Weiß Dämon
19 Ursos e Canções
Notas iniciais
As aulas passaram a ser frequentes durante as duas semanas que se seguiram. A cada dia um assunto diferente, ela não tinha muito tempo para estudar antes de passar para o próximo. Mas ela não sentia que as lições estavam apressadas. Ela entendia bem o que ele estava ensinando.
Agora que sabe correr. Ele diz, enquanto anda com ela pelas campinas, Tem de saber como não precisar correr.
— Não seria melhor… — ela dizia, meio arfante, enquanto tentava acompanhar o passo dele — aprender a evitar o perigo primeiro?
Não, pois o perigo sempre aparece, tem de lutar primeiro, defender. Como você é muito frágil até para um filhote de Shlanken, você não tem escolha a não ser correr e se esconder. Mas agora vai aprender a não ter de correr. Ali. Escute.
Ela para quando ele para, e tentou escutar à frente. Ouviu o barulho de algo grande se locomovendo em quatro patas, roçando numa árvore próxima, e fazendo uns grunhidos. Definitivamente era enorme.
Tem de ouvir. Tem mais além dele?
— Não. Não tem. Só os esquilos. Por quê?
Os ursos sempre estão sozinhos, as ursas não. Ursas são piores, se tiver filhotes, vá embora, elas não admitem estranhos. Se for urso ou ursa sozinha, mantenha a calma. Se falar, fale baixo, não o assuste, dê espaço. Ofereça comida, se tiver. Se atacar, lute ou finja de morta. São grandes mas fáceis de lidar…
— Entendi. E os lobos?
Lobos são piores. Em bando, não há o que fazer a não ser não deixar eles te amedrontarem. Se correr, eles correm atrás. E correm muito. Bem, no caso de lobos, eu saberei. Você não tem arma, então eu serei a arma. Com o tempo, os lobos vão aprender a te ignorar, pois vão te associar a mim.
— Sim senhor. Chamarei se preciso.
Ótimo. Agora… bem… agora creio que não tem mais o que possa te ensinar aqui. Escalar árvores é perigoso para você. É, o máximo que pode fazer é aprender a bater com esse cajado.
— Eu… nunca fui treinada para a luta. Pode ser interessante.
Bem, um dia talvez. Desde que prometa que não vai me bater com ele.
— Só se me prometer que não vai usar mais aqueles sinos na minha cabeça.
Não posso prometer.
— Pois é, não posso também.
Justo. Ele agita os tentáculos, estavam um pouco mais baixos esta manhã. Talvez estivesse preguiçoso.
— Falando em prometer, como está aí a sua vigília?
Ele ‘abre a mente’ por um breve momento, parece se arrepiar e a fecha de novo.
A mesma de antes. Agitada. Humanos rondando a orla. Alguns são filhotes teimosos, mas as mães já os pegaram.
— Crianças são muito teimosas. Tem de ensiná-las corretamente de modo a não atiçar a curiosidade para esses perigos.
É. Filhotes são assim. Mas aprendem. Os que aprendem sempre sobrevivem.
— De fato. — ela então percebe o silêncio e a dúvida lhe bate — O que o senhor faz para se divertir?
Ele precisou pensar um pouco nessa. Me divertir?
— É, se distrair, num dia calmo, sem intrusos ou problemas maiores… o que o senhor faz?
Não tenho um dia calmo desses há anos.
Andeir corou — é, de fato… mas num geral, para matar o tédio?
Ah, sobre o tédio, tenho umas coisas… passear pelas terras é sempre uma boa distração. Nunca tem a mesma coisa duas vezes. Sempre encontro algo também, as quinquilharias em casa são todas porcarias que sua espécie deixa para trás quando passa por aqui. Ou que eu pego quando caço. Oh, caçar. Eu gosto. Também organizo as plantas e mantenho a floresta sempre verde e com mesma quantidade de tipos de árvores em todos os lugares.
— Nossa, então é por isso que se irrita tanto quando derrubam uma.
Elas demoram para crescer. Ele parece meio aborrecido com a lembrança. E aves vivem nelas, esquilos, raposas que comem esquilos, atrapalha tudo. Algumas plantas e fungos só crescem perto de árvores centenárias, sabia?
— Isso é interessante — ela sorriu — eu gosto de cantar, e de fazer coroas de flores, também gosto de ouvir e contar histórias.
O que seria cantar?
— Ah, é como falar mas com ritmo e melodia. Música, só que com a voz.
Ah, música, isso eu conheço. Acho que já escutei você fazendo isso.
— Bem provável, eu fazia com frequência, mas as coisas mudaram e eu não sabia que podia.
Bem, cuidado com o barulho, quando estiver só. Fora isso… só não me atrapalhar.
— Prometo. Me avise também.
Combinado. Agora, cante. Quero escutar.
Ela hesita com aquele pedido. Que tipo de música se canta para um Slender? Então ela tomou uma decisão.
Venham criancinhas
Que eu os levarei
Até uma terra de encantos
Venham criancinhas
É hora, venham brincar
Em minha terra das sombras.
Por que as crianças iriam com você até lá? Isso parece uma armadilha.
Ela riu com a reação dele.
— É uma canção de ninar. Já ouvi essa música, é na verdade um bicho papão atraindo criancinhas para uma armadilha, oferecendo encantos e doçura...
E humanos cantam isso para seus filhotes!? E eles dormem?
