Welcome to badlands
4 Capítulo Três: bêbados.
A primeira vez que Keith ficou bêbado foi aos treze anos. Ele estava na frente de casa, jogando a bola, escutando os berros dentro de casa.
— Ei — ele escutou a voz de Sawyer e olhou para trás. O garoto maior estava com as mãos nas costas, encarando Keith. O olho roxo de sempre — quer algo melhor que essa bola para esquecer os problemas? — Sawyer ergueu uma sobrancelha para Keith, que o encarou com o cenho franzido enquanto mostrava uma garrava de vodca pela metade.
— Sawyer! — Keith correu até Sawyer, escondendo a garrafa dentro do casaco dele — onde você achou isso? A gente nem tem idade pra beber!
— Sim, na nossa idade deveríamos ainda tomar leite na mamadeira — Sawyer revirou os olhos — para de se comportar como criança — ele riu — eu já bebi antes e foi bem tranquilo — Sawyer deu de ombros.
A primeira vez que Sawyer ficou bêbado foi quando completou doze anos. Seth fez uma festa para ele. Com cigarros e bebida. E depois bateu tanto em Sawyer que ele nem lembrava da sensação da bebida. Só dos chutes e os socos do irmão.
— Você não é bem um bom modelo a ser seguido — Keith murmurou e Sawyer riu — ninguém pode saber, tudo bem? — ele fez uma careta e Sawyer só balançou a cabeça. “Claro, sim!”.
Eles foram para um beco perto da casa de Sawyer. O cheiro de podre não pareceu incomodá-los. Estavam acostumados a estarem no meio de cacos e merda.
Keith sabia que era muito novo para fazer aquilo. Mas ele também era novo demais para escutar seus pais brigando ou sua mãe apanhando. Eram novos demais para lidarem com tudo aquilo. Deveriam brincar, se divertir. E não beber em um beco fedido.
Sawyer estava tão acostumado. Seth lhe deixou tomar um gole de cerveja pela primeira vez quando ele tinha nove anos. O primeiro cigarro aos onze. Seth já lhe disse que o ajudaria na sua primeira transa, mas Sawyer lhe deu um tapa fraco no braço. E recebeu um soco no rosto como resposta.
Keith apreciou o gosto da vodca. Queimou sua garganta e quase podia senti-la descendo goela abaixo. Sawyer tomou um gole mais generoso, acostumado com a sensação de ardência. Acostumado com tanta coisa em sua vida que nada mais o surpreenderia.
Eles ficaram um tempo naquele beco. Observaram o céu escurecer acima deles. Acabaram com o pouco que tinha na garrafa e Keith já estava vendo tudo de um jeito diferente. Suas pálpebras permaneciam abertas com muito esforço, o chão em que estava sentado parecia instável e sua língua estava pronunciando palavras que ele nem queria dizer.
Sawyer não estava melhor que isso, mas conseguia apurar os sentidos e cuidar com o que falava ou deixava de falar. Mas ele lembra do momento que uma figura pequena e familiar apareceu no beco. Com o cenho franzido de preocupação. A única pessoa que se preocupava daquele jeito com eles.
— Sawyer! De novo? — Aiden perguntou, sem paciência para todas as besteiras de Sawyer. As besteiras que ele metia os amigos. Aiden já o encontrou jogado perto do beco com uma garrafa vazia ao lado. Presente de Seth, provavelmente. Ótimo irmão.
— Aiden — Sawyer disse, enquanto Aiden segurava o garoto pela cintura, colocando o seu braço ao redor de seus ombros. Keith estava escorado na parede, assistindo aquela cena. Um sorriso estampado no rosto.
— Eu não quero ir para a casa — ele disse, desfazendo o sorriso e fazendo uma cara de choro. Aiden ficou o encarando, com medo que começasse a chorar. Ele não poderia cuidar de dois bêbados! Duas crianças bêbadas. Quando sua vida ficou tão fodida assim?
