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3 O misterioso garoto "de lua"


Notas iniciais
Galera, pra quem não sabe, "de lua", quer dizer alguém que vive mudando o jeito ou a personalidade de uma hora pra outra!^-^

Entrei sorrindo no ônibus.
Aliás, passei o caminho todo sorrindo.
O dia estava maravilhoso para mim.

Senhorita Takeda, elogiou minha postura, dizendo que “uma guia deveria estar sempre sorridente e bem-disposta.”
Balancei a cabeça concordando e sentei na primeira fileira do ônibus.

Enquanto a viagem ocorria, eu ficava brincando com meu novo celular.
Precisa pensar num plano para conseguir a foto, e não seria fácil.
Mas eu estava confiante.

Muito mais rápido do que eu pensava que fosse, chegamos em frente aos portões da mansão.
Podia parecer idiotice, mas eu sempre me impressionava quando a via.
Era tão imponente, que parecia que nós ali éramos apenas formigas olhando para uma casa humana.
Definitivamente era um lugar sobrenatural.

Tirei o celular da bolsa, e depois de mexer um pouco descobri como funcionava a câmera.
O sol refletia de forma suave, tornando uma vista perfeita.
Me afastei um pouco e bati a foto.
Olhei para tela do celular para ver o resultado e me surpreendi:
Além dos portões, havia um vulto negro em cima de uma árvore enorme.

Meu coração começou a acelerar e assustada, desviei meu olhar para a mansão.
Por mais que eu forçasse minha vista não conseguia ver nada além das folhas e galhos da mesma arvore.
Então, Takeda anunciou o fim da excursão.

Hesitante, me virei devagar e corri até o ônibus.
Com o coração acelerado, e com a cabeça cheia de perguntas, que no fundo, duvidava se queria ou não realmente saber as respostas.

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Olhei para o semáforo mais uma vez, irritada por ele ainda estar verde.
Ajeitei nervosamente o minhas roupas, alisando o tecido da blusa social branca e puxando a saia social preta mais para baixo. Não tinha um uniforme, mas como estagiária, deveria usar roupas formais.
Havia demorado demais em casa, aliás não era nem para eu ter ido.
Meu horário de almoço era extremamente curto, mesmo para ir para um lugar tão perto como onde eu morava. Parecia o tempo de merenda do primário, com a diferença de que eu não poderia levar para o hotel uma lancheira colorira e cheia de doces.

“Doces... É disso que eu preciso!”-pensei enquanto atravessava apresada no sinal vermelho.

Ainda não estava atrasada, então não faria mal algum mandar minha dieta para o quinto dos infernos e torar o meu dinheiro com guloseimas na minha doceria preferida.
Não levaria mais do que alguns minutos, pois sabia que nesse horário ela estaria vazia.

Abri a porta de vidro, e entrei saltitando pela loja.
O lugar era pintado com tom suaves de azul e amarelo. Tinha várias estantes de madeira envernizada com inúmeros tipos de doces tipos doces, algumas mesinhas também de madeira, cobertas com um tecido azul-bebê e bem no centro, um balcão com doces gelados.
Para a minha surpresa havia alguém escorado no balcão de vidro esperando para ser atendido.

-Bom dia- falei sem nem ao menos encarar a pessoa, meus olhos estavam muito ocupados procurando meu doce preferido.

Alguns minutos depois a atendente chegou carregando uma caixa, aparentemente pesada pelo esforço que fazia.
Quando ela abriu e tirou uma das pequenas embalagens coloridas, e quase pulei de alegria.

-É esse mesmo que deseja, senhor?-ela falou gentilmente para a pessoa ao meu lado.

-Sim, vou levar a caixa inteira

-O que?- exclamei

Ambos olharam para mim surpresos com meu grito. Ou não tinham percebido que eu estava ali até então.

“Fala sério, nem sou tão baixa assim!”

