Welcome To The World Of Guertena
4 Legless Girl
Notas iniciais
Então o silencio reinou, fazendo-os prestar atenção na sala onde estavam. Era enorme e repleta de quadros jogados ao chão, algumas esculturas não terminadas e outras que simplesmente foram danificadas. Apenas um quadro estava pendurado na parede, o quadro de uma menina de cabelos roxos vestindo um vestido vermelho e branco, parecendo estar deitada de bruços tentando agarrar alguma coisa fora do quadro, o mais estranho naquela pintura, eram os olhos da menina... Bem, na verdade ela não tinha olhos, eram dois círculos negros vazios, e algo que parecia ser sangue pingava deles caindo no carpete empoeirado do lugar.
Garry se levantou lentamente tentando identificar melhor o quadro, definitivamente, não queria chegar muito perto.
–O que é isto? – Perguntou olhando desconfiado para o quadro.
Mayu não relutou em chegar mais perto, levantou-se rapidamente e caminhou até o quadro ignorando Garry que pediu para que ela voltasse. Mantendo uma pequena distancia, ela se inclinou para ler a descrição da pintura.
–Com pernas ou não... – Leu em voz alta – o medo pode te alcançar. Legless Girl.
Mayu tornou-se pensativa, sabia que já havia lido sobre aquela pintura em algum lugar, mas não se lembrava de nenhum detalhe sobre ela, e vendo o sangue pingando no carpete, decidiu se afastar.
–Su-sugiro que passemos rápido por aqui – gaguejou – Parece perigoso.
–Olhar para essas artes abandonadas aqui, me deu uma certa pena. – Comentou Garry olhando sério para os quadros e as esculturas atiradas ao chão – Mesmo que sejam perigosas, é um sentimento estranho.
–Acredite, eu lhe entendo. – Mayu desviou o olhar da garota na pintura e passou a frente – É melhor irmos!
Ib e Garry não discutiram, não era muito normal um quadro chorar sangue mesmo naquela situação. Garry segurou a mão de Ib, e juntos seguiram Mayu. Para Garry era incrível como a garota andava rápido, e pelo modo como sua voz soou ao dizer para prosseguirem fazia parecer que ela realmente estava com medo, mas ele só entendeu o pânico na voz da garota quando eles chegaram à metade da sala. As luzes piscaram rapidamente de modo que se estivessem distraídos jamais notariam, felizmente, Mayu estava atenta a tudo naquela sala. Apertou os olhos e deixou que Ib e Garry seguissem o caminho na sua frente diminuindo os passos.
–Não... Por favor, não. – Virou-se rapidamente para trás, vendo que o que temia, estava acontecendo.
A garota sem olhos havia saído do quadro, Mayu podia ver que ela estava sem as pernas e cada vez que se arrastava, deixava um grande rastro de sangue. O pior de tudo era que cada vez que a garota saía do lugar, as luzes se apagavam, e quando voltavam a se acender, ela estava cada vez mais perto.
–Garry, Ib, corram! – Gritou. Agora ela se lembrava de tudo, ela realmente já tinha lido a história daquela pintura, e não gostava nem um pouco dela.
–O que diabos... – Garry ficou confuso por um momento, mas logo pegou as duas garotas pelas mãos e começou a correr.
Teriam chegado sem problemas se as esculturas e os quadros jogados no chão, não estivessem se levantando para atrapalhá-los. Alguns manequins agarraram Garry inúmeras vezes pelo casaco, mas ele os chutou e voltou a correr. Os quadros tentavam agarrar os pés de Mayu, mas a mesma pulava por cima deles e muitas vezes os quebrou. De repente, todos ficaram imóveis ao chegar ao meio da sala. Um estalo podia ser ouvido atrás deles, como ossos se partindo. Voltaram-se lentamente para a direção do som para encontrar a garota sem pernas se contorcendo no chão como se sentisse uma dor insuportável, então ela parou e olhou estranhamente para Garry.
“Ghha...Ghaha...” Pronunciava enquanto chegava mais perto, parecia estar querendo falar alguma coisa “Pa...pa..i... Pa...i”
–Não... – Mayu soltou a mão de Garry e começou a correr mais rápido até bater contra a porta, logo girou a maçaneta e tentou desesperadamente abri-la, mas não obteve sucesso – Droga precisa de uma chave!
