We Were Born to Die
1 Oneshot
Notas iniciais
* * *
Dia 1,
Eu estava saído de casa naquela manhã quando isso começou. Não havia dormido direito, pois o barulho metálico da chuva não me permitiu descansar por completo. Não era um bom dia para acordar cedo. Tive aquela sensação de o melhor a se fazer era continuar na cama. E eu geralmente estou certa quanto às sensações. Contudo, pela primeira vez, me convenci de que tinha de levantar. Meu último caso havia se encerrado, o que significava ir à procura de trabalho. Alguém que precisasse de uma pessoa para fazer o serviço sujo.
Estava nublado e frio. Boston não parecia ter acordado ainda quando eu saí do meu apartamento. Na semana anterior, uma mulher de voz aveludada havia me ligado pedindo meus serviços. Algo em relação ao marido que ela só me explicaria pessoalmente. Obviamente, eu não hesitei ao aceitar o tal encontro. O lugar era o seu próprio escritório perto da central de metrô ferroviário, longe demais para ir a pé. Por isso, peguei meu carro e me dirigi até o lá. Tudo estava tão quieto. O endereço que eu havia anotado junto a uma propaganda de carro estava amassado demais. Provavelmente, eu deveria ter errado algum número, pois o lugar onde eu estacionara era uma casa enorme. Três andares. Maior parte em madeira e gigantescas vidraças. Se não fosse pela residência cercada e as janelas fechadas, poderia confundi-la facilmente com uma igreja ou algo do gênero. Peguei meu celular para novamente discar ao número que havia marcado tal encontro, mas só então vi que o número era desconhecido.
Sentei-me em um dos bancos quebrados em frente a casa, perguntando-me como diabos eu havia errado um simples endereço. Eu nunca errava. Eu tinha esse... Superpoder — não que alguém já houvesse acreditado em mim. Esperei aquela mulher de voz aveludada por horas, mas toda vez que olhava no relógio sequer minutos haviam se passado. O céu ameaçava derramar a chuva que havia prometido desde cedo, e meu estômago também dava sinais do jejum em que eu estava. Decidi levantar antes que acabasse sendo pega pela água, e então, meu celular vibrou.
“Está atrasada. Entre pela porta da frente.” A mensagem dizia.
Não precisei de mais, e andei até a porta daquele casarão. A porta estava aberta, certamente quem quer que fosse a mulher, não queria ser incomodada. Havia uma escada há poucos metros da porta de entrada. Era pouco aquilo que eu conseguia ver, por causa das vidraças escuras. A sala de estar também não era tão grande, mas o resto do casarão guardava mais espaço do que parecia. Mais dois lances de escadas apareceram conforme eu adentrava-a. Como eu disse, eu sempre estava certa sobre minhas sensações. Mas não estava com medo. Era só mais um trabalho idiota. Quando algo atrás de mim estalou, percebi do que aquilo se tratava.
“Tudo bem. Já entendi.” Disse alto para quem quer que estivesse gerenciando aquela brincadeira. “Isso é um teste, tudo bem.” Mas não houve resposta. Olhei para trás para identificar a origem do barulho e também o motivo de tudo ter ficado tão escuro. Não foi preciso muito, alguém havia fechado a porta.
Não pude deixar de apertar o cano da arma em minha cintura. Às vezes me dava mais segurança. Não que eu estivesse com medo. Já estava acostumada com o perigo, embora — na maioria das vezes — ele estivesse correndo e com uma arma em mãos. Agora estava eu dentro de uma casa imensa sendo piada de alguém.
“Quando quiser falar sério, estarei com o celular ligado.” Esclareci antes de caminhar até a porta. Virei a maçaneta algumas vezes, puxando algumas vezes brutamente. Um estalo na escada me fez erguer a arma da cintura. Não havia ninguém nos degraus. Tampouco no topo da escada. A porta não abria de jeito algum, eu teria de derrubá-la. Contudo, meus ouvidos estavam alerto a outra coisa. Passos. Passos logo atrás de mim.
