Welcome to badlands

5 Capítulo Quatro: a casa.


As coisas não pareciam melhorar, mesmo enquanto eles ficavam mais velhos. Não se distanciaram mais. Depois daquela noite no posto eles ficaram ainda mais próximos. Naquela noite muita coisa foi estabelecida, mesmo sem ser dita.

Eles sabiam o que diziam deles. Eles nem ligavam para isso. As pessoas tinham inveja daquela amizade. Para onde uma pessoa normal iria quando as coisas ficavam difíceis em casa? Eles tinham uns aos outros e ninguém parecia ter isso.

Keith parou de contar quantas garotas o pai levava para a casa. No aniversário de quinze anos de Keith a mãe finalmente saiu de casa, foi embora para outra cidade. Sem aviso. Sem telefonema. Ele ficou com o pai, mas era como se ele estivesse sozinho. Ele sabia quando o pai estava em casa quando ouvia o barulho da cama. Eles não conversavam. Não era preciso.

Tristan não estava em melhores condições. Já conseguia desviar muitas vezes, mas ele era um garoto já. Difícil lidar com algo assim. Mas ele continuava saindo de casa o máximo que conseguisse. Às vezes passava as noites com Sawyer e Aiden. Outras vezes ia com Keith até a casa de Vanny. Depois da noite no posto eles começaram um relacionamento estranho. Keith e Vanny não estavam namorando, mas eles definitivamente tinham algo. A primeira vez deles foi no carro do pai dela, uns dias depois que a mãe dele foi embora.

Aiden praticamente tinha se mudado para a casa de Sawyer. Seus machucados diminuíram, mas ele preferia ficar longe do seu pai e da sua família.

Seth continuou batendo em Sawyer, mas em algumas vezes ele conseguia revidar. Deixando Seth orgulhoso e determinado a continuar.

Em uma noite qualquer eles estavam na praça, aproveitando a noite de outono. Observando algumas flores no chão, a maioria pisoteada. Mas Tristan adorava observar a beleza naquilo. Que incrível poder olhar para o chão e ver algumas cores, mesmo distorcidas. Claro, ele já estava um pouco bêbado, mas nada que não pensaria sóbrio.

Sawyer estava deitado no chão, ele nunca se importava com a areia suja. Uma vez até acharam um dente podre, mas Sawyer era o tipo de garoto que pegava essas peculiaridades e as levava nos bolsos, como amuletos da sorte. Claro que nunca funcionava.

Keith estava no balanço, meio tonto por causa da cachaça e Aiden estava em pé em cima do escorregador, pronto para descer.

— Aí vou eu! — ele gritou, de um jeito embriagado e caiu em cima de Sawyer, que estava com as costas doloridas e o baque só piorou, mas ele estava rindo. Todos eles estavam rindo.

— Deveríamos ir para algum lugar — Keith murmurou. Naquela noite Vanny não poderia vê-lo, mas ele escolheria ficar com os amigos, de qualquer forma.

— Onde? — Sawyer levantou, gemendo de dor, enquanto Aiden pulava ao seu redor, correndo até o escorregador. Aiden parecia drogado demais para pensar.

— Vamos invadir a casa? — Keith arregalou os olhos e se aproximou de Sawyer. Tristan, que estava um pouco atrás observando as flores, se juntou a eles. Ele não gostava da “casa”, mas não queria parecer medroso.

Há alguns anos uma casa foi abandonada naquele bairro. Muitas histórias de terror a cercavam, nenhuma em teoria parecia verdadeira, mas ninguém se arriscava a ir até lá.

— A mulher se matou lá mesmo? — Aiden perguntou. Parecia estar no céu, de tão longe que sua voz estava, mas estava sentado no escorregador, observando os garotos.

— Não sei — Keith bufou — não tem medo dos mortos, né? — ele revirou os olhos para Aiden, que deu de ombros e desceu novamente, dessa vez sem machucar Sawyer.

— Acho melhor não — Tristan disse, esfregando os olhos — vocês ouviram as histórias, certo? Nem o irmão do Sawyer vai lá.

— Ele vai, sim — Sawyer murmurou, encarando Tristan — ele não deixa a gente ir, é diferente.

