Welcome to badlands
48 Capítulo Quarenta e Sete: suicídio.
Tristan não se importava em ser a única pessoa sóbria, mas cuidar de alguém bêbado não foi o jeito que ele esperava terminar aquele aniversário.
Keith estava com a cabeça escorada na janela ao lado de Tristan, que dirgia cuidadosamente pela rua escura. Keith parecia estar dormindo, com os olhos fechados e a boca aberta, parecendo ter sido engolido pelo sono, mas ele abriu os olhos e sentou-se, sentindo o cinto o pressionar de volta no assento.
— Eu preciso vomitar – sua voz era fraca, parecia que logo seria interrompida pelo vômito, mas Tristan o encarou, apavorado. Percebeu que Keith parecia ainda mais branco, mesmo na escuridão do carro e da rua. Ele acendeu a luz, ainda encarando Keith.
— Não vai vomitar aqui dentro – ele dizia enquanto dirigia o carro até o acostamento e no segundo que o carro parou, Keith brigou com o cinto para tentar abri-lo e quando finalmente se livrou, saiu do carro e vomitou no chão.
Aiden e Sawyer só perceberam naquele momento que o carro havia parado.
— Cadê o Keith? – Sawyer perguntou e Aiden encarou o amigo pela janela, vomitando apenas liquido.
— Vomitando – Aiden colcou a mão na boca e desviou a atenção para Tristan, impaciente. – Porque ele não ficou com a Ingrid? Seria mais fácil pra ela cuidar dele.
— Pelo que eu entendi, ela não queria que a mãe dela visse o Keith desse jeito – Tristan respondeu, ainda encarando Keith.
Depois de Keith parecer satisfeito em deixar seu rastro na rua, ele voltou ao seu lugar, colocou o cinto e deu um sorriso para Tristan, que precisou ignorar a sua boca suja e virar para a frente, saindo do acostamento.
O cheiro pareceu impregnado em cada canto do carro, então Tristan abriu as janelas e torceu para ninguém mais querer vomitar. Keith fechou os olhos novamente e o ronco dele era o único barulho dentro do carro.
*
Quando chegaram ao apartamento, Keith escancarou a porta e entrou.
— Durmam onde vocês quiserem – ele estava dizendo enquanto entrava, seguiu para a área de serviço e pegou um balde, indo até seu quarto. – No meu quarto só tem o chão e o berço. Boa noite – eles escutaram a porta batendo e o silêncio encheu a sala.
Tristan fechou a porta e encarou Sawyer e Aiden, que não pareciam bem, mas não prestes a vomitar.
— Eu vou deitar no sofá – Tristan foi até a sala quando percebeu que eles não iam se mexer. – Podem ir – ele apontou para o fundo do corredor, onde era o quarto de Aiden.
Tristan se jogou no sofá e fechou os olhos, decidindo dar privacidade para os dois, mas também estava com sono. Escutou os passos e percebeu quando a sala ficou escura, mas não escutou mais nada.
Sawyer e Aiden se encararam por alguns segundos antes de Aiden fechar a porta.
— Não vai ficar ruim de dormirmos juntos?
— Keith não vai lembrar de nada amanhã e Tristan não pareceu se importar – Aiden deu de ombros, se aproximando de Sawyer.
Apesar da decepção presente em cada movimento de Aiden, sua mão entrelaçando a de Sawyer não era hesitante.
Eles se despiram e deitaram na cama, mas sentiam tudo girando ao redor e só conseguiram dormir quando perceberam os raios de sol entrando pelo quarto.
*
Tristan gostava de ser a única pessoa que dirigia dos quatro. Porque daquela forma estariam sempre juntos. Naquela manhã ele precisava levar cada um para seu compromisso, mas nenhum deles parecia bem. Tristan, mesmo sem ressaca alguma, não havia dormido bem no sofá. Keith, que tomou um banho demorado para tirar todo o cheiro de vômito, parecia cansado demais. Sawyer e Aiden tinham olheiras profundas, denunciando a falta de sono.
Tristan deixou Keith na lanchonete e depois seguiu para o beco, para deixar Sawyer e Aiden.
Sawyer encarou Aiden antes de se despedirem, enquanto observavam o carro de Tristan se afastar.
Aiden ajeitou sua gravata e percebeu que Sawyer o encarava.
— Tá tudo bem?
— Eu que te pergunto. Estamos bem?
— Na medida do possível – Aiden sorriu – você não precisa ir pro trabalho? Seth deve estar te esperando.
Sawyer sentiu uma pontada de arrependimento. Por ter contado a Aiden, por ter perguntado se estavam bem.
