We Never Will be The Same
1 Capítulo Único- Nos dois
Notas iniciais

—Julieta... -O sapato se chocando contra o chão anunciava sua chegada. –Boa noite. -Seus olhos caíram sobre ela e sobre o homem em sua companhia, mas não podia e não queria, no momento, se deixar levar pelo amargor que surgira em sua boca. Já era tarde, e tudo que procurava era um pouco de luz em meio à cegueira que a raiva o trazia, e sabia que só nela encontraria um ponto de paz.
—Olegário, pode se recolher, boa noite. -Sua voz acompanhava a surpresa que ela sentia ao vê-lo, outra vez, no meio de sua sala e naquele horário pouco convencional... ainda que seus pensamentos a tivessem traindo, e fosse nele e nos beijos que só pensasse, não esperava tê-lo tão perto novamente.
—Com licença, boa noite. -Os passos do capanga o levaram para longe e por breves segundos apenas se olharam.
—Eu tomei a liberdade de vir a essa hora pporque... preciso de sua companhia. -A mulher respirou fundo e sentou-se dando espaço para ele, curiosa sobre aonde aquela conversa os levaria. –Você saiu antes de presenciar uma cena lamentável, Edmundo acabou com a festa... -as palavras voavam de sua boca, expondo não só os fatos mas também toda a fúria que sentia naquele momento. Sua menininha sendo exposta da forma mais cruel possível. Sentia-se culpado por sequer ter cogitado a possibilidade de Ema se casar por recursos financeiros e não por amor, e isso tornava sua raiva ainda mais crescente e doida.
—Eu sei que está com raiva e que precisava de um momento a sós. Mas deveria ter ido atrás de sua filha, e não vindo aqui. Ema precisa de você, está perdendo seu tempo aqui comigo, quando deveria ir cuidar dos sentimentos dela, que deve estar precisando do seu apoio... -As palavras atingiram-lhe como facas, e o que era para ser um conforto se tornou o que ele menos esperava... uma tortura.
—Passei anos sozinho cuidando dela, a protegendo do mundo e fazendo o meu melhor... ainda assim não possuo a delicadeza de uma mulher, e não sei se conseguiria, agora, tratar minha filha como ela merece. -Um longo suspirou escapou dos lábios da Rainha, a sinceridade dele cortava-lhe a pele, sentia que Aurélio dava tudo de si, até mesmo num simples desabafo... já ela não possuía a mesma sorte. –Achei que me ajudaria a encontrar as palavras, para que eu não sujasse ainda mais os sentimentos de minha filha.
—Estou longe de ser um exemplo, e você bem sabe... não trato ninguém ao meu redor com flores e chocolates, e não sou a mãe de tua filha, desculpe mas não posso ajudá-lo. -incrédulo com as últimas palavras da mulher, Aurélio levantou-se atordoado.
—Não pedi que fosses a mãe de minha filha -retrucou. –Tão pouco que falasse com ela por mim, não me escondo de meus deveres como homem, muito menos como pai...
—Não é o que me parece, Aurélio. Parece estar se escondendo, ao entrar aqui, a esta hora procurando conselhos, quando sabes que deveria estar atrás de sua filha oferecendo-lhe o ombro ou broncas se achasse necessário. Eu não posso ajudá-lo. -recolhendo o resto de dignidade que lhe restava, ele recolheu o palito, que em algum momento havia retirado, e voltou a caminhar em direção a porta.
—Eu realmente acreditava que estávamos juntos de alguma forma, que depois dos beijos que trocamos, existia algo além de desejo entre nós... -A voz embargada demonstrava tudo que ele sentia, e sentia tanto que nem podia acreditar ter aguardado em si todos aqueles sentimentos, e o pior, por uma única pessoa. A conversa era sim sobre Ema, ou pelo menos deveria ser... mas nada entre eles se restringia a uma coisa só, tudo era nada e nada era tudo, e pontos se ligavam e o passado explicava, atormentava, coagia... e de repente beijos significavam tudo, e não significavam nada.
—Você disse que entendia, e que me esperaria o tempo que fosse preciso... mas insiste em me colocar em sua vida, e espera que eu esteja disposta a te colocar na minha!
