Wedding lost
6 Capítulo 6 - Passo 2: fazer uma visita agradável
— Oh, então deu certo o primeiro passo?
— Acho que sim. — concluiu Katniss — Acho que poderia ter sido melhor se eu não tivesse perdido um pouco as estribeiras no começo, mas no fim correu tudo bem.
— Ótimo. — Mags mexia pacientemente seu chá em uma xícara branca de florezinhas amarelas. Não havia mais razão para mexer o líquido, porém ela continuava, como se aquilo a ajudasse a ponderar. — Então essa animação toda que você demonstrou desde que chegou é para dizer que talvez minha lista não seja “completa loucura”, como você intitulou ontem. Estou certa?
— Está. Mas ainda acho meio estranho esquematizar um casamento, já que não é algo tangível.
— Eu sempre achei que o mundo fosse composto por mais coisas intangíveis que tangíveis, se quer saber.
— Pode ser. — Katniss deu de ombros antes de começar — Então... Qual é o próximo passo?
— Bem, primeiro quero saber se você se sente bem assim. Digo, aparentemente. Você se acha bonita?
Katniss olhou para o vidro escuro do balcão e observou sua imagem refletida nele. Seus cabelos escuros estavam presos e seu rosto parecia meio pálido.
— Bem, mais ou menos. De um modo geral sim, mas um tapa no visual não seria má ideia.
— Tenho certeza que não é má ideia. — afirmou a senhora, levando sua xícara já vazia para a pia — Quero que você esteja se sentindo bonita, com a auto estima elevada para o próximo passo.
— Que é...?
— Fazer uma visita.
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— Tem certeza que não quer dar uma clareada, meu bem? — insistiu mais uma vez Alona, sua cabeleireira desde sempre — Nem um pouquinho?
— Por ora prefiro continuar morena, Ona. Então por enquanto, só o corte e coloque essa coisa que dá brilho.
— Essa coisa que dá brilho... Você nem parece mulher ás vezes, Kat.
Katniss deu de ombros e sorriu, satisfeita com o resultado da maquiagem e do corte de cabelo que acabara de fazer. Não tinha cortado muito (o cabelo passou de estar no meio das costas para agora estar apenas a pouco abaixo dos ombros), mas parecia muito mais vivo e chamativo agora. A maquiagem não contava com muita cor nos olhos, mas tinha nos lábios um vermelho suave, que deixava tudo muito harmônico.
Passou em casa, tomou um banho e colocou um conjunto de roupas que julgou estar elegante e confortável ao mesmo tempo: uma saia longa bem soltinha, com uma estampa floral delicada, em vermelho; blusa totalmente preta, porém com aplicações de um tipo de pedraria negra e sapatilhas num tom de nude.
— Bolsa marsala ou off? — murmurou para si mesma
— Marsala. — ouviu a voz de Mags por trás de si, que logo se explicou ao perceber o rosto surpreso de Katniss ao vê-la em sua casa — Ryan abriu a porta para mim.
— Como estou?
— Está linda. — sorriu a idosa — Para ficar melhor precisa só tirar essa cara de nervosismo e colocar um sorriso nos lábios. Querida, é o seu marido e não o primeiro ministro.
— Eu sei, eu sei. É só que... Eu não faço isso há tanto tempo. Estou enferrujada.
— Por isso que deve se apressar. — instruiu Mags, dando-lhe a bolsa e empurrando-a devagar pela porta do quarto. — Se vai fazer, faça de uma vez.
Vinte e cinco minutos depois, Katniss passava pela entrada do grande e luxuoso prédio de quinze andares. Um império, construído com muito suor e trabalho.
Pegou o elevador e apertou o botão que indicava a cobertura. Olhou seu reflexo no vidro espelhado do elevador, dando uma leve arrumada no cabelo (que já estava deveras arrumado).
Uma moça baixinha passou por Katniss quando ela chegou ao andar certo e parou, analisando-a antes de dizer:
— A senhora está no andar errado? Se quiser requisitar algum serviço da empresa o andar é o...
— Terceiro. Eu já sei. — completou Katniss — Vim falar com o senhor Mellark, ele está na sala?
— Sim, mas sinto muito, ele pediu para não ser interrompido.