— Por que ele não quer que a gente se assuste! — Nem Tristan acreditava nisso, mas precisava convencê-los a não ir.

— Para de ser medroso — Keith rosnou — Seth não manda em nada.

— Gente — Aiden bufou, parecia sonolento — não vamos, não.

— Tá com medo também? — Sawyer levantou do chão e limpou a calça.

— Não — Aiden revirou os olhos — mas tô com sono.

— Beleza — Sawyer arregalou os olhos, daquele jeito que ele fazia quando tinha uma (terrível) ideia. — Vamos dormir lá!

Todos eles pensaram por uns instantes. Eles sabiam que seria bom dormir longe de casa. Mesmo em uma casa, supostamente, assombrada. Mesmo em um lugar horrível, mas estariam perto um do outro. Tristan não precisaria esquivar de nada. Aiden não precisaria se contorcer no chão. Sawyer não precisaria ver sua mãe, dopada de remédios e nem apanhar do seu irmão. Keith não precisaria ver mulheres nuas andando pela casa. Todos ganhariam algo não voltando para a casa.

— Tudo bem — Tristan foi o primeiro a concordar, esperando não se arrepender da decisão.

Era uma casa como qualquer outra. Ninguém sabia ao certo a história da casa ou da família que morava ali. Algumas pessoas do bairro diziam que escutavam vozes à noite vindo da casa, outras apenas diziam que ali era onde rolava “a putaria”, mas ninguém sabia ao certo qual era a verdade. Talvez as duas.

Era no fim do bairro dos garotos, uma caminhada longa, muito mais naquele frio do outono, mas todos eles estavam determinados em ir até lá e esquecer dos problemas em casa por pelo menos uma noite.

Ouviram sussurros do vento no instante em que entraram na casa. Ela parecia, de fato, abandonada. As lâmpadas foram roubadas, o sofá estava com o estofamento aparecendo, aquela espuma nojenta e amarelada. A escada para o segundo andar estava em pedaços, a madeira quebrada ao meio, o corrimão inclinado para a esquerda, parecendo prestes a deslocar do lugar.

Tristan foi até a cozinha, não para procurar algo para comer, seria idiotice, mas sim para conhecer melhor o lugar. Duas cadeiras de madeira estavam jogadas no chão, uma delas estava despedaçada. A janela que dava para a quadra de futebol estava quebrada, a forma perfeita de uma bola grande e alguns cacos de vidro em cima da pia. Tristan abriu a torneira e uma água escura saiu, junto com um barulho estranho.

Aiden abriu a geladeira a observou por alguns segundos. Piscou os olhos duas vezes, tentando analisar melhor.

— Pessoal — ele chamou, os olhos tentando se acostumar com a escuridão dentro da geladeira vazia — acho que tem um rato morto aqui — ele murmurou, para ninguém em particular, ainda tentando ver se estava certo. O cheiro, sem dúvida, era de coisa morta.

— Ah, que nojo — Tristan se afastou da cozinha enquanto Sawyer e Keith se aproximavam.

— Deixa eu pegar — Sawyer foi andando em direção à geladeira, mas Aiden o segurou pelos ombros e o afastou.

— De jeito nenhum esse vai ser seu amuleto da sorte — Aiden disse rindo e balançando a cabeça. Keith olhou por alguns segundos e fez uma careta.

— Com certeza tem algo morto ai — ele riu — mas não consigo ver rato algum — ele disse depois de fechar a geladeira.

Seguiram até a escada quando deram por encerrado o tour no primeiro andar. Aiden estava na frente, tentando não pisar em falso e cair. Sawyer estava atrás, pronto para segurá-lo caso fosse preciso. Keith observava o chão, com receio de encontrar alguma coisa viva. Tristan seguia por último, sempre olhando por cima do seu ombro, com medo.

— Preciso ir ao banheiro — Keith disse quando chegaram ao andar superior. Uma das portas estava torta, não conseguindo fechar por completo um dos cômodos. Keith seguiu, à procura do banheiro, com a mão na frente da sua calça e as pernas tortas, tentando segurar para não mijar nas calças.