—Então é isso? Essa história de jogo outra vez? -Seu corpo voltou a se aproximar do dela, deixando que a calma do entendimento o envolvesse. –Eu já disse o que espero de nós, Julieta. -Seus dedos tocaram-na nos cabelos. –Cumplicidade, respeito, troca... não quero que me de mais do que pode me dar -Seus olhos se fecharam ao se aproximar e sentir o cheiro de rosas invadir seu olfato. –Amar você me da segurança, me deixa mais forte e é essa a única razão que tenho para te procurar todas as vezes que me sinto fraco... Eu sei que para ti é difícil tudo isso, eu sinto que é. Sei que luta para esconder o que sente, e não confia em mim o suficiente mas...
— Os meus sentimentos são assuntos que só dizem respeito a mim! -interrompeu. A presença dele tão próxima de seu corpo causava-lhe sensações e fraquezas que ela pouco tinha controle sobre. E eles já haviam ido tão longe... –O senhor pode se retirar por favor? Estou cansada...
—Julieta me escuta, por favor!
—Não Aurélio, chega! Já fomos longe demais, eu já lhe dei mais do que poderia. Espero que tenha se acalmado e possa ir atrás de sua filha, mas por favor vá embora! Já disse e repito, não estou na posição de mãe ou qualquer coisa de sua filha, não ocupo qualquer colocação de importância em suas vidas, e não deveria estar sabendo do escândalo-lo que aconteceu, já que não estava mais lá. Por que você ainda insiste em criar caminhos comigo? Quando estou gritando que não quero. Que não mereço...-Não queria ser grossa, não queria expulsa-lo, mas aquela situação era muito mais do que os pequenos passos que estava dando em direção a relação deles, e ao sentimento que a corroía e causava-lhe insônia. O coração do filho do Barão foi dilacerado,seu corpo todo doía, e sentia-se em pedaços. Havia se esquecido do quão cruel ela poderia ser se quisesse. E com o sangue fervendo e a coragem invadindo-lhe o ser resolveu falar:
— Por causa de tudo que ja passamos juntos!Porque sou um tolo em acreditar que dando me por inteiro a você posso receber pelo menos as tuas migalhas, mas nem isso, não é mesmo? Nem a tua atenção sou digno de merecer! Nem os teus conselhos, o teu afeto! -Os olhos azuis banhavam-se de lágrimas e todo o aceno que carregava nos olhos ameaçava despencar por entre seu rosto. –Eu amo você! Eu sinto você! Eu quero você e toda a carga emocional que vem junto. -Alguns passos foram dados em direção à ela, que havia se afastado. –Sabe por que, Julieta? Porque é isso que é amor! Porque é isso que é estimar o próximo. Mas aparentemente nem seu amigo eu sou... nem este cargo mereço em sua vida.
—Aurélio... -aquela conversa estava indo longe demais, caminhos que eles não haviam percorrido, e que rezava ela, não precisarem percorrer.
—Já que toquei no assunto, eu realmente não sei o que somos, trocamos carícias e nunca falamos sobre isso, nos beijamos e também nunca falamos sobre isso. Então eu não tenho ideia do que somos. Falo de ti como minha amiga, mas não posso procurá-la em um momento de aflição. Penso em ti como meu amor, mas se quer estou perto de ocupar tal posição... O que somos, Julieta? Ou melhor, o que deixaremos de ser quando eu passar por aquela porta? Eu sei que você vem construindo um muro dentro de si desde que seu marido morreu, e se esconde atrás deste luto, distanciando qualquer pessoa que tente se aproximar! Fez isso até com o seu próprio filho... Você merecia mais, Julieta. Merece ser feliz, nos merecíamos, mas tem medo! -sussurrou próximo a seus lábios.
— Sabe o que somos? -devolveu a pergunta se afastando. Não sairia por baixo, não ouviria aquilo tudo calada, e muito menos se deixaria abater por meia dúzia de palavras que não deveriam estar sendo ditar quiçá discutidas. –Não somos nada, agora por favor se retire de meus aposentos essa conversa já foi longe demais!
Aurélio não era capaz de acreditar no que havia ouvido, como ela podia ter simplesmente ignorado tudo que eles haviam passado, como ele podia ter sido tão burro e não ter percebido que aquela mulher jamais ia se deixar levar pelos sentimentos, por mais que estivesse nítido em seus olhos que ela o amava tanto quanto ele.
