Welcome to badlands
31 Capítulo Trinta: pense antes de falar.
O treinamento dos garotos estava marcado para aquela sexta de manhã, Tristan levantou da cama renovado após cinco horas de sono, não era muito, mas estava feliz por começar a trabalhar. Ele bateu na porta da casa de Sawyer, mas o garoto demorou quase vinte minutos para finalmente descer e o atender.
Ele estava sem camiseta, usando samba canção branca com desenho. Esfregou os olhos e bocejou, encarando Tristan. Sawyer havia dormido menos de três horas por causa do trabalho com Seth. Seus olhos doíam e ele sentia o rosto todo inchado, mas sua confusão era maior que qualquer coisa. O que diabos Tristan fazia ali às nove da manhã de uma sexta-feira?
— O treinamento? — Tristan franziu o cenho e Sawyer bufou, lembrando-se.
— Agora mesmo? Nove horas?
— Dez, na verdade — Tristan mexeu no cabelo, impaciente — mas você sabe como demoramos uns vinte minutos pra chegarmos...
— Tá, tá — Sawyer fez um sinal de descaso com a mão, fazendo Tristan parar de falar — vou colocar uma roupa. Entra aí — apesar do convite, Tristan permaneceu onde estava, do lado de fora da porta.
Sawyer pegou uma camiseta jogada em cima da cômoda e a enfiou pela cabeça enquanto procurava um calção e colocava os tênis nos pés. Fez tudo em menos de cinco minutos e quando desceu parou na cozinha, pegou um pão, que já estava duro e foi até Tristan, sentado do lado de fora da casa.
— Você tá ansioso, ein? — Sawyer riu enquanto mastigava o pão e fechava a porta. Tristan levantou, pronto para seguir caminho. — Onde está nosso companheiro?
— Zion não pode ir de ônibus — Tristan riu — o que você acha que vai acontecer lá?
Sawyer franziu o cenho. Eles andavam vagarosamente, embora Tristan tentasse apressar o passo, não dava certo porque Sawyer fazia seu próprio ritmo.
— Não sei — Sawyer comeu o último pedaço do pão e aceleraram quando escutaram o barulho do ônibus — Não fica preocupado, você tá contratado já.
— E você não está? — Tristan encarou Sawyer enquanto corria. Ele não respondeu, porque não gostava de gastar fôlego. E porque sua menor preocupação era aquele trabalho.
O único barulho era dos pés dos garotos batendo no chão de areia enquanto corriam até o ponto para alcançar o ônibus.
*
Keith olhava para Aiden de soslaio enquanto caminhavam até a lanchonete. O dia estava quente e ele sentia sua axila pegajosa, mesmo depois de tomar banho. Aiden parecia impaciente com a presença de Keith e aquilo o incomodava, ele não se lembrava de ter feito algo para chateá-lo. Morar com Aiden era como estar em um relacionamento que já não está dando certo, mas o casal precisava ficar junto. Os dois tinham manias que poderiam ser irritantes. Keith bagunçava e não arrumava. Aiden brigava. Aiden se esquecia de comprar algo que acabou, Keith precisava sair de casa furioso e comprar.
Mas quando eles queriam conversar sobre banalidades ou assistir algum filme superestimado só para criticar, eram o par perfeito. Não conversavam assuntos sérios porque Keith não sabia falar sério, mas Aiden percebeu, em algumas dessas conversas banais, que Keith estava muito animado em ser pai. Já fazia planos e queria comprar um berço que havia visto na loja do bairro dos ricos, o que dizia muito sobre a mudança dele.
— Você tá de bom humor hoje? — Keith perguntou, casualmente, enquanto pulava pelo asfalto ao atravessarem a rua. — Parece menos rabugento.
— Não sei do que você tá falando —Aiden deu de ombros, já estavam na rua da lanchonete e perceberam Carl se aproximando. — Ele veio cedo hoje — Aiden ergueu o queixo, apontando para Carl.
— A gente que tá atrasado — ele murmurou, sabendo que Aiden brigaria com ele.
Aiden respirou fundo e fechou os olhos. Não disse nada, apenas seguiu seu caminho até a lanchonete, mas a raiva permanecia em seus punhos cerrados ao lado do corpo, algo que Keith estava acostumado a ver.