Dito isso, a baixinha deu-lhe as costas e seguiu para sua mesa ao lado da porta luxuosa da sala à frente, que detinha o letreiro com a palavra “presidência”.
— Posso saber o motivo? — insistiu Katniss
— Motivo de que?
— O motivo que ele tem para não querer ser interrompido.
— Ah. Ele está analisando papéis importantes.
— Está sozinho na sala?
— Senhora, eu já falei que...
— Perguntei se ele está sozinho...— Katniss pegou a plaquinha de acrílico que descansava na mesa, depois pronunciou o nome da secretária, deixando nítido sua inicial irritação — Clove.
Clove estreitou os olhos para a morena a frente e se viu irritada pela insistência.
— Sim, está. Agora se me dá licença senhora, eu tenho muito o que fazer.
Katniss se surpreendeu com a aspereza dela e antes que falasse alguma coisa a secretária já se colocava a atender telefonemas, sem mais dar atenção a ela.
Podia simplesmente entrar. Podia bater na porta e simplesmente dizer “Peeta estou entrando”. Ou nem dizer nada. Podia esfregar na cara daquela menina chata que ela era a esposa do presidente ali, mas ser conhecida como uma esposa histérica era o que ela menos queria no momento. Então apenas, respirou fundo e chamou a atenção de Clove mais uma vez:
— Clove, você pode dizer a Peeta que a esposa dele está aqui? Tenho certeza que ele me deixará entrar.
Clove tirou os olhos da agenda que prendia sua atenção e levantou os olhos até a morena lentamente. Katniss conhecia aquele olhar, era o olhar “fiz merda” e ela conhecia bem pois o usava sempre.
— Me desculpe. Vou chamá-lo agora.
Katniss fingiu não se importar com a situação e sentou-se relaxada no sofá de couro preto que havia na sala. Fingiu que lia uma revista, mas na verdade prestava atenção na conversa de Clove com seu marido, pelo telefone.
— Senhor, desculpe interromper, mas sua esposa está aqui. — houve uma pausa, depois ela voltou a falar — Sim, sua esposa. Eu não sei se esse é o nome dela por que eu não perguntei. Me desculpe senhor Mellark, mas eu acho que ela está irritada comigo. Bem, para que vou falar, ela vai me entregar pra’ o senhor já já. Antes que ela fale, eu queria explicar que... Desligou. Insuportável. — resmungou no final.
Katniss prendeu o riso por notar o mau humor da garota. Ela não parecia ter muito mais que 22 anos, mas ao que se podia notar tinha um gênio forte. Antes que Clove anunciasse que Katniss podia entrar, Peeta abriu a porta apressado, parecendo estranhamente ansioso.
— Katniss. — murmurou ele, parando um pouco para observar o quanto ela estava bonita. Aquela Katniss vestida assim, leve e bonita, lembrava a Katniss mais feliz que há anos atrás vivia inventando motivos para se arrumar e sair.
— Oi. — respondeu ela, baixo, levantando-se e indo em direção à porta. Entrou na sala e sentou-se na cadeira da presidência, ainda ouvindo as instruções do marido para Clove:
— Eu estou ocupado, estou atarefado, estou em uma reunião importante ou melhor, nem estou. Okay, Clove?
A secretária assentiu e Peeta entrou, ainda sem saber o que fazer. Estava meio sem reação. Quando virou-se e a viu em sua cadeira, suas ações se limitaram ainda mais.
— Eu sempre gostei dessa cadeira, lembra? Ela é legal. Também, foi cara... — fez uma careta.
Peeta sorriu e colocou as mãos no bolso, se permitindo observar. A situação era tão inusitada e cômica que ele ainda tinha a impressão de que a qualquer instante ele podia acordar e ver que aquilo era só um pequeno sonho de um cochilo encima de sua mesa.
— Então você veio só para rodar na minha cadeira? Ou para causar alvoroço no meu secretariado? — brincou ele, tentando saber o que ela fazia ali.
— Na verdade, vim só visitar. Mas se você estiver ocupado, eu...
— Não. — interrompeu o loiro. — Não estou. Só achei... Incomum.