— Acho que é lá — Sawyer disse, apontando para a porta distante que estava entreaberta. Keith entrou rapidamente, escancarando a porta, e nem se importou em fechar. Nada que os garotos não tivessem visto.

Sawyer entrou na porta torta, encarando o quarto. Era pequeno, apenas um colchão rasgado, sem lençol, no chão e uma janela sem vidros ou cortinas.

— Acho que vou roubar e levar pra sua casa — Aiden murmurou, encarando Sawyer.

— Não seja bobo — Tristan se meteu — não vai querer algo assim na casa do Sawyer, né? Imagina o que já aconteceu nessa cama! — ele fez uma careta e Sawyer e Aiden riram.

— Ele tem razão, sabe — Sawyer disse, arqueando a sobrancelha enquanto eles se retiravam daquele quarto.

— Verdade — Aiden murmurou — não precisamos de outra cama — ele continuou, mesmo sabendo que Sawyer não escutou, já estava se aproximando da outra porta.

— Uau — Sawyer encarou o lugar. Era um quarto maior. Uma cama de casal quase perfeita no meio, ao lado de um criado-mudo quebrado. Era incrível algo bom assim ainda existir ali.

— Não acredito que ninguém roubou — Tristan disse, admirado.

— Talvez ainda usem — Keith murmurou, chegando por trás dos garotos e os assustando — o banheiro é uma nojeira. Tinha merda na privada e nem consegui dar descarga! — ele revirou os olhos, fazendo careta — tiraram o chuveiro, também — ele riu — tem só aquela mangueirinha, sabe? E uma cortina rasgada. Acho que roubaram o espelho também, por que tem um formato perfeito de espelho em cima da pia, mas tá vazio — Keith deu de ombros e se jogou na cama, que logo fez um barulho de madeira quebrando, mas pareceu ceder ao peso do pequeno Keith.

— Vamos dormir todos aí? — Aiden perguntou, genuinamente. Não era grande coisa, afinal.

— Não, eca — Keith riu — posso dormir no sofá.

— Não — Sawyer revirou os olhos — eu pego o colchão do outro quarto e vamos todos ficar aqui.

— Acho que o Saw tá com medo de ficar cada um em um canto — Aiden cutucou a barriga de Sawyer, que a retirou com um tapa fraco.

— Apoio todo mundo junto — Tristan murmurou, indo até o outro quarto e ajudando Sawyer a carregar o colchão.

Keith já estava se preparando para deitar no colchão de solteiro quando escutaram o barulho do vento pela janela do quarto maior. Era a única com todos os vidros, mas a janela estava emperrada e não conseguiram fechar.

— Tem gente vindo — Keith disse, encarando a janela. Sawyer se aproximou e viu dois homens mais velhos se aproximando da casa.

— Vamos jogar algo neles — Tristan disse, pegando um dos travesseiros, mas Aiden o pegou de sua mão e o encarou.

— Vamos dormir com isso, imbecil — ele disse, voltando a atenção para os homens.

— Vamos assustá-los!

— O que eles estão fazendo aqui? — Sawyer franziu o cenho.

— Talvez seja a “putaria” que todo mundo fala — Keith murmurou, ainda encarando os homens. Eles usavam ternos, nem pareciam ser daquele lado da cidade. Pareciam finos e elegantes para um lugar como aquele.

— Não — Aiden balançou a cabeça — duvido muito. Não vejo ninguém mais, só os dois.

Os homens, parecendo notar que estavam sendo observados, ergueram o rosto na direção da janela e Keith, Sawyer e Aiden conseguiram se esconder a tempo, mas Tristan continuou encarando, tentando entender o que estava acontecendo.

— Tristan! — Aiden o puxou pela camiseta, mas ele empacou, encarando os homens, que estavam começando a se afastar da casa.

— Tá tudo bem — ele disse quando os garotos o encararam, impacientes — eles foram embora.

Os garotos, finalmente convencidos enquanto viam os homens cada vez mais longe, se jogaram na cama. Keith sozinho no colchão e Aiden, Sawyer e Tristan dividindo a cama maior. Tristan ficou no meio, estava feliz de dormir em outro lugar, nem se preocupando com a porta, que estava aberta naquela noite. Aiden estava tentando se ajeitar, a cama era boa, mas preferia a cama de Sawyer, que não parecia tão apertada quanto aquela.