— Aiden — Keith pigarreou. Aiden parou de andar, apenas alguns metros de distância de Carl, confuso tentando entrar na lanchonete fechada. A chave pesava no bolso de Aiden. — Me desculpa, cara. Eu apaguei! Mas te acordei assim que consegui ouvir o despertador.
— Quanto tempo de atraso? — Aiden perguntou, encarando Carl porque não conseguia olhar para Keith.
— Uma hora — Keith começou e quando viu o semblante do amigo, parou. Achou melhor deixar os quarenta minutos a mais de fora.
Aiden se afastou de Keith e foi até a porta da lanchonete. Carl continuava tentando a abrir e Aiden se aproximou, o que o deixou alarmado por alguns segundos.
— Bom dia, Carl — Aiden cumprimentou, tentando dar o seu melhor sorriso apesar do sangue fervendo de raiva por todo seu corpo. — Tempo quente, não é?
— É — o senhor deu um sorriso fraco — faz mal pra mim — ele deu de ombros — Café também, mas aqui estou eu — ele riu e Aiden sorriu de volta, pensando no quanto aquilo era triste.
Carl sentou-se em seu lugar de sempre e Aiden foi para trás do balcão colocar seu uniforme. Keith continuava na rua, fumando seu cigarro antes do trabalho.
Às vezes Aiden se questionava sobre a veracidade dos boatos sobre Carl. Ele não parecia com problemas de memória, apenas muito sozinho. Ele gostava de conversar com Aiden porque o escutava da mesma forma que Marion fazia.
— Você teve uma boa noite de sono, Senhor Carl? — Aiden perguntou enquanto lhe servia o café. Carl sorriu com a boca fechada e assentiu.
— Essa noite não fez tanto frio. O frio não me faz bem — ele riu.
— O frio não faz bem pra ninguém — Aiden riu — café quentinho pra você. Mas não tão quente para não queimar a língua — ele ergueu a sobrancelha e sorriu. Carl riu, tentando esconder os dentes.
— Bom dia, meu querido — Keith se aproximou e Carl tossiu.
— Eu não gosto muito de cheiro de cigarro, desculpe — ele ergueu a mão, desculpando-se e Keith se afastou para o seu lugar atrás do balcão. Colocou o boné com o símbolo da lanchonete e tentou encarar Aiden, mas sua atenção estava em Carl.
— O café está bom? — Aiden perguntou quando percebeu que Carl bebeu, mas fez uma careta. — Precisa de açúcar?
— Isso! — ele riu — Havia esquecido de colocar.
— Me desculpe — Aiden lhe entregou um pacotinho de açúcar e tentou sorrir, sem graça. Carl despejou tudo no seu café e o mexeu, sem parecer incomodado, mas Aiden sentia-se péssimo.
— Você nunca se esquece de colocar o açúcar, inclusive briga comigo porque eu esqueço — Keith o cutucou, quando percebeu que estavam longe o suficiente de Carl.
— Eu estou cheio de coisas na cabeça — Aiden deu de ombros, como se aquilo explicasse tudo.
*
Havia mais gente do que eles esperavam naquela piscina. Karen distribuía camisetas e deu as boas vindas quando os garotos se aproximaram. Seu olhar demorou em Sawyer, como se não acreditasse que ele estivesse ali.
— Treinamento, né? — ele perguntou, notando o olhar confuso dela.
— Você também? — Karen segurava a camiseta com força, os nós dos seus dedos assumiram um tom amarelado em sua pele clara — Desculpa — ela sorriu, sem graça — você é muito parecido com Seth...
— Bom, mas não sou ele — Sawyer revirou os olhos e deu de ombros, enfurecido.
— Ótimo! — Karen exagerou na animação e entregou as camisetas brancas para os garotos.
— Acho que seu irmão não era legal com ela... — Tristan murmurou enquanto observava as pessoas ao redor. Algumas colocando as camisetas, outras conversando. Havia diversos rostos familiares para eles, mas era como se ninguém os conhecesse naquele lugar.
— Meu irmão não era legal nem comigo — Sawyer riu enquanto retirava sua regata e colocava a camiseta branca.
Tristan foi até o banheiro que havia em frente à piscina para se trocar.
— Então, o Igor me disse que você veio como salva-vidas — Karen encarou Sawyer após ele ajeitar a camiseta no corpo, que ficou um pouco apertada.
— Sim — ele pigarreou, tentando alargar a camiseta a puxando para frente.
