Welcome to badlands
20 Capítulo Dezenove: droga destrói as pessoas.
Keith se convenceu de que assim que chegasse à casa de Vanny, ele contaria a verdade. Contaria sobre a garota que ele engravidou. Contaria que ele a amava e gostaria de tentar novamente com ela. Queria contar toda a verdade, pois Keith estava tentando ser uma pessoa melhor.
Por isso ele disse, "não, obrigado" quando Vanny lhe ofereceu uma carreira de cocaína. Ela o encarou, chocada, e ele considerou que aquele momento seria perfeito para contar a verdade.
Mas Vanny pulou em cima de Keith e começou a beijá-lo. Keith queria erguer a mão e limpar o seu nariz sujo de pó, mas sabia que seria um gatilho para ele.
Keith respirou fundo e afastou Vanny pelos ombros. Sua pupila estava dilatada e Keith não a reconhecia. Era incrível como uma pessoa poderia se acabar daquela forma por causa das drogas.
Da mesma forma que quase aconteceu com ele. Keith não reclamava de nada, sempre guardava para si tudo que estava acontecendo. Até perceber que ele estava cada dia pior. Já não se reconhecia no espelho.
O trabalho na lanchonete era uma forma de manter-se limpo, saudável. Ele não poderia ter relação com alguém como Vanny, que precisava cheirar cocaína para sentir tesão. Ou para viver.
Vanny continuou o encarando e tentando aproximar a boca da de Keith. Tirou a camiseta e ficou apenas com seu sutiã de renda. Keith amava aquele sutiã.
Se Keith não tivesse mudado, estaria com as duas mãos e a cara nos peitos da garota, mas apenas lhe entregou a camiseta de volta e disse que precisava ir embora.
Sawyer encarou Aiden enquanto ele largava sua mala rasgada no chão de madeira do seu quarto. A luz do quarto piscou três vezes até apagar completamente. Aiden e Sawyer ficaram no escuro, mas nenhum deles ousou se movimentar.
Aiden estava parado na extremidade do quarto, perto da porta e Sawyer estava sentado na cama. Escutaram o barulho dos grilos. O ponteiro do relógio quebrado do quarto de Sawyer. A porta estava fechada, mas não parecia seguro fazer nada.
O chão rangeu quando Aiden movimentou seu pé esquerdo, o que o fez parar imediatamente. Sawyer ergueu os olhos, embora não conseguisse ver a expressão dele.
— Vem logo aqui – Sawyer disse, sua voz quebrando o silêncio e parecendo irromper pelas paredes com mofo.
Aiden suspirou e sentou-se ao lado de Sawyer.
Sawyer tateou Aiden ao seu lado, sua mão buscando pela mão do garoto.
Eles entrelaçaram as mãos no escuro. Sawyer ergueu as mãos grudadas e beijou as costas da mão de Aiden.
Aquele gesto, tão delicado, confundiu Aiden por alguns segundos.
Os garotos aos poucos foram acostumando seus olhos à escuridão, mas não conseguiam se olhar.
— Hoje é seu aniversário, deveria ter sido bem tratado.
— Não é mais meu aniversário – Aiden disse, tentando ver a hora naquele relógio.
— O relógio tá estragado – Sawyer murmurou quando percebeu o olhar concentrado de Aiden em cima da cômoda.
— Mas deve ser mais de uma hora.
— Não importa – Sawyer revirou os olhos, embora o garoto não pudesse ver o gesto.
— Ganhei bolo.
— Que acabou indo pro chão.
— Tive festa.
— Você não conhecia metade daquelas pessoas – Sawyer riu.
— Fica difícil, você só vê o lado ruim.
— E tem o lado bom? – Sawyer encarou Aiden. As mãos ainda estavam entrelaçadas.
— Estar aqui – Aiden disse, sua voz falhando aos poucos. – Gosto de estar aqui. Não ouse ver o lado ruim dessa situação.
Sawyer estava pronto para falar que ali tinha cheiro de mofo, a cama fazia barulho só por respirar e Seth provavelmente começaria a escutar música alta em breve.
