We Are Demigods II
11 O Sangue do Olimpo
Notas iniciais
ANGELINE
Confusão e bagunça era quase a marca registrada do acampamento grego, mas de algum jeito, Angel confiava naquela bagunça. Talvez se tentassem, o acampamento teria um exército mais organizado, mas era difícil discutir com crianças hiperativas e um pouco confiantes demais.
Não que subestimassem Gaia, não mesmo, mas a batalha organizada... Não era o estilo de luta dos semideuses gregos. Sim, os filhos de Apolo tinham ataques perfeitamente combinados com seus arcos-e-flechas e os filhos de Atena tinham as melhores estratégias, mas não era como se o chalé de Ares fosse ter o mesmo tipo de combate que o de Apolo. Eram estilos completamente diferentes, um era adepto ao combate organizado e o outro ao combate violento.
Sinceramente, eles eram uma bagunça, mas funcionavam desse jeito.
Descendo a mão para o punho da espada na bainha, Angel respirou fundo. Ela ajeitou seu elmo (que não tinha decoração alguma, afinal, ela ainda não havia sido reclamada) e conferiu as tiras de couro da armadura. Suas botas estavam confortáveis e seu cabelo longo e negro estava, para a surpresa de muitos, preso em uma trança, para não atrapalhar sua luta.
Tudo estava em perfeita ordem, não havia nada com o que se preocupar... "Exceto com a deusa mais velha que o mundo que quer destruir os deuses que está prestes a acordar e com o acampamento romano e seu exército perfeito pronto para atacar o Acampamento Meio-sangue. Nada para se preocupar além disso, Angeline." pensou.
– Angel! — Catherine disse atrás de Angel. Sua melhor amiga tinha o péssimo hábito de aparecer do nada, mas após um tempo Angel havia se acostumado... Mais ou menos. Pelo menos ela não se assustava quando estava prestando atenção, o que não era o caso. A garota levou um susto com a voz de sua amiga atrás de si, mas graças aos deuses não chegou a gritar. Se gritasse, seria vergonhoso demais.
– Cat! — Angeline exclamou. Catherine tinha os cabelos loiros presos em um rabo alto, a aljava de seu arco mágico presa às costas e o arco na mão. A armadura de Cat era bem mais leve que a de Angel, consistindo apenas na parte superior, que protegia o tórax e os ombros e uma proteção para o antebraço. Em uma mão, ela tinha uma luva, daquelas que os arqueiros usavam, e presa em sua cintura, uma adaga na bainha (melhor prevenir do que remediar, como a própria Catherine dizia).
– Nervosa? — Catherine perguntou.
– Na medida do normal. Acho que meu cérebro não processou tudo, então não estou sentindo muita coisa. — respondeu — Talvez seja até melhor, não é mesmo? Eu pelo menos não estou me borrando de medo. E você?
– Bastante nervosa. Se outra pessoa me perguntasse, eu diria que estava bem, mas é você, então... Eu estou bem nervosa. Não estou aguentando ficar parada. Parece que se eu ficar parada, alguma coisa muito grande vai acontecer e eu vou perder tudo e BAM! Já era!
– Tudo bem... — Angel disse rindo. Ela sabia que normalmente Catherine ficava em silêncio e dizia estar se concentrando, mas a verdade é que ela sempre fica nervosa demais e acaba falando besteira.
As duas se encararam em silêncio e depois soltaram uma risada estranha. Era óbvio que aquilo era o nervosismo. Trocaram algumas poucas palavras antes de Cat falar que deveria se reunir com seus irmãos para conferir os suplementos médicos do acampamento mais uma vez.
Então, novamente, Angel estava sozinha. Quer dizer, não literalmente, ela estava cercada pelo chalé de Hermes e Catherine estava há poucos metros dali, assim como Edu, que preparava alguma substância mágica de emergência com sua irmã Michaela (a qual Angel mostrou seu desgosto ao fazer uma careta apenas de pensar no nome). Haviam mais filhos de Hécate, mas aqueles eram os que Angel se lembrava. Também tinha Lou Ellen, mas a conselheira do chalé 20 não estava ali.
"Estamos bem preparados" pensou "estamos em nosso território, temos o nosso arsenal de armas, nossos suplimentos médicos, pégasos... Nossa situação não é das piores. Além de que eles não tem filhos de Atena — mas tem de Bellona -, os sátiros e ninfas deles não lutam — mas os nossos estão visivelmente perturbados — e sem falar que não não precisamos realmente de lutar, talvez se chegássemos a um acordo..." antes que Angeline conseguisse se acalmar com seus pensamentos, um grande barulho começou.