— Você pode se juntar àquele grupo ali? — ela apontou para duas garotas e um garoto, parados e observando enquanto esperavam. —Tristan cadê?
— Banheiro — ele murmurou enquanto se aproximava do grupo de salva-vidas.
A garota loira mascava chiclete, a ruiva mexia no cabelo, tentando prendê-lo e o garoto estava encostado a um pilar com os braços cruzados em frente ao corpo. As garotas encararam Sawyer, interessadas.
Ele sabia que sua aparência havia melhorado desde que acabou o colégio, mas não estava acostumado com o olhar descarado em sua direção. Keith era quem recebia mais atenção, mas desde que se envolveu com as drogas seu corpo e seu rosto mudaram, deixando de ser tão atraente para as garotas.
— Você é novo no bairro? Nunca te vi por aqui — a ruiva sentou ao seu lado na espreguiçadeira branca. Sawyer se afastou uns centímetros, sem que ela notasse.
— Não — ele riu e pegou um cigarro amassado no bolso do calção. A garota torceu o nariz e se afastou.
— Ei — Karen se aproximou quando Sawyer estava procurando seu isqueiro, apalpando os bolsos — Não pode fumar aqui — ela apontou para a placa de proibido fumar na grade que cercava o local, Sawyer bufou e guardou o cigarro novamente.
Tristan saiu do banheiro público com a camiseta apertada e se dirigiu à Karen quando não encontrou Sawyer.
— Você fica ali — ela apontou para um grupo de adolescentes em frente ao bar inacabado. Ele olhou para onde Sawyer estava e percebeu que havia mais ajudantes do que salva-vidas.
E também reparou a cara aborrecida do amigo, do jeito que ele ficava quando Keith falava muita besteira, por exemplo. Sawyer não queria estar lá.
Karen começou a dar ordens para os grupos.
— Salva-vidas — ela encarou o pequeno grupo — vocês ficarão aqui — ela apontou para onde estava a cadeira alta e fez com que formassem uma fila ao lado dos degraus — vamos treinar um de cada vez. Vocês — Karen encarou o grupo de Tristan enquanto os salva-vidas se posicionavam. — Serão responsáveis por todo o resto — ela se aproximou deles, amontados e encostados em pilares e paredes, aguardando — Como vocês podem ver, deve ter pelo menos vinte de vocês aqui — ela sorriu, mas era um sorriso falso, Tristan notou — alguns não terão chance. — ela deu de ombros — então deem o seu melhor porque amanhã precisamos estar 100%.
Tristan sabia que precisava daquele emprego, mas não sabia como se destacar diante de diversas pessoas que realmente tinha alguma ideia do que estavam fazendo. Ele encarou todos. Os olhares determinados, como se estivessem em algum tipo de competição. Tristan percebeu naquele momento que era daquele jeito que as coisas funcionavam na vida, uma eterna competição.
Sawyer encarava Igor explicando tudo que precisavam fazer com aquele boneco sem pernas que ele segurava pelo dorso. A garota ruiva estava com o ombro colado em Sawyer, que tentava se afastar, mas ela se aproximava.
— Vocês terão trinta segundos, lembrando que vocês precisam ser velozes quando acontecer com alguém. Aqui estamos usando um boneco. — ele apontou para a cara do boneco com cabelo caindo no rosto. — O chamamos de Mané — ele riu, não aguentando sua própria piada, que ninguém entendeu — Ah, ele era um manequim... — Igor murmurou, percebendo as expressões de tédio do grupo. Só ele e Karen ainda achavam a piada engraçada.
Karen separou garotos e garotas enquanto os encarava.
— Só para vocês ficarem cientes: precisarei de três garçons para o bar, duas pessoas para ajeitar as cadeiras em seus lugares e três para a limpeza. Uma pessoa irá me ajudar a supervisionar — ela ergueu o queixo, encarando todos.
Tristan não precisava saber matemática básica para se dar conta de que muitos ali não passariam. Ele só esperava não ser uma dessas pessoas.
*
— Acho que vai nascer em outubro — Keith encarou o calendário da lanchonete enquanto Aiden limpava as unhas com palito de dentes. Era a primeira coisa que Keith dizia desde que Carl foi embora naquela manhã. Os dois continuavam se estranhando e ele queria desesperadamente a atenção de Aiden.
— Legal — ele murmurou.
