Weaken
7 I Can Break My Routine, but I Do It For You
Notas iniciais
Dos defeitos do Weller, o que infelizmente eu mais conhecia era o rancor. Eu sabia que uma ferida feita nele era difícil de sarar e essa parecia estar bastante machucada. Já era a 32° vez que eu o ligava, na esperança de que ele não tivesse visto as 31 primeiras que eu havia feito nas últimas 4 horas. Ele não atendeu.
Quando desliguei, vi no relógio do celular que ele não ia me atender e que já devia estar dormindo já que era 02:40 da madrugada. Me entristeci. E se Oscar não tivesse aparecido? Talvez eu não estivesse sozinha nessa cama e nem tivesse que implorar para escutar a voz forte e envolvente de Weller.
Entre lágrimas e pensamentos sobre Weller e o aparecimento do Oscar, eu consegui dormir.
+++
Por ter dormido tarde, acordei atrasada e meu humor não era dos melhores. O meu bom dia na sala da Mayfair, que havia chamado toda a equipe, foi respondido por todos, menos por Weller. Eu o olhei profundamente na esperança de que ele viesse a falar comigo, mas isso não aconteceu. Seu olhar parecia distante de mim. A ferida estava aberta.
— Estamos perto do Natal, sim? Por todo o trabalho que vocês tem feito nos últimos meses, eu sugiro que vocês fiquem longe do escritório até o próximo ano. Vocês estão livres para viajar e descansar no feriado de Natal e Ano Novo. Nos encontramos em breve, agentes. — dito isto, Mayfair liberou a todos para trabalhos hoje somente no escritório e me pediu para conversar com Dr. Borden.
“Jura? Logo hoje que estou super confusa e chateada por causa de Weller?” Pensei. Mas não podia relutar já que Mayfair me havia liberado dos seguranças.
— Você sabe porque Mayfair te mandou hoje aqui, Jane? — perguntou Dr. Borden enquanto sentava em sua cadeira.
— Tem algum motivo específico para eu estar aqui?
— Mayfair te achou um pouco abalada e achou bom que nós conversássemos. Algo que queira me contar?
— Não.— respondi secamente na esperança de esquecer das 30 e poucas ligações ignoradas e o bom dia não dado.
— Posso ao menos saber se isso tem a ver com o espaço que pedi que você desse ao Weller?
— Talvez seja só o clima do natal mesmo. — Concluí tentando tirar Kurt de minha cabeça embora fosse impossível.
O resto da conversa se desviou e nos distraímos falando sobre a evolução das minhas memórias. Após algumas horas, consegui sair da sala. Porém logo na porta, Tasha me abordou.
— O que você acha de saírmos agora, Jane?
De longe vi Weller passando na porta de vidro e não pude não acompanhá-lo no olhar.
— Jane! — Tasha me beliscou. — Não me deixe falando sozinha. Olhe, eu e Patterson vamos almoçar agora. Quer vir conosco? Depois vamos ao shopping. Não sabemos o que você pretende fazer no natal mas queríamos que você fosse conosco, ok? É a oportunidade perfeita para comprarmos roupas novas pra você. Vamos!
Esbocei um riso.
— Você não esquece as minhas roupas né, Tasha?
— Não mesmo, Jane. Não vamos deixar você passar o natal de moletom e calça surrada.
Ela me puxou e eu resolvi ir com elas, na esperança de me distrair e não ficar naquele clima pesado com Weller. Acabei me divertindo bastante com as meninas. Patterson ia passar o Nata com sua mãe, então ela estava animadíssima para comprar joias e perfumes. Tasha comprou muitas roupas e depois de muita insistência, me fez experimentar um vestido para passar o Natal.
Era um vestido vermelho e justo, com um de decote discreto. Por conta da insistência das meninas, resolvi o experimentar. Me senti da mesma forma que senti quando usei o vestido preto para a missão: ridícula. Ao sair do provador, Patterson arregalou os olhos pra mim, parecendo surpresa.
— Patt, o que foi? — perguntei.