Mas de repente aquilo não importava porque Aiden tocou o rosto de Sawyer, virando para ele, e tocou seus lábios lentamente, porque tinha medo de machucar o rosto novamente. Porque tinha medo de estragar aquele momento.
Sawyer retribuiu o beijo, vagarosamente, para não machucar Aiden.
Tristan não respondeu Osmar, mas começou a pensar sobre aquilo. Ficar com os dois seria como ter uma família completa, mas ele não conseguiria ficar longe dos seus amigos.
Osmar era um homem rico e bem intencionado, mas o problema era que ele morava na parte nobre da cidade.
O apartamento era grande e iluminado. As janelas iam do chão ao teto e a vista dava direto para o mar. Os postes iluminavam a rua, Tristan percebeu diversos carros pela avenida, apesar de já ser quase duas horas da madrugada.
— Gostou? – Daisy abraçou seu filho pelas costas e encarou a vista com ele – Eu vou caminhar aqui todas as manhãs – ela apontou para a beira mar e Tristan sorriu.
Começou a imaginar uma vida naquele apartamento, mas não era algo que ele almejava naquele momento.
— Eu posso voltar pra casa? – ele encarou a mãe pelo vidro da janela e notou a decepção correr por seu semblante.
— Você não quer morar comigo?
— Posso pensar antes?
Daisy encarou o garoto e tocou seu rosto com as duas mãos.
— Eu vou esperar você tomar sua decisão.
Keith saiu da casa de Vanny revigorado. Sentia-se um novo homem. Um homem que sabia tomar decisões.
Estava tarde quando ele passou por um bairro de edifícios. Era ao lado do bairro onde morava, mas a qualidade de vida parecia um pouco mais elevada. O local era quieto e parecia abandonado, mas pelas janelas dos apartamentos era possível ver algumas luzes acesas.
Keith não fazia ideia de que hora poderia ser, mas se distraiu quando percebeu uma placa de "Aluga-se" em um dos apartamentos. No último andar.
Ele não tinha dinheiro o suficiente para alugar um apartamento, mas estava trabalhando para isso. Infelizmente, não tinha como anotar o número do telefone, mas observou a rua e pensou "voltarei amanhã".
Aiden estava dormindo quando Seth apareceu no quarto e chamou Sawyer para ajudá-lo naquela noite. Era madrugada e estava frio, mas Sawyer encarou Aiden dormindo ao seu lado e suspirou, indo com Seth para a rua.
De alguma forma, tudo que ele estava fazendo era por Aiden e seus amigos.
Osmar deixou Tristan em frente à casa da sua tia naquela madrugada.
— Pense bem, ok? – ele disse, tocando no ombro do garoto, e isso o fez se afastar imediatamente para perto da porta do passageiro no banco da frente – sua mãe quer muito ficar com você.
Tristan assentiu e correu para dentro da sua casa.
Sua tia estava sentada na mesa da cozinha, o esperando.
— Demorou.
— Estava com minha mãe – Tristan disse enquanto fechava a porta. Sua tia deu uma risada debochada e revirou os olhos.
— Uma mulher que teve filho, sumiu, e de repente quer ser mãe – ela levantou-se e ficou de frente para Tristan.
Ele era mais alto que ela, mas era assustador o quanto ele sentia-se pequeno perto dela. Seu olhar era questionador, lhe perguntando algo que não conseguia dizer em voz alta.
— Você contou a ela sobre sua vida aqui? – ela perguntou e Tristan sentiu o cheiro de vinho no seu hálito.
— Sim — Tristan respondeu a encarando.
Ele nunca contou a sua mãe o que sua tia Eleanor fazia com ele quando era criança. Por alguns segundos sua tia parece receosa, preocupada. Seu semblante se transformou em uma careta enquanto ela encarava Tristan e seu sorriso de lado.
Tristan pensou em dizer algo, mas sua tia entrou no quarto dela e fechou a porta. Tristan escutou enquanto ela se trancava e ficou parado por alguns segundos na entrada da casa.