— Vê se não vai peidar — Aiden murmurou para Tristan, que riu nervoso.

— Calem a boca — Keith disse, tentando dormir, mas o vento os fustigava.

Sawyer já estava adormecido, os olhos quase fechando, quando notou que alguém o observava. Ergueu a cabeça e encarou a porta, mas não havia nada ali. Olhou para o lado na cama e notou Aiden, a cabeça apoiada na mão, o cotovelo repousando no colchão. Aiden o encarava, mas demorou para notar que Sawyer também estava o olhando.

— Boa noite — Aiden murmurou para todos, mas encarando apenas Sawyer.

Era de madrugada quando Sawyer escutou alguns sussurros. Ele pensava se tratar de todas as histórias de terror e estava pronto para fechar os olhos e dormir novamente quando escutou a voz do seu irmão. Ele ficou alerta. “Ele veio até aqui me bater?”, pensou, em desespero. Mas Seth não estava por perto enquanto ele saía do quarto. Seth não parecia estar em lugar nenhum. “Sonhei, com certeza”. Ele estava pronto para se afastar quando escutou um gemido baixo vindo do banheiro. Ele pensou em ir até lá e ver o que estava acontecendo, mas quando notou que a porta estava fechada resolveu nem se meter.

Quando Sawyer acordou estava ao lado de Aiden. Tristan não estava mais ali na manhã seguinte. Olhou para o chão, procurando por Keith, mas o colchão estava vazio.

— Aiden — Sawyer o cutucou, tentando o acordar. Aiden fez um barulho com a boca e afundou o rosto novamente na cama.

Sawyer levantou, indo atrás dos garotos. Procurou por toda a casa. Entrou no banheiro, que estava com a porta aberta, e não encontrou nada. Ninguém.

Quando estava pronto para descer as escadas, viu os cabelos de Keith no sofá.

— Dormiu ai? — Sawyer cutucou o garoto, que estava bebendo uma latinha de cerveja — da onde tirou isso?

— Tristan ronca demais — Keith murmurou, já estava um pouco bêbado e ainda era de manhã — seu irmão deixou aqui ontem.

— Meu irmão? — Sawyer arregalou os olhos.

— Ele estava na frente da casa bebendo cerveja — Keith se virou para encarar Sawyer e lhe entregar a latinha quase vazia — e cheirando — Keith fez uma careta.

— Tava sozinho? O que ele tava fazendo aqui?

— Ah, Saw — Keith pegou a lata de volta e terminou de beber o que havia dentro — eu não sei, mas ele estava sozinho. Faz pouco tempo, na verdade. Quando amanheceu eu desci para beber alguma coisa e o vi.

— Ele te viu?

— Claro — Keith murmurou — perguntou o que eu estava fazendo aqui — Keith riu — e eu disse que dormimos aqui. E então ele foi embora.

Sawyer seguiu até a frente da casa, tentando ver o irmão em algum lugar. Depois foi até a cozinha, procurando por trás da quadra. Seth não estava em nenhum lugar. Mas Sawyer notou aquele pó branco característico de Seth na bancada da cozinha, perto da pia. Sawyer revirou os olhos. Ele estava ali, sim.

— E Tristan? — Sawyer virou-se para Keith, que estava escorado na porta da cozinha.

— Saiu — Keith deu de ombros.

— Não o impediu?

— Não sou pai dele, Sawyer — Keith bufou. Ficava bravo quando não dormia bem. Ou quando bebia.

— Beleza — Sawyer murmurou e saiu da cozinha, indo até a porta da frente — acorda o Aiden. Nos encontramos mais tarde.

Tristan estava agachado na frente da casa dele naquela manhã. Sua camiseta estava rasgada. Sawyer olhou para todos os lados, não encontrando nenhum culpado, mas Tristan nem parecia ciente do que se passava com ele mesmo. O garoto se balançava, as mãos em volta dos ouvidos, murmurando e chorando. Sawyer não escutou nada. Não entendeu nada. Apenas pegou Tristan no colo e o levou até sua casa.