Welcome to badlands
46 Capítulo Quarenta e Cinco: problemas financeiros.
Keith e Tristan foram à procura de Aiden e Sawyer, mas quando os encontraram, decidiram não atrapalhar. Os dois observavam o casal no segundo andar, escorado na escada, se beijando. Era estranho presenciar a situação, como se estivessem invadindo a privacidade, por isso se afastaram, voltando ao bar.
— É meio triste eles acharem que precisam se esconder da gente. O que eles acham que faríamos? – Tristan perguntou, cabisbaixo, enquanto esperava pela cerveja que pediu. — Talvez tenham medo de perder nossa amizade.
— E porque diabos? – Keith perguntou, sentindo-se insultado.
— Antes de te contar minha teoria sobre eles eu achava que você ia pirar. Sei que você não aceita isso.
— Não aceito o que? – Keith franziu o cenho e agarrou a cerveja que o barman lhe entregou.
— Dois homens juntos.
— E o que diabos eu tenho a ver com a vida deles? Eu fico feliz de ver os dois juntos, mesmo que seja escondido. Sawyer fica... relaxado com Aiden.
— Talvez eles pensam que a gente pode estragar tudo – Tristan arriscou, percebendo seu engano a respeito de Keith.
— Talvez – Keith não pôde deixar de concordar.
E enquanto pensava sobre seus amigos e bebia, sentiu vontade de sair pela boate e beijar alguma garota. As coisas com Ingrid não iam como ele esperava, eles apenas dormiam juntos e nada mais. Keith tinha de se contentar com a ideia de que no futuro, quando Lara nascesse, ele finalmente poderia tocá-la, não apenas em sua barriga. Ele não contou aos seus amigos, mas ele e Tristan vinham dividindo segredos, então resolveu falar sobre aquilo, talvez Tristan dissesse algo para ajudá-lo.
— Você não sente vontade de beijar alguém aqui? Beijar e esquecer?
Tristan o encarou, pensativo.
— Acho que não. Porque? Você tá sentindo vontade?
— Sim – Keith admitiu, porque era fácil conversar com ele. – Eu sei que não deveria fazer isso por causa da Ingrid, mas...
— Vocês tem alguma relação? Ou você só desempenha o papel de pai da criança?
Keith considerou a pergunta, e Tristan prosseguiu.
— Se ela soubesse... Você ficaria encrencado?
— Acho que não – Keith admitiu, mas não tinha certeza. Ingrid era uma pessoa difícil de entender. Às vezes parecia querer avançar a relação, e outras ela simplesmente afastava a mão de Keith da sua barriga.
Tristan percebeu seu olhar hesitante.
— Ela se incomodou em você sair com a gente? – Keith negou com a cabeça, a boca sendo ocupada pelo gargalo da garrafa – e você quer muito beijar alguma garota?
— Não sei. Acho que só sinto falta da... aproximação – Keith respondeu, sem graça.
Tristan não sabia o que lhe dizer, o que aconselhá-lo. A verdade era que Tristan era a última pessoa a qual Keith deveria pedir conselhos amorosos, mas Keith resolveu sossegar e se ajeitou na banqueta do bar, decidindo não ir a lugar algum.
Algum tempo depois Sawyer e Aiden se juntaram aos amigos e pediram suas bebidas. Eles estavam com os rostos vermelhos e suavam, mas Keith e Tristan não disseram nada.
— Vocês não saíram daqui? – Sawyer perguntou, os encarando.
— Não. Estávamos bebendo – Tristan pegou a garrafa em cima do balcão e lhe mostrou. Não sabia se Sawyer achava que eles os haviam visto, mas encarou os dois por longos segundos.
Depois que os quatro sentaram juntos no bar e beberam cervejas e misturaram com whisky, seguiram para a pista de dança. Eles não gostavam de dançar, mas naquela noite nada importava. Enquanto estavam no meio da pista, com diversas pessoas ao redor, grudando os corpos nos deles, começaram a cantar parabéns para Sawyer, e quando o DJ percebeu que todos em volta estavam cantando também, ele resolveu trocar de música e colocou uma de "feliz aniversário".
Em qualquer outra ocasião, Sawyer ficaria aborrecido com toda aquela atenção, mas naquela noite, segurando uma garrafa e cantando alto com seus amigos, nada importava. Só se importava com Aiden, grudado ao seu lado e seus amigos, lhe molhando de cerveja.