Agora cá estou. Viro-me rapidamente, com a arma apontada. Mas novamente, não há ninguém. Tenho aquela sensação novamente. A de que não deveria ter posto o pé fora da cama esta manhã. Mas, então, só tenho a real confirmação quando uma silhueta distorcida dá passos lentos e seguros em minha direção. A luminosidade é tão precária, que mal consigo calcular a distância entre aquela silhueta. Quando menos espero, a sombra está há poucos centímetros de mim. Consigo sentir sua respiração. Seu hálito tem o aroma tão nítido de maçã inigualável. Só então percebo que é uma mulher. Seu cabelo batido no ombro me dá uma sensação estranha de que já a conheço. Não... Eu tenho certeza. Eu já a conheço. Nunca me engano. Mas não sou burra, e mesmo a conhecendo, eu ergo a arma para sua cabeça. Não vejo seu rosto. Não consigo vê-lo.
De repente, ela entorta o rosto como se me fitasse de cima abaixo, embora não consiga ver seus olhos. Tenho a impressão de tê-la magoado, então abaixo a arma. Arrependo-me arrependo no exato momento, mas não há volta. Meu olhar bate em sua mão, há algo comprido nela. Um bastão. Volto a olhá-la nos olhos, mas há algo diferente lá. Agora eu os vejo pela primeira vez, são castanhos achocolatados. Há também uma cicatriz em seus lábios, mas o que mais chamava atenção era o sorriso malicioso. Longos minutos se passam — mais se parecem horas — quando sinto algo atingir minha cabeça feito um raio e tudo ficar escuro.
* * *
Sinto minhas mãos suarem enquanto roçam uma a outra, acho que estão amarradas. Logo, tomo conta do restante de meu corpo; a superfície dura e fria abaixo de mim, e minha respiração sendo bloqueada por algo preso em minha cabeça. Ouço passos barulhentos chegando mais perto, não demoro muito até perceber que são saltos femininos. Então ela para. Está perto de mim, e tira aquilo que me impedia de respirar.
“Está com sede?” A voz parece gélida de início. Recupero o fôlego antes de olhá-la, parecia que eu não respirava há minutos. Quando meus olhos pairam sobre a origem da voz vejo uma mulher muito bem vestida, de calça justa e blazer preto com branco. Seus cabelos pretos batem pouco abaixo de seu queixo, e seus olhos reluzem um castanho achocolatado. Eu a vi, tenho certeza disso. Mas não consigo me lembrar. A mulher olha fixamente para mim, esperando uma resposta.
“Sim.” Respondo com dificuldade, minha voz sai rouca e falhada. A mulher me dá as costas e caminha até um canto do cômodo. Não consigo distinguir onde estou ou o que ela está fazendo, mas logo a mulher volta com um copo prateado e uma jarra de vidro. Ela abaixa até estar na minha altura e preenche o copo de água para então erguê-lo a mim. Não sei se devo agradecer, mas mesmo assim o faço.
“Está com fome?” Pergunta a mulher com mais gentileza. Eu bebo a água do copo até a última gota, mas nenhum gole parece saciar minha sede.
“Não.” Digo um pouco ofegante. A mulher balança a cabeça e se levanta, deixando-me sozinha na sala.
Aproveito a sua saída para tentar identificar o lugar onde estou. Minha cabeça começa a latejar, e isso certamente não me ajuda a me concentrar. As paredes lembram um reservatório de carne, onde as paredes, o chão e o teto são de metal, mas não está tão frio para ser verdadeiramente um. Tento livrar-me das cordas que prendem minhas mãos, mas parece inútil com esse nó de marinheiro. Entretanto, algo chama a minha atenção. Não tão longe de mim, em cima de uma escrivaninha de madeira há a minha bolsa. Sei que é ela, pois fiz um rasgo ao prendê-la na porta do carro. Isso me dá esperanças para sair daquele maldito lugar. Sei que dentro dela, há uma faca e a minha arma. Portanto, me arrasto até a mesa para pegá-la.
“O que está fazendo?” A voz da mulher me faz congelar. Faltavam centímetros para alcança-la, mas recuo ao ouvir os saltos andarem até mim. “É isso que quer?” Pergunta ela. Não respondo. A mulher pega a bolsa e a joga em meu colo. “Era só pedir.” Retrucou.
É alguma armadilha. Ela está me olhando, esperando que eu faça algo. Provavelmente tem alguma arma escondida com ela. Quando vejo o tempo se arrastar, percebo que a mulher não pretende dizer nada, portanto, abro minha bolsa com pouco de desespero. Não há nada lá. Pelo menos, não o que eu preciso. Minha arma foi retirada, junto com a faca e o celular. Eu já deveria saber.
“Onde estão as minhas coisas?” Pergunto agressivamente. A mulher franziu o cenho, parecendo ressentida com meu tom.
