We could be heroes
6 Capítulo 05 - O melhor lado da moeda
Notas iniciais
Acordei animada na terça-feira e mal conseguia esperar para o treinamento da tarde, eu estava esperançosa para que a minha transformação acontecesse e o quanto antes melhor, assim poderia receber os meus convidados sem receios.
Vesti um short jeans escuro, apesar de não estar tão calor assim naquela manhã. Eu sentia falta de ter a pele bronzeada e o sol andava muito tímido nos últimos dias. Coloquei a minha blusa de frio por cima de uma regata e fui até a cozinha. Estranhei estar tão silêncio, mas hoje a minha aula começava mais tarde e provavelmente o Hugo já tinha saído, assim como Judith que tinha uma audiência muito importante.
— Senhorita — uma moça de avental apareceu na porta quando eu estava terminando o meu café da manhã. Eu nunca a tinha visto.
— Pois não? — perguntei com um sorriso no rosto. Não estava acostumada a ter empregados e aquilo ainda me incomodava bastante.
— O carro que a senhorita pediu acabou de chegar — ela retribuiu o meu sorriso.
— O que? Eu não pedi nada — arqueei a sobrancelha estranhando a situação.
— Não? — ela parecia tão surpresa quanto eu — Bom, posso mandá-lo embora então?
— Por favor — pedi com medo de que alguém quisesse me sequestrar. Parece cômico, mas quando se vive em uma família que tem muito dinheiro, era até comum algo assim.
Ela saiu do cômodo e eu terminei meu suco de laranja ainda um pouco curiosa com essa situação toda. Subi para o meu quarto e escovei os dentes, peguei minha mochila e não demorei muito, enquanto descia as escadas pude ver uma silhueta familiar. Eu só estava estranhando o fato dele estar ali.
Caio tirou os olhos do celular e sorriu ao me ver. Seus cabelos pretos estavam um pouco bagunçados. Usava uma camisa gola v cinza, uma calça jeans escura e nos pés um supra preto.
— O que faz aqui? — perguntei sorrindo. Ele era muito bonito. Ficava a tarde toda com ele nos treinos, entretanto nunca fomos de conversar. A única vez que trocamos mais de 5 palavras foi quando eu conheci o meu clã.
— Bom dia — ele não tirava o sorriso do rosto — soube que conheceu os Royals ontem, então hoje eu vou ser o seu guia turístico para conhecer os Stealth. Já que você só conhece uma parte de nós — piscou me fazendo suspirar.
— Então você é o carro que estava me esperando? — como seria chegar com um gato desse na faculdade? Alguém iria notar? Eu seria odiada pelo resto da minha vida?
— O próprio — passou o braço sobre os meus ombros e eu pude sentir o seu cheiro maravilhoso. Eu ia era passar mal se ficasse com aquele cara o dia todo.
Caminhamos até a garagem e abri a boca ao ver o carro dele. Era um bugatti veyron preto e vermelho, o capô estava aberto, o que explicava perfeitamente o seu cabelo levemente bagunçado. Eu não tinha como negar, se tem uma coisa que os Stealth tem de sobra é dinheiro. Todos andavam com seus carros de luxo e não faziam questão de passarem despercebidos, coisa que os Royals mais gostavam de fazer. Até porque a intenção deles era serem normais. O que nós sabíamos que era impossível.
— Espero que não se incomode com o vento, eu gosto de sentir o cheiro desse lado da cidade. Seu pai tem muito bom gosto, eu gostaria muito de morar perto dessa floresta — comentou abrindo a porta pra mim. Fiquei meio sem jeito com o cavalheirismo, mas não demonstrei e sentei logo no banco.
— Você gosta de música? — perguntou sentando ao meu lado no banco do motorista.
— Gosto — eu não sabia como agir, não tinha intimidade e ele também parecia nervoso por algum motivo.
— É que é a primeira vez que uma garota entra no meu carro — ele disse ficando levemente corado e ligando o som do carro. Não prestei atenção na música, parecia rock, entretanto eu nunca tinha ouvido
— Pensei que os meus pensamentos estivessem bloqueados — comentei um pouco sem graça pela fala dele.
— E estão — afirmou — só que ser sangue puro tem as suas vantagens — ligou o carro e eu queria muito perguntar porque ninguém comentou sobre ele ler os meus pensamentos.
— Ninguém sabe que posso — ele estava concentrado na estrada.
— Por que não contou?