Sawyer voltou duas horas depois, quando já estava quase amanhecendo. Aiden estava sentado na cama, olhando para o garoto enquanto ele entrava no quarto tentando não fazer barulho.
— Achei que você não estava mais nessa – Aiden disse, mas sua voz era um sussurro de frustração.
— Do que você tá falando? – Sawyer perguntou enquanto fechava a porta, já não se importando com o barulho que poderia fazer.
Aiden o encarou inexpressivo enquanto Sawyer tentava mentir para ele.
— Ele precisou de uma ajuda minha, só isso. Não estou fazendo nada.
— Você ir já é estar fazendo – Aiden argumentou, embora o sono e cansaço o dominassem. Não havia dormido direito desde que dera a falta de Sawyer ao seu lado na cama.
— Não vai acontecer de novo – Sawyer disse se aproximando de Aiden para deitar ao seu lado novamente.
Sawyer sabia que estava mentindo. Aiden sabia que ele estava mentindo.
— Você precisa de um emprego de verdade. Precisa ficar longe dessa vida – Aiden disse emburrado. Sawyer o encarou e ficou tentado a discutir, dizer que não valia a pena trabalhar, que sua vida era melhor assim, mas ele sabia que não era aquilo que Aiden queria escutar.
— Vou providenciar isso – Sawyer sussurrou.
Os dois estavam deitados um de frente para o outro, sem olhar para mais nada além dos olhos cansados. Aiden se enxergava pelos olhos de Sawyer e não gostava do que via. Um garoto machucado e frágil. Sawyer não enxergava nada além de Aiden à sua frente.
Keith acordou com a voz do seu pai irrompendo pela casa. Esfregou os olhos e olhou ao redor, tentando acordar.
Já passava da hora de Keith trabalhar, mas resolveu pegar outro caminho. Encarou a vizinhança e percebeu que a única movimentação era de crianças empinando pipa na calçada ou brincando de amarelinha.
Pegou o pedaço de papel amassado no bolso e a caneta que Sawyer usava para pichar o ônibus, anotou o telefone da pessoa que estava alugando aquele imóvel e sorriu triunfante.
Tristan não esperava ver sua mãe tão cedo no dia seguinte, mas lá estava ela com o casaco sobretudo cobrindo quase todo seu corpo. A manhã estava fria quando Tristan a encontrou fora de casa naquela manhã. Osmar segurava o volante enquanto falava no celular com alguém. Daisy encarou o filho, preocupada.
— Porque você está com o olho tão roxo? – ela tocou o rosto do garoto, que tentou se esquivar.
— Não dormi muito bem – Tristan murmurou enquanto desviava dos olhos questionadores de sua mãe.
— Vim te buscar pra tomar um café, mas prefiro que você volte a dormir – ela disse, apontando para a casa. Tristan sentiu medo de voltar para a casa e encarar seus monstros, mesmo aquilo não acontecendo há muito tempo.
Eleanor temia Tristan, embora ele não soubesse. Temia que pagasse por tudo que fez a ele. Temia que houvesse transformado aquele garoto em um adolescente ruim.
Ela não conhecia Tristan.
Mas temia, acima de tudo, descobrirem o que ela fez. Descobrirem o que ela fazia mesmo sabendo que era errado.
Daisy cutucou o ombro de Tristan.
— Você quer dormir lá no apartamento?
Tristan olhou para a sua mãe demoradamente, como se ela estivesse lendo seus pensamentos.
— Lá não está tão frio – ela disse, abraçando o filho, que estava apenas com a camiseta azul que havia dormido.
— Eu vou me arrumar para tomarmos café – Tristan decidiu e esfregou os olhos enquanto voltava para a casa.
Daisy encarou o filho enquanto ele entrava. Seus cotovelos eram puros ossos. Sua camiseta era pequena demais para ele e seu cabelo estava quase cobrindo seus olhos. Daisy decidiu que o levaria para cortar o cabelo, mas deixaria os cachos intactos, porque era igual o cabelo do seu pai.