— Você sabe sobre signo? Eu não ligo muito pra isso, mas acho legal — ele riu — Deve ser porque sou de câncer, ai quero saber — ele não sabia nada sobre signos, mas sabia que aquilo faria Aiden reagir. Ele balançou e cabeça e riu, aquilo era o bastante para Keith.
— Você nem sabe nada sobre signo — Aiden revirou os olhos e colocou o palito de dentes no lixo.
— Às vezes eu tinha que ler sobre isso pra conquistar alguma garota — Keith riu, lembrando-se de quando era mais novo e sua felicidade era paquerar, beijar.
— E adiantava alguma coisa? — Aiden ergueu a sobrancelha e Keith assentiu.
— Consegui vários beijinhos na boca — ele riu. — Claro que não era o suficiente pra algo mais que beijo — Keith murmurou — mulheres são complicadas.
— Ou você que não sabe conquistar — Aiden deu de ombros, o que fez Keith franzir o cenho e rir, mas ele ignorou e se ocupou em limpar o balcão que já estava limpo.
— E você sabe por acaso? — Keith ria enquanto tentava falar, fazendo um estardalhaço como era de costume. — Nunca nem te vi olhar para uma garota — ele revirou os olhos — mas não tem problema, conheço pessoas que não conseguem sentir nada por ninguém — ele deu de ombros.
— É, isso ai — Aiden riu.
— Acho que a Ingrid é uma dessas pessoas.
— Só porque ela não tem interesse por você não quer dizer que é com todas as pessoas — Aiden o encarou — você já parou para perceber como às vezes você pode ser desagradável com as coisas que fala?
— Que? — Keith franziu o cenho e Aiden parou de passar o pano, o olhar fixo em Keith.
— É isso que eu falei.
— Tudo bem. Você pode estar certo, mas às vezes eu falo sem pensar — Keith deu de ombros, tentando se desculpar. E Aiden considerou aquele o pior pedido de desculpas.
— Então sabe o que você pode fazer? — Aiden se aproximou e jogou o pano na cabeça de Keith — pense antes de falar.
*
Sawyer sentia o olhar de todas aquelas pessoas em suas costas enquanto ele subia os degraus para sentar-se na pequena cadeira. Ele odiava sentir os olhos das pessoas o analisando, como se pudessem descobrir tudo sobre seus segredos e pecados, mas ele sabia que só se sentia daquele jeito porque não havia dormido direito na noite passada. Sentia-se fraco enquanto sentava e assistia a cena à sua frente. Era uma simulação, os candidatos que já fizeram a prova estavam na água e o Mané começou a se afogar. E era naquele minuto que Sawyer deveria pular na piscina e salvar o boneco. Ele paralisou por alguns segundos, mas piscou os olhos com força e pulou na água. Sentia o coração acelerado no peito enquanto a água quente o cercava e ele se aproximava do boneco.
Os olhos dos candidatos, da Karen e do grupo de Tristan permaneciam em Sawyer, porque ele era, de alguma forma, hipnotizante. Talvez pela forma despreocupada que se jogou na piscina e agarrou o boneco pelo dorso, sem cuidado algum. O levou até a borda da piscina, ignorando todas as pessoas o observando e colocou o boneco cuidadosamente no chão, como se só naquele momento percebesse que era analisado.
A primeira coisa que Sawyer fez foi juntar as mãos em cima do peito do boneco e pressioná-lo para baixo, o que fez o Mané cuspir um pouco de água. Tentou mais algumas vezes e percebeu que não saia mais água, então fez a respiração boca a boca, o que fez o Igor bater palmas e gritar:
— E voltou a vida! — o que ele disse todas as vezes que o candidato finalizava o treinamento.
Karen não parecia muito satisfeita, mas apenas assentiu vagarosamente, meio incerta da sua própria decisão. Tristan percebeu que poderia não ser tão difícil quanto ele pensava, mas estava pronto para ser um dos garçons se fosse necessário.
O grupo de Tristan passou a manhã toda treinando em todos os trabalhos disponíveis e percebeu que a limpeza era um dos piores, principalmente porque ele sabia que seria escolhido já que nem todos deram o melhor de si nessa parte. Desinteressados por algo que envolvesse se movimentar e recolher o lixo dos outros. Tristan não tinha o privilégio de poder escolher no que trabalhar, por isso deu todo seu suor em todas as categorias. A pior parte foi supervisionar com Karen, porque ela fazia questão de tentar enxergar além do que seus olhos podiam ver.