— Eu e o Christopher somos grandes amigos e apesar de termos nos afastado nos últimos 2 anos, existem tratos que nunca podem ser quebrados — acho que ele se sentia muito a vontade em me contar tudo aquilo.
— Então você tem um trato com o inimigo sem o seu mestre saber? — ri pelo nariz da situação.
— Eu gosto muito do Chris — deu de ombros — depois que restou só nós de sangue puro nos clãs, resolvemos manter segredo de muitas coisas que as pessoas nem imaginam.
Caio deu uma olhada de canto de olho pra mim e acho que notou a minha cara de curiosa porque riu de uma forma contagiante.
— Só estou te contando porque você também é uma sangue puro e provavelmente vai descobrir tudo isso só por conviver comigo e talvez com o Chris também — piscou me fazendo corar.
— Por que o Christopher foi banido dos Stealth? — soltei sem pensar.
— Ele não foi banido — Caio me encarou parecendo achar engraçada a minha pergunta — saiu por livre e espontânea vontade. Depois que teve a matança, ele simplesmente não olhou para trás e foi viver sozinho. Por um tempo, até conseguir recrutas para o seu clã.
— Klaus o odeia só porque abandonou o clã?
— Essa já é outra história — desviou o assunto — estamos quase chegando — apontou para a entrada da universidade assim que ela apareceu na nossa vista.
— Me desculpe por fazer tantas perguntas — mordi o lábio, suspirando logo em seguida — é que isso é tudo tão confuso pra mim.
— Não se preocupe — sorriu de lado, fazendo meu coração congelar com aquela imagem — estou a disposição para as suas perguntas e responderei todas que eu puder.
Caio estacionou o carro e percebi ele ficar sem jeito quando tirou a chave do contato. Eu não estava entendendo até olhar à nossa volta e ver todas, sem exageros, todas as pessoas olharem para nós. Algumas tirando fotos e outras cochichavam descaradamente. Fiquei sem graça.
— Ainda bem que te avisei sobre ser a primeira garota a andar no meu carro — ele disse para quebrar o clima estranho.
— Eu não esperava nada assim — admiti — nunca fui o centro das atenções de nada.
— É melhor se acostumar. Não passamos despercebidos — depositou um beijo na minha testa antes de descer do carro.
— Você é o que? O super astro da universidade e eu não estou sabendo? — perguntei fazendo-o rir.
— Longe disso — deu um sorriso tímido.
— O Caio é muito modesto, não escute nada do que ele disser sobre si próprio. Ele é o cara mais desejado daqui depois do Christopher. Só pararam um pouco com esse porque a Georgia deu uns gritos no último verão, deixando claro que ele era comprometido — Valerie nem parecia a rabugenta dos treinos se aproximando de mim. Chegou bem perto do meu ouvido — Cá entre nós, todos sabemos que o Chris só foi de uma pessoa até hoje.
— Isso é verdade — Caio assentiu divertido com a situação.
— Viu só? O ex melhor amigo dele confirma isso. Ela deveria cair fora logo. O cara nasceu pra ser livre e pegar todas as garotas disponíveis pra ele — Valerie tagarelava pelos cotovelos e eu percebi que os meus amigos-irmãos se sentiam muito mais à vontade longe do mestre.
Em algum momento eu me perdi na conversa do Caio e da Valerie e fiquei olhando para o nada. Nós estávamos esperando o resto do pessoal chegar, já que hoje todos entravam mais tarde.
— Tudo bem? — Ouvi alguém falando do meu lado. Nem notei a aproximação.
— Sim — respondi antes de ver quem era.
— Se precisar de alguma coisa, só gritar — Christopher deu um sorriso acolhedor. Estava lindo. Usando a jaqueta do time de basquete da universidade, calça jeans e um sapatênis. Piscou quando me viu sorrir.
— Obrigada — respondi mordendo o lábio tentando entender como ele poderia realmente me fazer algum mal.
— Uma resposta por seus pensamentos — ele comentou enquanto sentava do meu lado. Sentei também.
— Como alguém tão bom pode ter tantos inimigos? — perguntei olhando para um ponto fixo que não fosse ele. Naquele momento, o ponto fixo era uma nuvem com formato de pássaro.
Surpreendo todas as minhas expectativas, ele riu dos meus pensamentos e aquilo me fez relaxar. Finalmente consegui encará-lo.
— Eu não faço ideia de quando passaram a duvidar de mim, mas tenho uma teoria — Christopher suspirou e segui seu olhar. Ele parecia triste e magoado. Como se tivesse perdido algo muito importante.