Eram os semideuses, correndo e gritando. O que havia acontecido? Por um milissegundo ela se permitiu acreditar que era por algo pequeno, algo simples. Mas ninguém acreditaria nisso. Ela sabia o que estava acontecendo e estava pronta para isso. A batalha estava começando.
Então, era isso. Era inevitável, pelo visto. Eles deveriam mesmo lutar.
Por incrível que pareça, esse pensamento acalmou Angel. O som de espadas se chocando umas contra as outras já podia ser ouvido, assim como o silvo das flechas lançadas. Angel desembainhou sua espada e correu em direção à batalha.
***
O tempo parecia passar mais lentamente agora, como se estivesse correndo em um melado. Defesa, ataque, sons abafados pelo barulho das espadas e pelos gritos de guerra. Haviam sido três ou quatro semideuses que ela lutara contra? Angel não tinha ideia. E quando bateu o cabo de sua espada na cabeça de um semideus romano, deixando-o desacordado, o tempo acelerou novamente.
Isso era realmente a coisa certa? Angel sabia que não. Inferno, eles deveriam se juntar! Os acampamentos deveriam lutar juntos! Não havia nada difícil de se entender nisso!
– Qual o meu problema...? — Angel murmurou — Não é hora para ficar remoendo todas as escolhas da minha vida.
Todos pareciam ocupados demais em suas próprias batalhas para prestar atenção na garota parada no meio da batalha, o que era raro. Angeline Vellar era o tipo de pessoa que chamava atenção onde ia, afinal.
Ela aproveitou essa tempo para respirar com calma, mas ficou despercebida por pouco tempo. Uma semideusa romana de armadura completa apareceu na frente de Angel.
A garota tinha cabelos cacheados da cor de pó de café e estava armada com duas espadas longas. Ela tinha no mínimo um metro e setenta e parecia ter três vezes mais músculos que Angel. Aquilo deveria ser uma piada muito sem graça das Parcas. Muito mesmo. A garota não perdeu tempo e partiu para cima de Angeline.
Angel conseguiu parar o ataque da primeira espada, mas a segunda não. Ela sentiu sua perna arder e em seguida a textura e o cheiro metálico de sangue invadiram suas narinas. Um grito agudo escapou de seus lábios, mas Angel o interrompeu mordendo o lábio.
– Não tem motivo para fazer isso! — Angel berrou — Isso não está certo, não deveríamos estar lutando!
– O que você quer que eu faça? Pare agora? E confie em você? Não mesmo. — a voz da garota saiu baixa e tremida. Angel sabia que as duas concordavam que isso estava errado.
– Você sabe que isso não é o certo a se fazer! — ao gritar isso, Angel jogou umas das espadas longe. A boca da garota tremeu um pouco, ela olhou para o lado e suspirou.
– Eu sei.
– Nós deveríamos... Juntar os acampamentos, que droga! — A garota baixou a espada. Ela e Angel se encararam, ambas com a respiração acelerada e com os cabelos grudando nas testas suadas.
Angel sentiu uma mão em seu calcanhar e olhou para baixo. O semideus romano havia acordado, mas antes que fizesse algo, o clima pareceu mudar. Havia uma sensação estranha vinda do chão, Angel podia sentir isso, e então, monstros apareceram por todos os lados.
CATHERINE
Cat estava confusa. Não que isso fosse novidade, mas haviam pessoas de mais. Barulho demais. E aquilo não ajudava Catherine a raciocinar nem um pouco. Ela havia se mantido bem escondida na maior parte do tempo, mas quando os monstros apareceram, Cat se sentira obrigada a aparecer.
Em um momento, os acampamentos grego e romano estavam lutando entre si, mas agora, lutavam juntos. E para melhorar a confusão na cabeça de Catherine, um navio de guerra voador apareceu.
Por alguns segundos a garota ficou parada com as sobrancelhas franzidas, mas então percebeu o que se passava. Não demorou para os semideuses no barco descerem, e demorou menos ainda para ela reconhecer o garoto que cabelos pretos que gritara algo como "Gregos... Vamos lá!". Era um tanto quanto patético, mas Cat sorriu. Aquilo era típico de... Bem, do acampamento grego.
Parecia insano sorrir naquele momento, mas também parecia insano ver os dois acampamentos lutando junto, e também parecia insano saber que a mãe-terra estava acordando. Mas eles eram semideuses. Insanidade era parte deles assim como os próprios olhos.