Katniss assentiu e o viu sentar-se em uma das cadeiras a frente, provavelmente uma que ele usa para receber clientes importantes. Parou de sorrir e ficou olhando-a, meio que querendo desvendá-la. Depois de um breve silêncio, ele a pegou de surpresa:
— Me diz o que tá’ acontecendo, Kat. Eu te conheço, sei que está fazendo alguma coisa. O que é? — viu ela desviar o olhar, então abriu um sorriso e continuou — Juro que não conto para ninguém.
— Mas o “Ninguém” que não deveria saber era exatamente você. — falou ela, baixo.
Ele parou e examinou aquelas palavras. Tentou não pensar que ela falara aquilo por que não confiara mais nele, por isso ele não devia saber. Não queria pensar nessa hipótese, então falou a outra, que era a mais agradável de pensar;
— Então é sobre mim.
Viu Katniss assentir e um contentamento surgiu devagar, aos poucos tomando conta de si. Sem demora, continuou:
— Então você pode me contar e depois eu finjo que não sei. O que acha? Lembra que você fez isso quando tínhamos 18 e você queria fazer uma festa surpresa para mim, ao mesmo tempo em que queria minha ajuda? Você me contou e depois eu fingi que não sabia. E no final foi bem legal.
Katniss soltou uma gargalhada que ela tinha certeza que Clove ouviria lá fora de tão alta, lembrando-se do quanto era ingênua naquela época.
— Eu era tão boba.
— Nós éramos felizes sendo bobos.
Katniss concordou, vendo o silêncio pairar outra vez. Quando decidiu que era o melhor, contou de uma vez:
— Eu estou tentando salvar nosso casamento. Tenho uma lista de coisas a executar e se derem certo então acho que teremos solução. Mags está me ajudando por que eu... Infelizmente eu não consigo mais lidar com isso sozinha. O caso é que se não funcionar eu vou te deixar livre. Vou deixar você ter outras opções na vida.
— Tá' falando de divórcio? — se surpreendeu ele — Se essa lista não der certo, você vai pedir o divórcio pra’ mim?
— Sim. — falou vacilante — Mas nós ainda temos muitas coisas na lista. Há esperança.
Peeta encarou o rejunte do chão sentindo que agora sim, seu casamento estava mais frágil que em qualquer época.
— Kat. — começou ele, enquanto, por cima da mesa, pegava uma das mãos dela — Kat nós não precisamos disso. Se você quer que paremos de brigar nós vamos parar e pronto. Não precisa de uma lista de ações ou uma ameaça de divórcio para isso — levou sua outra mão ao rosto dela e tocou devagar — Nós podemos resolver tudo isso agora.
Katniss colocou sua mão sobre a dele, que ainda estava em seu rosto, apreciando o carinho quente e agradável.
— Não, Peeta. Se nós resolvermos assim, será como das outras vezes que a gente resolve uma coisa e deixa mil e uma pendentes. Não, eu quero resolver tudo de uma vez. Para o bem ou para o mal.
O loiro levantou-se e puxou sua mão, ficando de costas para ela.
— Isso é por causa do Finnick, Katniss? É por que ele voltou? Claro, você faz essas coisas, depois fala pra mim que tentou de tudo e não deu certo só para pedir o divórcio e ir com aquele cara. — virou-se para ela — Se você quer o divórcio, pede logo, não fica enrolando não. Não vou me arrastar aos seus pés como um cachorro.
— Está vendo? É sempre assim! Você que me trai e sou eu que quero ir embora com outro homem! Você distorce tudo e a gente acaba brigando de novo! Não tem nada a ver com Finnick, não tem nada a ver com divórcio, tem a ver com você! Tem a ver com eu amar você e querer salvar essa união que já está afundada na merda há algum tempo. Mas quer saber? Eu acho que estou é perdendo tempo. Não dá para consertar algo quebrado se os cacos já se perderam.
Katniss pegou a bolsa e passava por ele para ir em direção à porta, quando o mesmo a segurou pelo braço. Parecia querer falar algo, mas no fim apenas ficou olhando-a com os olhos marejados, que pareciam magoados e ao mesmo tempo culpados por magoar.
Ele nem percebeu direito o momento que ela se soltou e foi embora. Só notou isso quando olhou para todos os lados e sentiu-se só, do mesmo jeito que vinha se sentindo há meses.