Foi então que percebi que ele estava olhando para os Stealth, que tinham acabado de chegar e conversavam animadamente, entregando alguns panfletos que mais tarde descobri ser de uma festa para o time de basquete. Caio e Valerie tinham se juntado à eles, o castanho não parava de lançar olhares pra mim, como se tivesse medo que eu fosse desaparecer do nada ou concentrado em ouvir nossa conversa.
— Então, qual a pergunta? Já que esse foi o seu pensamento, suponho — se a tristeza esteve ali por algum momento, Christopher era muito bom em ignorá-la ou a mantinha em segredo constantemente.
— Sim, foi o meu pensamento — sorri meio acanhada. Ele era muito bonito e eu me sentia intimidada — sabe, é bom conversar com alguém que não fica lendo os meus pensamentos.
— Tem pensamentos que nós simplesmente não queremos compartilhar — ele parecia me entender muito bem e aquilo me encantava de uma forma perigosa, pois eu sabia que era proibido.
— Então Thompson, me disseram que você era igual a mim. Não tinha conhecimento sobre seus poderes e nem suas origens. Como foi se adaptar à tudo isso? Essa sensação de não ter certeza que pertence a esse lugar, você teve isso? — essa não era a pergunta que eu queria verdadeiramente fazer, mas como estava me sentindo perdida sobre quais atitudes tomar, tinha certeza que ele me ajudaria.
— Todos os Stealth são um bando de curiosos — Thompson direcionou sua voz para algum lugar. Não entendi nada até ver todos os Stealth paralisados. Christopher deu um sorriso de lado, parecia conter uma risada enquanto olhava para eles.
— Me desculpe, não consegui me conter — nós dois rimos. É claro que eles estavam ouvindo a nossa conversa. Prontos para interromper caso algo acontecesse.
— Respondendo a sua pergunta — ele tocou meu ombro — meus pais morreram quando eu ainda era muito novo e antes que partissem, apagaram minha memória afim de me protegerem de seus inimigos. Foi quando meu guardião escolhido por eles cuidou de mim e esperou até que atingisse a idade que meus pais estipularam para ele devolver minha memória e eu poder entender as transformações do meu corpo. Ele me levou até o Klaus e as coisas aconteceram mais ou menos igual com você, só que mais devagar.
— Ter inimigos é coisa de família então? — comentei para descontrair e funcionou, pois ele relaxou e conseguiu sorrir.
— A adaptação foi até que normal. Eu não tinha controle sobre meus poderes como os outros da mesma idade, mas isso não me impediu de ter amigos — fechou os olhos como se lembrasse de alguma coisa — quanto à essa sensação, sinto informar que eu ainda a carrego comigo e tenho como a terceira pior coisa da minha vida.
— Qual é a segunda? — perguntei sem pensar. Vi Christopher travar o maxilar, tenso por ser pego de surpresa — desculpe, fui indiscreta.
— Imagina — ele sorriu — a segunda foi perder a amizade do Caio. Por que sinto que vai perguntar a primeira?
— Talvez — dei de ombros fazendo-o rir — qual é a primeira?
— Perder a Elisa — os olhos dele ficaram vermelhos por um décimo de segundo, mas foi o suficiente para que o Caio viesse até nós.
— Então, pronta? — o castanho ignorou a presença do Christopher e aquilo partiu meu coração.
— Claro — levantei rápido demais e me desequilibrei caindo em cima do Christopher, que deu um sorriso em resposta — até mais Thompson e obrigada!
— Até mais Campbell — ele sussurrou fazendo os pelos do meu corpo eriçarem.
— Você viu isso? — Valerie comentou com o Caio quando já estávamos caminhando em meio aos Stealth.
— Só problemas — ele revirou os olhos.
— Se a Georgia repara, ela cai dura. Sério. Melhor maneirarem no caso de vocês — Valerie falou e eu ainda estava em transe. Sabe-se lá Deus porquê.
— O que? — perguntei confusa e quando entendi fiquei boquiaberta — Como assim? Está maluca? Nós não temos nada. Mal nos falamos! — me defendi.
— Sério? — Caio questionou com um sorriso tímido nos lábios e eu respondi assentindo com a cabeça. Percebi ele ficar corado. Será que estava interessado em mim?
Valerie bufou e saiu pisando duro. Deixando-nos. Um silêncio reinou entre nós.
— O que acha? — ele me puxou para sentar na grama e eu não pestanejei. Fiquei quase no colo dele.