— Vamos para a casa do Sawyer.
— Não — Sawyer levantou a cabeça. O seu hálito atingiu Aiden em cheio, que fez uma careta — vamos para a casa do Aiden — ele sorriu, tocando o dedo na bochecha de Aiden, que tirou sua mão dali.
— Vamos cada um para a sua casa — Aiden disse, puxando Keith pelo braço, o tirando de perto da parede do beco.
Aiden levou Keith até sua porta, mas não notou quando o garoto sentou em um dos degraus e permaneceu ali. Aiden estava ocupado carregando Sawyer para notar que Keith nem tocou a campainha da sua casa.
Aiden colocou Sawyer na sua cama. Tentou fazer o mínimo de silêncio possível para não acordar Seth. Não queria despertar sua raiva.
Sawyer fechou os olhos, mas um sorriso se formou rapidamente nos seus lábios. Aiden estava pronto para sair quando escutou Sawyer sussurrar seu nome.
— Fala — Aiden disse, sentando no chão perto da cama.
— Fica aqui — Sawyer murmurou, soltando um bocejo lotado de hálito de álcool. Aiden não queria ficar ali. Os bêbados lhe davam raiva. E medo.
Mas ele ficou. Ele faria qualquer coisa por seus amigos.
A primeira vez que Aiden ficou bêbado foi no dia seguinte. Ele acordou no chão de Sawyer, as costas doendo. E encarou a cama. Sawyer ainda estava dormindo e roncando. Seth apareceu alguns segundos depois e encarou Aiden.
— Você chegou agora? — ele perguntou, semicerrando os olhos para Aiden.
— Sim — ele respondeu. Sabia que essa era a resposta certa. Seth sabia que às vezes eles passavam as noites juntos?
— Ele bebeu, eu acho — Seth entrou no quarto, se encostou na porta. Estava com uma tigela branca comendo cereal com uma colher grande. Ele colocou uma colherada na boca, mastigou e continuou encarando Aiden. Esperando alguma reação.
— Como você sabe? — Aiden perguntou. Será que ele viu os dois entrando ontem? Ele apareceu no quarto de madrugada?
— Conheço cheiro de bebida, garotinho — ele disse. “Garotinho”, Aiden pensou. Tantas coisas Sawyer herdou do irmão. Era uma pena.
Sawyer acordou um tempo depois e se deparou com a cena mais bizarra: Aiden e Seth sentados no chão do seu quarto conversando e bebendo. Ele esfregou os olhos. Era um sonho, com certeza.
Mas não era. Os dois estavam encostados na parede ao lado da cama, bebendo cerveja e uma garrafa de tequila estava intacta ao lado de Seth.
— Acordou — Seth disse, daquele jeito alegre que ele ficava quando estava bêbado.
Sawyer estremeceu. Depois do estágio “alegria” vinha “raiva”. Ele sabia que apanharia. E estava acordando naquele momento apenas. Acordar com uma notícia dessas não era lá muito bom.
— Vem beber! — Aiden disse, a língua toda enrolada. Sawyer franziu o cenho. Universo paralelo, talvez? Aiden não bebia. Ele odiava.
Mas eles beberam. E era como se os três fossem amigos. Aiden dormiu na cama de Sawyer naquela tarde, murmurando coisas sem sentido. Seth não bateu em Sawyer. Apenas saiu do quarto e disse que precisava ganhar dinheiro.
Seth saiu de casa naquela tarde e notou Keith jogado no chão. Quando se aproximou notou que ele estava dormindo. Sem nenhum arranhão.
— Keith — Seth o chamou. Keith abriu os olhos. Estavam vermelhos. Ele também fedia à bebida. Seth balançou a cabeça.
— Oi — ele disse, sentando no chão e se espreguiçando. Seth ajudou Keith a entrar em casa e saiu correndo de lá quando notou o pai de Keith, muito bravo, andando na direção dos dois.