Mas Aiden ainda o olhava, e seu olhar era de preocupação.
Sawyer queria dizer para que ele não se preocupasse, que tudo ficaria bem.
Mas Sawyer odiava mentiras.
*
Tristan abriu a porta de casa com cuidado, porque não sabia se sua mãe estaria acordada, já que o carro de Osmar não estava estacionado em frente à casa.
Quando entrou, Zion começou a latir aos seus pés. Ele afagou o cachorro na porta e ao cruzar a sala, viu sua mãe sentada no sofá. O olhar era distante, encarando o nada.
— Mãe?
Daisy virou o rosto para onde a voz de Tristan surgia e soltou um suspiro longo.
— Filho... – Ela levantou e parou a frente dele – ligaram hoje de manhã da cadeia. Sua tia morreu.
*
Keith havia esquecido do almoço com sua mãe, mas ao meio dia em ponto, lá estava ela. A única pessoa dentro da lanchonete.
— Vamos almoçar onde? – Sabrina sorriu para o filho, ignorando seu semblante cansado. Ela via aquela mesma expressão no pai dele, depois de beber. Ela balançou a cabeça, afastando os pensamentos.
— Podemos comer aqui? – Keith fez uma careta – eu não posso sair.
— Cadê o menino que trabalhava contigo? – ela procurou pelo lugar, como se Aiden fosse surgir do nada.
— Está trabalhando em um restaurante. Eles podem preparar um lanche com batata frita, aceita? – Keith perguntou, apontando para a janela da cozinha. Sabrina assentiu, mesmo que só a simples menção do lanche a fizesse sentir o estômago revirar.
— Porque você também não trabalha em um? Não pretende ficar aqui, né? – Sabrina perguntou, observando Keith indo até a janela da cozinha. O escutou quando fez o pedido e esperou que ele se aproximasse.
— Foi o namorado dele que arranjou pra ele, mas eu realmente preciso de um...
— Namorado? – Sabrina franziu o cenho, o que fez Keith perceber que havia falado demais.
— Por favor, ignora o que eu falei – ele implorava – porque eles não sabem que a gente sabe.
— Eles quem? – Sabrina pensou por alguns segundos, lembrando-se dos amigos do filho – aquele de cachos?
— Não, não. O careca.
— Ah – Sabrina não escondeu a surpresa, mas Keith não deixou que ela perguntasse nada.
— Então, você vai ao hospital para ver o nascimento da Lara?
— Mas é claro! Em breve a minha também vai. – ela alisou a barriga, sorrindo para a criança lá dentro.
Keith não sentia-se mal vendo aquilo. Ele quase sentia uma certa felicidade em ter a mãe de volta assim. Seu pai só havia mandado uma mensagem lhe parabenizando pelo aniversário, mas não esperava nem aquilo dele.
— Você deveria se mudar daqui – Sabrina prosseguiu, ela olhava a lanchonete com desprezo e aquilo não era uma surpresa para Keith, já que ela deixava evidente que odiava tudo naquele bairro.
— Meu salário mal paga a minha parte do aluguel. E depois que a Lara nascer, o dinheiro vai ir embora ainda mais rápido, não tenho como sair daqui.
— Você poderia morar comigo.
Keith não quis desdenhar daquilo ou fazer uma careta para não magoar sua mãe.
— Eu não voltaria a morar com você e nem com meu pai, desculpa falar...
— Não precisa dizer mais nada, eu te entendo – ela deu um sorriso despreocupado. – Mas vou dar um jeito de encontrar um emprego melhor pra você.
Keith não discutiu, sabia suas boas intenções com aquele gesto, mas não queria se iludir.
*
Sawyer aprendeu muitas coisas com seu irmão. Por pior que isso soasse, Seth sempre lhe ensinava sobre sobrevivência, mesmo não sendo um bom exemplo. Uma das coisas que aprendeu foi que às vezes a vingança demorava a chegar. Demorou alguns meses até o dono do tráfico do bairro Alcantra, na parte nobre, responder às ameaças de Seth. Naquela tarde, observando Seth encarar o conteúdo dentro de uma caixa pequena, ele tinha certeza de que tinha dado problema. Seth dificilmente se surpreendia com seus rivais, às vezes os conquistava na lábia, mas ele foi se meter com um dos grandes, não estava preparado.
Sawyer demorou para se aproximar, porque alguns garotos estavam vomitando. Mas Seth continuava com os olhos arregalados, tremendo enquanto segurava a caixa.
Sawyer se aproximou e demorou a notar o que era.
O olho parecia o encarar de volta. A pupila dilatada mostrando apenas uma linha fina de azul. Ele não sentiu enjoo até perceber que era um olho de uma pessoa.