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— Já era, Mags. Acabou. Não tem mais volta. Ele estragou tudo! Ou ele ou eu por ter contado o plano. O fato é que já era, é tudo inútil agora.
Katniss estava deitada no sofá de Mags, enquanto ela tricotava na poltrona à frente. Mags tinha levado um baita susto quando Katniss entrou como um furacão na sua casa e jogou-se no sofá com uma vermelha cara de choro. Ela parecia ter chorado o caminho todo até lá.
— O que te fez contar a ele, Katniss?
— Aquele bastardo me conhece. Sabia que eu estava fazendo alguma coisa e me perguntou o que era com aquele jeito... Argh! — grunhiu — O problema é que ele falou como antes, quando eu contava tudo a ele, quando eu não conseguia lhe esconder nada. A visita foi um fiasco, Mags. Ele pensa que estou fazendo isso para mais tarde pedir o divorcio e ter o argumento de dizer “eu tentei”. Ele acha que é por causa de Finn.
A idosa levantou-se de sua poltrona, guardando suas agulhas e linhas de tricô em uma cesta de palha dourada que estava no chão, sentando-se, logo após, aos pés de Katniss, no mesmo sofá. A mais jovem mudou de lado e levou sua cabeça ao colo da vizinha, á procura de algum consolo.
— Não tem problema, menina. Você achava mesmo que todos os passos seriam bem sucedidos? Não, não, alguns dão errado e é nesses que devemos mostrar força. Sabe, me surpreendeu isso de você ter contado para ele, mas me deixou até feliz. Vocês ainda se conhecem e, apesar de tudo, ainda confiam um no outro. Há casais por ai que parecem dois desconhecidos morando em uma mesma casa.
O tempo parecia relativo e nem uma das duas ali pareciam perceber que lá fora já era noite. Katniss fechou seus olhos e tentou imaginar que poderia tirar alguma coisa boa dali, que não estava tudo perdido, que ela só precisava se esforçar.
— Mags?
— Sim.
— Quantas chances eu tenho para falhar? Tipo... A partir de quantas falhas você percebe que não há mais jeito?
— Você não precisa saber disso agora. No momento certo eu direi, hum? Agora levante-se e vá para sua casa. Já fazem mais de trinta minutos que Peeta chegou e ele está te chamando a vinte. Acho que está achando que você foi embora.
Katniss levantou-se atordoada e olhou pela janela de Mags a tempo de ver o marido sentado na escada da frente, com a cabeça entre as mãos e os cabelos bagunçados. Beijou Mags e foi para casa.
Quando o portão foi aberto, Peeta respirou fundo tão audivelmente que Katniss quase conseguiu ouvir. Ele levantou-se e esperou que ela chegasse perto, antes de murmurar, bem baixo:
— Eu... Eu pensei que você tinha ido. Que tinha deixado tudo e ido embora.
Katniss deu de ombros e ele continuou sua fala, ainda baixo:
— Me desculpe. Você tinha razão mais cedo, você nunca falou nada sobre Finnick, eu que falei.
A morena ainda continuou em silêncio, ainda sem ter o que dizer. Era tudo tão estranhamente pesado.
— Kat... Por favor, não desiste. Se eu preciso fazer alguma coisa, você fala, eu só não quero que pare de tentar...
Ela assentiu e seguiu para dentro em silêncio o ouvindo andar atrás, em seu encalço.
— O que é a próxima coisa da lista? — perguntou ele. Parecia ansioso em fazer as coisas darem certo. Se você olhasse de longe e observasse bem, tenho certeza que sentiria pena, pois só quem já viu ou já passou, sabe o que é estar desesperado e cheio de esperança para concertar algo que é difícil, mas que você não pode deixar de insistir. Podia-se ver esse sentimento estampado em ambos.
— Eu não sei. Eu só espero que dessa vez não seja um completo fracasso. — completou falando quase que em sussurro enquanto subia para seu quarto, sentindo um cansaço de alma que chegava afligir.
Peeta jogou-se no sofá e torceu para que não estragasse tudo mais uma vez.
Que tivessem sorte e corresse tudo bem.
Suspirou.
O problema era só a sorte mesmo, já que ela não se simpatizava muito com o casal.
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