— Sobre o que exatamente? — olhei um pouco pra cima para conseguir encará-lo e sorri.
— Estou ou não interessado em você? — arqueou a sobrancelha e sua voz tinha um tom de seriedade. Fiquei sem graça.
— Com certeza não — respondi num tom normal, cortando um pouco da intimidade. Ele percebeu.
— Me desculpe — riu pelo nariz — eu fico um pouco nervoso com esse tipo de interação de Gini pra Gini, minhas experiências não foram muito boas.
— E eu nunca tive — sorri balançando a cabeça — se você puder não ficar lendo os meus pensamentos, eu agradeço.
— Tem alguma coisa pra esconder? — ficou sério de repente.
— Não, só não estou acostumada com as pessoas sabendo tanto sobre mim sem eu mesma contar — admiti. Ele assentiu, parecia entender.
— Você é tão parecida com o Christopher, só que muito mais atraente — franziu o cenho me analisando — gostei do shorts.
Nós levantamos e fomos em direção ao meu clã que via todos os dias no treinamento, depois descobri que existem outros. Eles pareciam ansiosos pela minha presença e aquilo me deixou um pouco nervosa. Notei que os garotos ficaram reparando nas minhas pernas e eu também tive que olhar pra ver se tinha alguma coisa errada. Me surpreendi ao perceber que elas estavam torneadas, como se eu tivesse malhado durante anos. Fiquei muito surpresa e franzi o cenho. Será que estava relacionado com a minha ascensão? Faz parte do aumento dos meus poderes a força dos meus músculos? Dei um gritinho interno bem satisfeita com seja lá o que fosse o que estava acontecendo comigo. Meu corpo tinha melhorado muito.
— Acho que não foi o único a gostar do meu shorts, já que me senti engolida por vários pares de olhos por aqui — comentei com o Caio sentindo minhas bochechas corarem. Ele riu abertamente e depois lançou um olhar reprovador para os garotos, que imediatamente olharam para outro lugar que não fosse eu.
— Eles só não estão acostumados com a presença de uma nova garota por aqui. — Caio deu um sorriso de lado e eu revirei os olhos em resposta — Não uma tão bonita.
— Pare de ser bobo — senti minhas bochechas corarem e ele pareceu gostar. Sorriu de um jeito cafajeste. Quis socá-lo.
— Vamos? — estendeu o braço pra mim e eu assenti com a cabeça.
Caminhamos sem pressa pelo enorme jardim e a Valerie me deu um panfleto da festa, não li naquele momento e coloquei no bolso do meu shorts. Paramos no grupo descolado e bem animados com os rostos pintados da cor do time de basquete. Eles sorriram quando me viram.
— Não sei se já te contaram, mas nós temos campos de treinamento diferentes. Talvez se lembre desses rostos nas reuniões — Caio disse. E realmente, eu me lembrava dos rostos, apesar de nunca terem conversado comigo.
— É um prazer finalmente ter você conosco — uma moça baixinha me deu um abraço. Não sei como, mas me senti acolhida. Depois dela, todos me abraçaram e falaram coisas muito legais.
O dia foi extremamente divertido. Eu ainda não conseguia lembrar o nome de todos os meus amigos-irmãos, mas cada um passou um tempo comigo, além do Caio estar do meu lado a todo momento. Fomos na festa do time e meu Deus! Nunca me senti tão em casa como ali. Uma parte dela passei com as meninas, sempre com o olhar de Caio em mim, e depois fiquei com os garotos, que sempre me faziam rir. Em algum momento da festa, fui pegar uma bebida e vi os Royals também se divertindo e rindo bastante, parecia que Christopher tinha acabado de falar algo engraçado. Ele notou a minha presença ali perto e ergueu o seu copo de bebida em cumprimento. Sorri e caminhei até eles.
— Oi, gente! — estava animada. Todos me responderam na mesma animação e começaram a conversar comigo.
— Sabia que sou o artilheiro? — um loiro falou pra mim.
— É mesmo? — arqueei a sobrancelha, me interessando pelo assunto.
— Infelizmente não — todos riram — o Christopher que é — revirou os olhos — Está pra nascer algo em que ele não seja o melhor — completou o loiro.
— Vocês são tão exagerados. Tem muita coisa em que não sou bom — Thompson parecia sem graça com o comentário. Entretanto, todos assentiram com as palavras do loiro.
— Me cite alguma coisa em que você não é bom — desafiei.
— Não sei. Em responder perguntas, talvez? Isso conta, certo? — ele estava com as bochechas um pouco rosadas por causa do álcool em seu corpo.