Garry, ainda segurando a mão de Ib, começou a ficar lento, então soltou a garota e colocou a mão na área onde Mary havia fincado a faca. Mayu ficou sem saber o que fazer, precisava encontrar a chave da porta e ao mesmo tempo proteger Ib e Garry da garota sem pernas, e se as esculturas e os quadros voltassem a se mexer, seria um grande problema agora principalmente, pois a garota estava quase alcançando Garry. Sem pensar muito, ela correu de volta para o meio da sala e se colocou na frente dos dois.
–Pare, Viola!– gritou para a garota sem pernas.
–Mayu?! – Garry tentou se voltar para ela, mas quando tentou, o ferimento latejou – Argh...
–Ib, rápido – Ela estendeu a mão na direção da menina – Dê-me a faca!
Sem discutir, Ib a entregou. Mayu empunhou-a na direção de Viola, que emitiu um grito horrível.
–Garry não é o seu pai – disse – Você está enganada.
–Mayu, o que está acontecendo? – Perguntou Ib.
–Ela é Viola, uma das pinturas de Guertena que deram terrivelmente errado e foram abandonadas neste lugar – explicou – Representa uma menina vítima dos truques de uma bruxa que se dizia sua amiga, assim quando tentou se vingar, foi morta pelo próprio pai por achar que ela era um monstro. Na verdade, a bruxa havia trocado de corpo com ela, e por isso ela tem essa aparência terrível, ela vaga pela galeria tentando encontrar seu pai, para levá-lo de volta para a morte com ela. Viola tem pavor de facas, pois foi com uma que a bruxa arrancou seus olhos.
–Isso é bizarro... – disse Garry tentando ficar de pé normalmente.
–Garry, Ib, saiam daqui – ordenou Mayu – Ela não tem pernas, mas é muito rápida.
–Ele não consegue andar – disse Ib – A ferida voltou a sangrar!
Assim que o disse, Viola investiu contra Mayu que deu um chute na cara da mesma afastando-a. Sabendo que não poderia mantê-la ocupada por muito tempo, teve que tomar medidas constrangedoras.
–Garry, desculpe-me por isso. Ib, corra o mais rápido que puder!
Esperando que Viola ainda estivesse atordoada no chão Mayu se voltou para Garry e o pegou no colo, assim correndo junto a Ib para a saída. Colocou Garry — que estava meio surpreso pelo acontecido – recostado ah parede ao lado da porta, e com Ib, começou a procurar desesperadamente a chave pelos quadros caídos no chão. Nos últimos momentos enquanto Viola se aproximava Mayu finalmente encontrou a chave, estava na boca de um gato preto num quadro simples decorado com uma moldura de flores vermelhas. Na descrição descrição, podia-se ler “Salvação” Mayu nem precisava ler a descrição para saber que definitivamente, o gato os tinha salvado. Ao tentar tirar a chave de sua boca o gato tentou morde-la, mas foi lento demais para consegui-lo. Mayu correu de volta para a porta e então a destrancou, empurrou Ib e Garry para dentro do quarto e depois entrou bem no momento em que Viola tentou atacá-los, assim batendo a porta na cara da garota que batia violentamente na madeira tentando derrubá-la. Mesmo que fosse triste, Mayu agradeceu em silencio por Viola não ter pernas. Encostou-se na porta depois de trancá-la, e olhou atônita para os amigos.
–Por favor, me digam que estão bem. – Disse.
Garry se ajeitou ainda segurando o ferimento, então olhou para a garota e abriu um pequeno sorriso.
–Você foi ótima – disse – Chego a ficar com um pouco com ciúmes.
–Obrigada – Agradeceu meio distante – Não queria que se machucassem.
Do lado de fora, um choro desesperado podia ser ouvido. Viola já havia desistido de tentar abrir a porta e agora se lamentava novamente.
–Eu sei que parece loucura, mas... – Ib cruzou os braços e olhou para o lado – fiquei triste por ela.
–Acredite, sinto-me culpada – Mayu saiu de perto da porta fazendo um olhar sério – Ellen, a bruxa ainda no corpo verdadeiro de viola, arrancou-lhe os olhos com uma faca, e logo depois tentou matá-la com ela, mas... o pai de Viola chegou na hora, e achando que a Ellen era sua filha, chamou Viola de monstro por sua deformidade e matou-a a tiros. O homem tirou a vida de sua própria filha por engano... Eu realmente odeio essa história. – Por fim, devolveu a faca para Ib.
–E como conhece tão bem a história? – disse aceitando a faca.