Cat soltou a corda do arco e lançou a flecha, mirada na cabeça de um karpoi. O monstro se tornou pó e então a garota se pôs a correr enquanto preparava outra flecha. Pegar uma flecha, puxar a corda, mirar e soltar, era quase automático. A adrenalina mal a deixava sentir a respiração ofegante e os machucados ganhos durante a corrida.
– Angel! — Catherine gritou ao avistar a amiga. Angeline atravessou um outro karpoi com sua espada e virou os olhos para Cat, fazendo um sinal com a cabeça. Elas se colocaram costa-a-costa e voltaram a lutar.
Cat atirava o mais rápido e com a melhor precisão possível, mas os monstros reapareciam mais rápido do que podiam atacar, e então a falta de ar veio de uma vez, assim como o ardor dos pequenos cortes nas pernas, braços e rosto.
– Minhas flechas estão acabando... — Cat murmurou. Aquilo era temporário, claro, pois seu arco era um item mágico. As flechas voltavam para a aljava depois de um tempo, mas ela não podia abusar da sorte. Por isso, logo após soltar a última flecha restante, Cat colocou o arco novamente nas costas e sacou sua adaga, que ela tinha apenas por precaução. Melhor prevenir do que remediar, como gostava de dizer.
Pelo canto do olho, Cat viu Angel lutando. Uma das pernas de sua amiga estava coberta de sangue, e ela mancava um pouco. Aquilo diminuiu consideravelmente a agilidade de Angeline, o que era preocupante. Três dracaenaes se aproximaram de sua amiga, porém Catherine não podia ajudar. Ela já estava ocupada lutando com duas empousas — e para melhorar, aquela nem era sua melhor arma.
Angel estava fraca. Cat podia sentir isso e aquilo estava a deixando muito nervosa. Angeline matou uma das dracaenaes com sua espada, porém ela estava fazendo uma cara estranha. Talvez fosse dor, mas não parecia isso. Catherine havia aprendido reconhecer uma expressão verdadeira de dor na enfermaria do acampamento, e aquela expressão... Parecia mais como se Angel sentisse algo estranho. Como um presságio, talvez.
Uma das empousas fez um corte na cintura de Cat e ela gritou. Ela não deveria se distrair agora, não mesmo. A garota desviou de um segundo ataque vindo da empousa e a cortou com a sua adaga. A segunda empousa, que estava um pouco mais afastada, se aproximou, mas dessa vez Cat estava preparada e a matou de uma vez.
Ela se moveu, tentando alcançar Angel para ajudá-la, porém o chão estava estranho. A terra estava prendendo todos no chão.
Agora que não podia mais correr, Catherine viu o quanto Angel estava pálida — mais pálida que o normal, se é que era possível. Ela tinha um belo de um machucado no queixo, que provavelmente precisaria de pontos, além do machucado da perna e de pequenos cortes nos braços, porém, o pior mesmo era a expressão de Angel. Os grandes olhos azuis estavam arregalados e a sobrancelhas franzidas. Aquilo era estranho demais.
As empousas e dracaenaes que as duas haviam matado estavam ressurgindo e se aproximavam. "Então é isso? Eu vou morrer porque eu não consigo andar direito?" Cat pensou. Ela tentou mexer as pernas, mas nada funcionava. E então ela se lembrou, a aljava já deveria ter flechas novamente.
Guardando a adaga e pegando o arco de maneira desesperada, Cat sentiu algumas flechas na aljava. Um sorriso estranho tomou conta do rosto de seu rosto e ela começou a atirar, em duas empousas direto e em três dracaenaes. Depois em um karpoi que estava próximo demais e um ataque com duas flechas matou um lestrigão. O seu sorriso aumentou, mas foi só até olhar novamente para Angel.
Angeline não conseguiria lutar com quatro monstros ao mesmo tempo, por melhor que lutasse. Angel matou dois e Cat conseguiu atirar (de mal jeito, mas conseguiu) em outro, mas o quarto monstro estava difícil. Com nenhuma das duas podendo se mexer e com a aljava de Cat — que nem havia se reabastecido novamente — vazia, o desespero tomou conta. Não havia ninguém que pudesse ajudar ali? Não, claro que não, todos estavam ocupados demais em suas batalhas!
– Angel! — Cat gritou de modo esganiçado, porém Angel conseguiu desviar o ataque do monstro com a espada. Sua amiga era forte, mas estava perdendo muito sangue e não podia mexer as pernas.