Para Sawyer, aquele havia sido um aniversário incomum. Mesmo depois que o DJ voltou com sua playlist, as pessoas ao redor lhe davam feliz aniversário, mesmo sem lhe conhecer ou saber metade da sua vida, elas riam para ele e eram simpáticas.
Sawyer não queria ir embora daquele lugar nunca mais.
Mas eles foram. Tiveram de ir embora porque a vida continuava. E quando saíram da boate, sujos e suados, fedendo a bebida e Keith vomitando pela calçada, perceberam que já era de manhã. O sol entre as nuvens lhes mostrou que já passava das cinco, mas eles não se moveram imediatamente, apenas ficaram em frente à boate, a qual beberam tanto e não pagaram nada, graças ao Carlos.
— Esse foi o melhor aniversário de todos – Keith gritou para seus amigos, logo atrás deles. — Quero que o meu seja 10x melhor. Espero que vocês consigam – Keith os encarou. Estavam sentados na calçada e algumas pessoas esperavam suas caronas ou táxi ao redor. Eles não faziam ideia de como iriam para a casa, mas nem pensavam sobre aquilo. Como se qualquer responsabilidade pudesse esperar.
— Você se divertiu? – Aiden perguntou a Sawyer enquanto o observava acender o cigarro.
— Muito – Sawyer respondeu, lhe entregando um sorriso de lado. Ele não queria ir para a casa. Enfrentar Seth, voltar à sua realidade. Ele queria ser corajoso como o Aiden e ir embora de casa, ele já era de maior, não precisava daquilo.
Mas ele sabia do que Seth era capaz.
*
Quando Tristan e Sawyer chegaram ao bairro, perceberam Seth, com duas muletas, em frente à casa deles. Ele parecia com raiva quando viu Sawyer, o que o fez perceber que ele o esperava.
— Boa sorte – Tristan murmurou ao seu lado e seguiu para a sua casa. Sawyer demorou alguns segundos para se aproximar porque não sabia o que Seth queria com ele ou o que ele havia feito para deixá-lo com raiva. Como se ele realmente precisasse de um motivo...
— E lá vem você, fodendo com tudo de novo – a voz de Seth não era baixa enquanto encarava o irmão se aproximando. Sawyer teve consciência do que Seth veria e sentiria naquele momento. Sentiria o cheiro de cerveja em todo seu corpo. Veria seu rosto suado e os olhos vazios.
Sawyer esperava pela humilhação, esperava que ele dissesse o porquê o xingar tanto, mas ele apenas começou a caminhar, apoiando fracamente as muletas no chão, parecia que estava prestes a cair. Seth virou o rosto quando percebeu que Sawyer não estava atrás dele.
— Vem, Sawyer – não era um pedido.
— Eu só preciso tomar um banho – Sawyer tentou dizer, mas quando olhou para Seth percebeu que ele havia se movido rápido, estava a apenas alguns passos de distância. E então segurou a muleta e jogou no irmão, batendo em seu braço enquanto tentava proteger o rosto.
— Você não tem direito a banho – Seth começou a dizer quando se aproximou para pegar a muleta caída no chão – Você vai me seguir e vai fazer tudo que eu mandar.
Sawyer não respondeu. Apenas seguiu seu irmão. Ele não perguntou se estava melhor, mas percebeu que seria inútil. Seth só estava usando aquela muleta porque levou uma surra. Em seu rosto, o machucado na boca ainda era visível, mas Seth estava bravo demais para sentir dor.
— Você passou bem a sua noite? – Seth perguntou, já no beco, falando alto. Alguns garotos estavam espalhados ao redor, começando o dia. Ele não esperava uma resposta de Sawyer, então prosseguiu – Pois eu não. Tive que resolver tua merda com a perna fodida. Por tua culpa e dos teus amiguinhos meu parceiro foi apreendido. Tudo pras donzela ir pra uma boatezinha. – Seth encarou Sawyer, que sentia o sangue ferver em todo seu corpo. Sentia os olhares, as risadas, mas só conseguia encarar o Seth, tentando manter-se no lugar e não pular em cima do irmão e o atacar. Seria fácil, já que ele estava com a perna machucada, mas ele sabia que seus cachorros eram bem treinados. Assim que Sawyer tocasse em um fio de cabelo de Seth, algum dos garotos lhe mataria sem pensar duas vezes.
