We still are Cook and Effy
1 Our eyes keep the fire
Notas iniciais
As raízes das árvores tecem seu tecido pelo solo, se sobressaindo deste, sua forma se assemelhando a animais mortos e fossilizados. Eu encaro essas raízes com rebeldia, a mesma rebeldia que as fizera insurgir. A mesma rebeldia da qual eu me abastecia, como um combustível, para escalar os muros, a nota final da partitura da minha fuga da prisão, esta que me consumira anos. Minhas mãos e pés arranham tijolo por tijolo cimentados, se apoiando nas aberturas, tão numerosas quanto separadas. Eu estava tão bamba quanto após um bom e longo sexo, minha respiração ofegava, mas minha cintura já passava do topo. Com um pouco mais de esforço sento-me ali, o primeiro toque de liberdade roçando por meus pés. Eu sinto aquela calmaria pré-tormenta, uma única nota de um instrumento solitário antes de toda a orquestra tocar, o último segundo antes do farol vermelho abrir e os carros se soltarem do muro da lei (comparação irônica, pois eu fazia o mesmo). Prolongo o momento até o curto limite que posso e pulo.
Assim que meus pés tocam o chão, começo a correr, a pernas sentindo o impacto da má alimentação e péssimas condições de saúde; da grande e trabalhosa escalada seguida do pulo de uma altura quase fatal, meu coração bombeando mais adrenalina do que sangue, quase se desfazendo por todo o esforço requerido. Mesmo assim, nunca o senti tão inteiro quanto neste momento, em que corro das sombras daquela jaula infernal e sórdida, corro dos guardas estupradores, corro das surras diárias, corro do medo, da crueldade e das vozes roucas e violentas que me afligem desde minha infância, mas chegaram ao seu ápice naquele lugar; corro para a promessa da liberdade e da vida que me foi tirada há tantos anos. Quase posso senti-la, um cobertor e cama macios que protegem a criança de todo o mal que repousa no escuro, no escuro que antes eu encontrava conforto, mas agora somente abominações e crueldade. Jamais precisei de luz, mas é para esta que corro, é desta que agora eu estou sedenta, a luz e tudo o que ela representa.
Quando finalmente eu acho que conseguirei alcançar a luz, até sinto-a bater com seu fulgor em meu rosto, braços fortes me puxam para um canto escuro. Sinto um distinto policial bater contra minhas omoplatas expostas, mas também sinto outra coisa, o corpo e movimentos familiares contra mim.
-O que caralhos você pensa que está fazendo, marginal? –e é por causa daquela voz, que eu tanto ouvira durante minha adolescência, que reconheço.
-Wow. E pensar que há alguns anos nós estávamos em situações quase opostas. – E quando os braços tremem e me largam, sei que fui reconhecida, e que acertei quem era.
-Effy?
-Cook.
Ele corresponde a minha total paralisia, e nos analisamos por alguns longos segundos. O cabelo dele escureceu e uma ligeira barba crescera no rosto oval, com feições já mais velhas e sérias, sem o fantasma de um grande, irônico, marcante e eterno sorriso. Cook estava muito mudado, sim, mas ainda tão reconhecível que por um milésimo volto quase 13 anos no tempo. Porém o devaneio é quebrado ao ouvir apitos e passos se aproximando rapidamente.
-Por favor, Cook, me ajude!- Eu quase caio no chão desesperada e trêmula. Porque finalmente a possibilidade de ser livre é real e está á alguns metros e eu não posso perdê-la. Cook acena com a cabeça, e me empurra para dentro de um arbusto. Ele entende. Claro que entende, na última vez que nos vimos ele era um fugitivo da polícia. Estendo a cabeça entre as folhas, onde posso ficar invisível e observar a situação, mesmo que esteja sendo arranhada pelos galhos.
Um policial se aproxima de Cook, correndo, mas eu percebo por sua linguagem corporal que não está realmente preocupado com a minha fuga. Bom. Isso facilita a minha saída para... algum lugar. Não planejado, mas eu pelo menos tenho alguma possibilidade agora.
-Cookie Monster!
-Donnie Coiote! – Eles gritam animadamente seus apelidos ridículos um pro outro rindo.
-Ei cara, presta atenção, tem uma prisioneira a solta. O chefe não vai ficar feliz, é a segunda tentativa de fuga desse ano, sabe?
-To ligado. Se eu vir alguma por aqui, acabo com ela e levo os restos pro xilindró. – Eles riem entre si, como se fosse o esperado. Temo por mim, mas lembro de que eu não tenho exatamente qualquer outra opção no momento.