— Então me perdoe o equívoco! Fui muito ingênuo em acreditar que a renomada Rainha do Café iria deixar alguém se aproximar, quem dirá se apaixonar. Ela não é fraca para aceitar isso, como eu fui. É o que dizem por aí, não é mesmo? O amor é uma fraqueza! -Todos os seus poros gritavam aquelas palavras. –Mas que fique claro Senhora Julieta Bittencourt, eu fiz tudo que estava ao meu alcance para te fazer feliz. E para que você percebesse que eu sempre estaria ao seu lado. Mas eu sou humano, e a gente cansa, e a gente desiste, e a gente se fere na batalha e não é capazde lutar na guerra, não sozinho. Passar bem!
Os passos apressados levaram o homem embora, e junto ao bater da porta principal, um raio cruzou o céu anunciando a tempestade que cairia aquela noite. E ele, que já havia sido atingido pelo vendaval que era a sua Rainha, não se importava com algumas gotas de chuva.
Abatida, com lágrimas que não cessavam e os pensamentos nas últimas palavras proferidas, a Rainha se jogou ao sofá a sua frente, sentindo todo o corpo doer e o peso de sua verdade cair sobre seus ombros. Ela era não somente dona absoluta de suas emoções, era também dona absoluta daquilo que dizia, e palavras ditas não podem ser voltadas atrás.
"Nada...
Nada...
Nada...
Não somos nada!”
Como havia tido a audácia de dizer tamanha mentira... como o medo, e os sentimentos fora do habitual controle provocam tamanhas defesas capazes de machucar não só o outro, mas quem as fala e quem as sente. Eles eram mais do que tudo, e não precisavam de rótulos, ou palavras pequenas que definissem o que eram ou o que sentiam. Não era capaz de colocar em palavras tudo que ele representava, e havia mudado em sua vida... o erro gritava em sua face, e por mais que quisesse, não haviam outros culpados, a não ser a si própria. Ainda que o desgaste com Camilo a tenha deixado frágil, ainda que as palavras ditas pelo filho a tenha dilacerado, ainda que quisesse se recolher e deixar somente a mulher forte exposta, já não era mais capaz... porque Aurélio a havia trazido a vida, e essa Julieta sentia muito mais do que deveria. Não era somente culpa do medo em relação aos seus sentimentos que a havia feito dizer tudo aquilo. E só ali, jogada, fora capaz de admitir.
E por culpa de toda aquela confusão que criara dentro de si, o havia perdido. Por sua culpa, ele havia desistido. Ido embora, transtornado consigo, com os últimos acontecimentos, com ela e com o amor deles.
Tomada pela raiva que sentia de si, pegou a garrafa de vinho que bebia, virou consumindo todo o líquido que ainda havia dentro e depois atirando-a em direção ao chão estilhaçando o vidro, espalhando o vinho... deixando-o como ela estava. Era uma representação perfeita de si mesma. Tão quebrava quanto aquela garrafa de vidro estava, e não se sentindo mais Rainha de nada. Seus pensamentos voltaram a Aurélio e mais uma vez seu coração contraio dentro dopeito... dessa vez era quase impossível que ele voltasse, dessa vez ela não merecia que ele voltasse.
Tomada por aquele sentimento, recolheu o resto de coragem que lhe restava edecidiu que precisava ir atrás dele, porque ela não via mais graça em uma vida sem Aurélio Cavalcante ao seu lado, e como ele mesmo havia dito, ela merecia ser feliz, e só seria feliz ao seu lado.
Saiu apressada pelos corredores, sem se importar em avisar qualquer um de suas ações. A chuva, já caia forte sobre o Vale. O céu se deixava ser iluminado apenas pelos raios e pela fúria daquela tempestade. Já fazia anos que não dirigia e não queria se arriscar, muito menos acordar seu motorista. Os olhos castanhos então caíram sobre o estábulo e não teve dúvidas, Soberano a levaria de encontro ao seu amor, e juntos trariam Aurélio de volta. Com esse pensamento em mente saiu cavalgando em meio a tempestade que prairava sobre o vale, fazia movimentos precisos para que o animal fosse o mais rápido que pudesse.Ele parecia entender seus comandos, e sentir seu anseio porque logo a Rainha avistou o carro mais a sua frente.