“Está tudo aí. A não ser pelas coisas que você poderia usar para me machucar.” Explica a mulher. “Pretendia me machucar?” Pergunta num tom magoado.
“Só se você pretendesse me machucar.” Retruco. Ela parece não entender porque da minha resposta.
“E por que eu faria isso?” Isso me fez recuar. A mulher recostou seu corpo na parede, olhando fixamente para mim.
“Diga-me você.” Digo.
“Não sei.” Responde rapidamente, como se já soubesse o que eu diria. Minutos se passam sem que ninguém emita um som. Seus olhos me fitam curiosamente, estudando-me com cautela. Ela não parece pretender dizer ou fazer nada por um longo tempo, então resolvo quebrar o silêncio.
“Quem é você?” Pergunto. A mulher ergue as sobrancelhas, como se tivesse se esquecido de algo e se afasta da parede.
“Regina Mills.” Responde com certo orgulho. “E você é Emma Swan.” Afirma. Eu balanço a cabeça, confirmando embora não fosse ao certo uma pergunta.
“Como sabe quem eu sou?”
“Você faz perguntas demais.” Retruca Regina. Fico calada durante algum tempo observando-a. Seus pensamentos correm soltos durante um longo tempo. Eu sinto meus pés tremerem, junto com minha cabeça a latejar. Devo ter sido acertada com força na cabeça.
“Onde estamos?” Decido perguntar. Um sorriso surge em seus lábios avermelhados, mas ela não olha para mim.
“A pergunta certa seria; para aonde estamos indo?” Comenta. Só então me dou conta de onde estou. No interior de um caminhão, provavelmente em uma estrada, pelo jeito que tudo está balançando.
“Minha dúvida permanece.” Digo, mas desta vez Regina não me responde.
Após algum tempo, Regina pega uma cadeira e senta-se há alguns metros de mim. Talvez por medo que eu a ataque ou algo do tipo. Seus olhos me fixam, mas desta vez vejo algo em seus olhos achocolatados, um brilho diferente.
“O que há de tão interessante em mim?” Pergunto, sentindo minha voz sair mais amigável que gostaria. Ela sorri, mas não desvia o olhar.
“Verde-esmeralda, não é? A cor dos seus olhos.” Diz Regina, não respondendo as minhas perguntas. “Os olhos dela.” Comenta para si mesma.
“Nunca viu alguém de olhos verdes?” Pergunto com uma ponta de curiosidade. A mulher, quer dizer, Regina inclina a cabeça pensativa.
“Sim, mas esmeraldas são pedras preciosas; especiais.” Diz ela. “Assim como você.” Acrescenta. Sinto minha cabeça doer com mais intensidade, e meu estomago reclamar.
“O que tem de especial em mim?” Pergunto abrindo mais os olhos, pois tudo parece rodar ao meu redor. Estou sonolenta. Há algo de errado. Regina sorri, mas não um sorriso gentil, um malicioso.
“Você vai descobrir sozinha.” Sua voz tornou-se gélida. Vejo que a imagem escurece aos poucos, e a fraqueza toma conta do meu corpo. Regina levanta-se da cadeira e anda até mim. Sinto suas mãos segurarem minha cabeça e me ajeitarem no chão. Não consigo me mexer, estou muito cansada para isso. Ela está me olhando tão de perto agora, mas mesmo assim não consigo ter medo. Seu olhar está diferente agora, parece faminto, sem brilho, talvez furioso. Não sei se o que vejo é real, mas ela está acariciando meu rosto. Não sei se o que ouço é real, mas antes de fechar os olhos, escuto-a dizer fria e furiosamente:
“Os olhos dela.”
* * *
Dia 2,
Abro os olhos rapidamente com um susto. Sinto meus pulsos queimarem, assim como meus calcanhares. Acostumo-me com a luz excessivamente clara sobre mim, mas meus olhos ainda ardem com o passar do tempo. Não estou mais naquele caminhão, ou seja lá o que aquilo era. Agora o chão era feito de madeira, e havia uma porta há alguns metros de mim. Eu estava sozinha. Meus pulsos sangravam, mas parecia ser superficial. Não havia mais cordas prendendo-me.
“Regina?” Procuro pela mulher dos olhos sensíveis, mas ninguém parece me ouvir. Sinto meu corpo se contorcer de dor e sede. Estou mais desperta e sóbria agora. Ela me drogou, era a única explicação. Regina era boa com as palavras, mas ainda não conseguia entende-la. Não me lembro de já ter trabalhado para ela, muito menos contra ela. “Regina?!”