Familia não importava para eles.
— Longe do meu comando. Colocou um homem dos nossos na porra do Alcantra, Sawyer?
Sawyer estava bêbado. E intimidado. Mas sabia bem do que Seth estava falando. Seth era odiado pelos policiais do bairro da Costa Rica. Lá não havia corrupção que o salvasse. Mas Sawyer percebeu que se ele ainda estava vivo e sendo humilhado daquela forma, Seth havia dado um jeito de alguma forma.
Ele até queria argumentar, dizer que não havia sido culpa dele, mas assim que o pensamento surgiu, ele descartou. Sabia que ele tinha culpa. Se ele não tivesse pedido ao motorista para os levar, ele não teria sido apreendido.
— Sorte sua que ter lábia ainda me leva onde eu quero. Mas gostaria de saber se você vai me causar mais algum problema.
Sawyer engoliu em seco. Não queria saber o que Seth havia feito, mas para os policiais terem liberado tão rápido, sabia que a lábia não era o suficiente. Seth não pensava duas vezes antes de se salvar. E salvar o seu território, que incluía todo o bairro deles. E mais algumas partes que ele vinha conquistando com suas tramóias.
— Não – Sawyer não conseguia falar direito. Rouco da noite passada e tentando não dar atenção para as risadas.
Seth ainda tinha poder sobre ele. O deixando acuado daquela forma.
— Então vai trabalhar que hoje você vai fazer todo o meu trabalho – Seth fingiu uma careta triste, com o dedo abaixo do olho limpando uma lágrima falsa. – E vai logo, antes que eu enfie isso no seu cu – Seth pegou a muleta, mostrando em sua direção – eu sei que você gosta – ele piscou o olho, rindo.
Sawyer ficou vermelho. Ele podia sentir toda sua face quente enquanto tentava ignorar as risadas atrás dele ao se afastar.
*
As mudanças na piscina comuntária começavam na entrada. Antes o local era cercado por grade, mas naquela manhã, quando Tristan virou a rua para ir até seu trabalho, ele percebeu que o local estava todo murado. Ele entrou por uma porta pesada branca e notou que havia chegado atrasado. Ele estava com dor de cabeça e sentia a ressaca por todo seu corpo, mas precisou fingir sobriedade quando Karen se aproximou dele, com sua prancheta inseparável.
— Você está admirando o clube ou se perdeu? – ela perguntou, acenando a mão exageradamente na sua frente. Tristan piscou e olhou para Karen. – Você ficará no meu lugar, supervisionando. Você deve ter percebido as mudanças.
Sim, ele percebeu. As piscinas estavam maiores de comprimento – a dos adultos e a das crianças -. O bar havia aumentado e as cadeiras estavam espalhadas de forma mais organizada.
— Agora você precisará ficar na porta e controlar o fluxo. Nessa lista estão todos os nomes dos sócios do clube. Você deve saber que agora eles precisam pagar mensalmente para entrarem aqui...
Tristan assentiu e deixou que falasse, mas não concordava com nada daquilo, mesmo que seu salário aumentasse e a piscina ficasse mais controlada e organizada. Era a única diversão grátis para o verão e ele sabia que o local continuaria cheio, mas com pessoas que Daisy admiraria, não as pessoas do bairro.
Mas Tristan era apenas mais um refém do proletariado, então pegou o papel das mãos rechonchudas de Karen e foi até o banheiro colocar seu novo uniforme – uma camiseta branca escrito "aquafresh" na frente.
Depois que ele saiu do banheiro notou que apesar de alguns funcionários estarem arrumando os últimos preparativos antes de abrir, o número de trabalhadores havia diminuído e o lugar onde o salva-vidas ficava mudou, deixando a cadeira com escada no meio das duas piscinas.
— Faltam dez minutos, pessoal, todos em seus lugares.
Tristan obedeceu a voz estridente de Karen e seguiu até a porta branca e se escorou no muro.
— Já sabe, né? Pergunta o nome, verifica e deixa entrar. Se não tiver, precisa explicar como está sendo agora. Diga que caso quiserem frequentar o clube, precisam ir até a sala de administração, comigo. – Tristan assentiu, mostrando que compreendeu, e ela se afastou, para dentro da sala ao lado do bar.