—Aurélio!!!! -Gritou cheia de esperança para que ele a ouvisse, mas a chuva e a escuridão da noite levavam sua voz para longe... O Cavalo passou a ir ainda mais rápido tentando alcançá-lo, quando tudo explodiu.
Ela nãoteve tempo nem de raciocinar e um clarão se fez presente. Por conta da chuva algumas árvores haviam caído pelo caminho bloqueando a estrada; Aurélio estava muito atordoado e na escuridão da noite não percebeu o que estava bem a sua frente. O carro, então, colidiu com a árvore e tamanho estrago o explodiu de imediato, o corpo do botânico fora arremessado para fora num pequeno intervalo entre a colisão e a explosão, e do nada tudo era pó... e do nada tudo havia se perdido.
—Aureliooooooo! -O coração de Julieta explodiu junto ao automóvel, todo seu corpo se rendeu a um aperto agonizante, e ela que achou que o amor fosse o maior dos sentimentos que já havia habitado seu ser, viu-se enganada, a perda era o maior deles. Nunca havia sentido algo parecido, nunca havia doido tanto. Aos poucos ela se aproximou do carro e juntou o resto de esperança que tinha e rezou para que ele não estivesse lá dentro, algo em seu íntimo, como um sexto sentido a dizia que não, ele não estava. Descendo do cavalo e se enfiando entre a mata, ela só conseguia pensar em encontrá-lo.
Ainda que estivesse atordoada, todo seu corpo juntava forças, e a chuva já nem era mais sentida. Estava decidida, Aurélio não estava naquele carro, não poderia estar, e ela o encontraria. Os minutos passavam como o vento, e não sabia ao certo quanto tempo fazia que seguia sem rumo gritando por ele a procura de qualquer coisa que a fizesse encontrá-lo. Seus olhos então caíram sobre o corpo desfalecido e ensanguentado... correu como nunca, sem se importar com as dificuldades que o vestido molhado estava lhe causando. O homem ainda consciente fitou a amada e sentiu, em meio a dor, seu corpo se encher de amor e esperança... a ter ali tão perto era como finalmente chegar ao céu. Ela tocava-lhe os cabelos, deixando as lágrimas se misturarem a chuva e lavar-lhes a alma. Não haviam culpados naquele instante. E se aquele fosse seu último suspiro de vida, estava grato, por ser ela sua última visão, por ser ela e todos os sentimentos que dividiam. A cabeça dele fora colocado em suas pernas enquanto seus olhos conferiam cada pedaço de seu corpo a procura de ferimentos. Não haviam queimaduras, ou grandes ferimentos além de arranhões, e um corte em sua perna. Seus olhos continuaram a examina-lo e o ar fugiu de seus pulmões quando viuum machucado em sua cabeça que sangrava sem cessar.
— Calma meu amor, você precisa resistir! Eu vou cuidar de você!- A rainha falava entre soluços acariciando-o e depositando beijos no rosto de seu amado. Não podia perdê-lo, não iria perdê-lo.
— Ju... Ju... -Ele ja não conseguia mais dizer nada, todo seu corpo pesava e seus olhos aos poucos se rendiam a escuridão.
—Aurélio eu amo você! Eu venho amando você a tanto tempo... eu quero muito estar do seu lado, eu quero que nos sejamos algo. Eu preciso de você! Não era só o medo que me tomava, mas a covardia, o desconhecido... você roubou-me de mim da forma mais bonita e estrondosa possível, não pode agora deixar-me... não podeeeee. -As palavras dela, adentravam-lhe os ouvidos, mas já não tinha forças para resistir aos ferimentos, algumas lagrimas saíram de seus olhos antes destes se renderem a uma escuridão que talvez nunca mais tivesse um fim. Julietanão tinha forças mais para continuar gritando, se ela pudesse prever teria feito tudo diferente. Em tentativas falhas de tentar reacordá-lo, depositou seus lábios nos dele e pediu aos céus para que contos de fadas se tornassem realidade e um beijo de amor verdadeiro fosse capaz de desperta-lo e de curar suas feridas. O havia perdido... perdido ele, as chances de ser feliz, a chance de amar e ser amada... havia perdido, ele estava morrendo, e a única culpada era ela, senhora Julieta Bittencourt!
—Nãooooooo!
Notas finais
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