Então, a porta se abre logo a minha frente. A mulher entra e fecha a porta atrás de si. Percebo que na porta há uma janela de vidro, pois há alguém esperando lá fora. Regina anda até mim. Ela mudou de roupa, agora está com um blazer azul e uma saia preta, mas os mesmos saltos.
“Chamou-me?” Pergunta sínica.
“Preciso ir ao banheiro.” Alego. Ela balança a cabeça e lança um olhar para a porta. Logo, esta se abre e quem quer que esteja lá desaparece. Ela ergue a mão, mas eu recuso a ajuda. Levanto-me sozinha.
“Acompanhe-me, por favor.” Pede friamente. Seus passos param em frente a uma porta em péssimo estado, e ela aponta indicando onde eu deveria entrar. Eu o faço. Não há tranca, mas mesmo assim, após alguns minutos, concentro-me em procurar algo para me defender. No pequeno armário sobre a pia, não há uma lâmina sequer, nada. Não poderia quebrar o vidro sem ser impedida imediatamente pela mulher que me esperava do lado de fora. Já estou demorando demais, e saio.
“Deve estar com fome. Vou providenciar algo para comer.” Ela diz, enquanto me acompanha de volta. Não respondo.
Regina para a minha frente, diante da porta. É a minha chance. Eu a seguro por trás, laçando meu braço sobre seu pescoço. Deixo espaço para que ela respire, mas nenhuma reação vem como o esperado. Regina aperta meu braço com as unhas, mas não chega a me machucar.
“Não vai me drogar de novo.” Digo em seu ouvido. Seu perfume é suave, assim como sua respiração. Ela sorri de leve, posso ver. “Onde eu estou? E como saio daqui?” Pergunto.
“Em uma pequena cidade do Maine, Storybrooke.” Ela responde. Só pode estar brincando. Ela tenta se virar, mas eu a impeço. “Lamento por isso.” Regina sussurra. Não compreendo-a pelos primeiros segundos até sentir o cano gelado em meu ombro e então, levo um tiro.
* * *
Dia 3,
Meu ombro lateja, e as dores só se acumulam. Contudo, ainda de olhos fechados, sinto um toque leve em meu corpo. Finjo estar dormindo até identificar a origem do toque.
“Não precisava ter atirado, imbecil.” Regina soa severa e ríspida.
“Mas ela poderia tê-la matado, Madame.” Esta voz não reconheço. É grave e masculina.
“Saia daqui antes que ela acorde.” Ordena a mulher. “Deixe tudo aqui.”
“O que vai fazer, Madame? Matá-la?” Pergunta o homem. Regina dá um suspiro longo, como quem estivesse decidindo o que fazer. Silêncio.
“Não seja estúpido.” Diz ela. Mas não respondeu a pergunta. Os passos pesados que julgo ser do homem são dados até a porta, e então ela se fecha.
Começo a sentir meu ombro sendo invadido. Não posso conter um gemido. Tento abrir os olhos apenas o necessário para saber onde estou, mas quando o faço, percebo que Regina olha atentamente para mim.
“Sabe, é feio ouvir a conversa dos outros.” Diz ela sem hesitação. Não há mais como fingir, e abro os olhos por completo. Estou sem camisa, mas de sutiã. Regina puxa para perto uma pesa de metal. Posso ver sangue, bastante dele. E sei que é meu. Ela larga uma pinça suja e começa a fazer um curativo em meu ombro.
“É feio sequestrar pessoas e atirar nelas.” Respondo com a voz embargada.
“Tuchê” Ela responde.
Regina dá um tapinha nas minhas costas, avisando que já havia acabado. Eu ponho-me sentada. Percebo que estou em uma maca, porém no mesmo cômodo de antes. Ela se aproxima de mim, e antes que eu pudesse entender sinto seus lábios colidirem com os meus. Os dela estão entreabertos, e puxam os meus suavemente. Não reajo. Também não respiro. Ela aponta seu dedo em meu queixo, levantando meu rosto para o seu, e então, dá um passo para trás. Acho que meu rosto está vermelho, pois depois de me olhar Regina dá uma risadinha.
“Espero que isso desculpe o tiro.” Diz naturalmente. Estou incrédula. Nada disse. Ela retira as luvas e as joga na mesa ensanguentada. Regina se volta para mim com um olhar cuidadoso, seus dedos — agora nus — brincam na alça do meu sutiã. Percebo seu olhar para o meu corpo, e não evito olhar para o seu também. Ela sorri, percebendo aquilo.