-Beleza cara, to saindo agora. Quem sabe se eu pegar ela a tempo rola um aumento no salário?
-Boa sorte, então. – Eles trocam soquinhos e “Donnie Coiote” sai correndo de novo. Espero mais dois minutos e, como não tem mais perturbações, saio do esconderijo.
-Obrigada, obrigada mesmo.
-Effy.
-Sim?- Eu respondo, e um momento de silêncio solitário se segue. E eu vejo os olhos dele e entendo.
-O que... o que aconteceu com você?
-Eu sinto muito, mas realmente não posso contar agora. Eu tenho que ir. – Ele hesita por um segundo e concorda. Então tira o casaco e coloca sobre mim, me protegendo e escondendo o uniforme da prisão.
-Vou te tirar daqui. Prometo. –Ele diz, e me guia lentamente para fora do jardim, passando o máximo de tempo na sombra. Mantenho a cabeça baixa pelo que parece uma eternidade, até pararmos. Sinto o concreto nos pés e o vento forte no meu pescoço.
-Estamos seguros?
-Por enquanto. – E assim eu levanto a cabeça, e vejo a cidade, a minha cidade, minha Bristol. E não posso contar a explosão de felicidade. Eu estou aqui, estou fora das grades, estou segura, estou sã e salva! Estou viva e fora da prisão! Estou livre! A emoção é extremamente forte para o meu corpo tão fragilizado aguentar, e se não fosse Cook eu teria caído no chão.
-Desculpe, mas é que... nossa, eu pensei que eu ia apodrecer lá.
-Eu sei. Eu entendo. – E eu sei que ele compreende. Ele passou por isso afinal, sozinho. E é por ele ter vivido essa experiência no meu lugar uma vez, que eu confio plenamente nele.
-Venha comigo. Vamos pra casa. – Eu aceno com a cabeça e o sigo, atenta a qualquer coisa que possa me causar problemas, mas também absorta por caminhar nessas ruas que eu conhecia tão bem, porém jamais pensei que veria de novo. Deixo Cook prestar atenção. Embora talvez não devesse, confio nele.
-Chegamos. – Ele diz e eu presto atenção na minha frente. E finalmente é demais pra mim, e desmorono. Porque eu conheço essa casa tão bem quanto conheço o meu rosto.
-Freddie... – Essa é a casa dos McLair, esse era o lugar que o Freddie morava. Eu caio de joelhos, e sei que me arranhei, mas não importa, porque essa é a casa deles, e tudo está exatamente igual ao de sempre, e o impacto é forte demais pra eu aguentar, e antes que eu perceba desmaio.
...
Quando finalmente acordo, sinto uma pontada onde bati a cabeça e vejo que estou num conhecido sofá, com o forte cheiro ilícito de sempre, e tem um cobertor cheirando a amaciante me cobrindo. Olho ao redor e vejo que estou no Galpão, que ainda é praticamente idêntico ao de anos atrás, e um Cook nada parecido com o que costumava frequentar esse lugar cochila numa poltrona com um cigarro entre os dedos. Ainda meio tonta por tudo que aconteceu nas últimas horas, me esguio silenciosamente até ele, pego o cigarro e trago. Meu corpo não está mais tão acostumado com a fumaça, e eu tenho que controlar uma tosse. Outras duas fumadas e a ardência para, então continuo fumando enquanto começo a explorar o lugar, extremamente similar ao que eu já conhecia. Quando o meu cigarro acaba, vejo que James deixa até os cigarros dele e o isqueiro no mesmo lugar que Freddie deixava. Acendo mais um, e quando fecho a gaveta ela faz um rangido e Cook acorda.
-Oi, princesa. – Um aperto nostálgico no peito acompanha essas palavras.
-Você me chamando de princesa seria pra se encaixar na época que a gente vivia aqui?
-Também. – Sorrio de leve com a resposta dele.
-Cook, por quê?
-Por que o que?
-Por que aqui? – Eu pergunto olhando fixamente pra ele. Quero uma resposta. Preciso de uma. E ele entende a profundidade da pergunta, porque sua testa se franze, ele passa um tempão calado.
-Eu acho que é porque eu não queria que outra pessoa ficasse com isso. Com tudo daqui. Seria como perder ele de novo.
-Então... O que é isso? Tipo um Museu de História do Freddie?
-Isso doeu em minhas intenções. Eu estava pensando em Centro Cultural dos Adolescentes Drogados.
-CCAD. Onde os jovens poderiam se sentar para fumarem, trocar segredos sobre as melhores pílulas, e montar narguilés.