— Como é? Você é o único que tem resposta pra tudo! — Georgia apareceu logo ao lado dele, depositando um breve beijo em seus lábios.
— Tenho que concordar — falei com um sorriso.
Ficamos conversando por vários minutos e o papo estava muito bom, até que senti alguém tocando no meu ombro.
— Hoje ela é nossa — Caio falou pra ninguém em especial.
— Tchau, gente — fiquei sem graça por ter sido tirada dali, os Royals não me responderam, apenas levantaram seus copos e agiram como se eu nunca tivesse estado ali. Christopher foi o único que me encarou enquanto me distanciava. Eu sentia em seu olhar um pouco de desespero, quase como se estivessem torturando-o.
E depois de um dia todo com os meus amigos-irmãos. Era como se eu me encaixasse naquele grupo e de repente nem me lembrava mais dos Royals, e pensar em escolhê-los tornou-se ainda mais errado. É verdade que eles me trataram muito bem, mas era como se o meu corpo soubesse onde devia pertencer. A dúvida não estava mais presente. Eu pertencia a eles.
Depois que decidi em qual clã queria ficar. Eles realizaram um tipo de ritual na terça mesmo, no meio da floresta. Muitos anciãos foram até lá e eu tive que falar alguns juramentos, uns foram até bem sinistros, outros foram tão diplomáticos. Foi ali que descobri que era algo sério e não tinha mais volta.
Na manhã seguinte do ritual, fui a única que entrou mais cedo dos Stealth na universidade e acabei encontrando Christopher sentado sozinho num banco do jardim, ele estava lendo um livro. Fui até lá.
— Bom dia! — disse animada. Ele sorriu no primeiro instante e depois franziu o cenho.
— Bom dia — sua voz parecia triste.
— Está tudo bem? — perguntei preocupada.
— Stealth então? — balançou a cabeça em descrença.
— Quem te contou? — eu não queria que ele ficasse sabendo por outras pessoas. Decidi que contaria.
— Ninguém — sua voz aparentava sinceridade — estou sentindo — estendeu o braço e ele estava tremendo bastante.
— Nossa! — me assustei — isso é normal?
— Mais do que imagina. Pode se afastar, por favor? — pediu com a voz um pouco sombria. Encolhi os ombros e me afastei.
— Sinto muito — minha voz saiu por um fio. Eu sentia que estava falhando com ele, alguém que tanto tem me ajudado.
— Eu também.
Christopher levantou e me deixou sozinha. E acho que aquela foi a nossa última conversa normal desde então. Pelo menos ainda me ajudou nos treinos, entretanto estava frio. Não conversava sobre nada que não fossem técnicas de treinamento e aquilo me incomodava de certa forma. Até que na quinta-feira, ficamos sozinhos por cinco minutos e desabafei.
— Vai continuar fingindo que não existo ou o que?
— É complicado — ele não me olhou, virou as costas e começou a ir embora. Ah, mas não ia me deixar falando sozinha, não mesmo.
— Complicado? Você é o único que me entende em meio a todo esse processo e simplesmente me ignora desde ontem — falei baixinho, mas sabia que ele me ouviria.
— Você fez a sua escolha, Melita. Nós dois como amigos não existimos mais a partir do momento em que se junto a eles — Christopher estava de costas enquanto falava — e não pense que não quero ser seu amigo. É maior do que o meu querer. Uma força que só pode ser quebrada de uma forma, e não temos isso. Então, sinto muito por não sermos amigos.
— O que está enchendo a cabeça dela, aí? — Robert perguntou irritado para o Christopher.
— Por que não explica pra ela que não podemos ser amigos? Eu preciso ir embora — ele saiu andando de cabeça baixa e sumiu floresta adentro.
— Quando você é de um clã e fica perto de um membro que pertence a outro, é como se o universo te castigasse — Robert não parecia estar brincando — você fica fraco, seus poderes diminuem consideravelmente e entra em conflito com os clãs — o moreno suspirou — digamos que o Christopher já foi castigado demais pelo universo.
— Mas a Georgia — fui interrompida antes mesmo de perguntar.
— Se existir amor, tudo isso desaparece e você não é afetado.
Eu não deveria, mas fiquei desapontada em saber que eles se amavam. Senti um pouco de inveja da Georgia. Ela poderia ficar perto dele e eu não. E ele me fazia tão bem. Será que fiz a escolha errada? Mas droga! Aquele era o melhor lado da moeda. E eu queria estar ali.
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