“Onde está minha camisa?” Pergunto após algum tempo.
“Suja.” Responde.
“Não perguntei como ela está.” Retruco.
De repente, Regina suspira e me lança um olhar gélido, impaciente. Sua mudança me dá receio. Mas em vez de responder, a mulher empurra a mesa para longe e pega uma caixa de madeira. Ela a põem a minha frente.
“Abra.” Ela ordena. Eu a fito por um minuto, aquele olhar vazio de novo. Eu o faço sem relutar, pois não parece ser nada ameaçador. Dentro da caixa há um livro largo e velho. Olho para Regina, que balança a cabeça indicando-me para pegá-lo. Não há nada se não contos de criança.
“O que quer que eu faça com isso?” Pergunto à ela.
“Sabe Emma, chega dessa brincadeira.” Disse Regina seca. “Você por que está aqui.” Eu não posso conter a indignação em minha feição.
“Claro que sei, fui sequestrada, drogada e ainda levei um tiro porque você é louca!” Respondi com petulância. A ardência no rosto foi imediata. Regina aperta meu maxilar com sua mão, aproximando-se do meu rosto novamente.
“Não. Sou. Louca.” Sussurra. Seu olhar era doentio, mas não senti medo. Ela me empurra, e meu ombro bate contra a parede, fazendo-me morder o lábio ao conter o gemido. “Você vai decidir se sai viva daqui.” As palavras fazem meu coração martelar.
“O que você quer?” Pergunto finalmente. Ela aponta para o livro.
“Diga-me como termina a história.” Isso soa como uma piada. Preciso olhá-la mais de uma vez até perceber que falava sério. Eu abro o velho livro, escorregando as páginas até o final. Quando histórias como Pinocchio, Chapeuzinho Vermelho e Cinderela passam, não há nada além de páginas em branco. Só podia ser uma piada.
“São só histórias. Não há nada no final, então em branco.” Explico, mostrando as páginas. Regina dá um passo para trás, seus lábios estão entreabertos. Seus olhos achocolatados inspiram desespero. Ela leva as mãos até a cabeça. Sinto meu coração bater freneticamente.
“Não... Está aí, eu sei que está.” A voz dela é baixa. “Está aí! Não vê?!” Regina grita subitamente, passando as páginas com tanta agressividade que chega a rasga-las em certos pontos.
“São só histórias... Regina?” Digo, mas ela continua a folear o livro desesperadamente. “REGINA!” Grito, correndo até ela e segurando seu rosto.
“Não... Você é Emma. Você é ela. Você deveria me dizer como termina...” Vejo as lágrimas se formarem no rosto da mulher e seu corpo fraquejar. É uma ótima hora para fugir. A porta está entreaberta e não há nenhuma sombra que indique que há alguém esperando lá fora. Mas ao olhá-la, percebo que não posso fazer isso.
“Quem eu sou?” Pergunto, mas me arrependo imediatamente. Ela foleia o livro até o início e me aponta um desenho. Não é o tipo de história que eu me lembrava. Eu podia ver os personagens mais conhecidos dos contos de fadas segurando um bebê, mas não me lembrava da Branca de Neve grávida em momento nenhum. Meu olhar pairou sobre meu nome dentre àquelas palavras, que também mencionavam uma maldição e uma salvadora. Fitei Regina, e seu olhar já havia mudado novamente.
“Você vai ser a minha ruína!” Ela grita, mas antes que pudesse me empurrar seguro seus braços, impedindo-a de me tocar.
“Eu não faço ideia do que você está falando!” Exclamo, mas ela não me ouve. Eu inverto a situação, e a empurro para a maca. Regina bate com as costas na parede, enquanto eu corro com o livro até a porta.
Ouço o tiro passar ao meu lado e acertar a porta em cheio. Não foi para me acertar, mas se ela quisesse poderia ter me matado. Viro-me calmamente para a mulher. Regina tem as mãos na arma com tanta precisão que parecia ter o costume de fazer isso, embora eu — por algum motivo — saiba que não tem.
“Esse livro é a minha única saída.” Ela diz entredentes. “Quando você quebrar a maldição tudo que eu mais prezo vai desmoronar. Minha família, meu final feliz...” As palavras de Regina ecoavam em minha cabeça. Eu ainda estava sem blusa, o que significava que estava tão exposta e desprotegida quanto uma criança.