*
Perto da hora do almoço a lanchonete costumava encher, principalmente no fim de semana. Não havia muito que fazer ou lugares para ir naquele bairro e no calor, mas a lanchonete com seu ar condicionado era a melhor escolha, mesmo os lanches não sendo tão especiais.
Mas para ajudar, um dos cozinheiros começou a passar mal e só havia um garoto além dele. Keith começou a esfregar os olhos, nervoso e sem saber o que fazer. Nunca precisou tomar decisões tão importantes além de pedir para alguém consertar algo, então encarou Aiden, à espera de alguma sugestão ou milagre.
Os pedidos continuavam chegando e eles agiam como se nada estivesse acontecendo, mesmo o garoto na cozinha tentando acelerar, os lanches apareciam errados. Aiden bufou, frustrado, enquanto anotava o pedido seguinte, considerou que seria inútil gritar.
Ele encarou o ambiente e depois Keith, apavorado, ele quase podia ouvir o barulho das engrenagens enquanto ele pensava, buscando alguma solução.
— Consegue ir anotando os pedidos e recebendo o pagamento sozinho? — Aiden cutucou Keith após uma mulher insatisfeita se afastar do balcão, reclamando da demora. Começou a retirar o boné e Keith franziu o cenho, desconfiado que ele fosse embora e o deixasse ali para lidar com tudo sozinho só para lhe dar uma lição.
— Onde você vai?
— Vou tentar acelerar os pedidos — ele pendurou seu boné e se encaminhou até a porta da cozinha. Keith segurou seu braço.
— Não adianta brigar com ele. Ele é novato demais. Acho que é filho do cozinheiro.
— Eu não vou brigar — Aiden riu, pensando como Keith podia ser lento no raciocínio às vezes — Vou ajudar a preparar o lanche.
Keith encarou as costas de Aiden até ele desaparecer dentro da cozinha. Ele prosseguiu encarando a porta branca, confuso demais. Mas então olhou para trás, para todas aquelas pessoas de caras feias e impacientes. As pessoas podiam ficar nervosas quando estavam com fome.
De repente uma presença grande e familiar adentrou a lanchonete, à procura de Keith, que se engasgou com a saliva enquanto anotava um pedido. Seu pai parecia maior, de alguma forma. Mas continuava o mesmo. A mesma carcaça grande e carrancuda, mas velha àquela altura.
O garoto com a franja nos olhos se afastou após pedir seu milk-shake e Keith murmurar que em um segundo levaria quando seu pai sentou no balcão e encarou o garoto.
Keith não lembrava quando havia sido a última vez que seu pai foi àquela lanchonete, mas ele não combinava com o lugar. O seu ambiente ideal era o bar. Keith sempre o encontrava em um.
Mas Keith já não pensava o mesmo sobre o pai e de fato era até agradável vê-lo ali, assistindo seu filho ser responsável e independente. Ele parecia até orgulhoso, mas Keith conhecia o olhar presunçoso e malicioso do pai, então não se deixou levar por emoções.
— O que você vai querer? Estamos com um pequeno atraso, mas seu lanche é garantia — ele murmurou, sem conseguir encarar o pai. Aquela frase foi dita por uma hora e apenas três pessoas receberam seu pedido completo e certo.
— Eu quero conversar com você — Keith suspirou, um pouco aliviado por não precisar anotar mais um pedido para sobrecarregar a cozinha. — Sua mãe ligou.
Keith segurou a respiração, mas só notou depois de se segurar no balcão e suspirar. Não ouvia falar da mãe desde que ligara e ela o dispensou. Tinha muita mágoa, mas a saudade falava mais alto. Estava curioso, o que ela havia dito? O que queria com ele? Por alguns segundos teve esperança e até sorriu, prestes a ouvir algo bom, mas seu pai não estava sorrindo.
— Ela vai ter um bebê.
Keith franziu o cenho, o seu semblante confuso e aborrecido. Ele só conseguia pensar o quanto ela era hipócrita.
— Perguntou de você — seu pai tentou sorrir, mas Keith suspirou. Poderia ter começado com essa novidade.