Seth tinha sua dose necessária de drama para se meter em outra. Então apenas saiu da casa de Keith para fazer seu dinheiro na rua.
Tristan dificilmente bebida. Ele bebia alguns goles com os garotos, mas a primeira vez que ficou bêbado de verdade ele tinha quase quatorze anos. Era o começo da mudança. Tristan por muito tempo acreditou ser o culpado pela mudança entre eles. Ele não lembra de muita coisa que aconteceu naquela noite. Ele consegue ver claramente o momento em que estava deitado na cama de madrugada e escutou alguém o chamando no andar de baixo. Mas não vinha de dentro da casa e não era a voz da tia.
Quando Tristan foi para a janela a primeira pessoa que viu foi Keith, depois notando Sawyer e Aiden deitados no chão sujo. Keith fez sinal com a mão o chamando para descer. Ele não queria acordar sua tia, mas saiu devagar da casa, encontrando os amigos.
— Te acordei? — Keith perguntou. Sua voz estava alterada e olhando de perto ele podia notar duas garrafas no chão e uma delas estava vazia, mas Tristan não sabia qual bebida era. Sawyer estava apontando para o céu, conversando com Aiden.
— Não — Tristan murmurou — podemos sair daqui? — ele pediu, quase implorando e Keith apenas deu de ombros e chamou Sawyer e Aiden.
Eles seguiram para a praça. Estava vazia. O bairro estava quieto naquela madrugada. Tristan não queria beber, mas não queria voltar para a casa.
Sawyer foi para o balanço e ficou gritando que entraria em alguma nuvem. Aiden disse que era mais fácil ele habitar alguma estrela e Keith revirou os olhos, pensando em como os dois eram idiotas.
— Se você não quiser, não precisa — Keith garantiu a Tristan, mas ele tomou um gole. Ele conhecia o gosto, mas quando notou que tinha bebido mais que o normal, não ficou decepcionado. Nem bravo. Ele estava aliviado em ter aguentado tanto.
Tristan lembra do gira gira. Lembra que Sawyer ficava gritando “mais rápido. Mais forte”. Lembra de Keith rindo e olhando para cima. Lembra de Aiden ameaçando vomitar umas três vezes. Os cabelos de Keith voando e ele os tirando da frente dos olhos. Tristan tentando encostar o pé no chão para parar de girar. Aiden saindo do gira gira e caindo com as costelas no chão. Ficou deitado por algum tempo, tentando se recuperar.
Sawyer continuou, cada vez mais rápido. Ele estava fazendo um jogo: quem venceria? Aiden já tinha saído, apenas observando os três girando e girando. Sua cabeça fazendo o mesmo movimento. E quando ele notou que em breve não aguentaria, desviou os olhos. Sentia o vômito se aproximando, mas ele engoliu em seco e sentiu alguém chutando sua canela. Keith estava jogado no chão, aos seus pés, do mesmo jeito que ele havia caído.
Aiden e Keith ficaram observando enquanto Sawyer e Tristan giravam cada vez mais rápido. Eles notaram a expressão de Sawyer. Ele não queria perder, mas estava no seu limite.
Tristan parecia relaxado. Muito diferente de como era normalmente. Ele estava rindo. Sawyer estava sério, o cenho franzido.
E então Sawyer sentiu que não aguentaria e parou o brinquedo. Tristan o encarou, confuso. Sawyer saiu do gira gira pisando firme, passou entre Keith e Aiden, batendo em seus ombros. Tristan permaneceu ali. Pousou as pernas onde estava sentado e deitou o corpo no chão. Aiden e Keith se aproximaram de Tristan enquanto ele cantava. Era uma canção de ninar. Aquela do bicho papão. E seus olhos estavam arregalados. Ele parecia com medo. Mas então notou Keith e Aiden em cima de sua cabeça, os dois o encarando com uma expressão de confusão. E então Tristan sorriu: ele estava seguro. Longe do bicho papão.
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