“V-Você tem uma família?” Pergunto, sentindo minhas mãos tremerem.
“Meu filho.” Regina responde. “Mas ele sabe quem eu sou. Ele sabe o monstro que a mãe dele é.” A voz da mulher é tão embargada que parece que a qualquer momento irá cair no pranto novamente. Então, reparo em seus olhos. Tão familiar aquele olhar que sinto meu peito doer com a lembrança. “Minha única esperança é você dizer como essa história termina.”
“Por que você não faz isso?” Pergunto gentilmente, dando passos até ela. Regina hesita, apontando a arma contra a minha cabeça. Mas eu não tenho medo. Eu abro o final do livro e ergo até ela.
“Você é a salvadora.” Ela responde.
Não digo nada. Apenas seguro a sua mão e a faço segurar o livro. Regina o olha fixamente, como se fosse um enigma impossível de ser desvendado. Ando até ficar atrás dela, acompanhando as páginas enquanto ainda seguro sua mão.
“Tenho certeza de que seu filho ama você.” Asseguro. Mas a mulher nega com a cabeça.
“Ele me odeia mais que ela.” Disse com ódio. Não compreendo quem ela seja, mas não questiono.
“Eu tive um filho.” Decido dizer, baixinho. Ela franze o cenho.
“O que aconteceu?” Pergunta com cautela. Eu passo uma das páginas.
“Não estava preparada para ser mãe. Tive-o muito cedo.” Explico, esperando que ela passe a próxima página, mas não o fez.
“O que você fez?” Pergunta Regina apreensiva.
“Eu o dei para a adoção, mas o que quero dizer é que, às vezes, nós cometemos erros, mas fazemos isso pelo melhor deles.” Digo, sorrindo. Regina não sorri. Parece incrédula com a história.
“Você é...” Ela tenta dizer, mas se interrompe. Algo lhe chama atenção nas páginas que seguro. Meus olhos não acreditam no que vejo. Elas passaram a brilhar. Algumas imagens são formadas lentamente. Reconheço o rosto de Regina e o meu na mesma imagem, mas não me parece uma boa coisa. A seguir a de um menino de olhos verdes e cabelo castanho, e então o mesmo casal que antes segurava um bebê, agora envolvendo os ombros do tal garoto.
“Não... NÃO!” Regina grita, jogando o livro contra a parede. “Ela não vai tirar tudo que é meu de novo! Não!” Urra.
“E-Eu não sei o que aconteceu aqui... Mas isso é só um livro...” Digo a ela, tentando manter o controle. “Um livro assustador e que brilha, mas um livro!” Não pareço ajudar, mas acho que sou eu quem está enlouquecendo.
“Snow White... Eu vou mata-la!” Regina gritou andando em direção à porta. De repente, vejo minha bolsa caída em uma das prateleiras da mesa manchada de sangue — agora já seco. Não hesito em jogá-la no chão e desta vez, encontrar a minha arma. Corri até a mulher e puxei-a contra a parede.
“Você não vai matar ninguém.” Exclamo. “Está se ouvindo? É só um conto de fadas, nada disso é real!” Digo a mim mesma.
“Ela não vai roubar meu filho de mim!” Regina continua a gritar. Eu a envolvo com minha mão livre. Só fecho os olhos ao sentir meus lábios nos seus. Estou segurando seu queixo, enquanto suas mãos recaem sobre a minha barriga. Ela corresponde, embora seus soluços emerjam durante o beijo. Ela entreabre a boca, permitindo minha passagem e eu a puxo mais para perto de mim. Eu devo estar ficando louca, mas não me importo em pensar nisso agora. Só quero que ela pare de chorar.
Subitamente, sinto algo diferente ao meu redor. E então algo as imagens do livro me vieram à cabeça. Mas eram lembranças. Minhas. Era real. Dizem que é isso que acontece quando se está prestes a morrer, não posso dizer se é verdade. Está tudo acontecendo tão de pressa. Só tenho certeza quando o som sonoro do tiro ecoa pela sala. Não tinha mais volta. Ela apertou o gatilho contra meu peito, assim como eu.
A maldição estava quebrada. E o a história acabaria como o livro proferira. Minha cabeça bateu no chão no mesmo segundo que Regina caíra sobre mim. Nosso sangue se tornando um só, e então nada mais vi. Eu não senti medo.
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