A buzina soou alguns minutos depois e Tristan abriu a porta, dando de cara com uma fila formada com diversas pessoas apreensivas e confusas. Ele teria um longo trabalho pela frente.
*
A primeira coisa que Ingrid reparou quando chegou à lanchonete foi a expressão cansada no rosto de Keith.
— Pelo jeito vocês beberam pra caralho, né? – Ingrid encarou Aiden, como se ele fosse o culpado por Keith não aguentar e parar de beber antes de ficar bêbado.
— Fomos em uma boate depois do restaurante, bebemos lá – Keith respondeu, mas sua voz era fraca, como se falar exigisse muito esforço. Ele soltou aquilo como se esperasse que Ingrid o xingasse, de fato esperava e talvez quisesse aquilo, mas ela apenas revirou os olhos e murmurou que ele era um irresponsável.
— Da próxima vez, me convidem – Ingrid sorriu para Keith.
— Grávida? – Keith perguntou, a encarando com a testa franzida. Ingrid estava pronta para retrucar quando escutaram a porta da lanchonete fechar com um baque.
O dono da lanchonete encarou o local com desgosto no rosto.
— Boa tarde senhor Anderson – Aiden foi o primeiro a falar, porque Keith de repente estava nervoso para conseguir falar qualquer coisa. Ele nunca aparecia na lanchonete e então os garotos encararam a lanchonete do jeito que ele via: vazia.
— Achei que minha lanchonete estava em boas mãos – ele se aproximou do balcão – e você é quem? – ele encarou Ingrid, sem intensão de ser agradável. Ele viu que ela não havia pedido nada.
— Mãe da minha filha – Keith respondeu porque se respondesse "namorada" seria mentira e Ingrid o xingaria.
Anderson deu uma risada forçada e revirou os olhos.
— Posso pedir algo para comer ou não tem ninguém na cozinha?
— Eles estão ali, senhor. Pode me falar o que você quiser que peço a eles – Aiden respondeu, se aproximando da janela da cozinha.
— Não quero. – o homem não deixou de transparecer todos seus sentimentos no rosto. – Só queria saber se era falta de comida a escassez de clientes. Vocês têm algum palpite? – apesar de Keith não ter dito nada até aquele momento, seu olhar era concentrado nele.
— Abriu um restaurante aqui perto. Talvez seja por isso – Keith respondeu, porque seu olhar o deixava intimidado. Anderson assentiu, compreendendo, mas não totalmente satisfeito com aquela resposta.
— O senhor planeja demitir algum de nós? – Aiden já não conseguia esconder sua preocupação. Anderson pensou por alguns segundos, fazendo um bico nos lábios rasos.
— Não. Mas provavelmente a falta de clientela vai respingar no salário de vocês. Se preparem para receber menos. – Anderson se afastou da bancada para entrar onde Keith e Aiden estavam e eles só saíram do caminho para o homem passar, atravessando até a porta da cozinha.
Enquanto escutavam Anderson conversando com os cozinheiros, Aiden e Keith trocaram um olhar apreensivo. Ingrid, que havia ficado calada todo aquele momento, também estava preocupada.
— Vocês vão conseguir sobreviver assim? – ela perguntou a eles, que apenas deram de ombros.
— Vou arranjar outro trabalho – Keith disse, sem pensar. Ele precisava de dinheiro e sabia que metade do salário não pagaria nem a sua parte no aluguel do apartamento.
— Não quero voltar a morar com meu tio – Aiden soltou, apavorado. Keith o encarou, percebendo seu olhar vazio e distraído.
Apesar de terem bebido na noite anterior e ainda sentirem os efeitos do alcool, a bomba que Anderson jogou os deixou sóbrios rapidamente. Não havia nada que pudessem fazer, antes do restaurante do Carlos abrir no bairro as pessoas iam à lanchonete até por um simples milk-shake, mas já fazia dias que não entrava ninguém ali.
*
Naquela noite, Aiden ligou para Sawyer. Não queria incomodá-lo com seus problemas, mas queria conversar. Quando eram mais novos, dinheiro não fazia muita diferença para eles, mas depois que resolveram abraçar a maturidade, dinheiro os movia.