Mas não vomitou, sequer demonstrou algo, porque estava ocupado encarando seu irmão.
Seth virou o rosto para ele, fechou a caixa e a jogou em um lixo.
Sawyer o conhecia o suficiente para saber que aquilo o atingiu, mas ele não sabia quais seriam seus próximos passos. Revidaria? Não faria nada?
Seth não lhes deu ordem, mas ecoou:
— Parem de ser maricas e vamos trabalhar. Claramente foi só pra nos apavorar – Sawyer conhecia Seth o suficiente para reconhecer a falha na voz. Ele queria demonstrar que estava tudo bem e aquilo pareceu convencer seus cachorrinhos, mas Sawyer não.
Porém, não havia nada que ele pudesse fazer e não queria falar sobre aquilo com Seth, então focou em seu trabalho e tentou ignorar a imagem do olho ainda em sua mente.
*
Keith não conseguia dormir naquela madrugada. Não sabia se era pela falta de Ingrid, por ainda se sentir bêbado ou pela conversa com sua mãe.
Ele decidiu então assistir "velozes e furiosos", que o ocuparia naquela madrugada.
Keith se ajeitou no sofá e esticou os pés na mesinha de centro, foi quando viu um óculos de sol ali. Era da Ingrid.
Ele demorou a se acostumar com a presença de uma garota no apartamento. Ingrid ia para lá sempre que voltava da faculdade e desde que ela havia entrado de férias, seu tempo com ele havia aumentado. Naquela noite ela só não estava lá porque tinha exame no dia seguinte. E às vezes era bom ficar sozinho, mas era possível notar algumas coisas dela pela casa. Suas roupas surgiam aos poucos ocupando as gavetas de Keith, sua escova de dentres entre a dele e a de Aiden, dentro de um copo com tampa no banheiro. Ele sabia que dentro de pouco tempo seriam brinquedos e roupas da Lara por todo apartamento.
Aquilo o deixava levemente apavorado.
Ele não estava prestando atenção no filme quando notou Aiden no corredor. Estava tudo escuro e silencioso.
— Aconteceu algo? – Keith perguntou, se inclinando e pausando o filme.
— Tá muito alta essa televisão – Aiden bocejou e esfregou os olhos.
— Vem assistir comigo! – Keith bateu ao seu lado no sofá, chamando Aiden, mas ele continuou onde estava.
— Vai dormir, Keith. Não é nem cinco horas.
— Vem assistir comigo! – Keith o chamou, mas Aiden permaneceu onde estava, sonolento e em dúvida se voltava para a cama ou resolvia aquela situação. Keith deu play no filme novamente e se concentrou.
O som dos carros e tiros havia acordado Aiden, mas ele ponderou muito antes de sair da cama e enfim descobrir o que era toda aquela barulheira. Ele só queria pedir que Keith abaixasse o volume, mas percebeu que o amigo parecia eufórico — imitando os golpes que passava na televisão – e distraído, porque Aiden falava com ele, mas Keith permanecia com os olhos grudados na tela.
Keith adorava uma boa cena de luta.
— Você dormiu? — Aiden sentia os olhos cansados, mas sua energia estava a mil. Keith virou o rosto para onde ele estava antes de responder, tentando tirar a concentração da cena.
— Umas duas horinhas — ele deu de ombros, mas era uma mentira, porque ele não havia dormido de jeito algum naquela noite.
— Você está usando de novo? — Aiden perguntou, tão baixo que Keith teve de pausar o filme novamente e encarar o amigo. Aiden repetiu, soando incerto.
A expressão no rosto de Keith mudou rapidamente. Ele cerrou o maxilar e pegou o controle com raiva, desligando a televisão.
Keith levantou do sofá e ao passar pelo corredor tombou no ombro de Aiden e ficou de frente para ele.
— Eu não faria isso, porra.
Aiden arrependeu-se do que pensou e perguntou, mas resolveu ficar quieto e apenas observar enquanto Keith trancava-se no quarto. Aiden estava em dúvida, não sabia se logo resolveriam aquele mal entendido ou nunca mais falariam sobre aquilo novamente, que era o que estavam tão acostumados a fazer.
Ele não conseguiu dormir naquela noite pensando no que havia feito. Ele sabia, de alguma forma, que Keith não voltaria a experimentar, mas foi estranho vê-lo daquele jeito de madrugada, Aiden assustou-se, temendo morar com outro viciado.
Mas Keith não faria aquilo porque ele tinha motivos para permanecer sóbrio.
Aiden pensou em ir até seu quarto e pedir desculpas, mas achou melhor deixar para conversarem no dia seguinte, quando estivessem mais calmos.