Aiden ficou observando Sawyer enquanto ele dormia. Não conseguia entender o porquê se arriscava tanto pelo seu irmão. Não conseguia compreender a necessidade de querer continuar tendo atitudes erradas.
Já passava das nove da manhã quando Aiden levantou da cama, sem fazer barulho, e desceu as escadas.
Seth estava sentado na cozinha com sua mãe, os dois estavam conversando. Aiden não conseguia recordar-se quando foi a última vez que ouviu a voz da mãe deles. Ou se realmente ouviu algum dia.
Aiden encostou-se à parede ao lado da porta para conseguir ver, mas não ser visto.
— Eu só quero que você se cuide – a sua voz era arrastada – sabe que essa vida é traiçoeira.
— Relaxa – Seth se escorou na cadeira de metal – tá tudo sob controle – ele cruzou os braços à frente do corpo.
Estavam tomando café, Aiden sentiu o cheiro e sua barriga roncou alto. Aiden passou os braços ao redor do seu corpo, tentando esconder, mas todo o alvoroço que ele fez chamou atenção de Seth.
— Sawyer? – ele chamou, olhando para trás.
Aiden apareceu na porta, constrangido.
— Ah, vem tomar café – Seth o chamou, puxando uma cadeira.
— Não queria atrapalhar — Aiden disse, encarando a mesa.
— Imagina – a mãe deles sorriu e Aiden a encarou.
Seu semblante era tranquilo, sorriso simpático e olhos perturbados.
— Obrigado – Aiden agradeceu enquanto pegava um copo para servir-se de café. Seth começou a preparar um pão para ele quando ouviu o barulho das escadas rangendo.
Sawyer encarou a cena com o cenho franzido.
— Mãe, a senhora tá bem? – ele se aproximou dela quando a viu sentada na cadeira. Era algo raro.
— Ela tá ótima – Seth revirou os olhos – precisava comer, tá um trapo.
— Olha quem falando – a mãe disse, se divertindo. Sawyer olhou para ela e Aiden reparou no brilho em seus olhos.
Um garoto perdido só quer a mãe por perto.
Sawyer sentou-se ao lado dela enquanto Seth o servia de café.
Aiden encarou a cena. Era diferente do que estava acostumado, mas ele podia sentir-se bem ali dentro. Sawyer o encarou por cima da jarra de café. Seu olhar era de preocupação, mas Aiden sorriu para ele, que sorriu de volta em seguida.
Marion encarou Keith quando ele passou pela porta.
— Você tá nojento, vai se lavar – ela gritou, sem se importar com o único cliente tomando café naquela manhã.
— Você é pior e eu nunca falo isso pra você – ele revirou os olhos ao se aproximar da bancada – Bom dia, Carl! – ele tocou no ombro do senhor sentado. O homem, com os olhos caídos e amarelados, encarou Keith e deu um sorriso demonstrando seus poucos dentes.
— Bom dia, jovem – ele pronunciava as palavras pausadamente, como se tirasse seu fôlego falar rápido demais.
— Vou me lavar – Keith anunciou desnecessariamente enquanto seguia até o banheiro da lanchonete.
Seu cabelo estava oleoso e gotículas de suor ocupavam sua testa.
Ele se inclinou e jogou água no rosto. Olhou-se no espelho, não sentindo muita melhora, mas pelo menos estava livre do suor.
Quando voltou para a lanchonete, percebeu que Sawyer e Aiden estavam sentados ali.
— Seus amigos perguntaram de um tal de mentira – Marion apontou para os garotos enquanto Keith colocava seu avental e chapéu do uniforme.
— Ele foi demitido – Keith disse – por isso eu consegui a vaga.
— Porque vocês chamam o garoto de mentira? – Marion revirou os olhos, lembrando-se de quem estavam falando, mas não o suficiente para lembrar-se o nome.
— Mentira tem perna curta – Keith disse e se inclinou para conversar com seus amigos, Marion deu uma risada quando entendeu e balançou a cabeça – ele tava roubando – Keith sussurrou para os amigos, olhou ao redor e percebeu que Carl estava interessado no assunto, mas não importava muito porque ele tinha problemas de memória – pra comprar droga – Keith riu e fez uma careta.