— E como vocês vão ficar assim? Não vão conseguir pagar o aluguel. Se você quiser, sabe que pode morar aqui por algum tempo. Ingrid talvez aceite o Keith. Ou o pai dele o aceita de novo...
Aiden ficou quieto. Não queria magoar Sawyer. Não queria dizer que não tinha como morar com ele.
— Não posso voltar pra perto de onde meu tio mora, Sawyer – ele suspirou, o que fez Sawyer ficar em silêncio, se culpando.
— Tá na hora de você procurar outro emprego.
E mesmo que eles tivessem desligado o telefone de forma amorosa, apesar dos problemas, Sawyer não conseguiu dormir naquela noite. Ele se preocupava com os amigos e se culpava por não ter como ajudar. Se virou na cama diversas vezes até escutar Seth se aproximar de madrugada e os dois seguirem para mais um dia de trabalho.
As coisas estavam complicadas. Não apenas com os irmãos – que não conseguiam se olhar nos olhos e nem trocar duas palavras amigáveis -, mas também com o fato de Seth ter prometido matar um dos traficantes da Costa Rica a "pedido" do policial para devolver o carro e soltar seu motorista.
Sawyer sabia o que aconteceria naquela noite e tinha certeza que as coisas dariam errado, mas quando enfim atravesaram o morro para chegar à biqueira, perceberam que tudo estava vazio. Seth sabia onde o cara morava, mas seu medo o denunciava. Na forma que andava, ainda mancando, mas sem as muletas. Na forma como mexia no cabelo ensebado enquanto olhava pela rua.
— Acho melhor virmos outro dia – Sawyer disse, mesmo sabendo que Seth poderia descontar sua raiva nele. Só estavam os dois na rua vazia. E Sawyer sentia que estavam sendo observados.
— O policial me deu menos de uma semana para fazer isso. Acha que ele vai aumentar o prazo porque meu irmão tá se cagando de medo? – Seth perguntou, sussurrando. Sawyer revirou os olhos, estupefato.
Eles esperaram dez minutos ali parados até entrarem em um carro e voltarem ao bairro. Seth estava arrependido, mas Sawyer sabia que o alívio era maior.
Seth obrigou Sawyer a ir trabalhar quando voltaram. Ele queria argumentar que nem mesmo o sol havia aparecido, mas sabia que aquele ainda era seu castigo. Então simplesmente fez o que fazia de melhor nos últimos dias: obedecer seu irmão.
Sawyer sabia que ficaria sozinho no silêncio da madrugada porque ninguém aparecia lá até as onze da manhã, então seguiu para o sofá rasgado e sujo de areia e mijo de cachorro e sentou-se na parte mais limpa. Não tem certeza de quanto tempo ficou lá, mas sentiu o chute no pé e sabia que era Seth antes mesmo de abrir os olhos.
— Tá dormindo ai infeliz? Não falei pra trabalhar?
— Ninguém compra droga de manhã, Seth. – Sawyer bocejou e se espreguiçou, mas quando estava prestes a deitar-se melhor no sofá, Seth o pegou pelo colarinho da camiseta e o levantou. Apesar de debilitado, ele ainda tinha a mesma força e ódio.
— Aproveita então e vai comprar almoço pra mim que eu tô com fome. E não vem com lanche do seu namoradinho, quero comida. – Seth disse e se afastou, sem nem lhe entregar o dinheiro. Sawyer sabia que um simples aviso era o bastante então foi até o Darlia's, sabendo que provavelmente não veria Carlos.
Mas Sawyer estava fadado ao fracasso dos seus desejos e quando Carlos o viu, parado em frente à recepção, era tarde para dar meia volta e sair dali.
— Sawyer? – Carlos o encarou. – Porque tá com essa cara de apavorado?
Sawyer deu uma risada e desfez a careta.
— Só não dormi bem...
— Veio comer?
— Não... Vou levar – ele pigarreou, porque sentia-se desconfortável conversando com Carlos. Ele estava mal vestido e sujo, Carlos usava terno e tinha cheiro de homem poderoso, um perfume forte e agridoce.
— Pode pedir ali, e já sabe que seus pedidos aqui não tem valor.
Sawyer carregava sua carteira para todo lado e ele tinha dinheiro para pagar pelo almoço do seu irmão, mas aceitou mais uma caridade porque já não tinha mais vergonha na cara ou vontade de recusar. Estava cansado demais de tudo.