Porém, como todas as coisas que Keith não gostava de enfrentar: ele evitou a conversa. No dia seguinte agiu como se nada tivesse acontecido e Aiden considerou que aquela forma de lidar com as coisas era melhor.
Mas antes de se afastarem e cada um ir para o seu trabalho, Aiden o chamou, o som da sua voz tão baixo que quase foi silenciado pelos passos de Keith se afastando.
— Desculpa por ontem.
Keith não disse nada, mas Aiden percebeu a forma como sua expressão mudou, ficando mais suave enquanto ele se afastava e Aiden prosseguia seu caminho para o restaurante.
*
Tristan não soube como lidar propriamente sobre o que aconteceu. Achou justo contar aos amigos, decidindo fazer isso antes de ir trabalhar. Sawyer foi o primeiro a esboçar alguma reação ao comentário, deixando claro sua animação com o ocorrido.
— Pessoas ruins merecem morrer – Foi o que Sawyer disse, mas em seus pensamentos ele só conseguia lembrar de Aiden e do que eles haviam conversado naquele banheiro apertado.
Aiden olhou para Sawyer rapidamente quando ele disse aquilo, mas não foi capaz de dizer nada sobre a morte de Eleanor.
— E como ela morreu? – Keith indagou.
— Disseram que foi suicídio... – Tristan estava incerto sobre aquela explicação, não sabia como uma pessoa se sentia dentro de uma prisão.
Mas algo dentro dele desejava que ela tivesse sofrido mais. Da mesma forma que fez ele sofrer.
Embora os pensamentos fossem cada vez piores, aquele era um lindo dia de domingo e ele já parecia melhor, aceitando a morte. Ele ainda estava dividido entre aliviado por ela ter ido embora e frustrado por ela nunca entender o que o fez passar.
Ele não tinha mais medo há algum tempo, mas pensar nela demais o deixava apreensivo, como se só o pensamento sobre ela fosse capaz de atrair coisas ruins.
Tristan estacionou o carro em frente ao clube e percebeu Karen na porta, como se esperasse alguém.
E quando o viu, ela sorriu.
— Bom dia, Tristan. Estava te esperando. Podemos conversar?
Tristan percebeu que ela estava agitada, nem esperando que ele respondesse. Por alguns segundos ele pensou: vou ser demitido. Mas embora a pressa em falar com ele, sua voz e sorriso denunciavam o contrário, então ele a seguiu até a sala de administração para conversarem melhor, embaixo de um ar condicionado.
— O senhor Reis, o dono do clube, decidiu abrir nos dias de semana também. A partir de quarta começaremos com os novos horários. Vocês só terão folga na segunda e terça...
Karen ia prosseguir falando sobre as novas mudanças quando Tristan, gentilmente, a interrompeu.
— Eu não tenho como trabalhar turno integral, eu estudo à tarde. Mas eu posso ficar no turno matutino...
— Não, não – Tristan percebeu o sorriso de Karen levemente desaparecendo dos lábios. Sua voz, no entanto, continuava doce. Até demais – Como você sabe, o clube está abrindo para o público às 9:30 e vamos até às 21h. Eu teria de contratar outra pessoa para fazer o trabalho que uma máquina poderia fazer?
Tristan não soube o que dizer. Pensou em trabalhar até as aulas retornarem, mas ela quebrou seu argumento ao terminar de falar:
— Vamos acertar sua demissão então.
*
Depois da pequena ameaça, Seth começou a ficar mais alerta. Não queria demonstrar que sentia medo, mas Sawyer conhecia o irmão.
Reconheceu pelo jeito que ele ficava olhando por cima do ombro toda hora, como se a qualquer momento alguém pudesse ataca-lo. Mas mais ninguém percebeu, porque Seth desdenhou da situação para eles, dizendo que nem era um olho de verdade.
Mas Sawyer ainda lembrava daquilo e tinha certeza que era de uma pessoa e que ela havia morrido há pouco tempo. Ou foi extraído enquanto estava viva.
Mas qualquer opção o deixava enojado.
E preocupado.
Ele não sabia se aquilo era um aviso ou apenas a ameaça, mas Seth não pareceu disposto a se render.
Seth não procurou confusão novamente, não foi até a Costa Rica atrás do cara, mas ele ainda andava com receio. Sawyer o observava à uma distância segura, sem deixar evidente que se preocupava com o irmão. Preocupação era uma fraqueza que ele só se permitia sentir com Aiden.
Mas Seth era família. E ele não tinha como evitar aquilo.