— O que foi? Jane, quem é você? O que fez com a moça desajeitada de calças rasgadas? — disse Tasha rindo e passando a mão em meu ombro.
— Esse vestido... Jane, esse vestido ficou perfeito em você! — disse Patterson super animada. — Sério, se olhe no espelho. Você está linda!
Eu me virei para elas e trocamos olhares.
— Sério? Eu me acho ridícula de vestido, e com todas essas tatuagens aparecendo. E eu nem vou sair no Natal. Onde eu vestiria isso?
— Você vai sair sim, Jane. Eu e você vamos para o bar caso você queira sair, e olha, você com certeza vai escolher um papai noel para você com esse vestido.
Rimos.
— Eu sei, essa foi péssima. — concluiu Tasha.
Concordamos e eu decidi ficar com o vestido. Patterson ficou super animada embora não fosse passar o natal conosco. Entramos em uma loja de cosméticos e elas me fizeram comprar perfumes e maquiagens. Mas como eu usaria todas aquelas coisas? Tasha disse que existem tutoriais na internet e me fez comprar lápis, sombras e batons.
Quando estávamos indo embora, Patterson parou numa loja de artigos tecnológicos e eu logo avistei um lindo relógio masculino de prata. Lembrei de Weller assim que o vi. Será se eu devia comprar? Pensei. Mas nem passaríamos o natal juntos.
—Você gostaria de dar uma olhada, moça? — perguntou um vendedor me abordando.
— Não, não.— respondi um pouco embaraçada.
— Vamos, vi você olhando para o relógio e sorrindo. Não tem mesmo interesse?— ele insistiu.
— Esse relógio é a cara do Weller. —Tasha se meteu na conversa.— Pensando em presentea-lo, Jane?
— Não, não. —disse ainda mais embaraçada.
— Tasha! — gritou Patterson enquanto a beliscava. — Pare de constranger a Jane por causa disso.
Ri delas duas. Patterson me puxou pelo braço.
— Não vemos problema algum em você presentear Weller, ok Jane? Ele é seu amigo de infância e você o terá por perto depois de tantos Natais longe.
— Não, não é isso Patterson. Eu só...
Fui interrompida por meu telefone que começou a tocar. Era um número desconhecido.
— Alô. — atendi.
— Hey, Jane. É Sara. Sara Weller. Você pode conversar agora?
— Sim. — respondi pedindo a Patterson para me esperar com Tasha e me afastei um pouco
— Olha, eu sei que não deveria me meter. Mas estou preocupada com Kurt… e com você. Ontem depois que ele dormiu no sofá vi que você havia ligado pra ele a noite toda, e ele passou a noite bebendo, não quis te atender.
— Sarah, é complic… — tentei falar, mas ela me interrompeu.
— Eu não sei o que está acontecendo entre vocês e o que está acontecendo no FBI, mas sei que ele não está bem. Então veja, ele sempre fica melhor quando você está por perto. Eu vi quando você estava aqui, o Rea…— ela fez uma pausa e reformulou o que ia dizer.— Me contaram que ele sorri mais quando está com você no trabalho. E não pode ser só coincidência que ele volte a beber na mesma noite que ele sai no meio de uma nevasca, volta triste e você liga para ele a noite toda. Eu não sei o que está acontecendo, mas sei que você pode resolver. Também sei que eu não deveria estar me intrometendo entre vocês, porém eu me preocupo com o Kurt e acredito que você também. — ela ficou em silencio por um momento. — Você tem planos para o Natal?
— Não.— respondi.
— O que você acha de vir aqui para casa amanhã?
Olhei para o relógio, e para as compras em minhas mãos. Aquela seria a ocasião perfeita para Weller me perdoar.
— Acho ótimo.
— Que bom! — ela disse um pouco entusiasmada.— Preciso fazer comida para Sawyer. Te vejo amanhã! — ela disse e desligou.
Dei um riso por imaginar passar o Natal com Weller.
— Quem era no telefone, Jane? — perguntou Tasha com seu olhar desconfiado.
—Ninguém. —respondi guardando meu celular. — Ah, eu vou levar o relógio.
Patterson ficou animada.