Ele pediu o almoço ao garçom enquanto Carlos estava ao seu lado.
— É para a viagem – Carlos disse ao garçom quando Sawyer finalizou o pedido – e capriche na batata frita, que é pra um parceiro – ele piscou o olho para Sawyer, que encarou o chão, envergonhado.
Apesar de aceitar de bom grado o que Carlos fazia por ele, não sentia-se merecedor disso.
— Me deixa te dar uma carona, estou indo para a minha casa também. – Carlos o encarou enquanto esperavam pelo garçom com o pedido.
— Não precisa, eu vou pro beco...
Sawyer se arrependeu assim que disse aquilo, mas Carlos apenas o examinou. Encarou seu rosto, seus olhos e pareceu pensativo, mas não disse nada até a sacola com o almoço estar no meio deles na mesa. Sawyer pegou e estava pronto para sair quando escutou a voz de Carlos, um tom baixo e decidido. Sawyer virou-se lentamente enquanto Carlos levantava-se da cadeira.
— Eu vou te levar, senão os mendigos vão pedir comida. E olha que já entregamos uma marmita pra cada – Carlos revirou os olhos – alguns acho que vendem pra comprar droga, mas quem sou eu pra julgar, certo? – embora ele dissesse aquilo, Sawyer percebeu que julgava.
Sawyer não disse nada até entrar no carro de Carlos, uma camionete azul marinho.
Carlos dirigiu até o beco, levando menos de dois minutos. A sacola com a comida estava quente no colo de Sawyer e ele colocou a mão na porta, pronto para abrir, mas Carlos não a destravou. Sawyer o encarou, confuso.
— Você precisa sair dessa vida, Sawyer – Carlos encarava Seth escorado no muro do beco com alguns garotos que trabalhavam ali. Conversava e ria. Fumava e ria. Por alguns segundos Sawyer temeu que Seth os visse ali, mas estava ocupado para perceber.
— Eu não tenho escolha...
— Há sempre uma escolha – Carlos respondeu, grosseiro e finalmente desviou os olhos de Seth para encarar Sawyer. – Quando eu era mais novo e precisávamos de dinheiro em casa, sabe o que minha mãe fazia? – Carlos não esperou por sua resposta, porque Sawyer não conseguiria dizer em voz alta. – Antes de eu entrar pro mundo do crime, minha mãe já fazia os corre dela na rua, eu nunca julguei e ela nunca reclamou do dinheiro que começou a entrar.
Carlos encarou a rua à frente deles. Alguns carros espalhados e os garotos do beco se aproximando para entregar a droga pedida.
— Mas quando eu percebi que eu tinha grana o suficiente pra recomeçar minha vida, abri o Darlia's, em homenagem à minha mãe, lá no centro. Quando o dinheiro começou a surgir, de forma limpa, eu abandonei essa vida, Sawyer. Eu só precisava de dinheiro o suficiente pra dar a volta por cima, mas eu sei que é difícil sair depois que você entra. Você está tão dentro, que às vezes enxergo Seth em você.
Aquilo doeu mais do que qualquer coisa que Carlos disse a ele.
— Não vale a pena, e o pior de tudo é que eu sei que você sabe. Te falta dinheiro? Coragem? Eu posso te tirar desse lugar, Sawyer. Já imaginou uma vida nova? Longe desse teu irmão?
Sawyer só imaginava isso. Longe de tudo que o ancorava para baixo.
Mas Sawyer não tinha escolha. Diferente de Carlos, ele não podia sair. Estava preso.
E por alguns segundos ele teve vontade de falar sobre o que aconteceu e o motivo de não ter como sair daquela enrascada, pensando que talvez Carlos tivesse uma saída fácil.
Porém Sawyer sabia que ninguém poderia ajudá-lo.
— Você quer dinheiro? É por isso que ele tá te forçando a isso tudo?
Sawyer pensou em contar a verdade. Pensou em pedir esse favor, mas encarou Seth e teve certeza que ele não o deixaria em paz. O dinheiro não faria diferença, Seth queria Sawyer.
— Eu não preciso de ajuda – Sawyer respondeu, ainda encarando Seth.
Ele podia sentir a decepção em todo o carro. Era paupável na respiração frustada de Carlos.
— Mas queria que você ajudasse meu amigo.
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