*
— Depois de muita conversa e análise — Karen começou, encarando os candidatos. Igor estava ao seu lado, todo sorridente. Tristan estava com fome, só havia comido uma barrinha de cereal que Sawyer lhe deu. Sawyer queria fumar, porque quando ele fumava, não ficava nervoso. — Nós decidimos — ela sorriu — por favor, quem não conseguiu ser selecionado, não fique triste! Tenho certeza que teremos outras oportunidades para trabalharmos juntos!
Ela prosseguiu em um monólogo sobre como seria bom aquele verão e trariam felicidade ao bairro até começar a falar quem havia sido escolhido. Ela começou com os garçons e Tristan não foi um dos escolhidos, mas percebeu um grupo de amigos se cumprimentando com um sorriso pretensioso no rosto. Quando Karen chegou à parte de limpeza, Tristan foi o primeiro a ser chamado. Ele sentiu o rosto inteiro corar.
Aproximou-se de Karen e das pessoas que haviam sido selecionadas enquanto ela prosseguia chamando. Sawyer encarava Tristan, se perguntando por que ele estava tão vermelho, mas logo parou de se concentrar em Tristan quando escutou Karen falar seu nome.
Sawyer se aproximou de Tristan enquanto ela continuava chamando o restante dos salva-vidas.
— Você está bem? Parece que pegou sol demais — ele encarou o rosto do amigo.
— Acho que sim — Tristan sorriu.
— A piscina abrirá às oito da manhã, mas vocês precisam estar aqui trinta minutos antes — Igor encarou todos os novos funcionários enquanto os que não foram aceitos se dirigiam à porta, indo embora. Karen encarava as doze pessoas à sua frente, querendo analisar cada um antes do trabalho, para adivinhar quem seria o primeiro a falhar.
Tristan e Sawyer caminhavam a passos lentos para o ponto de ônibus enquanto conversavam.
— Então — Sawyer começou — aparentemente eles querem fazer um clube — ele ergueu a sobrancelha e fez um biquinho — mas vai depender de como será esse fim de semana de inauguração.
— Então eles vão... Privatizar? — Tristan franziu o cenho — A graça dessa piscina era porque podíamos ir... Garotos como nós podem ir. Quem consegue pagar pra passar umas horas se molhando?
— Agora que você tá falando... É mesmo uma merda — Sawyer assentiu, pensativo. Estavam sentados no banco de madeira na sombra do ponto esperando o ônibus, que aparentemente demorava mais nos finais de semana.
— Mas pra quem trabalhar lá... — Tristan considerou e Sawyer concordou, sabendo que era exatamente naquilo em que ele estava pensando quando contou a novidade a Tristan — Vai dobrar o salário.
— Sim — Sawyer estava sorrindo, feliz demais para se abalar e sequer lembrar-se de fumar seu cigarro, mas quando lembrou, o ônibus estacionou e abriu as portas para os dois entraram.
— E aí, como é ser um dos salva- vidas? — Tristan o encarou, as sobrancelhas erguidas, se divertindo.
— Vou saber amanhã, eu acho — Sawyer sorriu, mas ele precisava admitir: estava feliz. Aquele emprego seria uma forma de escape para o trabalho ilícito, porque ele poderia salvar as pessoas.
Tristan, porém, não parecia tão animado. Seu corpo estava curvado para frente no banco do ônibus.
— E você gostou do seu trabalho? — Sawyer perguntou, embora não precisasse: ele conhecia o amigo o suficiente para saber que detestou. Mas era o Tristan, ele não era de reclamar.
— Eu sei que será cansativo — ele tentou sorrir, já parecia cansado. Tristan tentou soar positivo, até ergueu o corpo para cima e se encostou ao estofado rasgado do ônibus.
— Pelo menos temos intervalo — Sawyer riu.
— Você só vai trabalhar por três horas, no máximo — Tristan revirou os olhos, porque havia outros salva-vidas além de Sawyer e porque a probabilidade de alguém se afogar era menor do que a sujeira que Tristan teria de limpar. Ele sabia que estava sendo invejoso e ingrato, mas não parecia o mesmo já fazia algum tempo. Ele só demorou a perceber.
*
Ao que indicava, a mãe de Keith havia construído uma família depois daqueles quase três anos que o abandonou com seu pai. Ela finalmente tinha um marido digno do seu amor e teria uma filha, digna do seu afeto.