*
Tristan sabia exatamente o que fazer na segunda-feira quando sentasse em frente à Geovanna. E embora ele soubesse, foi difícil de fato colocar em palavras. Então ele ficou em silêncio, até descobrir uma forma de falar.
Geovanna percebeu sua luta em busca de palavras, então se permitiu começar:
— Como foi seu fim de semana?
— Eu fui demitido do trabalho no clube – Tristan não hesitou em responder porque Geovanna não estava perguntando nada profundo e complicado para seus sentimentos.
— O que aconteceu? – sua atenção era nele, até no que ele não dizia.
— Eles vão abrir nos dias de semana, mas eu estudo...
— Então foi uma decisão em conjunto, basicamente?
— Sim, pode se dizer que sim...
— E como você se sentiu perdendo o emprego assim?
— Não muito bem na hora, mas Osmar vai me conseguir um estágio na empresa dele. Na área de advocacia. – Ele havia sugerido aquilo quando Tristan chegou cabisbaixo do trabalho no dia anterior.
— Você fala muito do Osmar. — não era uma pergunta — Você gosta dele?
— Ele é bom pra minha mãe. Gosta dela.
— E você gosta dele?
— Ele é legal. Me deu aulas, me ajudou a comprar o carro.
— Você já se sente confortável morando com eles?
— Pode se dizer que sim...
— E aconteceu mais alguma coisa nesse fim de semana? — Geovanna parecia saber, mas queria ouvir Tristan falar.
— Ligaram da cadeia, dizendo que minha tia tinha morrido... – Tristan não sabia se queria falar sobre aquilo, mas quando percebeu já tinha dito.
— E o que você sentiu quando soube?
Tristan demorou a responder, sabendo que Geovanna poderia julgá-lo pela resposta que estava prestes a dar. Mas aquele era um local seguro, onde ele poderia falar tudo que sentia e pensava.
— Alívio.
O silêncio foi ensurdecedor, porque ela esperava que ele explicasse o que queria dizer, mas os dois se encararam por dois segundos antes de ele falar novamente
— Isso me torna uma pessoa ruim? Ficar aliviado com a morte dela?
— Não, Tristan. Você não é uma pessoa ruim. Você é uma pessoa que passou por um trauma e apenas quem sentiu isso sabe o que você está passando, e mesmo assim cada um lida de uma forma, sei que está aliviado porque, mesmo quando ela estava na cadeia, sua cabeça ainda fazia você temê-la. Mas agora que você tem certeza que ela não pode te atingir, você finalmente se sente em paz.
— Isso faz nossas sessões acabarem?
— Você quer que acabe?
— Não... não me sinto pronto.
— Esse tratamento nunca foi sobre o controle que ela tinha em cima de você. Nunca foi sobre ela. Eleanor não pode te definir. Mesmo depois da morte. Você pode até se sentir mais seguro agora que sabe que ela não voltará, mas você precisa manter esse medo longe, precisa cuidar da sua cabeça e não associar esse trauma às suas relações. É um processo lento, mas sabemos do seu progresso. Eu só ficarei satisfeita se você se sentir 100% bem consigo. E comigo.
— Você já me ajuda muito. Mas eu quero perder esse medo de outras pessoas.
— Como te falei, isso leva um tempo. Mas vejo seu avanço. Sei que em breve vai chegar aqui e me dizer que está bem. Eu acredito em você.
— Mas e se eu achar que estou bem e de repente não estar mais?
— Eu continuarei aqui pra te auxiliar e ajudar. Mas você também precisa fazer a sua parte. Não force relacionamentos porque isso pode te machucar, deixe o tempo agir.
— E se eu nunca parar de sentir medo?
— Alguns medos são conscientes, outros são projeções dos nossos traumas. Pode ser que você ainda sonhe com as situações e ache que nunca vai se curar, mas às vezes é apenas seu inconsciente te mantendo alerta. Quando sentir esse medo, lembre-se do quanto caminhamos. Você não conseguia dormir de porta destrancada mesmo depois de sua mãe estar com você, e hoje em dia você dorme com ela aberta. Não é? — Tristan assentiu — um passo de cada vez, Tristan.
Antes de Tristan sair da sessão, ele parou na frente da porta, incerto se perguntava ou não o que queria perguntar.
— Seria muito cruel se eu dissesse que acho que algumas pessoas simplesmente merecem morrer?
Geovanna não respondeu, mas ele não sentiu medo de ser julgado. Ele também não sentia-se vingado, morte alguma apagaria o que ela fez e no fundo Tristan queria que ela sofresse pelo que fez a ele.
Mas ele também estava aliviado. Como se só naquele momento ele finalmente pudesse respirar tranquilamente.
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