–Eu... Eu fiquei presa aqui por um bom tempo – mentiu – como gostava de ler, me escondi em uma sala, certa vez, e encontrei um livro de histórias, e foi onde eu a li. Por mais que seja triste e eu a odeie, sempre a lia novamente. Esquisito, não é?
–Bastante... Mas por quanto tempo ficou presa aqui, afinal? – Ib passou o peso de uma perna para a outra e tentou ignorar o choro de Viola que ainda se lamentava do lado de fora.
–Bati com a cabeça depois de ser atacada, não me lembro de muita coisa ainda, mas ao ver Viola pude reconhecê-la na hora talvez por ter lido tantas vezes a história... Talvez uns quatro dias? Nunca vou saber, o tempo parece parar dentro deste lugar.
–Em quatro dias andou por quase todo o museu? – Perguntou Garry desacreditado.
–Não, não – apressou-se Mayu — Não fui muito longe, eu vim pela direita e atravessei o corredor, então fui atacada e depois disso só me lembro de ter sido encontrada por vocês. Devo ter lido o livro alguns dias antes disso ou... Talvez até o conheça de fora da galeria, mas não me lembro. Ficaria presa num lugar só para sempre se vocês não estivessem aqui, acho, não seria capaz de muita coisa sozinha.
–Oh sim – Garry assentiu – você deve ter sido atacada várias vezes.
–Sim, mas conseguia fugir sem muitos problemas...
–Entendo, bem... – o homem rasgou sem dificuldade um pedaço da barra do casaco e enrolou-o no ferimento como se fosse uma atadura – O que faremos agora?
Mayu olhou por cima dos ombros do homem e então seu rosto tomou uma expressão de tédio.
–Resolvemos esse pequeno labirinto – Apontou – Pequeno, eu espero...
–Opa, era só o que faltava! – disse Garry desanimado.
–Aham, mas isso não é tudo – Mayu diminuiu o tom da voz – Eu estou escutando algo...
Logo todos ficaram quietos, e dentro do labirinto algo parecia vagar sem rumo. Uma espécie de choro abafado podia ser ouvido, e junto dele um som de algo estalando, como se fosse um pescoço sendo quebrado.
–Faz quase o mesmo som que a Viola – murmurou Ib – O que é?
–Não me lembro de ter lido nada sobre ele – Mayu encarou a menina – Ib, você ainda tem aquele livro sobre as pinturas de Guertena, não tem?
–Sim, eu coloquei em meu bolso – Ib enfiou as mãos no bolso de sua saia vermelha que ia até os joelhos, e então tirou um pequeno livro de capa verde – Aqui! – Ela o entregou para Mayu.
A mesma abriu o livro e começou a folheá-lo.
– Lembro-me vagamente de outra história que encontrei no livro que achei na sala onde havia me escondido, mas não estou certa de que seja ela... Th... Th... – gaguejou tentando lembrar o nome – Começava com “T” disso eu tenho certeza! – Finalmente folheou o livro até encontrar a seção “T”
Mayu viu páginas e mais páginas de pinturas aleatórias que começavam com a letra “T”, mas logo se deparou com a página que estava procurando.
–O labirinto do Homem Torto – leu em voz alta – Inspirado em uma antiga história que Guertena leu, esse pequeno labirinto foi criado para divertir os visitantes. Em cada parte do labirinto ah algo assustador, e o visitante deve achar a saída para continuar sua visita pela galeria, e os que não quiserem participar da brincadeira serão guiados por um funcionário para fora do labirinto. O Labirinto do Homem Torto também é uma parte da galeria que vale a pena ser visitada, logo na entrada pode-se ver o quadro inspirado na história, um homem torto e solitário com um poema gravado em sua descrição.
–Traduzindo – zombou Garry – Tem alguma coisa la dentro que vai nos perseguir até encontrarmos a saída por nós mesmos, porque eu duvido que tenha algum funcionário esperando a gente ali dentro.
–De fato – concordou Ib – e eu acho que conheço essa história... “Era uma vez um homem torto, que andava em uma rua torta... Ele encontrou um suspensório torto, e inventou um estilo torto” Ou algo assim. Minha mãe já cantou uma musica baseada nesse poema para mim, quando eu era pequena.
–Você ainda é pequena, Ib – Garry riu.
–Ah...
–Bom, se quisermos sair daqui... – Mayu suspirou – Vamos ter de enfrentá-lo.
–Já que não temos escolha – Garry fez uma careta – e torcendo para que encontremos um jarro nesse labirinto... Vamos lá.

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