— Ui, ela encontrou companhia para o Natal e dono para o relógio? — perguntou Tasha. — Era essa cara no telefone? Podemos saber quem é?
— Desculpe, mas não Tasha. — respondi com uma risada na ponta dos lábios. — Não era ninguém e não é para ninguém importante. — menti.
Saímos do shopping tarde. As meninas foram beber mas eu decidi voltar pra casa pois estava cansada de tanto andar com elas. Cheguei em casa e larguei as coisas no sofá, ligando as luzes e me jogando em cima do mesmo.
Será que Weller ia me entender? Ele tinha que me entender. Será se eu deveria ir mesmo? E se ele ficar ainda mais chateado? Se ele não gostar do presente? Todas essas perguntas ecoavam em minha cabeça.
Tomei banho e dormi, na esperança de acordar e ter alguma mensagem ou convite dele.
Despertei com o celular tocando.
Para minha infelicidade, era o despertador e não qualquer ligação de qualquer agente especial do FBI chamado Kurt Weller. Me frustei, mas logo vi um sms de Sarah.
“Você vem mesmo, né? Queremos muito você aqui.”
Respondi secamente com a pouca coragem que tinha.
“Sim, eu vou.”
Eu sabia que o plural era sobre ela e Sawyer, e não sobre Kurt.
Tentei me distrair nesse dia de folga desenhando e escrevendo poemas em russo, mas a hora parecia não passar. De tarde, no meio do tédio, Tasha apareceu, me trazendo vários produtos e um secador de cabelo. Bebemos um pouco, mas ela disse que tinha hora e se foi.
Era início da noite quando Sarah me ligou.
— Jane, venha por favor. Não me engane. Kurt vai ficar feliz em te ver. Eu sei que ele é durão, sei que vocês não se falaram o dia inteiro, mas venha. Ele se preocupa com você e vai falar com você.
— Sarah, como você sabe que não nos falamos o dia inteiro? — perguntei desconfiada se ele havia falado algo.
— Bolem, veja — ela disse um pouco embaraçada. — Ele chegou aqui com o mesmo mau humor. Quando perguntei por você, ele disse que não tinha te visto por todo o dia e voltou a beber. Eu quero você aqui, ok?
— Ok, Sarah… — falei e desliguei, decidida a ir.
Olhei para o vestido, para as maquiagens e acessórios. Será que Kurt ia achar estranho me ver assim? E se ele odiasse? E se ele não gostasse do presente?
Sentei na beira da cama pensativa. Resolvi ligar para ele. E se ele soubesse que eu ia antes? Talvez ele ficasse menos chateado. A chamada caiu direto na caixa postal. Nisso, resolvi imediatamente ir. Eu havia cansado do silêncio, das ligações ignoradas. Cansado. Se ele não quisesse me ouvir por bem, ele ia me ouvir por obrigação, porque eu não aguentar mais guardar isso dentro de mim.
Me vesti. Pela primeira vez sequei meus cabelos, com um secador que Tasha havia me ensinado a usar. Depois, passei uma maquiagem básica. Me olhando no espelho, me perguntei se não era coisa demais e se Kurt não iria me estranhar.
Meu celular tocou.
“Feliz Natal, Jane. Que você continue sendo essa mulher super forte (em todos os sentidos hahaha) e determinada. Corra sempre atrás do que você ama e acredita. – Patt.”
Sorri e saí, sabendo exatamente onde e com quem eu queria estar.
+++
— Tia Taylor? — falou Sawyer quando abriu a porta, parecendo um pouco surpreso. Ri da palavra “tia”. — Mãe! Mãe! Olha quem chegou toda bonita. A tia Taylor!
Sarah riu de Sawyer e me olhou admirada.
— Eu sabia que você vinha. — ela falou enquanto me abraçava calorosamente. — Jane, você está linda.
Abri minha boca para responder, mas minha palavras foram interrompidas pelos gritos de Sawyer.
— Tio Kurt! Tio Kurt! Olhe como sua namorada está bonita.
Um frio na espinha me tomou. Virei-me lentamente e lá estava Weller.
— Boa noite, Jane.
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