Quase suplicante, perguntei se havia mais alguns daqueles no estoque e quando recebi uma resposta negativa da atendente comecei a fuzilar o garoto ao meu lado com os olhos.
Podem fazer de tudo comigo: queimar todas as minhas roupas, xingar minha tataravó, me jogar coberta com molho de churrasco numa sala cheia de leões famintos, que eu nem ligo.
Agora me deixar sem os meus chocorobos é demais para eu aguentar!

-Você é um egoísta sem coração! Como você pode comprar todo o estoque de chocorobos, e não deixar nenhumzinho para as outras pessoas, hein? Acha que é o único no mundo que gosta de chocolate?

Ele nem se deu ao trabalho de olhar para mim. Apenas a atendente, sussurrou um “Eu lamento.” Entregou o cartão para a moça, e esperou que ela o devolvesse. Pude sentir meu rosto ficando vermelho de raiva.

-Vai acabar ficando com dor de barriga, obeso, cheio de caries, com diabetes, hipertenso e quando morrer não vai para o céu. Porque você é mesquinho, egocêntrico e egoísta!

-Isso é para ser uma espécie de profecia? Por que não vai dar certo, garota.. — ele se virou pra mim entediado e por meio segundo minha raiva sumiu.

Seus olhos verdes estavam bem mais opacos do que eu me lembrava, e seus cabelos, agora sem o boné, eram prateados. Sua pele quase pálida contrastava com o preto das roupas que ele usava no momento.

-Você... É o garoto de ontem...

Ele fez esbouçou uma tentativa de sorriso que despareceu segundos depois.

-Porque você não voltou para o ônibus?-perguntei

-Acho que sou bem grandinho para precisar de babá.- ele respondeu sarcástico.

-Aquele lugar é perigoso-ignorei a grosseria- Não só pela mansão, como também e pelo fato de animais selvagens aparecerem por lá a noite.

-Esqueceu dos fantasmas das vitimas da família assassina.

-Pará de graça, garoto- falei irritada- Estou falando sério! Ali é um lugar perigoso para acampar ou seja o que for que você estiver fazendo.

Ele guardou o cartão, segurou a caixa com uma das mãos.

-Valeu por se preocupar, mas você não me conhece.- ele sorriu e um brilho sinistro apareceu nos olhos dele, me deixando arrepiada- Sei cuidar de mim.

Então, ele esticou o braço e bagunçou o meu cabelo, que havia sido preso cuidadosamente em coque.
Antes que eu pudesse fechar a mão para dar um belo de um soco naquele garoto irritante e irresponsável, ele foi embora.

Passei a mão no rosto, irritada. Esse garoto conseguiu me estressar mais do que a senhorita Takeda.

-Senhorita Takeda?-olhei para meu relógio de pulso e quase tive um troço.

Estava extremamente atrasada, que nem me se eu criasse assas e penas eu chegaria no horário. E tudo porque eu resolvi entrar nessa loja idiota, para comer um doce idiota, e acabei encontrando o maior dos idiotas que me fez perder tempo!
Ahá! Será que alguém aí tem uma maquina do tempo pra me emprestar?

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Depois do sermão gigante que eu ouvi da minha supervisora, o resto do dia foi completamente monótono.
Não havia uma segunda viagem para a mansão naquele dia, então eu fique presa no hotel, mas precisamente, num quartinho reservado para os funcionários que trabalhavam no ônibus.
Os turistas que agendavam as viagens geralmente ficavam nesse hotel, então resolveram juntar as duas empresas, recentemente.
O quartinho, era bem diferente dos outros. Tinha dois beliches de ferro e um armário simples. As paredes eram de um tom branco-opaco, da mesma cor dos lenções e fronhas.
O banheiro tinha a pia e a privada branca, e um chuveiro.
Deitei uma das camas, sem me importar de quem era, e antes que percebesse, dormi.

