keith – ela sorriu e se aproximou, beijando o canto da sua boca.

Keith percebeu que havia um lençol branco cobrindo algum móvel, e quando percebeu as pernas de madeira, notou que era um berço.

— Tô vendo que compraram um berço. E não foi nenhum que você gostou – ele retirou o lençol para olhar.

— Minha mãe que escolheu. Ela não suportou a ideia de você já ter um berço no quarto e aqui ainda não. Chegou ontem. – Ingrid riu, mas Keith estava sério.

— Mas... eu achei que ela ficaria mais comigo. Vocês duas.

— Keith, você trabalha. Eu estudo. Minha mãe vai cuidar enquanto não podemos, e você sabe que eu ainda moro aqui, não é? Lara vai ficar conosco no seu apartamento, mas não vamos ficar só lá.

Keith queria argumentar, mas resolveu deixar essa briga para quando Lara nascesse.

— Você está deixando os presentes aqui e dormindo onde? – ele perguntou enquanto ela sentava-se na cadeira da escrivaninha. Ela revirou os olhos para ele.

— Eu tiro de cima só – Ingrid deu de ombros.

— Você quer passar uns dias morando lá no apartamento comigo e Aiden?

*

Na madrugada do domingo os garotos do alojamento estavam terminando de arrumar suas camas quando o soldado Hernandez entrou. Sawyer quase não o via por lá, ele aparecia quando precisava treiná-los, mas ultimamente só os fazia trabalhar. Seu olhar era prepotente e os garotos não gostavam quando era ele o responsável pela vistoria dos quartos. Seu ajudante seguiu observando as camas e gavetas enquanto ele passava pelos beliches, analisando os recrutas.

— Refaça – ele disse para uma pessoa perto da porta do quarto.

Sawyer resolveu continuar seu trabalho, mas quando o ajudante se agachou para verificar sua gaveta, seu mundo inteiro começou a girar. Nas mãos grandes do soldado havia uma ponta de baseado. Ele conhecia tão bem que precisou de alguns segundos para entender o que acontecia. Sawyer não fumava lá dentro, ele não faria tamanha estupidez. Mas o baseado estava em seus pertences.

— Senhor Hernandez – o ajudante o chamou, a voz falhada, como se até para ele aquilo fosse difícil.

Quando o soldado se aproximou e viu o que havia em sua mão, o homem encarou todos os garotos, até encontrar os olhos de Sawyer, do outro lado da sua cama, fingindo ajeitar a fronha do travesseiro.

— Você acha que está em casa, meu jovem? – ele fez a volta para ficar em frente ao Sawyer, que sentia seu coração acelerado. O que ele faria?

— Senhor, não é meu, senhor – ele pigarreou.

— Não é, 079? – ele encarou Sawyer dos pés à cabeça. Ele podia escutar o silêncio ao redor, mas não conseguia encarar nada e nem ninguém, apenas o coturno impecável do soldado. – Olhe para cima e honre sua culpa. Seja homem.

Sawyer cerrou o maxilar e enfrentou o olhar gélido do homem. Ele queria implorar, dizer que nunca viu aquilo antes. Seu olhar cruzou rapidamente com o de Mikael, tão confuso quanto ele. Os dois estavam sempre juntos, ele saberia se Sawyer tivesse fumado.

— Me desculpe, senhor, mas alguém deve ter colocado ali...

— Colocado ali? – ele soltou uma risada alta – se estivéssemos na rua e eu te pegasse com essa merdinha – ele segurou o baseado na frente do rosto de Sawyer, que não desviou, continuou o encarando – eu faria você comer inteiro – ele disse entredentes. – Arrume suas coisas, mas antes de ir embora quero que você pague 100 flexões e depois pode voltar para o buraco que veio.