-Uma experiência fascinante para qualquer adolescente fodido.
-Vale mais do que a pena a visita, disse a BBC. Um templo para qualquer jovem desorientado se sentir em casa, relata o The Sun.
-Uma receita sucedida de juventude com um leve toque de cocaína especial da casa. — Continuamos nisso até nosso riso sacudir o Galpão e ficarmos sem fôlego.
-Cook?
-Sim?
-Então... Você também não teve nenhuma notícia do Freddie?
-O que?
-Você sabe do Freddie? É porque como você sumiu perto do dia que ele fugiu, eu pensei que talvez tivesse falado com ele ou sei lá.
-Effy, o Freddie morreu já faz anos. Desde o dia que ele supostamente fugiu. Pelo amor de Deus, vocês nunca descobriram?
-Não... não é possível. – Eu não tenho forças pra lidar com isso. Apoio-me na parede, porque estou tremendo demais para me sustentar, estou pálida e minhas lágrimas escorrem com força.- Você está mentindo. ESTÁ MENTINDO.
-Fica calma, por favor! – Vejo que ele se aproxima e pulo em cima dele para ataca-lo, mas ele é muito mais forte e me mantém parada no lugar, soluçando desesperada. — Effy, o seu psiquiatra era louco, ele se apaixonou por você, e você amava o Freddie, então ele o matou. No dia do meu sumiço eu descobri, e aí ele tentou me matar, e eu o matei.
-Isso não pode ser verdade. POR QUE VOCÊ FUGIU?! SEU COVARDE, SEU COVARDE! – Tento me soltar, mas ele se mantém firme segurando os meus braços por mais que eu me debata.
-Porque ter matado uma pessoa já me destruiu o suficiente! Porque ver meu amigo morto acabou comigo por dentro de um jeito inexplicável! Eu não poderia, Effy, não conseguiria contar que ele morreu. Jamais suportaria isso, e não tinha como. Então fugi, muita merda aconteceu, eu cresci e finalmente consegui encarar a verdade que por tanto tempo me destruiu e assombrou: Freddie está morto.
Estou mole. Estou fraca. Não posso atacar Cook, não posso nem ao menos ficar em pé sozinha. E quando sou solta, caio em cima dele, meus soluços reverberando meu corpo todo. Ele me abraça, firme, sólido e ali, vivo. Consigo passar meus braços e abraça-lo de volta. E assim ficamos, por horas, décadas, ou talvez apenas segundos. Os soluços e as lágrimas cessam. O sangramento interno estanca.
-C-Cook? – Tiro o meu rosto de sua camiseta molhada e o encaro.
-Sim, princesa? – E essas palavras acionam todos os mecanismos do meu cérebro, e todos os anos e tudo o que nos trouxe a esse momento descem em uma enxurrada, e eu o beijo com força e desespero. E ele me beija de volta. Porque Cook não apenas entende o que sinto. Ele sente o mesmo, ele precisa do mesmo. Ele precisa de mim. E enquanto roupas, lágrimas, verdades e memórias voam pelo ar, eu percebo que eu também preciso, em todos os sentidos e loucamente, dele.
...
Acordo novamente no mesmo lugar, coberta pelo mesmo cobertor, sentindo quase os mesmos cheiros, mas agora há dois braços me envolvendo e me puxando para o corpo nu a quais estes pertencem. Pisco meus olhos sonolentos de novo e levanto, desfrutando aquela serenidade quase celestial de uma manhã. A primeira manhã em que o sol nascente não está distorcido pelas grades. A primeira manhã livre. Um recomeço, do lado da pessoa com quem eu quero recomeçar, porque é a outra parte de mim.
Olho ao redor e noto um elemento estranho enterrado no fundo das almofadas. Curiosa, mexo cautelosamente ali até conseguir fisgar a ponta de um envelope. Uma carta, endereçada pra mim, com a única palavra na frente sendo o meu nome escrito em um garrancho bêbado. Abro a carta devagar, como descobrindo um segredo.
“De: Cook, extremamente ébrio
Para: Effy, em que caralho de lugar você estiver.
Eu não sei como começar essa carta, e acho que não saberia falar qualquer coisa importante se eu te visse agora, ou se eu te vir no futuro. Tudo o que sei é que nenhuma dessas hipóteses vai acontecer. Você se foi para sempre. Na verdade, eu me fui primeiro, mas eu só adiantei o inevitável, você iria de qualquer jeito, porque é como segurar fumaça, e eu nunca consegui fazer isso. Freddie conseguia. Porque era ele que você amava. E é você que eu amo. Depois desses anos, o babaca aqui continua te amando. Que vergonha, o suposto grande James Cook amando. Patético, mas ninguém vai ver essa merda de carta nesse galpão mesmo, então pra que esconder a verdade? Ninguém jamais mexeu comigo desse jeito. Você é inesquecível, Effy. Eu disse que te amava antes, naquela chuva, mas eu sabia desde muito antes que era o único de nós amando. Mas não importava, porque eu tinha amor o suficiente para nós dois. Ainda tenho.