Acordei algumas horas depois com o baralho da porta abrindo.
Levantei-me rapidamente, e aliviada vi que era a senhorita Takeda.
A cumprimentei e depois de arrumar rapidamente a cama, peguei minhas coisas e fui para o banheiro me arrumar para a faculdade.
Coloquei uma calça jeans, tênis confortáveis, e um casaco de moletom preto.
Joguei tudo dentro da mochila, e fui embora.

Só quando estava a caminho da faculdade que eu me lembrei de partes do sonho que eu tive.
Tinha um menino, que ria de alguma coisa. E eu estava triste, muito triste.
Ele começou a debochar de mim:
“-Mii é uma bobona! Mii é uma bobona!”

Balancei a cabeça, sem entender nada. Eram imagens sem sentido, mas pareciam reais.
Fiquei pensando nisso durante um tempo, e quando finalmente dei por mim, não estava em frente à faculdade, e sim, tinha ido pelo caminho oposto. A única luz, vinha da lua cheia que brilhava, iluminando os enormes portões da Mansão.

Um arrepio subiu pela minha espinha. O lugar estava deserto. Nem mesmo o velho senhor porteiro estava em sua cabine essa noite.
Era como se a mansão conseguisse ter ficado ainda mais aterrorizante.
Eu sabia que tinha que ir embora dali o mais rápido possível, porém um som animalesco me manteve congelada no lugar. Não era uma alcateia inteira, mas sim um único uivo com a potência de milhares de outros.
Eu podia sentir meu sangue pulsando acelerando pelas minhas veias.
Um segundo uivo rasgando o céu, ainda mais alto que o anterior.
Não consegui saber de onde ele vinha, mas tinha certeza que estava bem próximo.

“Kami-sama! Sou nova demais para virar ração de monstro”- pensei desesperada.

Ouvi um galho se partindo atrás de mim. Dei um pulo e me virei.
Não havia nada além da escuridão.

-I-isso é só-só coisa da sua ca-cabeça, Harumi.-falei comigo mesma.

Estava tremendo mais do que bambu em dia de ventania.
Iria morrer a qualquer momento. E nem seria uma morte legal, do tipo que o gente vê nos filmes.
Não teria um Leonardo de Caprio declarando seu amor por mim enquanto o mar dava descarga em nosso navio luxuoso.
Nada de pôr-do-sol, pombos brancos, ou musiquinhas de fundo.

Apenas meus órgãos, miolos e tripas espalhadas pelo chão.
Um final lindo, não?

De repente o vento frio que batia em minhas costas foi substituído por uma presença.
Agora estaria tudo acabado e...

-Há!

Deu um salto assustada e me virei.
Não tinha, nenhum lobo-mal esperando para me transformar em mingau de Harumi e aveia, e muito menos o Leonardo com um Buque de rosas.
Era muito pior. Estava o mesmo rapaz, cruel e perverso da loja de doces.
E de quebra,o garoto gargalhava sem se importar com meu quase infarto do miocárdio.

-Devia ter filmado isso!

O meu sangue que provavelmente tinha ido parar no dedão do pé com o susto, subiu o jato para o meu rosto.
Estava tão quente de raiva que era bem capaz de conseguir fritar um ovo a testa.

-Seu ibecil, idiota, jegue, jumento, estrupício, babaca, moleque!!!- gritei num só folego-Vai assustar sua avó, seu... Seu... Ah! Você entendeu!

— Entender o que? Posso tirar uma foto de você assim?

Irada, comecei a bater nele com as duas mãos.
Ele voltou a gargalhar, sem mover um músculo.
Tudo bem sabia que não era nenhum Mike Taison, mas ele agia como se estivesse fazendo cocegas nele!

Bufei, e parei de tentar em vão um homicídio doloso, ou seja, me afastei do pirralho de 1,80 e só então me toquei:

-O que você está fazendo aqui-cruzei os braços irritada-, fora tentar me matar?

Ele balançou a cabeça, e colocou as mãos no bolso do casaco.
Então, alguma coisa mudou nele.
O garoto se aproximou de mim, de modo que mesmo ali, no escuro quase completo, eu consegui ver o tom de seus orbes claramente.