Keith estava desolado, mas não queria demonstrar para o pai, que parecia pior. Ele sabia que o pai não estava triste porque sua mãe havia seguido em frente, mas apenas porque ela estava mais feliz que ele. Talvez, depois daquele telefonema, ele finalmente tenha percebido que estava sozinho. Seu filho, crescido querendo lhe servir um lanche e morando com seu amigo. E ele sozinho. Apenas esperando o tempo passar entre uma bebida e outra. Entre uma mulher e outra. Depois do trabalho cansativo é a única coisa que o satisfaz, mas a bebida é a sua companhia recorrente.
— Mesa três e sete — Aiden gritou do outro lado da janela, o que assustou Keith por alguns segundos.
—Você pegou jeito — ele elogiou Aiden quando se aproximou para organizar os pratos nas bandejas — tá gostando de ficar aí?
Aiden não respondeu, apenas encarou Keith com o semblante irritado, o que fez Keith se afastar e servir as mesas com as pessoas famintas lhe encarando do mesmo jeito de Aiden.
O pai de Keith permaneceu onde estava, não tinha lugar algum para ir e gostaria de não se sentir sozinho em casa.
Aiden secou a testa antes de lavar as mãos para prosseguir. Ele achou que ao entrar naquela cozinha tudo seria fácil e fluído, mas percebeu que além de ser uma bagunça, também era sujo. E percebeu que havia subestimado o modo de preparo dos lanches. Cada pedido era um detalhe diferente e aquilo quase o fez entrar em colapso naquela cozinha enquanto o garoto espinhento o encarava. Ele bufou, o menino devia ter pelo menos uns dezesseis anos.
Mas em alguns minutos pegou o ritmo. Ainda faltavam muitos pedidos, mas já começava a ver uma diferença no ambiente.
Após entregar os lanches para as duas mesas sortudas, Keith se aproximou da máquina do milk-shake para entregar ao garoto, impaciente o encarando. Seu pai o seguia com o olhar. Cada passo o observando e aquilo o deixava desconfortável, mas ele não queria fazer uma cena, especialmente quando tinha tanta gente lá dentro.
*
Após o final da escola e tão perto da maior idade, eles aproveitavam o tempo juntos só para desfrutar da única companhia que nunca os decepcionou.
Sawyer e Tristan entraram na lanchonete lotada, imediatamente arrependendo-se da escolha para o almoço. Perceberam que além de todas as mesas estarem ocupadas, Keith estava sozinho e seu pai sentado à sua frente. Sawyer franziu o cenho e se dirigiu para o balcão, porque seria naquele lugar que almoçariam, de qualquer forma.
— Onde está o Aiden? — Tristan perguntou o que Sawyer se mordeu para não perguntar.
— Na cozinha — Keith apontou com o dedão para trás.
Aquilo surpreendeu os dois, se inclinaram sobre o balcão para tentar enxerga-lo, mas só conseguiram ver sua cabeça com a touca branca.
— Vocês estão lotados hoje — Sawyer olhou por cima do ombro, encarando os clientes e falando o que Keith estava cansado de ver.
— Não é assim sempre? — o pai de Keith perguntou, como se de alguma forma ele estivesse participando daquela conversa.
Sawyer pediu um lanche para Keith e colocou a carteira em cima do balcão enquanto saía para fumar um cigarro.
— Caso o Aiden tiver uma folga aí, pede pra ele ir ali fora? — Sawyer pediu antes de se afastar, saiu da lanchonete e seguiu até a parte de trás, perto da porta de saída da cozinha.
Encostou-se à parede e ergueu a cabeça para cima enquanto pegava um cigarro no bolso. Demorou alguns segundos para achar o isqueiro e quando aproximou a chama, não conseguia acender por causa do vento na sombra onde ele estava.
*
— Precisamos de dois números quatro — Keith gritou para Aiden, que apenas assentiu — Sawyer pediu para falar com você assim que estiver livre ai — Aiden ergueu a cabeça alguns segundos, tentando parecer desinteressado e acelerou no processo dos lanches.
Ele não havia com o que se defender, ele sabia bem a saudade que tinha de Sawyer e do que eles compartilhavam juntos.
Mas Keith nunca percebia nada e ajeitava os pedidos na bandeja enquanto Aiden aparecia com mais dois e tirava o avental e a touca.