— Bem, quando elas são pequenas, isso as embala no sono, mas é mais pelo tom da voz do que a mensagem em si. E também é para alertar elas dos perigos.
Não tem nenhuma que não seja matar eles de medo?
— Por quê? — Ela então sorri, meio travessa — O senhor tem medo?
Não! Ele grunhe. Mas se vocês já matam seus filhotes de medo, eles ficam sem querer viver.
Ela ri. Ela estava achando isso adorável.
— Nós temos músicas bonitas sim, sobre o mundo ao nosso redor, sobre religião, coisas históricas, cavaleiros nobres de outrora, comédia, até mesmo de amor.
O demônio passa uns segundos refletindo antes de responder.
Bem, temos o resto do dia antes de voltarmos para casa. Vai em frente.
Ele anda um pouco na direção da clareira, de onde o urso já tinha se retirado, e usa os tentáculos para tirar frutinhas e as juntar numa mão. Aquele som de tecido rasgando e ele joga todas as frutas da mão para a boca, engolindo-as. Aquela mão dele inteira deveria ter pelo menos um prato cheio para ela. Andeir sorriu. Apesar do som arrepiante, era algo bem pacífico. Começou a solfejar algumas notas, tentando se lembrar de alguma coisa.
— Eu acho que tem alguma coisa sobre você, entre as músicas que eu conheço…
É? Então eles também cantam sobre mim?
— Sim, mas eu não me lembro exatamente como se começava… — então um arfado e ela sorri — lembrei.
Weiß Dämon...
Sério isso?
— É assim que a gente canta essa música…
Não, mude. Se é pra me chamar de demônio, prefiro ficar sem saber.
Andeir fez um muxoxo.
— Tá bom, vou lembrar de outra. Pronto, uma romântica.
Romântica?
— É, de amor. Demonstra profunda devoção de um humano para um ser amado…
Eu sei o que é amor. Ele bufou. Só que esse é um nome feio para o conceito de amor. Mais uma pausa, quando viu que ela não respondia, ele falou. Continue.
— Então o senhor sabe o que é amor?
Achei que soubesse disso a esse ponto. Mais uma mão dele cheia de frutinhas foi direto para a boca.
Ela se perguntou em que ponto do tempo em que estavam juntos eles conversaram sobre isso, mas relevou, pode ter deixado essa passar. Começou a cantar baixinho.
O amor não é qualquer lugar
Em que você vem e vai quando quer
É uma casa em que entramos
E prometemos nunca mais sair…
O amor é um abrigo em uma tempestade
Amor é paz, no meio de uma guerra
Se tentarmos sair,
Que Deus envie anjos para guardar a porta
Não o amor, não é uma luta
Mas é algo pelo qual vale a pena lutar.
Boa definição, ele concorda, ronronando satisfeito. Então vocês cantam para se divertir.
— Bem, eu sim, alguns não. Depende do gosto pessoal. Eu gosto.
Entendi. Estenda as mãos.
Ela obedece, e ela sente nas mãos um monte de frutinhas. Tateou, eram morangos silvestres.
— Oh, obrigada, senhor.
Pode vir pegar quando tiver nas estações. Tem o bastante para quatro de mim e mais dez ursos. Não faz sentido desperdiçar, não é?
— Não, não faz mesmo. — ela come um pouco, e pensa — Senhor, então significa que eu vou poder ir para a borda da floresta anunciar?
A borda do meu território é vasta. Alguns quilômetros em todas as direções a partir de casa. Iria se perder assim tão verde. A etapa de sobrevivência está concluída, mas ainda tenho umas coisas a mostrar, como reconhecer os sinais que uso. Mais alguns dias e terei terminado de ensinar o que precisa. Aí… bem, se você for embora, ao menos se certifica de desmontar sua cama…
— Eu não vou embora! — ela o interrompe, alteando a voz.
Não? Então… isso realmente é sério? Você não quer mesmo ir para lugar nenhum?
— Achei que o senhor já soubesse disso a esse ponto. Eu sou do senhor para decidir o que fazer comigo.
Ele grunhiu, como sempre quando ela usava as próprias palavras dele.
Eu só acho essa situação toda uma loucura. Me jogaram uma humana no meu colo, disseram ‘faça o que quiser com ela’ e… minha casa não é lugar de humanos. É meu lugar e da minha… bem, isso se alguma delas se interessar.
— Então nenhuma veio aqui, mesmo?
Não, e não vai aparecer nenhuma se sentir cheiro de sangue humano vivo na minha casa… aliás, eu já duvido, com tantos já sendo meus “vizinhos”.
Pela imaginação de Andeir passou o singelo pensamento de uma mulher de três metros, dez braços e sem rosto percebendo Andeir andando pelo mato, rosnando e indo embora com nojo. Isso pesou um pouco no coração dela. Se isso fosse verdade...
— Oh, eu peço desculpas por isso… eu odiaria se...
Tudo bem, você não sabia. E deixar você no inverno daquele jeito era pedir para perder meu… eh, minha serva. Então não há culpa.
— Então … onde o senhor quer que eu fique?
Vou pensar em alguma coisa. Por enquanto pode ficar. Ele se levanta de onde estava sentado, ela escuta os arbustos se moverem. Venha, vou te ensinar onde fica a entrada de casa e como reconhecer o caminho.
Ela se levantou e o seguiu. As frutinhas estavam ótimas, ela tinha de levar uma cesta na próxima vez que fosse catá-las.
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