-Pergunta errada. Eu que pergunto o que você esta fazendo aqui... -um meio sorriso surgiu nos lábios dele- Fora tentar se matar?

Eu engoli seco, tensa, sem a menor idéia sobre o que responder.

Ele sorriso dele aumentou.
Vir nesse lugar, desacompanhada e á noite era suicídio na certa.
Não foram poucos os casos de mortes aqui e não eu não acredito que a família Zaoldyeck esteja envolvida nisso. Mas todos os suspeitos alegam inocência, culpando os donos da mansão e com isso ninguém é preso.

-Se preocupa demais com os outros e esquece de você... Ou acha que é mais forte que eu?

Olhei pra baixo sem graça. Odiava quando não tinha uma boa resposta na ponta da língua.
Mas nem tive tempo de pensar em alguma coisa, pois o chão começou a balançar.
Como se uma dúzia de elefantes caísse de uma só vez.
Isso se repetiu umas quatro vezes, e um terceiro uivo começou.
Vindo do portão principal da mansão, bem a nossa frente.

-O que é isso, meu Deus?!-falei nervosa.

O garoto riu e balançou os ombros.

-Um dos segredinhos da mansão.

Balancei a cabeça sem entender nada.
Meus ouvidos doíam, por causa do som animalesco.
Mas o garoto parecia não se importar.
Quando finalmente o barulho parou, ele se virou para o portão.

-Você sabe o porque que ninguém volta vivo depois de passar por esse portões?

-Não-sussurrei

-Então, acho que sua visita noturna vai começar a ficar interessante.

Olhei pra ele ainda mais confusa. Ele sorriu e fez um sinal para que eu o seguisse.
Quando estávamos ao lado da cabine do porteiro, ele me segurou pela cintura.
Antes que eu protestaste, ele saltou.
Não era um pulo que nem o de uma pessoa normal.
Ele simplesmente deu um salto e foi parrar no telhado da cabine, e em seguida deu um segundo salto, parando em cima do muro.

-Fique quieta.

Não entendi a ordem, a princípio. Alias, se ele não tivesse falado quase no meu ouvido, eu nem se quer teria escutado. Estava preocupada demais em conseguir respirar.
O garoto me segurava com uma das mãos, e com a outra equilibrava nós dois no muro.
Mesmo estando escuro, eu sabia que se caísse, iria tocar harpa com os anjos celestes.
Mas quando meus olhos bateram na enorme criatura a poucos metros dali, em me esqueci de tudo.

A lua cheia estava alta no céu, iluminando parte da floresta Zaoldyeck.
Caminhado tranquilamente por ali, estava um cachorro, lobo, raposa... Sei lá!
Um bicho de quase quinze metros de altura.

Meu estomago estava fazendo ginástica olímpica na minha barriga.

-Ele é um dos guardiões da mansão.

-U-um?-gaguejei em pânico- Quer dizer que tem mais desses?!

Ele riu baixo e eu não entendi qual era a graça.
Se tivesse uma alcateia, manada, bando, ou seja, lá o que for o nome do coletivo desse bicho, eu iria me mudar amanhã mesmo para outro país!

De repente, a criatura, começou a farejar alguma coisa.
Para o meu desespero, ele virou na nossa direção.
Sabe aquele papo de tripas e miolos espalhados?
Acho que nem isso ia sobrar.

O sorriso do garoto despareceu.
Então, muito rapidamente, ele me puxou e me pediu para não me mexer.
Eu nem respirava, quando ele praticamente se jogou em cima de mim, me escondendo com o próprio corpo.
Me encolhi e fechei os olhos, rezando mentalmente todas as orações que me lembrava.

Ouvi o barulho do animal se aproximando, com suas patas enormes batendo no chão.
Meu coração estava disparado, mas eu podia sentir que o do rapaz, que provavelmente estava encarando o monstro naquele exato momento, estava batendo de modo normal. Ou ele não tinha coração, porque mesmo estando encostada no peito dele, eu não sentia pulsar.