— Preciso de cinco minutos — ele anunciou para o garoto, que continuou cozinhando. Keith saiu pela portinha do balcão e distribuiu os lanches nas mesas. Aiden saiu da lanchonete, à procura de Sawyer, após Tristan avisar que ele estava na rua.
Aiden demorou a encontrar Sawyer, mas quando deu a volta na lanchonete notou a silhueta escorada na parede enquanto ele soprava a fumaça e encara a casa à frente, sem de fato prestar atenção ao que olhava.
— Queria falar comigo? — Aiden perguntou enquanto se aproximava, Sawyer sorriu quando olhou para o lado e o viu. Seu andar era despreocupado, mas sua vontade era de estender a mão e segurá-lo. Sawyer ficou parado, esperando.
— Não. Só queria te ver longe deles — Sawyer murmurou quando Aiden parou ao seu lado, se escorou e encarou Sawyer, incomodado com o que ele disse e estava pronto para dizer algo quando sentiu a mão gelada de Sawyer tocando na sua. Os dedos magros de Aiden envolveram a mão de Sawyer quando ele puxou o garoto para a sua frente.
Aiden não estava acostumado às demonstrações de afeto de Sawyer e sentiu todo seu corpo se arrepiar quando Sawyer aproximou o rosto do seu pescoço. Sentiu a respiração quente enquanto a fumaça saía da boca de Sawyer e podia escutar o sorriso na sua voz quando ele disse "cheiro de fritura".
Mas aquilo não o afastou, ele passou o braço em volta da cintura de Aiden e o puxou para perto, tragou o cigarro mais uma vez antes de jogá-lo no chão e soltou a fumaça, afastando o rosto do de Aiden.
Eles não estavam escondidos, qualquer pessoa que passasse atrás da lanchonete os veria, mas aquilo não incomodava Sawyer naquele dia enquanto ele segurava Aiden nos braços. Ele queria beijá-lo, mas Sawyer estava com a boca ocupada com um sorriso mostrando todos os dentes.
— Você tá bem feliz — Aiden riu enquanto se afastava aos poucos, mas Sawyer continuou segurando suas mãos à sua frente.
— Eu tô — Sawyer sorriu.
*
Keith deixou os lanches prontos de Tristan e Sawyer no balcão.
— Será que ele vai demorar? — Keith encarou a porta enquanto Tristan comia batata frita e dava de ombros. Estava com fome demais para se importar. — Ele deixou a carteira aqui. — ele pegou a carteira preta e a abriu, pegou uma nota de dez e devolveu o troco, mas antes de fechar a carteira novamente, notou uma embalagem cinza e sabia bem que era uma camisinha. — Nosso amigão é transante — Keith mostrou a camisinha para Tristan, que apenas riu.
— Que bom que ele é preparado, né? — ele ergueu a sobrancelha, sugestivo e Keith lhe mostrou o dedo do meio e fechou a carteira, a colocando em cima do balcão novamente.
O pai de Keith havia ido embora após perceber que seu filho não poderia dar atenção a ele enquanto trabalhava e falava com os amigos. Ele saiu feliz por seu filho estar bem, apesar de tudo que aconteceu na vida deles. Keith podia estar na rua se drogando ou assaltando os pobres velhinhos que saíam do banco após receber o dinheiro da aposentadoria.
Apesar de Keith não saber ou não se importar, seu pai estava orgulho. Mesmo sabendo da tristeza que a notícia sobre sua mãe lhe causou, Keith continuava sorrindo e agindo como se tudo estivesse bem. Seu pai sabia que ele fazia aquilo desde que era criança.
Aiden e Sawyer adentraram a lanchonete enquanto ambos sustentavam sorrisos enormes. O sorriso de Sawyer aumentou quando percebeu que seu lanche estava ali.
— Que fome! — Sawyer se inclinou sobre a comida, como se não comesse há dias.
— Então — Keith pigarreou. Aiden estava se encaminhando para a cozinha — Porque você anda com camisinha na carteira? — ele ergueu as sobrancelhas para o amigo.
A questão não era o porquê, Keith sabia bem. Mas ele conhecia Sawyer o suficiente para saber que ele não estava com nenhuma garota. Sawyer franziu o cenho, sem entender o que Keith estava dizendo. Sua boca estava cheia de pão e carne quando ele disse:
— Deve tá aí há muito tempo — ele deu de ombros, inabalado. Não era de todo verdade, mas Keith não precisava saber de tudo.
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