We Are Timeless

4 Quarto capítulo


Passaram-se anos desde que Bartô fora preso. Mariella já não continha a juventude que outrora tivera – dada a deterioração da depressão e a idade. Os olhos violetas eram acompanhados de profundas olheiras de inúmeras noites em claro devido aos pesadelos constantes. Os cabelos castanhos brilhantes davam lugar a fios opacos. A palidez e a magreza delatavam falta de saúde. Mariella parecia estar a ponto de partir-se ao meio e, mesmo com os avisos e visitas constantes de sua mãe, já não via sentido em grande parte da vida se não, cuidar de seu filho.
O menino loiro entrou, como um turbilhão, em gargalhadas, ao quarto da mãe. Tinha por volta de seus oito anos e, jogando a mochila e os sapatos ao canto, pulou na cama da castanha, abraçando o que imaginava ser a mãe.
Mariella tinha os lábios contorcidos em um sorriso de canto. A semelhança do menino com o pai era admirável. Damien era uma perfeita combinação das sardas e fios loiros de Bartolomeu e os olhos violetas de Mariella.
A morena acariciou-lhe os cabelos.
— Como foi a aula hoje, meu pequeno? – Ela o manteve ali, em um gesto protecionista.
— Fomos ao zoológico! Mãe, foi incrível. Você tinha que estar lá. Tinha uma cobra gigantesca, era tão bonita! – O menino cantarolava suas frases, animado. Contava em detalhes o passeio, como se a mãe fosse seu diário.
Mariella observava o menino. Culpava-se – e com razão – de não ser tão participativa da vida do menino. Era algo que devia mudar antes que Damien estivesse crescido. Não podia permitir-se perder seu menino.
A porta, Meredith, bateu com delicadeza. Sob a permissão de Mariella, a senhora adentrou ao quarto.
— Miss Goedert, eu disse a ele que estava descansando ainda, mas Damien finge que não escuta nossos apelos e igual veio lhe incomodar.
Mariella mexeu a mão, indicando que não havia problema.
— Ele nunca vai me incomodar, senhora Delacroix.
Meredith assentiu. Era um tanto quanto confuso trabalhar com a família Goedert. Elizabeth, mãe de Mariella, temia pela vida da filha tanto quanto temia pela de seu neto. Ambos eram órfãos de um assassino. Já Mariella, apesar do longo período depreciativo que vivia sem o marido, parecia estar viva em função de seu primogênito. Via, mesmo que recluso, um singelo brilho no olhar dela em observar o menino.
— Sendo assim, prepararei seu café, miss Goedert. – Perguntou a senhorinha, que se aproximava de seus sessenta anos, recolhendo os sapatos do menino pelo chão.
— Claro, claro, senhora Delacroix. Já iremos para a sala.
A senhora retirou-se do quarto. Mariella soltou Damien, com um sorriso no rosto.
— Que tal irmos ao zoológico, você me mostra a cobra e depois, vamos tomar um sorvete? – Ela se sentou na cama, olhando o filho.
Damien ergueu a sobrancelha, observando a mãe, um tanto quanto desconfiado.
— Você nunca sai... – Ele murmurou, com o olhar fixo no rosto da mãe.
— Hora de mudar isso, não? – Ela sorria tranquila, desgrenhando os cabelos loiros do menino. – Vá, vá. Se arrume!

Damien riu, pulando da cama e saindo em disparada em direção ao seu próprio quarto.
Quando Mariella saiu do quarto, já devidamente vestida para sair, a castanha pode ouvir a voz de sua mão ao corredor, com Meredith.
— Já contou a ela? – dizia a senhora Goedert, em seu tom ligeiramente seco e aristocrático.

– Não. Ela está se recuperando, madame Goedert. Não é melhor deixarmos o assunto do sir Crouch um pouco de lado? – murmurava a senhorinha. – Imagine se ela descobre o que houve! Tudo no menino Damien lembra ao pai. Pense só o que ela vai sentir ao olhar o menino.
Mariella silenciosamente espreitou-se a sala, olhando as duas senhoras.
— O que aconteceu com Barty? – A feição preocupada de Mariella era completamente óbvia.
As duas senhoras se contraíram geladas, enquanto observavam a jovem que – se não fossem as desavenças da vida – um dia tornar-se-ia a senhora Crouch.
— Mariella... – Começou a dizer Elizabeth Goedert, aproximando-se da filha, pousando sua mão em seus ombros. – Você precisa entender que esse homem já não faz parte de sua vida...
A castanha afastou, um pouco bruscamente, a mão da mãe. Uma pequena menção ao nome de Bartô trazia os mais profundos demônios a ela. Ele fora arrancado dela. Era diferente de caso houvessem se separado.
Mariella fitava a mãe, com os olhos ligeiramente semicerrados.
— O que aconteceu com o meu Barty? – Ela foi enfática, apesar dos dentes trincados.

– Miss Mariella, sir Crouch faleceu. Seu pai veio nos informar hoje mais cedo. – Meredith segurou a mão de Mariella que, por sua vez, também se desvencilhou de qualquer toque.
A castanha estava atônita. Parecia perdida e realmente estava. Emergiu em completas dúvidas e em um turbilhão de pensamentos desconexos. Seu Barty estava...morto? Sua alma parecia estar partindo junto com a memória de Bartolomeu. Ela se sentia completamente morta embora, fisicamente, estivesse nos braços de Meredith Delacroix, aos prantos.
– Mariella, não podes perder o chão. Tens um filho para cuidar.
A idosa censurou Elizabeth Goedert com o olhar. A última coisa que Mariella precisava, agora, era de chamadas de atenção. Tinha completa ideia de como a castanha de sentia e já podia ver os tempos difíceis que se sucederiam.
– Saia com Damien, dona Goedert. É melhor que ele não veja a mãe desse jeito.