E no momento que eu achei que iriamos morrer, ouvi o bicho indo embora em disparada.
Mas só alguns segundos depois ele saiu de cima de mim.

-Pode abrir os olhos, agora.

Levantei o rosto devagar, e senti um alívio enorme ou ver que estávamos sozinhos...e vivos.
Não sei se foi por isso, ou se meus neurônios derreteram com o medo, mas eu abracei ele forte. Na verdade eu quase me afundei no pescoço dele.

O garoto ficou tenso por alguns segundos, mas logo relaxou, apertando ainda mais a minha cintura. O cheiro dele era muito bom, suave e natural.
Em pouco tempo, eu estava completamente relaxada, e não estava com a menor vontade de sair dali. E provavelmente nem faria, senão começasse a ventar forte, me fazendo voltar a pensar direito. Me afastei devagar, tentando me equilibrar no muro.

-Acho melhor a gente descer, antes que esse bicho volte.

Ele balançou a cabeça concordando e pulou comigo.
Bem mais suave do que eu esperava, nós chegamos ao chão sem fazer o menor ruído.
Ele me soltou, e voltou a colocar as mãos no bolso.

-Obrigada-agradeci de forma sincera.

Ele balançou os ombros, como se dissesse “Não foi nada”.
Mas havia sido muito. Eu não fazia ideia do que ele havia feito, mas conseguiu afastar o monstro.

-Posso te perguntar uma coisa?-perguntei depois de um tempo.

Ele não disse nada, mas eu continuei mesmo assim.

-Como você fez tudo aquilo?-apontei para a cabine- Tipo, pular o muro e afastar o bicho... E como você sabia que ele existia?

-Isso é mais de uma pergunta- ele riu.

-Por favor- insisti

Ele olhou pra cima, como se pensasse numa resposta. Ou simplesmente queria me fazer morrer de curiosidade.

-A resposta é simples... –ele olhou para mim, acabando com o suspense- Eu sou um Hunter.

-Hunter?-repeti

Eu nunca vi nenhum Hunter antes, mas conhecia um pouco sobre eles.
Eram pessoas muito habilidosas que buscavam tesouros ou recompensas pelo mundo.
Ou ainda criminosos de alto nível.
Também sabia que para ser tornam um era necessário fazer um teste extremamente difícil chamado Exame Hunter.

-Acho..-falei depois de alguns instantes-Que estou começando a entender.

-Estou supreso. Você parece ser bem burrinha.

-Ei!-exclamei indignada

Ele riu, e bagunçou o meu cabelo, como se faria com um cachorro.
Essa mania dele estava começando a me dar nos nervosos.

-Então, até mais.- ele se virou e foi andando.

Fiquei parada por alguns instantes, sem ter reação alguma.
Demorou para que eu percebesse que ele estava indo embora...
Talvez ele tivesse um pouco de razão quanto a minha lerdeza mental....Só um pouco.

-Espere!-exclamei e corri para alcança-lo

Ele parou de andar e olhou pra mim, com o mesmo ar debochado de alguns momentos atrás.

-Que foi? A garotinha ficou com medo de ficar sozinha no escuro?

-Não. -respondi enquanto arfava por conta da pequena corrida-Apenas acho que caminhar acompanhada seria mais agradável...

Sim, ele com certeza não caiu nessa e nem eu....Mas não me custava nada tentar.
O garoto me perguntou pra onde ia. Expliquei rapidamente, dizendo que bastava chegar a parte movimentada da cidade, estava tudo bem pra mim. Ele balançou os ombros e continuamos antando.

-Você é daqui?-perguntei para passar o tempo.

-Sim e não.

-Como?-perguntei confusa.

Ele riu baixo, e respondeu, sem olhar par mim.