— Droga destrói as pessoas – Carl pontuou e os garotos apenas assentiram.
Tristan não estava acostumado com aquela vida de rico que Osmar tinha e esbanjava em restaurantes caros. O café da manhã naquele dia envolvia todos os tipos de comida: fruta, salgados, doces e cereais.
— Come o que você quiser – ele disse, apontando para a mesa cheia. Daisy encarou o filho, sorridente e tocou na sua mão em cima da mesa.
— Hoje vamos mimar você – ela apertou a bochecha dele. Aquela atitude o incomodaria, mas naquele momento ele estava concentrado em um salgado em formato estranho e muito saboroso.
— O que é isso? – ele perguntou com a boca cheia e segurando o salgado.
— Croissant – Osmar pronunciou o melhor francês que Tristan já viu e assentiu, sentindo-se refinado.
— Você pode ter tudo isso e muito mais – Daisy sussurrou e Tristan a encarou, pensativo.
A vida de Osmar era boa, mas não era a vida de Tristan. Ele nunca conseguiria deixar seus amigos, nunca conseguiria se mudar para aquele lado da cidade. Tristan não gostava muito de mudanças, mesmo sabendo que seria para o seu bem.
Por alguns segundos Tristan considerou que preferia tomar café na lanchonete que Keith trabalhava. Naquele restaurante tinha variedade e sabor, mas no seu bairro tinha seus amigos e seus costumes.
— Precisamos cortar esse cabelo – Daisy tocou o cabelo de Tristan, encarado seus cachos. – e você tá muito magro, precisa comer. Sua tia não dá comida pra você? – ela revirou os olhos, indignada.
Tristan engoliu em seco o último pedaço daquele croissant e afastou o prato de si.
— Perdi a fome – Tristan tomou todo o refrigerante do copo e foi até o banheiro.
— Eu fiz algo? – Daisy perguntou enquanto encarava as costas de Tristan indo até o banheiro.
— Você precisa ir com calma – Osmar balançou a cabeça e segurou sua mão em cima da coxa dela – ele é um adolescente, você sabe como eles são.
Tristan encarou seu reflexo no espelho. Sua mãe estava certa, seu cabelo estava muito grande. Seus olhos eram preenchidos por olheiras de noites sem conseguir dormir e seu rosto estava começando a encher de espinhas.
— Se liga – Keith mostrou o telefone no papel amassado.
— Um número de telefone? – Sawyer perguntou confuso.
— Do meu futuro apartamento – Keith sorriu.
— E como exatamente você conseguirá isso com nosso salário? – Marion o encarou enquanto recolhia a xícara de café do Senhor Carl.
— Pretendo vender algumas coisas lá de casa e economizar...
— Onde é esse apartamento? – Sawyer perguntou, receoso que o amigo morasse longe.
— Umas cinco quadras daqui, perto da casa da Vanny...
— Ah! – Aiden riu – agora entendi porque você quer se mudar pra lá.
— Não sabe o que tá falando – Keith riu – terminamos – ele deu de ombros.
— Vocês já terminaram diversas vezes – Sawyer revirou os olhos e encarou o relógio de ponteiro acima da porta da cozinha da lanchonete.
Em cinco minutos ele teria que arranjar uma desculpa e ir embora dali. Sem Aiden.
— Dessa vez é sério – Keith começou a mexer em um fiapo solto em seu avental. Olhou por cima do ombro, para Marion. Quando percebeu que ela não estava prestando atenção na conversa e apenas mexendo no celular, ele continuou – ela tá muito louca das drogas...
— Igual você – Sawyer deu de ombros – você tava procurando cocaína semana passada...
Aiden olhou para Sawyer, esperando que continuasse.
— Seth me disse – Sawyer murmurou.
— Sim, porque eu estava desesperado por causa da Ingrid – Keith revirou os olhos – vocês deveriam ser meus amigos, e não me criticarem – ele bufou e procurou algo para se ocupar, ignorando seus amigos.
— Pra isso que os amigos servem – Sawyer deu de ombros – eu preciso ir...