Quando parecia que Angel iria desistir de vez e soltar a espada, uma garota com uma armadura romana apareceu. Ela se mexia com cuidado e dificuldade, mas chegou a tempo de atravessar o monstro com uma espada dourada.
Cat quase chorou de alívio na hora, mas de algum jeito não o fez. A garota romana trocou algumas palavras rápidas com Angel, que estava olhando em volta preocupada. A expressão estranha voltou ao rosto de Angeline, e então, algo passou voando por cima de todos.
A garota romana gritou alguma coisa que Cat mais tarde identificou como "ouro imperial". E então... BOOM! O ouro imperial voador chegou ao seu destino e todos podiam se mover novamente.
Perto dali, Cat viu sua melhor amiga, que parecia prestes a cair no chão, porém a garota romana a segurou. A semideusa desconhecida não disse nada, mas olhou para Catherine, que entendeu o recado. Angel havia perdido sangue demais.
ANGELINE
Ela não havia chegado a desmaiar. Angel havia perdido sangue suficiente para fraquejar ao ponto de quase desmaiar, mas não o fizera.
– Você é uma coisinha forte — a garota romana, que se chamava Ravene, disse — Aguentou bastante.
– Não me chame de coisinha. Não sou tão pequena assim — Angel reclamou com a voz baixa. Ela ainda estava fraca, afinal. Ravene apenas riu e se levantou.
– Você me parece bem baixa, Angeline. Mas tudo bem.
– Acho que ela não chega a um e sessenta. — Kendall, o garoto que Angel havia deixado desacordado, falou. Ele e Ravene eram irmãos, filhos de Fortuna, e segundo Kendall, gostavam de "testar a sorte" ao implicar com as pessoas. Mas ambos se mostraram boas companhias.
A enfermaria do Acampamento Meio-sangue estava bem cheia, e praticamente todo o chalé de Apolo tinha que passar horas ali dentro, então Cat não podia ficar ali conversando com Angel (que estava em observação, mas não havia ninguém do chalé de Apolo ali no momento). Edu e os outros filhos de Hécate haviam se esgotado bastante usando feitiços e poções na batalha, então ele estava na mesma situação que Angel, mas infelizmente não estavam perto um do outro.
Há alguns metros dali, uma garota ruiva estava deitada com a perna engessada tentando consolar uma loira que chorava sem parar.
– Alguém importante para ela deve ter morrido — Cat sussurrou ao chegar. Dessa vez Angel a percebeu, por isso não se assustou, mas Kendall e Ravene não tiveram a mesma sorte. Os dois pularam em seus lugares, o que apenas fez Cat sorrir.
– Edu já está quase bem, acho que vão libera-lo em breve. Isso vai ser bom, porque estamos completamente sem espaço aqui — Cat suspirou pesadamente e passou as mãos no rosto.
– Ouveram mais feridos do que mortos, não é mesmo? — Ravene perguntou. Cat assentiu com a cabeça e Angel sentiu um arrepio na nuca.
As baixas... De algum modo ela sabia quantas eram. De algum modo ela sentiu isso. E parecia ser graças àquela sensação estranha (que ela chegara a conclusão de que poderia ser comparada um zumbido extremamente fino e contínuo dentro de sua cabeça e um calafrio mais gelado que tudo que Angel podia imaginar) que a acompanhara durante a batalha.
Angel estava fazendo uma cara estranha, ela tinha certeza, e Catherine percebeu isso.
– Acho que está na hora da Angel descansar. Acho não, tenho certeza. — a filha de Apolo declarou — Ravene, Kendall, já estão servindo o almoço no refeitório, se vocês estiverem com fome.
Os dois filhos de Fortuna agradeceram e saíram da enfermaria após de se despedirem brevemente das duas. E então, Cat se virou para Angel.
– Você está fazendo uma cara esquisita há um tempão? Está tudo bem?
– Está... Está tudo bem sim, não é nada. Só estou com um pouco de dor de cabeça e sono.
– Ah... Tudo bem. Então eu vou almoçar, estou morrendo de fome. Você já comeu, não é?
– Já sim, pode ir. — Então Cat foi. Ela merecia isso, o chalé de Apolo estava se esforçando muito por todos ali.
Angel soltou a respiração que ela não havia dado conta que estava presa e tirou uma mecha de cabelo do rosto. Ela não estava com sono, mas talvez dormir fosse a melhor opção.
Ela se ajeitou na pequena cama da enfermaria e fechou os olhos, mas sabia que não conseguiria dormir. Afinal, haviam feridos demais ali e aquela sensação estranha não havia a abandonado.
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