-Não gosto de estar preso a nada. Não me prendo a nada, nem a ninguém. No momento, eu sou daqui, sim. Mas nada me impede de ser de York Shin, ou da Ilha da Baleia.

-Desculpa...-olhei pra baixo sem graça.

-Sem problemas, garota... E você?

Respirei fundo, e balancei os ombros.

-Estou aqui desde que me entendo por gente, mas...

-Mas....?

-Deixa pra lá... São coisas bobas minhas...

-Cada um com seu mistério. — nós rimos e o silêncio voltou.

Não conhecia esse caminho por onde íamos, mas não estava preocupada.
O garoto parecia estar seguro do que fazia, então não disse nada.
Poucos minutos depois, estávamos na cidade.
O caminho que fizemos acabava num beco estreito, que eu jurava que era sem saída.
Havia uma passagem completamente escura e disfarçada, que nos levava diretamente para o centro da cidade. O atalho que pegamos nos economizou pelo menos meia hora de caminhada.

-Nossa! Como você sabia desse caminho?

-Todo Hunter tens seu truques... E um excelente GPS-ele tirou o aparelho do bolso e me mostrou.

-E eu pensando que você tinha sexto-sentido, ou algo do gênero.

-Chegamos, não foi?-ele rolou os olhos.

-Consultando um mapa, até eu -falei cruzando os braços.

-Dizer “Obrigado” não doí, sabia?

-Tá, tá-concordei irônica- Obrigada senhor. Não sei o que faria sem você.

-Bem melhor assim.

-Por que você é tão convencido, garoto? –falei sem paciência

-Por que você arrogante, pirralha?

-Eu, Pirralha?

Respirei fundo contando mentalmente até dez.
Seria um bom momento pra Buda se apossar do meu corpo e recitar alguns mantras.

-Não vamos regredir ok? Somos bastante crescidinhos pra ficar discutindo no meio da rua- falei devagar.

-Foi você que começ...

-Não importa!- passei a mão pelo rosto tentando controlar a minha TPM fora de hora- Vamos começar do zero.

Limpei a garganta, e endireitei minha postura.
Era expert em filmes, então não seria difícil imitar o sorriso de Julia Robberts ou da Angelina Jolie

-Olá, senhor. Meu nome é Harumi, e estou encantada em conhecê-lo.

-Parece que você está com câimbra no rosto.

-Ei!

-Ou caiu de um precipício de cara.

-Olha aqui, seu...

Ele gargalhou , jogando a cabeça pra trás, enquanto eu espumava de raiva pela boca, e saia fumaça pelas minhas olheiras...No sentido figurado, tá galera?!

Foi quando ele parou de rir do meu talento teatral incompreendido, e olhou pra mim.
Mas não foi um olhar debochado, com igual a qualquer outro que eu tinha visto antes.
Era um olhar que misturava a sensualidade de Antônio Bandeiras em Zorro, e a paixão de Leonardo D’ Caprio em Titanic. Então ele sorriu. Um sorriso mas brilhante que em comercial de pasta de dente.

Sério, parecia que eu tinha sofrido lavagem cerebral naquele momento. Provavelmente estava babando litros, com olhos brilhantes, e sangue escorrendo pelo nariz que nem uma cena bizarra de anime.

-O prazer é todo meu em conhecê-la, doce senhorita-ele se aproximou de mim e pegou a minha mão. E o nome da pessoa que tem a honra de estar em sua presença é...

-É... -balbuciei.

-Killua.

-Sim, a lua tá linda hoje mesmo...

-Não, ibecíl. Esse é o meu nome.

Sabe aquele papo de estar sem cérebro?
Então, ele estava no espaço, e quando ele me xingou e começou a gargalhar histericamente da minha cara, meu neurônios voltaram feito um meteoro pra minha cabeça, tarde demais.

-É assim que se atua de verdade.- ele falou entre risadas.

E foi embora. Me deixando vermelha, irritada, confusa, nervosa, e com os mais loucos planos homicidas na cabeça.