Não importa muito, mas amadureci pra caralho, embora esse estúpido amor juvenil ainda me persiga. Aqui nessa cidade, da qual todos que conheço partiram, é solitário pra caralho. Tenho lido muito, e bebido muito, e talvez a combinação dos dois últimos me fez escrever essa carta inútil. Bom, tanto faz. Tem um texto que eu li, me agarrando a cada palavra como uma corda salva-vidas, porque me lembra de você, me lembra de nós. E por isso e porque estou bêbado demais pra ter qualquer vergonha na cara, vou escrevê-lo aqui, trocando os nomes (pois é eu regredi mesmo pra uma garotinha de merda de 13 anos, mas foda-se de qualquer jeito.).
Esse amor é feito de olhos. Olhos que já viram o mundo, juntos e separados, e toda a sua beleza e terror, tão semelhantes. Olhos cinzentos como pedras de rios e olhos azuis como a água da Antártica. Água mole, pedra dura, tanto bate até que fura. Quem quer que tenha criado este ditado, previu sua relação inicial. Pois Effy Stonem foi, é, e sempre será, a única a quebrar a armadura de James Cook contra os sentimentos. Ele construíra essa fortaleza para escapar das emoções, que tanto machucara as pessoas ao seu redor e ele mesmo. Mas para Effy, não importavam as camadas de pedras que ele erguia, ele era exposto. Os céus em seus olhos observam e tocam tudo. Porém meus amigos, não confundam a aparente fragilidade da água com fraqueza. Calma e silenciosa, ela orquestra desastres com maestria, transformando e consumindo vidas. Effy Stonem. Quando você pensa que está calma e que a tem, ela te surpreende com suas belas catástrofes repentinas. Porque você jamais pode domar sua imprevisibilidade. Você só pode amar a água tão fria quanto seu coração, e entrar de cabeça nela, sem medo. E essa bravura Cook possuía.
E quem diria que água e pedra juntas formariam o fogo? Quem poderia prever a explosão destes dois seres defeituosos e abandonados? Ninguém. Mas eles se pertenciam, queimavam o mundo pelas beiradas e dançavam sob as cinzas. E as chamas dos dois juntos eram únicas e sublimes como eles próprios. Pois jamais haverá um casal tão insano e incontrolável.”
A carta terminava abruptamente ali, mas meus pensamentos fluíam para qualquer e todo lugar. Antes que eles por fim se encontrassem no que eu torcia para ser uma conclusão, Cook acorda.
-Bom dia, princesa.
-Bom dia, lobo mau.
-Hm, touché. – Ele ri e eu sorrio de volta. Ele passa os olhos sobre mim, não de um jeito malicioso, mas também não amoroso, e sim uma mistura dos dois.
-Eu meio que me senti mal fazendo tudo aquilo com você ontem. Por conta da situação.
-Eu sei que Freddie permitiria, babe.
-Como pode ter tanta certeza?
-Porque eu sempre permiti vocês. – Ele sorri pra mim, o seu tão característico sorriso, e eu retribuo. Um longo silêncio se segue, mas ainda assim era confortável.
-Cook?- Pergunto quase receosa.
-Sim?
-Tudo o que tem escrito aqui – sinalizo a carta, mas ele nem olha duas vezes, porque ele deve saber o que é. – é verdade?
-Effy... — ele diz, e deixa um espaço de silêncio. — Você realmente liga pra isso?
-Eu não sei. – Respondo, e sou sincera. Reflito um pouco sobre sua carta, e todo o gigante contexto que nos cerca, e nos une, como somos feitos para ser unidos. E tenho a verdadeira resposta. – Não.
-E por quê?- Ele toma o rumo das perguntas, quase duvidoso. Mas eu tenho minha posição firme, e essa firmeza só aumenta quando seus olhos de pedra se unem aos meus olhos de água.
-Porque você estava certo. Todos esses anos. — Eu entrelaço as nossas mãos e aprecio a confusão no rosto dele, já tão mais velho, mas sempre Cook, único. E eu, sempre Effy, única. E nós, sempre os incomparáveis e fodidos Cook & Effy. — Somos sempre eu e você.
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