— Aonde você vai? – Aiden perguntou observando Sawyer levantar do banco.
— Resolver umas paradas. Mais tarde a gente se vê – ele se despediu enquanto seguia para a porta, pra não dar chance de Aiden ir atrás dele.
Daisy encarou Tristan pelo retrovisor do carro enquanto Osmar dirigia até o barbeiro. Tristan encarava a janela, pensativo, totalmente alheio ao olhar preocupado da sua mãe.
Ela queria dizer algo, mas sabia que Osmar tinha razão: ela precisava agir com calma.
Tristan encarou o ambiente desconhecido. Osmar estava ao seu lado, porque sua mãe havia decidido ir ao shopping, comprar roupas para o filho.
— Você parece que nunca veio a um barbeiro – Osmar se divertiu com o nervosismo do garoto enquanto ele observava os homens sentados nas cadeiras.
— Eu só cortei o cabelo em casa, ou no salão da Neidi, amiga da tia Eleanor, lá no bairro.
Tristan mexeu no cabelo, sentindo os nós enquanto ele passava os dedos.
Osmar encarou o garoto, esperando que dissesse mais alguma coisa, mas Tristan permaneceu quieto até o barbeiro o chamar.
— Só tente não tirar muito os cachos, a mãe dele pediu – Osmar pediu ao homem, ele assentiu e Tristan sentou-se na cadeira giratória de frente para o espelho.
O espelho cobria toda a parede e Tristan ficou observando Osmar enquanto cortavam seu cabelo. Osmar ocasionalmente olhava para o espelho e Tristan o estava encarando, mas ele conseguia desviar os olhos antes de o homem perceber.
Osmar parecia um homem legal, Tristan sabia, mas ele não conseguia confiar em ninguém tão rápido. Ele não conseguiu confiar nem na sua mãe completamente.
Keith estava servindo uma mesa com duas garotas quando Carl entrou pela porta da lanchonete. Ele o encarou, confuso, e foi até ele.
— Esqueceu algo, Carl?
— Vim tomar café – ele disse, dirigindo-se ao balcão. Keith trocou um olhar breve com Marion, que ergueu o polegar e assentiu.
Marion preparou novamente o café de Carl e esperou que se aproximasse para sentar no lugar de sempre.
Carl ia todos os dias à lanchonete, e às vezes aparecia mais de uma vez. Todos os funcionários foram alertados sobre ele e como agir quando ele aparecesse. Keith gostava do senhor e ficava chateado com o fato de ele nunca lembrar-se o nome dele.
— Não é nada pessoal, para de ser sensível demais – Marion sempre dizia a mesma coisa.
Aiden queria procurar Sawyer, mas ficou receoso com o que ele estaria fazendo, então apenas voltou para a casa dele, sozinho.
A mãe dos garotos estava assistindo televisão na sala.
— Já voltou, Seth? – ela perguntou quando escutou a porta da casa abrindo. Aiden pensou em dar meia volta e sair, mas era tarde demais.
— Ah, oi Adam – ela disse, abrindo mais a porta para que ele entrasse.
Aiden encarou a mulher, sem entender bem o que acontecia com ela.
— Aiden.
— O que? – ela olhou para ele, a cabeça erguida em sua direção. A mulher era pequena e parecia frágil.
— Meu nome – Aiden começou a se arrepender de tê-la corrigido.
— Aiden – ela disse vagarosamente testando o nome – gostei. O meu é Mary – ela se apresentou ao garoto com um aperto fraco de mãos.
— Não sabia seu nome – Aiden admitiu, sentindo-se péssimo.
— Agora sabemos os nomes – ela sorriu e apontou para o sofá – venha, estou assistindo um filme sobre uma garota que tem câncer e vai morrer.
— Que filme? – Aiden franziu o cenho – deve ter algo mais divertido pra senhora assistir.
Mary deu uma risada fraca.
— Você tem razão, não sei por que assisto isso.
— De trágica e triste basta nossa vida – Aiden murmurou, mas Mary fingiu que não o escutou.
Sentaram-se lado a lado no sofá puído e assistiram ao filme triste juntos.
Havia uma razão para Mary não estar trancada no quarto apenas existindo e vivendo de medicamentos.
Seth lhe prometeu uma vida incrível, onde ela sairia daquela cidade e ficaria livre de todos os fantasmas que a assombravam, inclusive do seu ex marido morto.
Seth não podia fazer promessas, mas fez.
Prometeu a sua mãe que a vida seria melhor se ela tentasse, pelos filhos, largar os medicamentos que acabavam com seu cérebro, que a deixavam igual um zumbi pela casa.
Mary sabia o que Seth fazia quando saía à noite e só voltava no outro dia.
Suas mãos tremiam em cima do seu colo enquanto assistia Um amor para recordar com Aiden ao lado. Ela sentiu sua boca seca e se inclinou para pegar o copo de água em cima da mesa de centro.
— A senhora está bem? – Aiden questionou, preocupado.
— Estou ótima – ela forçou um sorriso enquanto bebia toda a água.
Mary queria ir até o quarto, abrir a gaveta da cômoda e pegar seus remédios para conseguir dormir e só acordar quando tudo estivesse bem, mas quando estava prestes a levantar, encarou o garoto sentado ao seu lado.
Aiden a encarava com preocupação e aquilo a fez sentar novamente no sofá e encarar o filme. Sem vontade de assistir ao filme, sem vontade de viver aquela vida, mas permaneceu sentada naquele sofá.
Pelos seus filhos.
Sawyer passou pela casa abandonada e um arrepio percorreu sua espinha. Lembrando-se daquele dia com seus amigos, o quanto haviam se arriscado ficando naquele lugar. Desde que Sawyer trabalhava com Seth ele já viu diversas situações ao redor daquela casa. Desde garotos de programa, como Seth era, até drogados que apareciam de longe para ter um pouco de paz com sua droga em uma casa onde ninguém o perturbaria.
Os funcionários de Seth estavam no beco, conversando, quando Sawyer se aproximou. Os garotos ficaram em silêncio e encararam o irmão mais novo de Seth, que estava cada dia ficava mais parecido com ele.
— Seu irmão falou o que você precisa fazer? – um dos garotos perguntou quando tirou o cigarro da boca. Sawyer o encarou desafiadoramente e pigarreou.
— Olheiro.
Umas risadas abafadas irromperam dos garotos mais velhos.
— Boa sorte – o garoto do cigarro disse, sem sorrir.
Sawyer sabia que Seth havia o escolhido como olheiro porque Seth estava desconfiado dele. Seth não confiava em ninguém.
— Você sabe o que fazer? – um dos homens que riram de Sawyer se aproximou dele – Fica aqui paradinho – ele tocou os ombros de Sawyer, o empurrando para ficar em frente ao beco onde escondiam as drogas. Sawyer quase o empurrou para longe, mas manteve o autocontrole – por enquanto fica aí que não acabou o turno do Jeff – ele apontou para um garoto distante.
Jeff estava parado na esquina da rua. Os carros passavam com pressa e Jeff mantinha seu foco nos veículos.
— Você só precisa avisar caso os porcos estiverem por perto – o homem continuou falando com Sawyer como se fosse a primeira vez ali.
Sawyer sabia tudo que precisava fazer.
Três horas parado encarando os carros e as pessoas, caso algo for suspeito, alertar quem ficar no beco. O movimento estava parando há dias, mas Seth não colocava os pés naquele beco desde que a polícia aparecera lá.
— Sabe que tem gente que quer a cabeça do teu irmão, né? – Sawyer estava sozinho no beco quando Jeff se aproximou dele.
— Porque diz isso?
— Ele é X9.
— Deve ter se confundido – Sawyer murmurou enquanto acendia um cigarro.
— Vai pro seu lugar – Jeff o chutou com o pé e Sawyer grunhiu levantando-se do chão. – E vê se não estraga tudo como seu irmão.
Sawyer ignorou o garoto de cabelos compridos enquanto seguia em direção ao seu lugar.
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